As Crônicas de Orbe
2 SEGUNDA HISTORIA, A CIDADE DE CAPITAL
CENA 1
Na Cidade
Rafael guiava a carruagem naquele momento, enquanto o cocheiro seguia sentado ao seu lado.
“O trânsito está intenso”, observou o cocheiro ao entrarem na praça. A cabeça latejava, e cada músculo do corpo doía. Não conseguia lembrar-se de muita coisa, e o menino ao seu lado parecia ignorar sua condição. Em outra situação, teria feito o garoto compreender o erro daquela atitude, mas... “Mal consigo falar, quanto mais bater em alguém...”
As lesões causadas pelos bandidos ainda doíam profundamente. “O melhor negócio da minha vida...” riu amargamente de seu próprio pensamento. “Quando foi mesmo que disse isso?”, mas pouco importava agora. Mais do que nunca, estava ferrado — todo o dinheiro havia sido levado pelos bandidos. “Devia ter notado antes...”. Claro que poderia pedir mais aos nobres — e era exatamente isso que faria —, mas nobres de Balázios... “Mesters”, sussurrou o nome, remoendo o medo de cobrá-los.
Não se deixou consumir demais por isso, havia muito a ser feito. “Mas definitivamente não agora!”.
A Cidade de Capital se mantinha como sempre. Ele lembrava da primeira vez que estivera ali com seu pai. Apesar dos anos, a cidade continuava lotada — “Se bem que agora, muito mais...”.
Pelo visto, a coroação de Felipe Meneai não passava despercebida em nenhum reino de Orbe... Ele se sentia receoso: a política de Capital sempre fora pacífica, o que era vital para o amplo comércio desenvolvido pelo reino.
“Mas não dá para saber o que esse novo rei tem na cabeça.”
— Estamos próximos — disse o garoto, batendo na veneziana da carruagem.
“Então era esse o destino...” pensou, enquanto o enorme caixote de pedra aparecia. “Bem, faz sentido no fim.”
O Monastério era o local designado para o louvor de Perpétuo, um deus extremamente reverenciado no Norte. Até onde se sabia, os membros da ordem se chamavam irmãos e eram formados unicamente por homens trajando longas túnicas largas, com mantas nas cores preta e cinza.
Não conhecia muito da religião, embora circulassem rumores: diziam que os Mantos Cinza jamais falavam e que somente os de preto tratavam feridas de guerra. E era exatamente um desses que se aproximava da carruagem naquele momento, acompanhado por dois jovens em túnicas cinzas.
— Ferimento de espada — explicou Rober Mester, indicando o braço do primo.
“O braço realmente tá ruim.”
O braço estava enfaixado em um pano vermelho vivo. “E tenho certeza que aquele tecido era verde”, relembrou, lembrando de um lenço que o nobre possuía.
— É somente esse? — perguntou o irmão de preto, avaliando os presentes.
— Não, acredito que o homem na carruagem também precise de cuidados, e dê uma olhada no corte do pescoço dela. — Rober falou, ao alisar o local do corte em Alice.
“Ele realmente disse para o homem me ajudar?”, pensou, sem ter certeza se ouvira direito. Nunca imaginara que se preocupariam com ele. “Nunca estive tão feliz em estar errado.”
— Alice, tome conta de tudo enquanto vou ao banco depositar o dinheiro — disse Rober, olhando para o garoto. — Gostaria de falar com teu amo, poderia providenciar isso?
— Bem... — o menino sorriu maliciosamente — creio que uma hora dessas ele deva estar no porto, mas tenho certeza que poderíamos nos encontrar aqui dentro de uma hora. A ideia lhe agrada?
— Sim, agrada. Então, combinado assim.
— Não vá demorar, irmãozinho.
— Não irei — respondeu Rober, subindo na carruagem para tomar as rédeas dos cavalos.
Depois de descer com a ajuda dos Irmãos de Cinza, o cocheiro seguiu para dentro do Monastério, enrolado em sua capa, enquanto via Rober partir com a carruagem.
“Imagino que as coisas possam melhorar agora...”.
CENA 2
O Porto
A tarde avançava enquanto Octavius cuidava de seus negócios no porto. O barulho e o movimento constante de pessoas nunca estiveram tão intensos. “Sem falar nas embarcações ancoradas. Pélago, Balázios, Maestria, Roa...” A lista era longa, tão extensa quanto a quantidade de navios. Alguns precisavam ancorar em alto mar pela falta de espaço, e a visão era impressionante.
Entre todos os reinos de Orbe, só o Porto de Pélago era maior. Mas, com essa quantidade de embarcações, até ele parecia lotado.
O Caminho era tomado por tabernas e bordéis — ele conseguiu contar até setenta antes de perder a conta. Verdade seja dita: o porto representava quase um terço da Cidade. “A parte mais podre e sombria”, recordava ao observar as muitas prostitutas oferecendo seus serviços de todas as formas, além dos delinquentes e dos viciados em Alarum que perambulavam sem rumo.
Juntando tudo isso ao cheiro salgado do mar misturado com odor de peixe e urina, tinha-se a maior fonte de economia de toda Orbe.
— O de sempre! — disse ao homem que guardava a porta da taberna, entregando uma moeda. Ele conferiu a prata e seguiu com Octavius para o porão, onde abriu uma porta que levava a uma escada que descia ainda mais, tudo no maior silêncio.
No subsolo, tochas nas pilastras iluminavam o ambiente, evitando a escuridão total. Várias mulheres estavam acorrentadas a pequenas correntes, vestindo apenas trapos. “Escravas do prazer”, pensou. De algum modo, a simples visão delas o excitava. Era fato que Capital era contra a escravidão; por isso, esse comércio não era oficial. “Pelo menos não de forma legal...”.
O estabelecimento tinha vários quartos, cujas portas eram simples cortinas de seda vermelha. Ele entrou em um deles. O local possuía uma mesa redonda com bancos circulares acolchoados e muitas almofadas espalhadas num divã — “bem ao estilo Pélgano”.
— Tem o alvo? — perguntou o homem sentado na outra ponta da mesa.
— Claro que sim — respondeu Octavius, sentando-se. — Tira esse capuz, vamos começar. — Observou o homem: um Ébano, com pele escura como a noite e várias tatuagens na cabeça. Não era alguém que Octavius conhecia. “Sempre mandam um diferente, por que me surpreender?”
— Está aqui — entregou um papel. — Essa é a rota que vão seguir. Tem certeza que aguentam essa quantidade?
O Ébano abriu um sorriso maligno.
— Deveria me conhecer melhor, nobre. Não se preocupe, eles já estão afundados. É só questão de tempo.
— Imagino que isso seja tudo. Nos encontramos daqui a uma semana. — Tirou uma moeda e a colocou na mesa. — Para você se divertir um pouco.
— Hora, essa é a parte que eu gosto. Daqui a uma semana, então. Foi bom tratar com você.
Octavius acenou e saiu. “Esse aí era mais assustador que o outro.” Ultimamente, lidava mais com piratas do que gostaria. “Um mal necessário, enfim.”
Não demorou a sair, embora planejasse voltar para tratar de outros negócios.
— Espero que tenha se divertido, senhor... Marcus Renhiste Octavius — disse um menino, fazendo uma mesura ao vê-lo sair da taberna.
“E esse aí quem é?” O garoto não devia passar dos quatorze anos. Pele parda, olhos azuis de Balázios, sujo e maltrapilho. “Um delinquente”, pensou Octavius, analisando sua capa e gorro.
— E quem seria você? — perguntou, surpreso. — Espere... como sabe meu nome?
— Vamos ver... — o menino começou a desenrolar a faixa suja de sangue no antebraço esquerdo. — Agora sabe quem sou?
O coração de Octavius congelou. Um frio tomou todo o corpo, como se o Norte inteiro o invadisse.
— Você tem uma cara séria demais — disse o menino, com voz afiada e cortante. — Se vamos fazer isso, vai ter que parecer mais natural. — Deu um sorriso torto. — Duvido que queira que eu fracasse, né?
Octavius balançou a cabeça, paralisado pelo medo.
— Ótimo! — continuou o menino. — Agora vou te contar o que preciso que faça...
CENA 3
Hospedagem
“Tooooooom... Toooooom... tooom...”, imitava Alice o som dos sinos da catedral que badalavam de hora em hora, conforme rezava o costume da estrela.
Era uma religião adotada principalmente por Mestrianos, que diziam seguir os caminhos da sabedoria através de Trinos, o deus representado pela estrela de três pontas. Ainda que tivesse três manifestações distintas de um mesmo ser, não considerava aquilo muito lógico, mas os ensinamentos eram interessantes.
Para todos os efeitos, aquela tarde estava um tremendo tédio; já estava esperando há uma hora, e o sino da Catedral da Estrela, na praça central, acabara de lhe lembrar que eram cinco horas. “E ainda não voltou, será que decidiu se mudar para o banco? Nunca esteve habituada a esperar pelos outros, afinal ‘Sempre foram eles a esperarem’.”
Seu primo já estava tratado, embora o braço tivesse sido muito lesionado e, pelo que os Irmãos disseram, nunca mais seria o mesmo. “Suponho que eu deva sentir pena dele...”, pensou ao olhar o braço enfaixado.
O primo estava deitado numa cama de concreto forrada com uma coberta de algum tecido forte e, ao que parecia, dormia. “Não, a culpa foi dele por ser descuidado.”
Seguiu olhando pelo local; era um quarto largo, onde as janelas ficavam bem altas, trazendo pouca luz ao ambiente, “como tudo no Monastério”. Estavam sós ali; o cocheiro havia ido para a entrada esperar seu irmão. O homem tinha se saído melhor, mesmo assim estava cheio de hematomas. “Aqueles bandidos não pegaram leve com ele... Bem, a culpa foi dele por ser...” — parou um momento para rir — “Dois lerdos...”.
— Alice? — A voz saiu fraca e débil — é você?
— Sim, sou eu — falou de modo casual — Quem mais esperava que estivesse rindo da sua desgraça?
— Ora, sem piedade como sempre, mas devo dizer que para uma pessoa que me odeia tanto, salvar minha vida foi algo surpreendente, ainda mais quando colocou a sua em risco.
— Por todas as razões, você morrer ali significaria o fim do meu irmão; salvar sua vida era o único caminho para a sobrevivência. Do meu ponto de vista, um mal necessário.
— Ora — sentou-se na cama para fitá-la maliciosamente — por que não admite que você ainda me ama?
— Porque não amo mais meu primo; você fez sua escolha e com ela todos os sentimentos bons que eu tinha por você.
— Você se esquece que esta escolha não foi minha! — disse, alterando a voz para um tom grave — Foi...
— ...algo que você permitiu. Não me entenda errado, meu primo, não te odeio. Apenas não te amo mais...
— Já brigando? — perguntou Rober ao abrir a porta.
“E é aqui que a educação de Maestria se prova útil”, pensou ao assumir um ar inocente, de modo a chamar a atenção do irmão para si.
— E por que não? Já que meu irmãozinho pensa que o banco é alguma hospedaria.
— Isso foi cruel, Alice, você não faz ideia de como essa cidade está... — olhou por todo o quarto — Não vejo o menino. Ele não apareceu ainda?
Aquilo também não a agradava; a julgar pelo menino, já deveria ter voltado. “Bem, a cidade está uma loucura, talvez tenha tido dificuldades ao encontrar o amo...”
— Ainda não — disse ao se aproximar do irmão — Acredito que o motivo venha a ser o mesmo que o seu... Acharia melhor irmos lá para fora de qualquer jeito.
— Tudo bem para você, Alek? — perguntou Rober enquanto tocava o ombro do primo.
— Não está mais doendo como antes. Deve ser por causa do Cesmim, mas minha cabeça está como se eu tivesse tomado um porre daqueles...
— Neste caso, vamos todos lá para fora. Podemos esperar na carruagem; além do mais, já acertei tudo por aqui.
— Então já arrumou uma hospedaria? E qual é? — perguntou Alek com certo ânimo.
— Ainda não... É por isso que queria conversar com o amo do garoto, não pretendo ficar em hospedarias...
“Ora, se meu irmão não é bem esperto”, pensou enquanto o fitava em meio ao silêncio da sala, “Bem, para isso teremos de encontrar com Rafael primeiro...”
— É melhor irmos — sugeriu, passando o braço pelo do irmão. Não demorou muito para saírem do quarto e seguirem para o largo corredor, que tinha o piso em mármore, como toda a ala em que estavam. “Afinal, esta é a nossa parte”, pensou ao fitar alguns dos feridos, “é claro, todos do Norte, mas nenhum que se mereça conhecer.” Logo mudou a direção do olhar para as outras pessoas que transitavam ali: aprendizes em suas túnicas cinza e irmãos de preto. “Tenho que fazer uma prece adequadamente mais tarde”, pensou ao passar por dois que conversavam.
Ao chegarem à entrada, o número de pessoas se tornara obsceno. “Imagino que, se não tivessem construído o local tão bem espaçado assim, isso aqui seria um inferno!”, concluiu ao olhar as inúmeras pessoas nas bancadas de pedra.
— Finalmente um pouco de luz — disse Alek ao chegarem ao pátio.
— É como disse, primo, agora onde está o coche...?
Também ajudou o irmão a procurar o homem nas imediações e acabou encontrando-o com Rafael, numa parte mais afastada da rua, ao lado de outro homem a quem julgou ser o amo de Rafael.
— Veja, meu irmãozinho, ali estão eles! — Alice apontou para o local, só para perceber que o irmão já os tinha visto também e, aparentemente, aquilo o deixava feliz. “Pelo menos é o que aquele sorriso de canto de boca diz...”
— Vamos — seguiu Rober, tomando dianteira — Rober Mester — disse, apontando a mão para o homem.
— Marcus Renhiste Octavius, ao seu dispor.
Cabelos castanhos e enrolados, olhos cor de mel, idade “por volta dos trinta e dois, acho...”, a roupa: “camisa de linho branco, colete de couro assim como as botas, uma boina na cabeça e muitos anéis de pedras nos dedos... Esse aí sabe se vestir, tenho que admitir.”
O homem não era bonito: tinha o rosto velho e a pele machucada pelo sol, além de um corpo sedentário. “Mas sabe se vestir, e isso é o mínimo para um nobre de Capital.”
— Alice Mester — fez um simples cumprimento enquanto era fitada pelo nobre, “mais um que se rende à minha beleza.”
— Alek Berifor — disse cumprimentando com a mão boa, não pôde deixar de perceber os olhos do nobre sobre o braço enfaixado — Um infeliz acidente, senhor Octavius.
— Ah, sim… Perdoe-me, senhor Berifor, não quis causar nenhum constrangimento. Rafael já me colocou a par do assunto, acredito que possam ficar em minha casa e depois poderemos conversar... Digo, vocês ainda têm um baile para ir hoje, não é mesmo?
— De fato, isso seria bem-vindo. Podemos seguir em minha carruagem? — perguntou Rober ao notar a ausência do veículo do nobre.
— Claro, deixei a minha em casa, como disse Rafael já me informou dos acontecimentos, e pode ficar tranquilo, teremos muito tempo para conversar, e a propósito, tem uma irmã muito linda, senhor Mester.
— E geniosa também — disse Rober passando o braço pelos de Alice — Acho que podemos seguir agora?
— Por certo — concluiu Octavius.
Sentou-se com seu irmão enquanto Alek dividia o banco à frente com Octavius. Não estava animada por estar novamente em uma carruagem, ainda mais quando se locomovia tão devagar.
— O senhor mora muito longe? — perguntou Alek ao homem ao lado.
— Na verdade, não, chegaremos em breve.
— Bem, isso é um alívio. Já estamos viajando há muito tempo, senhor Octavius; há de entender o quanto estamos necessitados de descanso — Rober falou de modo cansado.
— Sem dúvida, senhor Mester. Não se preocupem, minha casa é grande. Terei quartos para todos.
— De fato uma boa notícia. Deve ter uma família bem grande então — comentou Rober com interesse.
— Uma esposa e dois filhos, mas não irão encontrá-los hoje, foram visitar minha sogra nos Reinos Menores.
— É realmente uma pena, mas... — Alek não teve a chance de terminar.
— Parece que chegamos. Viram? Não fica muito longe.
Agora sim posso descansar! “Embora imagine que precise fazer algo antes.”
Ao descer da carruagem, encontrou Rafael que já os esperava em frente aos portões de grade serpenteada. De fato, era uma casa grande, além do jardim que ela considerou uma obra de arte de tão detalhado e diversificado.
A varanda tinha três colunas sustentando as sacadas dos quartos do segundo andar, contou quatro varandas daquele lado e cinco janelas no primeiro andar. Não demorou muito para um criado vir encontrá-los.
— Visita, senhor? — perguntou o homem ao seu amo.
— Sim, Sebastian, quero que os trate como trataria o rei. Hoje teremos Mesters conosco.
Não pôde deixar de ver o espanto na face do homem. “Bem, o que se pode esperar, somos dos Sete Pilares no fim...”
A sala era bem espaçosa, como se era de esperar. Pelas dimensões da casa, havia muitos quadros nas paredes, alguns da família de Octavius, outros de paisagens. “Mas todos pintados por grandes pintores”, observou.
A decoração ela julgou exagerada, assim como a escada que levava ao segundo andar, saindo do lado esquerdo da sala.
— Tem uma bela casa, senhor Octavius — Alice disse com um ar inocente.
— Fico muito feliz que tenha apreciado, senhorita Mester — parou para chamar uma criada — Essa é Constância, minha governanta. Ela tomará conta de tudo para vocês. Se me permitem a indelicadeza, tenho alguns assuntos urgentes no Porto, mas sem falta conversaremos depois que voltar.
— Não se preocupe, senhor Octavius, tenho certeza que ficaremos bem — comentou Rober enquanto o homem tomava a porta para sair novamente.
— Assim espero... — disse, e então saiu.
— Senhores, queiram me acompanhar até seus aposentos — falou a mulher ao pé da escada.
— Um momento... — falou Alice, enquanto segurava a barra do sobretudo do irmão — Preciso ir ao mercado. Tenho que comprar algumas coisas.
— Não acho prudente, Alice, veja, já está tarde...
— Eu sei, mas é importante — olhou-o seriamente, como sempre fazia com assuntos importantes.
— Neste caso, permita chamar o coche...
— Mas de jeito nenhum entro numa carruagem de novo, o mercado não é muito longe, posso ir a pé.
— Não creio que...
— Meu senhor — chamou o menino — posso levá-la se assim lhe agradar; tenha certeza que estará bem segura.
“Ora, se não é mesmo muito esperto esse menino...”
— É, Rober! Não acho que ela vá demorar, além do mais, um tempo para descansar sem Alice é algo raro...
— Raro será se algum dia você empunhar uma espada com a destreza que já empunhou com este braço — parou para fitar o braço com um olhar de pena — Alek do Braço e Meio. É como irão lhe chamar agora — tapou a boca com a mão direita enquanto ria cinicamente.
— É melhor subirmos logo — disse Rober ao primo, que tinha as veias inchadas e a face vermelha — E você, minha irmã, trate de não se atrasar — concluiu com um olhar reprovador.
“Ora, ainda fica do lado dele... hunff.”
Apertou o passo enquanto percorria o caminho até o mercado. “Além do mais, foi ele quem começou... Ah, Rober, se você soubesse...”
A bem da verdade, seria algo que jamais lhe contaria mesmo que desejasse; sabia das consequências. “Um dia Alek será Tanos, e neste dia meu irmão precisará da sua amizade.” Não podia estragar tudo e não iria. “No fim, ser educada em Maestria não foi algo tão inútil assim.”
— Minha senhoria está bem? — perguntou Rafael com ar intrigado.
“Veja, nem percebi que estava aqui, onde foi que me permiti ir...”
— De fato estou — respondeu com um sorriso — E já não lhe disse para me chamar de Alice?
— Sim, minha senhoria... digo, Alice...
— Agora está muito melhor. Então, Rafael, será que você poderia me levar a algum boticário?
— Claro, minha senhoria... digo, Alice — concluiu com um sorriso.
— Então, por favor, mostre o caminho — devolveu o sorriso enquanto Rafael tomava a dianteira.
Conforme seguiam, prestava mais atenção à cidade. Já tinha se impressionado com as muralhas altas e largas, “Mas bem mais finas do que as de Pugna”, embora fossem muito mais belas, com todas aquelas gravuras entalhadas na pedra. “Barcos, leviatãs, sereias, ilhas...”, sem dúvida havia mais coisas, mas a memória só a tinha levado até ali.
Em todo caso, não ficaria pensando nas muralhas da cidade enquanto podia observar o seu interior. Desde que tinham entrado na cidade pelo portão do caminho, já tinha contado cinco templos: “Trinos, Ahua, Perpétuo, Akaya... Parece que as histórias de que todos os templos de Orbe podem ser encontrados na Cidade de Capital não parecem tão absurdas assim.”
— Ainda vamos demorar muito? — perguntou, passando a mão no rosto. “Não nasci para esse calor.”
— Na verdade, falta bem pouquinho — Continuou a segui-lo, e foi então que percebeu pela primeira vez: ninguém estava reparando nela. “Deve ser pela quantidade de pessoas.” Não sabia dizer se estava feliz por isso, embora fosse fato que, no início, toda essa atenção a tenha irritado bastante. Parte vinha da beleza, a outra por ser uma Mester. “Some as duas e você vira uma estrela... Se os sacerdotes de Trinos me ouvissem agora, sem dúvida iria para a forca por heresia.” Parou para rir do pensamento.
— Algo errado, senhorita Alice?
— Nada, Rafael, apenas um pensamento tolo. Ainda não chegamos?
— Na verdade — apontou o dedo para uma casinha distante no meio de uma rua parada — é ali.
— Rafael, esse local é seguro mesmo? Digo, isso não parece inspirar confiança...
A loja era pequena e cheia de plantas na entrada, não possuía janelas e tinha um letreiro que ela não conseguiu ler devido à quantidade de arroteias em sua frente. Era fato que era muito diferente do boticário que ela esperava encontrar; na verdade, era familiar de uma outra forma, uma forma que não gostaria de lembrar.
— Sim, pode confiar, não importa o que procure, certamente vai achar aqui — disse confiante.
— Então está bem...
O interior não era muito diferente do que imaginava. “Ainda mais cheio de ervas, plantas e seja lá o que estiver dentro destes frascos.”
Assim que entraram, o sino na porta tocou e uma velha saiu por uma cortina de pequenas conchas do mar. Alice não gostou daquele lugar. “Definitivamente estamos em uma casa dos sonhos.” Era como chamavam os locais como aqueles, onde se podia comprar ervas para as mais variadas causas. “Embora não seja apenas ervas que se encontra aqui”, sabia como funcionava; já tinha estado em um lugar assim antes, eram bem comuns em Pélago, mas no restante de Orbe a reputação não era boa. Sempre era uma mulher a vender: “Curandeiras”, elas se chamavam, embora o nome mais comum fosse “Bruxas”.
— A que posso ser útil, senhorinha? — disse a velha com uma voz débil.
— Preciso de flor da lua — disse seriamente à mulher.
— Uma flor da lua, se disse, né? — passou os dedos em vários pacotinhos numa prateleira — sei que está aqui... Ah, aqui está, são duas linhas de prata.
— Aqui está o dinheiro — sabia que era muito para cobrar por uma flor da lua, mas também sabia como aquilo funcionava. “Não vou cair no mesmo truque de novo.”
— Muito bem, muito bem, acho que estamos bem então. E como é mesmo o nome da senhorinha?
— Alice Mester — respondeu. A velha assumiu um ar sombrio.
— Um bom nome, bom nome, e, por ter me dado o seu, entrego-lhe o meu, Mamona.
— Guardarei bem, Mamona — a velha sorriu um sorriso de poucos dentes, era morena, de olhos marrons, encurvada, vestindo trapos. Ainda assim conseguia causar medo em Alice. “Mas não mais do que eu posso causar com meu nome.” Depois de pegar o pacotinho, guardou-o e então saiu.
— Rafael — disse em tom sério — eu lhe disse um boticário, por que me trouxe a uma casa dos sonhos?
— Desculpe, mas boticário... não é quem vende ervas? — disse em dúvida.
“Será que ele não sabe onde acabou de me levar?” Olhou-o seriamente por um instante. “Bem, ele é um órfão, não deve ter muita instrução.”
— Também, mas um boticário vende remédios e é aprovado pelo rei e pela medicina. Aquela mulher não tem nada disso e trabalha de forma ilegal. Nunca mais volte a um lugar assim, você me ouviu?
— Me desculpe, não sabia! Me perdoe! Eu fiz algo mal, por favor, não conte para meu amo, por favor, ele vai me castigar...
— Calma, calma, não vou contar nada, não fique assim — “Ainda é só um menino.” — Veja, vamos até a feira e eu te compro um doce como agradecimento.
— De verdade?
— De verdade, eu prometo — concluiu com um enorme sorriso — Mas teremos de ser rápidos.
— Sem problema, dessa vez pegamos um atalho.
O caminho que Rafael seguia foi uma verdadeira surpresa, seguiram por becos e vielas, alguns bem sujos e fedorentos. “Ele conhece muito essa cidade, mais do que deveria na verdade.” Não demorou muito para chegarem a uma feira e muito mais rápido foram ao encontro do padeiro.
— Dois — ela disse ao homem — Está gostoso?
— Muito — Rafael respondeu com a boca cheia, enquanto seguia ao lado de Alice — Senhorita Alice, posso te perguntar uma coisa?
— Mas é claro — respondeu intrigada.
— Para que você comprou flor da lua?
Aquilo a tinha pego de surpresa. “Para o sangue da lua, ora... Acho que não posso dizer isso...”
— Para um problema que as mulheres passam.
— Entendo... Sabe, senhorita Alice, eu realmente gostei muito de te conhecer — falou com um enorme sorriso.
— Eu também, Rafael, e se não fosse por você, todos estaríamos mortos — concluiu, olhando-o seriamente — Você entende como eu lhe sou grata?
— Fiz apenas o óbvio, não preciso de muito — olhou para o chão, desorientado — Passar um tempo com você já foi muito bom — terminou sorrindo.
— ...Rafael — assumiu uma expressão séria enquanto avaliava suas próximas palavras — o que acharia de voltar para Balázios conosco?
— Você está falando sério, senhorita Alice? — disse, espantado, enquanto parava para tirar o açúcar do rosto.
— Estou, posso providenciar para você seguir conosco a Balázios, gostaria disso?
— Gostaria — ele disse seriamente, com um olhar que ela ainda não tinha visto — Mas seu irmão... Ele não irá se importar e ainda tem seu prim... —
— Alek não tem influência em nada! — falou em tom irritado — Quanto ao meu irmão… digamos apenas que ele não irá se opor à minha vontade.
— Fico feliz em ouvir isso. Sabe, é que o irmão da senhorita Alice é meio assustador, embora o motivo eu não saiba bem...
Teve que fazer um esforço terrível para não rir. “Rober assustador...” Embora o estivesse julgando baseado em si, sabia que Rober poderia ser bem assustador caso se dispusesse a isso. “Qualquer um poderia depois de ver aquele inferno”, relembrou, enquanto tomava um ar sombrio. “Qualquer um...”
— Mas me diga... o que meu irmão fez para achá-lo tão assustador?
— Os olhos dele são muito frios às vezes, como os seus agora, senhorita Alice.
Não teve resposta para aquilo de imediato. “Como os meus...” Parou um momento enquanto fitava Rafael seriamente. “Você também tem olhos sombrios”, observou. “Como não percebi antes?” Lamentou enquanto se aproximava mais.
— E como os seus também.
— É como disse, senhorita Alice — disse, fechando levemente os olhos e sorrindo da melhor maneira que pôde.
— Me permitiria saber como os seus ficaram assim? — perguntou com interesse, mas não sem um tom de gentileza.
— Se a senhorita Alice também dividir o seu motivo, não irei me importar.
“Ora, ora, suponho que devesse me ofender...”
Olhou com um interesse que jamais tinha tido por alguém. “Uma troca então: uma história triste por outra! Veja se isso não é hilário... Mas o que tenho a perder?”
— Temos um acordo, Rafael — concluiu, olhando para o céu. “Posso roubar algum tempo?” — Fiquei com sede. O que acha de uma sidra?
— Uma ótima ideia, senhorita Alice — enfatizou com um sorriso.
CENA 4
Uma Melodia
O dedilhado entrava e saía de acordes complexos e finos, acelerando no refrão. Tocava como o raiar da manhã ao soprar da brisa, como o arrepio de um sussurro, como a dor de uma despedida, como uma lembrança que se recusa a esquecer, como o fim do dia que insiste em chegar, como a memória de uma rosa recém-desabrochada.
Assim ele tocava a harpa: como parte de si, ignorando o mundo ao redor — a sala onde estava sua mãe, um suposto amigo, o baile que mais tarde teria de comparecer — ignorando tudo até que a melodia chegasse ao fim e a realidade voltasse ao seu encontro.
— Perfeito... — disse Gabriela Exporiam, limpando as lágrimas — Foi ainda mais lindo do que da última vez.
— Ela está certa, Alexander... Veja! Estou pálido! E, se me permite a franqueza, com a garganta engasgada... Foi a melhor apresentação do Memorial das Rosas que já ouvi em toda a minha vida.
“Em toda a sua vida...”, pensou ele, olhando o amigo sentado num móvel próximo. “Um tanto exagerado, eu diria.”
— Fico lisonjeado, Sr. Augusto, mas acredito que Gustave Lucubre teria se saído muito melhor — respondeu, com os olhos levemente cerrados e um sorriso disfarçado — Afinal, quem melhor que o criador para compreender a criação? — completou, deixando a harpa para se acomodar numa cadeira enquanto se servia de chá.
— Bem, ainda assim acredito que você fez uma apresentação magnífica.
— É como Augusto disse. E, a propósito, deveria parar com toda essa formalidade, meu filho. Estamos entre amigos — censurou Gabriela.
— Infelizmente, esse é um hábito que não consigo conter, senhora minha mãe — virou-se para Augusto — Queira me desculpar, Sr. Augusto, não quis ofendê-lo.
— De forma alguma, Alexander. Você é meu amigo; se falar assim é o que deseja, pois bem, que seja assim.
“Não conseguiria imaginar resposta diferente”, pensou, sentindo o olhar sério de sua mãe, seus olhos verde-escuros. “Percebo que não lhe agradei, não é mesmo?”, tomou mais um gole de chá mantendo a mesma expressão de antes, “Máscara eterna”, era como seu irmão chamava. “Aliás... Gabriel ainda não voltou?”
— Ainda não, mas já deviam ter voltado. O estranho é que Maurício e Leandro nunca se atrasam.
— Bem — disse, colocando mais chá na xícara — Eles estão com meu irmão. Seria surpreendente se não se atrasassem.
— Gabriel já tem dezoito anos! Eu esperava que agisse mais como um homem — disse sua mãe, séria, abanando-se. — Afinal, onde está esse menino?
“A pergunta certa não é onde ele está, mas quando irá se dar conta de voltar”, pensou, olhando para a janela próxima. “O tempo avança, logo será noite, e então as coisas devem ficar interessantes...”.
— Se me dão licença, tenho um pequeno compromisso ao qual não posso faltar.
— Só não perca a hora, devemos chegar todos juntos — lembrou Gabriela.
— Será como disse, senhora minha mãe — despediu-se com uma pequena reverência da sala.
“Vamos ver como meus olhos estarão esta tarde...”.
CENA 5
Diversão
— Já está tarde, Gabriel.
— Provavelmente você está certo, Leandro — disse ao tomar mais um gole de cerveja.
“Percebe-se que é uma mulher de verdade que passa aqui.” — Pode me dizer o que um homem precisa fazer para ter uma dança? — perguntou ao segurar o braço da jovem, que o observou atentamente. “Essa já foi...”
— Por que não me mostra esse homem primeiro? — a mulher falou maliciosamente, arrancando gargalhadas de todos.
— É, garoto, devia deixar essa aí em paz! — exclamou um homem em uma mesa próxima.
— Por essa você não esperava, não é mesmo? — perguntou um mercenário enquanto batia na mesa — Um brinde a essa tirada! — levantou a taça — A um nobrezinho que achou que era mais do que é!
— A um nobrezinho que achou que era mais do que é! — berrou o restante dos presentes.
“O que posso fazer?” — levantou a taça — A um nobrezinho que achava mais do que era! — virou a caneca enquanto os homens e mulheres batiam as suas na mesa e urravam — Agora... — disse, levantando-se enquanto ainda mantinha o braço da jovem preso — Músico, toque “Bem-vindo à cidade”. Eu preciso mostrar para essa menina como um homem de verdade dança.
“Percebe-se que as coisas vão ficar bem interessantes”, concluiu ao ver todos os presentes começarem a bater palmas ao som da canção, enquanto outros vinham acompanhar a dança. “Pena não existirem tabernas assim em Maestria”, lamentou enquanto passava as mãos na cintura da mulher e a arrastava para a valsa.
Rodopiaram entre as mesas juntamente com outros, enquanto os sentados batiam palmas e cantavam junto, “Com exceção daquele ali”, olhou para Leandro, sentado com uma expressão tensa. “O engraçado é que o irmão dele nem parece se importar”, concluiu ao olhar Mauricio com uma morena de belos seios.
— Veja se este não é muito descarado! Ninguém nunca lhe disse que não se deve olhar para outra mulher quando estiver com uma, menino?
— Percebe-se que é bem esperta, mas eu estava apenas conferindo o tamanho dos dela em comparação aos seus. Acredito que os seus sejam maiores, mas ainda não tenho certeza...
— Ah, não tem? — perguntou com uma expressão ousada.
— Não, então como sugere que resolvamos isso? — levou-a para mais perto de si, pressionando os seios dela no seu peito.
— Eu não sei... Por que não me mostra o que tem em mente...
— Vejamos... — puxou-a para o colo enquanto se sentava novamente à mesa — Agora... — abriu levemente a costura do decote, depois beijou o pescoço enquanto a mão esquerda entrava por debaixo da saia e os beijos seguiam até o colo da moça.
— Por Trinos, arranje um quarto, Gabriel! — disse Mauricio, que estava sentado à sua frente.
— Esta, sim, é uma ótima ideia. — voltou a beijar os seios da mulher, que gemia ao seu ouvido.
— Não, essa é uma péssima ideia! Já estamos atrasados, não temos tempo para isso — exclamou Leandro com certa raiva.
— Por que você não concorda com seu irmão para variar? Vocês não são gêmeos? Deviam se entender melh...
A moça levou a boca à sua num beijo violento. “Se você já é hábil assim com a língua em um beijo, imagino como não será em outras coisas...”
Tooooooom... Toooooom... tooom... “Maldição! Era só o que faltava agora. Maldito sino!”
— Gabriel, agora precisamos ir. Veja, já são seis horas e ainda precisamos passar num boticário.
“Percebe-se a má companhia que vim arrumar, por que não pode seguir o exemplo do irmão”, olhou Mauricio flertando com uma criada — Como é seu nome? — perguntou à moça em seu colo.
— Bia... — respondeu com um gemido enquanto Gabriel alisava o interior de suas pernas.
— Pois bem, já me decidi! Vocês podem ir, eu vou ficar aqui com Bia... — parou para beijar o pescoço novamente — Agora...
— Imagino o que seu irmão vai fazer quando dissermos a ele que voltamos sem você...
“Mauricio, o que foi isso? Não era para você estar do meu lado?”, parou para olhar o tempo enquanto mantinha as mãos ativas. “Droga! Colocar meu irmão na história foi um golpe sujo...”
— Parece que está meio tarde. — levantou-se trazendo Bia junto de si — Atenção aqui! — berrou para toda a taberna — Aqui está o pagamento da minha conta! — jogou uma bolsinha para o taberneiro do outro lado de onde se encontravam — Assim como as próximas três rodadas a todos aqui, bem como um quarto para depois do festival, com tudo à minha convidada! — parou para ouvir o grito de todos.
— Nobrezinho! Nobrezinho! Nobrezinho... — gritavam ao bater as canecas na mesa.
“Parece que o nome pegou mesmo”, deu uma leve risada enquanto pegava a caneca e levantava para angariar mais gritos — E você... — disse ao ouvido de Bia — Vai me esperar naquele quarto para terminarmos o que começamos aqui — concluiu com um beijo denso.
— Teremos sorte se encontrarmos um boticário aberto, todos já devem ter fechado para a organização do festival — comentou Leandro ao chegarem à praça central.
— Eu acho perda de tempo, por que precisamos tanto assim de um boticário afinal?
— Olha aqui, Gabriel, se sua família não se importa de você chegar atrasado e cheirando a cerveja, saiba que a minha se importa.
— Verdade. Precisamos de Mentro para retardar o álcool — concluiu Mauricio apontando para uma loja próxima.
— Espere aí... quer dizer que esse negócio aí é para o efeito da bebedeira?
— Bem... Não. Ele apenas retarda, ou seja, você não vai cheirar a álcool nem ficar tonto, entretanto a dor de cabeça que você tem depois que acorda é terrível — explicou Mauricio ao entrarem na loja.
— Percebe-se que a última coisa que vou fazer hoje é dormir, meus amigos.
“É bom que esteja bem desperta quando eu chegar, Bia, pois você não vai dormir tão cedo...” — Aliás, quando é mesmo que o festival vai começar?
— Depois do baile — parou para pegar o pacotinho da erva — Mas todos receberam ordens para deixarem as ruas e fecharem o comércio até meia hora antes do início da noite, por isso está tudo deserto — disse, mostrando a praça onde ficava a Catedral da Estrela junto com o maior mercado de Orbe.
— Percebe-se o quanto isso vai ser divertido, e por onde vai começar?
— Portão do Caminho, que dá para o norte, depois pelo Portão da Virada, que vai para leste, seguindo pelo Porto, na parte sul da cidade, para então seguir ao Portão da Parada, que fica a oeste, para passar novamente pelo Portão do Caminho e terminar aqui. — Leandro falou em tom seco ao mostrar a praça central. — Deveríamos nos apressar em vez de ficar conversando sem propósito.
— Mas para mim tem propósito sim. — “Oh, vontade de socar essa sua cara sardenta.”
— Ah, sim, cheio de sentido e propósito. Como nos disfarçar para sair por aí como nobres quaisquer para visitar a plebe...
— Quaisquer podem ser vocês, visivelmente só me passo por um Luzetro — disse mostrando os cabelos dourados, depois os olhos verdes.
— Sabe, você sem dúvidas é o príncipe mais estranho que eu conheço — esbravejou Leandro.
— Você diz isso, mas eu e meu irmão somos os únicos príncipes que você conhece, logo, percebe-se que isso foi exagerado. — acabou arrancando gargalhadas de Mauricio, que até então tinha se mantido calado pela discussão dos dois.
— Ele está certo, isso foi exagerado... — comentou Mauricio em meio às risadas do irmão.
— Mas afinal de que lado está? E então, se vocês não têm mais nada a dizer, já podemos ir? — exclamou Leandro transtornado.
— Percebe-se que a pergunta não é esta. — abriu um sorriso malicioso — E sim, por que ainda não fomos? — completou Gabriel ao sair correndo junto com Mauricio; ainda pôde escutar Leandro xingar.
“Percebe-se que um Maldito Príncipe soa bem melhor que Nobrezinho”, terminou por rir ao pegar o caminho de casa.
CENA 6
Perseguição
Virou rapidamente atrás do muro, o cheiro úmido da terra misturado ao odor leve de fumaça das fogueiras do festival ainda pairava no ar. “Será que ele me viu?”. O som distante de risadas e música abafada chegava como ecos pelas vielas, mas ali, entre as sombras, o silêncio era quase absoluto.
Esperou alguns segundos, sentindo a brisa fria que fazia as folhas secas estalarem sob seus pés, antes de virar novamente. Ficou aliviado ao ver o garoto andando mais à frente na viela, o som dos passos dele abafados pelo cascalho irregular no chão. Estava escuro, mas não o suficiente para conseguir passar despercebido. Julgava um trabalho fácil, ainda assim algo lhe dizia para não ser descuidado.
Continuou nas sombras, o cheiro forte de mofo e lixo misturado à umidade da noite envolvia o ar. O trabalho não exigia nada complicado como roubar ou mesmo matar, era simplesmente seguir e relatar. Já havia recebido uma parte, a outra viria com a história que contaria mais tarde.
— Curioso... — murmurou, enquanto via o garoto entrar na Casa dos Sonhos. A porta rangia levemente ao ser aberta, liberando um cheiro doce e ácido, como de ervas queimadas. — O que será que ele quer com Mamona?
Mamona era uma bruxa conhecida na Baixada do Viés, era bem sabido que se precisasse de algo para qualquer fim, poderia conseguir com ela e isso havia despertado sua curiosidade, pois Mamona não negociava com qualquer um.
“Ao que parece, foi bom ter mantido a guarda alta...”.
Depois do céu ficar escuro o suficiente para deixar seu trabalho extremamente fácil, o garoto saiu da Casa dos Sonhos sem nenhum embrulho, mas aquilo não significava nada, afinal as melhores mercadorias de Mamona eram extremamente pequenas e imperceptíveis.
Continuou seguindo-o com mais facilidade, ainda andando nas vielas e becos onde o cheiro de gordura velha e de cerveja derramada se misturava ao dos animais vadios. Ao que parecia, o Balázianinho conhecia muito bem os guetos e aquilo era realmente incomum.
Depois de mais alguns becos, saíram em frente a um armazém comercial que ainda estava aberto no festival. Conhecia o local, pertencia a Gerônimo, um contrabandista famoso no ramo, embora fosse realmente raro de se encontrar, passava mais tempo fazendo rota entre Pélago e Capital do que respirando, seu principal negócio era o contrabando de vinhos — o cheiro forte do álcool já escapava pelas frestas da porta, misturado a um aroma adocicado de barril antigo — e o menino comprava naquele momento.
“Pela deusa! Quem diabos é você, garoto?”.
Primeiro Mamona e agora Gerônimo. Aquilo estava muito estranho.
O garoto não demorou muito, depois que já tinha o embrulho debaixo do braço, seguiu para um beco que levaria para a encruzilhada amarela de lá podia se ir rapidamente para qualquer lado. O deixou tomar distância e então voltou a segui-lo.
Em qualquer outra noite os guetos estariam lotados de caçadores escondidos nas sombras, negociantes, traficantes, ladrões, prostitutas e assassinos, mas naquela noite todos estavam em torno do festival. Mesmo assim, os becos e vielas da Baixada do Viés eram perigosos demais para alguém andar sozinho, ainda mais para um garoto que mal havia chegado à adolescência.
“Isto está muito estranho...”.
— Opa! — disse o garoto, puxando o homem das sombras e colocando uma lâmina entre suas pernas — Sabe, não é lá muito cortês seguir alguém por aí... Perdão, mas você sabe o que significa cortês?
Estava incrédulo. O garoto o havia encurralado e, do modo que a lâmina estava na sua virilha, se tentasse qualquer coisa perderia bem mais que sua vida.
— Ainda não escutei sua resposta... — continuou o menino com uma voz inocente e cheia de sarcasmo — Sabe o que é cortês?
Balançou a cabeça em assentimento, não conseguiu dar uma resposta melhor, o choque da situação ainda não havia passado.
— Ainda bem... — o menino o olhou com olhos sombrios — Você por acaso é mudo?
— Não — respondeu friamente.
Aquela era uma situação terrível e onde se encontravam não conseguiria nenhuma ajuda.
— Puxa, que alívio. Não estava lá com muita paciência para brincar de sim ou não... — o menino olhou-o seriamente, com uma expressão demoníaca enquanto apertava mais a lâmina na virilha — Quem contratou você?
— Um homem Baláziano, não me disse o nome, apenas me mandou seguir você — naquela situação não seria bom mentir. Achou melhor deixar as coisas seguirem e tentar sua chance quando o menino desse alguma brecha.
— Esse homem era um palmo mais alto que você, com cabelos curtos e barba feita. — o garoto se manteve calado por um instante. — E ele parecia de alguma forma... um nobre?
Parecia que o menino estava bem consciente de quem o havia contratado, e pelo tom da voz aquilo não o deixava nenhum pouco satisfeito.
— É como você diz.
— E onde vocês… marcaram de se encontrar? — as palavras ditas num tom mortificante que não admitiriam qualquer mentira — Se mentir eu saberei.
— Na Catedral da Estrela, um pouco antes da meia-noite.
— É, você não mentiu... — confirmou o menino ao se afastar. Quando pensou que era sua chance, sentiu a lâmina cortar sua virilha. Levou a mão para impedir e então viu a outra mão do garoto com uma segunda lâmina, surgida do nada, cortar-lhe a garganta. Levou as duas mãos ao local, tentando desesperadamente parar o sangramento.
— Umbral, umbral... — o garoto disse enquanto se afastava — Esse é o pior resultado possível. E olha todo esse sangue...
Ainda pôde escutar o garoto falar antes de apagar totalmente.
CENA 7
Baile
Aquela era a quinta pessoa que viera lhe cumprimentar no minuto em que havia chegado. O som dos passos apressados ecoava pelo salão, misturado ao tilintar delicado das taças de cristal e ao murmúrio constante das conversas políticas. O ar estava impregnado do aroma sutil de velas de baunilha e incenso.
Era algo divertido... “Política, política e mais política... teremos uma noite cheia, percebe-se”.
— Alexander, onde nossa mãe disse que deveríamos nos encontrar? — perguntou o irmão enquanto procurava em meio ao salão, seus olhos cintilando sob a luz bruxuleante dos lustres de ferro forjado.
— Ela não disse — respondeu, contemplando o local com frieza enquanto passava a taça de vinho para a mão esquerda. Sentiu o líquido escorrer levemente pelo vidro frio e o sabor encorpado do vinho preencher seu paladar. “Já faz sete anos...” — Ficamos de encontrá-la por aqui.
—… que seja — disse Gabriel em um tom de tédio ao pegar uma taça de vinho na mão esquerda numa mesa próxima — Sério, Alexander, não sei como você aguenta toda essa bajulação desmedida, percebe-se que é entediante a um grau elevado.
— E acaso meu irmão tem algo mais importante do que isso?
— Percebe-se que tenho sim! Embora a maioria não perceba a relevância disso… — finalizou, meneando a cabeça em afirmação.
— Relevância? Diz isso a respeito do encontro que terá mais tarde com Bia? Era esse o nome, não é mesmo? — viu o irmão parar com o cálice na boca enquanto o fitava, assustado.
— Droga, Alexander! Isso de espionar não é legal... Percebe-se que preciso de privacidade.
“Percebe-se” é?
— Veja, Gabriel, que tal um jogo para me fazer entender sua “relevância”? — viu o irmão olhar atentamente para si. “Provavelmente considerando se há alguma armadilha aí...”.
— Que tipo de jogo? — Gabriel perguntou com cuidado.
— Um bem simples, lhe prometo. Basta me dizer quem eram as cinco pessoas que vieram falar conosco, de que reino vieram e o que queriam.
— Muito bem... O primeiro era Mikel da Casa Boro dos Reinos Menores... Sua voz tinha um timbre grave, mas carregava uma certa urgência nervosa.
— Qual reino? — perguntou com seriedade.
— Hebron?... — parou para olhar o irmão que o incentivou a prosseguir — Seu motivo era bem simples: saber sobre as embarcações que Maestria anda construindo.
— Prossiga...
— Certo... — disse com desconforto, sentindo o gosto amargo do vinho se intensificar na boca — O segundo era Bartolomeu da Casa Argos junto com a esposa Anita e a filha Jasmim do Reino de Capital, o que ele queria eram informações dos campos do leste que Maestria se apropriou. Já o terceiro, Alede da Casa Cabal integrada nos Sete Pilares do Reino de Pélago, queria informações sobre as embarcações que Maestria está construindo. O quarto, por sua vez, era Ana da Casa Venal dos Reinos Menores do reino de Alevede. Seu objetivo era uma simples apresentação de sua sobrinha, que por sinal eu deveria conhecer melhor depois...
— Está se desviando, Gabriel... — disse de modo frio com o sorriso de sempre no rosto.
— Por último — Gabriel retomou com desconforto — Helena da Casa Luzetro integrada nos Sete Pilares do Reino de Maestria. Seu motivo, por incrível que pareça, era o que ela tinha perguntado, onde estava nossa mãe. — parou para tomar um fôlego, sentindo a leve reverberação do calor das velas próximas em seu rosto — Então o que vem agora? Percebe-se que eu fiz exatamente como você pediu.
— Sim, você fez... Don Leonardo está lhe ensinando muito bem... Leve dois guardas consigo, parece que sua demonstração de riqueza incentivou alguns naquela taberna... — olhou o irmão que o fitava seriamente — A propósito, mel ajuda na dor de cabeça do mentro. Você já pode ir.
O irmão o olhou com espanto e apreensão enquanto colocava a taça na mesa, que produziu um leve tilintar. “Já deveria estar habituado a isso... Ou imaginou que minha rede de informações se limitava apenas a Maestria?”.
— Então já estou indo. — Despediu-se formalmente enquanto seguia para a entrada. O som dos seus passos era abafado pelo tapete espesso da sala, enquanto a mistura de aromas — vinho, madeira envelhecida e perfume sutil de jasmim — parecia acompanhá-lo.
“Ainda muito jovem... Bem, agora se percebe que eu deva terminar esse jogo...”
Parou um momento para ter certeza da pessoa que via. “Ou talvez eu deva mudar um pouco as coisas”.
— Ora, se meu irmãozinho não está demorando... Ainda me deixa em tão má companhia — disse a jovem ao abaixar a cabeça em lamento, seu vestido de seda deslizando suavemente contra a pele.
— Olha aqui Ali...
— Percebe-se que vim a encontrar tamanha beleza. Há quanto tempo Srta. Alice! — interrompeu enquanto fazia uma mesura, sentindo o peso do tecido do paletó ao mover o braço.
— Príncipe Alexander Exporiam II, é uma honra... — Alice se apresentou, depois do choque inicial — Mas o que o traz até nós?
— Sem dúvida, sua beleza. — olhou para o teto oval do salão, onde as luzes refletiam suavemente nas pinturas.
“Percebe-se uma das maiores pinturas de todas” — Veja, até a magnífica obra de Tadeu Ambrosia Riviera fica triste em sua presença.
— Ora, se não está exagerando. — Alice respondeu de uma maneira séria — Embora concorde que se trate de uma obra sem igual — disse correndo os olhos pela pintura, quase podendo sentir a textura das pinceladas — O ciclo de um dia... Provavelmente é disso que se trata, pode-se perceber pela maneira que as fases do dia são representadas sequencialmente lembrando a concha de um caracol, e não preciso dizer como são lindas as imagens, além de nunca ter visto cores assim...
— Já faz sete anos que não vejo isso... A primeira vez foi na morte de meu avô. Sua observação foi surpreendente Srta. Alice, embora percebe-se que ainda falta algo. Veja, Tadeu não representa simplesmente as fases de um dia, Tadeu representa o poder do Sol desde seu nascimento até o seu ocaso. — mostrou as partes de que falava no teto enquanto era seguido de olhares curiosos — Isso comparado ao nascer de um Rei até sua morte. Assim como o Sol, o Rei traz luz para seu reino e essa luz enfraquece à medida que seu fim se aproxima ao ponto de ser totalmente apagada — concluiu por apontar para o local do centro da pintura — Mas um novo dia sempre virá trazido pelo Sol, assim também sempre haverá um novo Rei para governar. De fato Capital representa o Céu para muitos reinos e a vida de um Rei comparada ao dia do Sol mostra quão magnífica é, e também quão pequena, eu só consigo pensar que não poderia haver lugar melhor para esta cerimônia.
— É realmente uma observação surpreendente! Nunca pensei desta forma... — Alice comentou verdadeiramente maravilhada, sua voz quase um sussurro diante da grandiosidade da obra.
— Fico feliz em ter sido útil. A propósito, o azul-escuro lhe cai muito bem, valoriza muito seus olhos — falou com o sorriso de sempre no rosto, apontando para o vestido que ela usava, cujo tecido refletia discretamente a luz.
— Algum problema, Sr. Alek? — perguntou ao notar o desconforto no homem.
— De forma alguma, Alteza — expressou-se enquanto prestava uma reverência desajeitada, sentindo a leve pressão no braço que começava a doer.
— Percebe-se que está mentindo para mim, seu braço não me parecia muito bem, mas agora tenho a certeza de que não está. Me permite saber o que houve?
“Percebe-se que esse não é um assunto do qual queiram falar...”, observou pela expressão de desconforto em ambos. “Embora a expressão dessa aí esteja mais para aflição...”.
— Um pequeno acidente, Alteza, nada significativo...
“Um acidente? Percebe-se que isso foi um corte de espada, e recente pelo que vejo... Problemas na viagem, sem dúvida. Mas qual a extensão? Terei de averiguar depois”
— Percebe-se que fui um tanto indelicado, queira me desculpar. Ainda não vi Sr. Rober. Ele veio?
— Sim, meu irmão deve estar conversando com o Rei nesse momento — expressou-se Alice, com um sorriso suave.
“Com o rei é...?”
— E quanto aos Tanos Manuelk e Rickon? Também não os vi ainda.
— Infelizmente não puderam comparecer, tinham alguns assuntos em Balázios... — comentou Alek ao ajeitar o braço no sobretudo, sentindo o tecido grosso esfregar contra a pele machucada.
— O mesmo se dá com Atur?
— Sim — Respondeu Alice de forma ressentida.
— Percebe-se que tomei muito do tempo de vocês, queiram me perdoar, tenho alguns assuntos ainda a resolver. Estou hospedado na Casa Dossel, podem passar para uma visita depois — completou com seu eterno sorriso enquanto se despedia.
“Atur, Rickon e Manuelk... Percebe-se que as coisas devem estar bem tensas em Divisar, Balázios e sua sede de Sangue. O momento em que isso virá a ser um problema não tarda... E quando acontecer...”.
CENA 8
Conversa
Os últimos dias haviam sido cheios, nunca pensou que pudesse ser tão complicado assumir o trono.
“Tantos preparativos, tantas moções... Se Fernando não estivesse ao meu lado, provavelmente teria definhado.”
“Foram mesmo dias exaustivos, mas...” parou para olhar o local, o aroma sutil de incenso misturado ao perfume das velas perfumadas preenchia o salão, “...Bem recompensados”.
De fato havia muita comida, bebida e música, além dos artistas entretendo o público, tudo cuidadosamente preparado para causar uma ótima impressão. “Afinal, precisarei dela amanhã...”.
Não se perdeu muito no pensamento, tinha ainda muitos assuntos a tratar. Desceu a escada lentamente enquanto seguia para o primeiro andar, sentindo o leve rangido dos degraus sob suas botas. A maioria dos olhares estava presa nele, “Imagino que sorte de coisas terríveis estão pensando...”, riu discretamente.
Vestira-se da melhor maneira de toda a sua vida: o manto real arrastava pelos degraus nas cores marrom e verde da Casa Meneai; as botas adornadas chegavam-lhe aos joelhos; e o gibão de couro, trabalhado pelo melhor alfaiate de Capital, destacava os poucos músculos que possuía. E, mais importante, havia a coroa, passada por seu avô Ariel a seu pai Henrique e, agora, a ele. “É leve, mas ainda assim pesada.”
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O objeto consistia em serpentes que se emaranhavam em um aro perfeito, que terminava com as duas abocanhando um enorme rubi na parte frontal, as partes sobressalentes eram finas e lembravam chifres — duas na fronte e duas no lado esquerdo, direito e na nuca. Nos intervalos entre elas, esmeraldas permeavam o corpo das serpentes, “Provavelmente a coroa mais adornada de toda Orbe”, mas não poderia ser de outra forma.
Quando Alan Meneai subiu ao trono, sete décadas antes, a coroa passou a representar o direito inato ao poder. Na disputa entre os netos de Alan, Adriano Meneai e Eduardo Meneai, sua posse foi decisiva: embora Eduardo tivesse a vantagem, foi Adriano quem recebeu o Reino. “Mas isso é passado. E meu primo jamais teria qualquer chance”, constatou Felipe, agora o mais novo Rei de Capital.
— De todos os eventos que já tive o privilégio de participar, nenhum pode fazer frente a este. Majestade, desejo longa vida e prosperidade! Que a força lhe construa em um novo homem.
Ao olhar, pôde perceber que os anos haviam sido gentis a ele, “Da última vez que nos encontramos éramos rapazes conversando sobre o futuro em uma taberna local”. Tinha boas recordações dessa época e “A maior parte das donzelas que deflorei”.
— Alegra-me que tenha vindo, Rober Mester — disse de modo natural — E onde está seu primo e sua irmã dos quais você nunca se separa? Aliás, ouvi que sua irmã ficou tão bela que poderia destronar a Rainha de Maestria como a mulher mais bela de Orbe, e isso é algo que eu gostaria de ver pessoalmente...
— Fico feliz em ver que continua o mesmo, Majestade… Eles estão conversando não muito longe, mas se me permite... — mudou a taça para a mão esquerda — Gostaria de saber se me acompanha até a varanda, está uma noite linda, não acho sensato desperdiçá-la.
— Claro, por que não? — seguiu para a varanda.
Não muito longe, as cortinas de seda branca bailavam ao bater da brisa fresca da noite. Por um momento, Felipe sentiu-se nostálgico com o som suave do vento e o aroma das flores do jardim que invadia o salão, mas descartou o sentimento com rapidez. “Tenho coisas mais importantes no momento do que lembranças de criança”.
Olhou para Rober cruzando o local, “Afinal que assunto é este que uma taça na mão esquerda não pode resolver”.
A noite estava realmente bonita, uma linda Lua cheia iluminava toda a Cidade de Capital. Ao longe, o estalar de várias tochas e gritaria animavam a festa.
“O festival...”.
Olhar a Cidade daquela forma fez sua coroa pesar ainda mais e, como vinha aprendendo, ela tinha uma habilidade incrível para aumentar de peso.
— Espero que o assunto que me tenha trazido aqui tenha a ver com a ausência de Atur Kaiser e dos Tanos, Rickon e Manuelk, Senhor Mester.
A expressão que Rober esboçou era séria e tensa, e o fez sentir o frio daquela noite de uma forma sombria. “Definitivamente não gosto disso”.
— É como disse, Majestade. Venho tratar justamente disso. Atur Kaiser, Tanos Manuelk Berifor e Tanos Rickon Mester não puderam comparecer, pois nesse momento estão no meio de uma guerra.
Por mais que quisesse disfarçar o choque daquelas palavras não conseguiu, “Então já começou...”
— Não posso esconder minha surpresa, não esperava por isso, digo, nem tive notícias...
— Muito provavelmente, você é o primeiro a saber disso. Eles já estavam em marcha quando os convites chegaram. O Senhor deve se lembrar que já estávamos tendo problemas com Divisar e depois que espiões foram capturados em Pugna... — parou para olhar a noite e as casas lá embaixo — Atur não me informou o que foi descoberto, apenas montou o exército e partiu para Divisar, alegando que arrancaria a verdade daqueles Mortedrai, de modo que quando o seu convite chegou tive de agir rápido, enviei cartas contando sobre o ocorrido e atualizando a todos de minha viagem como representante de Balázios, imagino que ainda estejam a caminho.
— Compreendo... — “Droga, isso muda tudo! Definitivamente isso não deveria ter acontecido. Parece que o futuro reservado por Tetros está...” — Sem dúvida, este é um assunto sério. — olhou as baforadas de fogos que eram lançadas ao longe na procissão do festival — Entretanto, não me cabe opinar sobre como Balázios resolve seus conflitos no Norte. Sendo assim, levarei isso em consideração amanhã.
— Perdão, mas o que acontecerá amanhã? — Rober perguntou com surpresa enquanto virava de costas para o parapeito e ficava em frente ao jovem Rei.
“Bem, como eu poderia dizer...?”
— Muito provavelmente você é o primeiro a saber disso, mas amanhã... Teremos uma Reunião Gama.
Viu a expressão do nobre ficar pálida e, ao levar em consideração a pele dele, “Veja se não me parece um fantasma...”.
CENA 9
Diferenças
— ... É como disse Lady Helena. Tens notícias do primo Afonso? — perguntou sua esposa à amiga, com a voz suave e ligeiramente preocupada.
— Ele está bem, infelizmente anda meio brigado com Anselmo... Mas tenho certeza que as coisas irão se acertar! — completou Helena com ar de esperança, enquanto segurava delicadamente a mão da filha.
— E nossa Erica? Como vai? — Gabriela falou, encarando a menina com um sorriso afetuoso — Ela está muito maior que da última vez...
— Fez quinze anos na terceira semana do mês. — Percebe-se isso claramente, veja, meu amor, como fica cada vez mais linda.
“Sem dúvida se trata de um Luzetro”, constatou Marcos Exporiam ao observar os cabelos dourados em cachos que reluziam sob a luz do salão e os olhos verdes-escuros da menina. — Uma menina muito bela, percebe-se — falou de modo sério, ainda que não sem gentileza.
— Aprecio muito o elogio, Majestade. — Erica concluiu, fazendo uma pequena reverência com graça e elegância.
“Percebe-se a boa educação que vem recebendo” — pensou Marcos, enquanto sua mente avaliava o ambiente.
— Lorde Anselmo, você o viu? — Gabriela voltou-se para Helena.
— Estávamos juntos ainda há pouco, entretanto ele acabou indo tratar de negócios. Isso foi depois de encontrar Alexander e Gabriel — respondeu Helena, sua voz firme mas gentil.
— E onde estavam? Marcamos de vir juntos, mas acabamos nos atrasando — respondeu sua esposa, olhando ao redor do salão com um leve tom de inquietação.
— Perto da mesa, no lado direito — respondeu Marcos, virando o corpo e apontando discretamente na direção.
— Entendo... Talvez devêssemos ir até eles. O que acha, Marcos?
“Iremos encontrá-los de qualquer jeito”, pensou ele, sentindo o aroma sutil da madeira polida e do vinho envelhecido no ar do salão.
Olhou as imediações, notando o murmúrio constante dos convidados e o brilho tênue dos lustres. “Muitas pessoas. Poucas com quem valha a pena conversar.”
— Percebe-se que isso não venha a ser bem necessário, Gabriela, existem outras pessoas que devemos cumprimentar ainda — falou pausadamente, parando para olhar um homem que se aproximava — Veja se aquele não é Mariel Caboz The`zar de Pélago.
— Percebe-se isso claramente. Mas onde estão sua esposa e seus filhos? — Gabriela lembrou-se, franzindo a testa.
— E de qual esposa estamos falando? — perguntou Marcos com um sorriso largo e algo malicioso para a esposa — Afinal, ele tem três.
— Poligamia — falou Gabriela com nojo, franzindo o nariz — Um costume horrendo.
— Queiram me desculpar, mas preciso ir, tenho que encontrar Anselmo ainda — concluiu Helena, despedindo-se.
— Espere, vou com você — disse Gabriela, aproximando-se do marido — Encontro com você mais tarde, percebe-se que ficará melhor assim para conversar com ele?
“Como é esperta minha rainha...”, admirou Marcos, sentindo o leve toque da mão de Gabriela ao seu braço.
— Assim ficará perfeito, mas não demore muito — concluiu, beijando suavemente as mãos dela.
— Como desejar — respondeu Gabriela ao se retirar da presença do marido.
“E agora é minha vez...”, pensou Marcos, ajeitando o colarinho do traje enquanto se aproximava pacientemente de Mariel.
Enquanto caminhava, podia ouvir o murmúrio das conversas que preenchiam o salão. “Tamanha perda de tempo nunca vi igual...”.
Demorou mais do que o pretendido para enfim conseguir falar com o homem. “Mas agora não ousarão nos interromper novamente”, pensou enquanto pegava uma taça com a mão esquerda, sentindo o frescor do vinho deslizar pela palma.
— Então, Rei Marcos, já fazem o quê? Sete anos? — começou Mariel Caboz
— Sim, desde a morte de meu pai... — respondeu Marcos, sua voz firme, porém com um leve tom de melancolia.
— Grande perda. Era um bom homem e grande rei, se me permite o elogio.
“Elogios são sempre bem-vindos... Costumes e costumes”, refletiu Marcos, captando o cheiro suave de incenso que se misturava ao aroma do salão.
De todos os reinos de Orbe, Pélago era o mais distante e aquele com a cultura mais estranha. A começar pela roupa, em geral tecidos coloridos e estampados como o que Mariel trajava. “Kura... se me lembro bem é esse o nome...”, uma vestimenta típica de Pélago que variava nas mais incríveis formas e cores. Consistia em uma espécie de túnica em seda ou linho com costura inteiramente vertical ou com saída lateral do lado esquerdo ou direito, seguindo para a vertical novamente quando encontrada no tórax. As golas sempre bordadas variavam em fechadas ou abertas e costumavam chegar ao meio do pescoço. A vestimenta costumava ser longa, alcançando quatro dedos abaixo do joelho, mas podiam ser encontrados modelos menores, “Com exceção das mangas que são sempre longas na extensão dos pulsos”.
A parte de baixo consistia em um tecido do mesmo material da túnica, que era enrolado até que tomasse o aspecto de uma calça. “Dá um certo volume na perna, mas afina ao chegar no tornozelo...” concluiu Marcos ao observar, “Quanto aos sapatos...” meio abertos, podendo ser pontudos ou não, completavam o traje com um toque exótico.
“Percebe-se que é bonito, ainda que estranho, e combina bem com essa coroa”, pensou Marcos ao olhar para o objeto. Diferente da que usava, a de Mariel estava toda grafada no antigo idioma pelga e não tinha nenhuma parte sobressalente.
“Serve-lhe mais como uma tiara.”
— Não me importo. Mas falemos dos vivos agora. Ainda não vi sua família, eles vieram? — perguntou Marcos.
— Sim, eles vieram, mas sabe... uma viagem longa. Aleyah é pequena, ainda não está muito habituada — disse da melhor maneira que pôde, com seu sotaque áspero e voz rouca — Mas em breve chegarão. E quanto à sua família?
— Percebe-se que logo mais estarão em nossa presença. A propósito, lamento sobre Lorde Osmar... Pelos rumores que ouvi parece ter sido trabalho da Morticínio...
“Que expressão medonha”, Marcos observou depois de falar o nome do grupo de assassinos. “Se bem que em seu lugar também ficaria assim...”.
— Tão rápido assim? — disse Mariel com o cenho carregado — Rumores viajam numa velocidade incrível mesmo... Bem, não há dúvidas de que foram eles, e como sempre nenhuma pista. Se não se escondessem em Afogueado já os teríamos levado a cabo há muito tempo.
“Percebe-se como isso é surpreendente, afinal não conheço mais ninguém que possa sobreviver naquele deserto vermelho”.
— Vejo claramente a ameaça que eles representam, é fato que já deviam ter sido eliminados há muito tempo.
— Compreendo seu pensamento, Marcos Exporiam, mas estamos falando da Morticínio, os contos e relatos que lhe chegam não fazem muito senão... — parou para tossir, tomando um gole do vinho que já começava a se tornar morno — Desculpe — completou. — Como dizia, você só irá entender o quão problemáticos eles podem ser quando for confrontado por eles. Agradeça que o resto de Orbe os considere Kra-gulz a serviço de Tetros e por isso não fazem contratos de morte, mas não se engane, Senhor Marcos Exporiam, a Morticínio não ficará restrita a Pélago para sempre, ainda mais com a tempestade que se aproxima...
“Exatamente o que foi isso?”, Marcos sentiu um arrepio correr-lhe pela espinha com as últimas palavras de Mariel. “... A Morticínio não ficará restrita a Pélago para sempre.”.
Olhou fixamente para os olhos pardos e um pouco puxados do monarca, tentando decifrar: “Exatamente o que você quis dizer com isso...?”
CENA 10
Discurso
Nunca pensou que viveria tanto; já estava com setenta e seis anos e ainda tinha algum vigor.
“Embora a maior parte dele já tenha me deixado há muito tempo”, mas isso não era importante, contanto que pudesse se mover sozinho, descer e subir escadas não seria um problema.
“O que realmente importa aqui é a mente...”, e dessa fazia uso há três gerações, começando com Ariel Meneai, seguindo com seu filho, Henrique Meneai, e chegando ao neto, Felipe Meneai.
“Garoto promissor, se seguir os passos dos outros viverá bem...”, olhou-o enquanto se dirigia para o parapeito do segundo andar do salão. De lá, podia ver todos os convidados e assim dar o anúncio que tinha.
“Vamos ver como as coisas se seguem agora...”.
Era uma noite fria para um dia quente como aquele, o ar trazia um leve cheiro de folhas secas e fumaça distante, misturado ao som distante das conversas animadas e passos no salão. “Mas assim é Capital... Oitenta? Ou talvez cem?”, não sabia ao certo, mas não passaria disso.
Olhando-os dali de cima, podia ver como variavam os povos de Orbe, os trajes coloridos refletiam sob a luz das tochas, e o murmúrio animado misturava-se ao som distante dos músicos. “Muitos dos Reis de Orbe estão aqui...”, definitivamente não poderia haver situação melhor, ainda assim, muitos não gostariam de ser deixados de fora”.
Preparou-se para chamar a atenção para si, embora a maioria dos olhares já estivesse sobre ele.
“Não poderia ser diferente, afinal se um homem velho vestido em uma túnica cinza estivesse me olhando como estou os olhando, é certo que já estaria encarando-o há muito tempo...”
— Senhores de Orbe! — falou no seu tom mais grave e alto — Gostaria de chamar vossa atenção para o Rei de Capital, Felipe Meneai! — terminou saindo enquanto cruzava com Felipe, que lhe deu um pequeno sorriso. Parou um pouco atrás dele enquanto o esperava começar a falar.
— Espero que estejam gostando do baile, pois foi feito para vocês! — Felipe pausou um instante para observar os sorrisos dos demais e as expectativas de outros, enquanto o aroma doce dos incensos preenchia o ar — Sei do esforço que fizeram para estarem presentes nesta noite e por isso me esforcei para fazer deste um evento memorável. Ainda que quisesse terminá-lo com vocês, sinto em ter que me despedir; há um evento ainda que esta noite terei de comparecer, acho que podem ouvi-lo daqui. — parou para escutar a gritaria do festival ao longe — Entretanto, o baile ainda continuará, e estendo um convite para todos os Reis de Orbe que desejarem ficar aqui em Alto da Colina... E antes que me esqueça, uma última coisa. Convoco a presença dos Quatro Poderes e dos Sete Pilares para uma Reunião Gama a ser realizada amanhã, pelo meio da tarde.
Nesse ponto, não seria sensato continuar. A explosão de murmúrios ali tornara-se obscena e a expressão da maioria era de espanto; podia ver tudo de onde estava, mas o que realmente lhe interessava era Felipe, que os olhava sério.
“Ainda tão jovem para um rei, vinte e um ciclos completos, mas forte. E isso, no momento, é tudo o que importa”.
— Se me dão licença, terei de sair agora, aproveitem a noite. — Felipe concluiu ao se virar depois de dar o início para que a música voltasse.
— Os deixou muito apreensivos, Majestade, imagino toda sorte de coisas que irão pensar... — Fernando disse ao tomar lugar ao lado de Felipe.
— Acha mesmo, Fernando? Bem, não fiz por mal, ainda assim foi algo divertido — comentou com um grande sorriso.
“Divertimento isso ainda pode vir a ser problemático...”
— Mas me diga, como lidará com a ausência de Atur Kaiser e os Tanos Rickon e Manuelk? — por um momento ficou sem palavras ao ver a aura sombria que envolveu Felipe.
— Bem, quanto a isso, seguiremos sem Atur, Rickon será substituído por Rober e Manuelk por Alek. Você sabia que Balázios está nesse exato momento sitiando a capital de Divisar?
Não pôde deixar de se surpreender. “Pelo Senhor da Estrela! Se as coisas não estão tomando o rumo de Tetros...”
— Quem lhe informou sobre isso?
— Rober. Foi a resposta para a ausência deles. Disse que já estavam em marcha quando os convites chegaram...
“Sem nenhuma notícia... muito estranho, deveríamos ter ouvido algo sobre isso!”
— Entendo, mesmo assim foi uma sábia decisão substituir Manuelk pelo filho. Quanto a Rober por Rickon...
— Sei o que quer dizer, mas não poderia prosseguir sem o comparecimento dos dois Tanos de Balázios, já estaremos sem o Rei!
— Isso é certo, Majestade. — “Desastroso sim, mas certo” — Neste caso, oremos a Trinos para que ilumine nosso caminho com sabedoria.
“Afinal, o que mais podemos fazer?”
— Que seja como disse, conselheiro. Ainda assim, tenho o festival para prestigiar hoje. Esta coroa pesa... — disse ao ajeitar o objeto na cabeça.
“Sim, todos os Reis antes de você também achavam isso, só espero que não venha a ser esmagado por ela...”
— Um conselho, Majestade, nesta reunião você estará sozinho, precisará de apoio. Sugiro que faça isso por meio de Maestria.
— Seria algo bom, mas como sugere que eu faça isso, conselheiro? — perguntou com grande atenção enquanto cruzavam o jardim, onde o cheiro fresco da relva molhada pela noite lhe trouxe um breve alívio.
— Talvez devesse conversar com o Príncipe Alexander, imagino que ele possa ajudá-lo nisso...
— E por que acha isso?
— Se tivesse que dizer, diria que é porque ele me lembra muito o avô. É uma pena que teve um triste fim daqueles.
— Sim, imagino que nenhum Rei deveria morrer caçando... Mas levarei seu conselho em conta, trocarei algumas palavras com ele amanhã.
— Neste caso, só nos resta esperar para ver como os dados irão cair...
CENA 11
Conflito
Sua irmã conversava com o primo enquanto a carruagem seguia para a casa de Octavius, e Rober não fazia a menor ideia do assunto.
Aquele vinha se mostrando um dia extremamente difícil de lidar.
“Começando com a estrada... e aquele garoto.”
Descobrira a farsa pouco antes de partirem para o baile, quando se dirigia à cozinha e acabou ouvindo os criados mencionarem a atitude estranha de Octavius e do mais novo criado baláziano que ele tinha adquirido, e como ele o favorecia sem nenhum sentido — além das várias teorias para isso.
Em outra situação, teria saído o mais rápido possível dali, mas com as responsabilidades que tinha a cumprir, não seria possível. Logo, precisava de informação para entender o que estava se passando. Para conseguir isso, contratara discretamente um homem para seguir Octavius e o menino.
A respeito de Octavius, obtivera pouca informação: o nobre passara o restante do dia no escritório, sem receber ninguém. Quanto ao menino, o homem contratado deveria apresentar seu relato pouco antes da meia-noite.
Sua primeira teoria era que o menino estivesse, de alguma forma, ligado aos bandidos.
“Mas isso não faz o menor sentido. Caso contrário, por que ele teria nos ajudado?”
Bem, na realidade, poderia pensar em alguns motivos para isso: “Provavelmente era maltratado, forçado, viu uma oportunidade melhor...” Ainda poderia pensar em muitas outras, mas isso não o levaria a lugar nenhum, pelo menos não depois do garoto ter se curvado à maneira baláziana na estrada...
“Então você realmente sabia quem nós éramos!”
A ideia era absurda. Apenas Atur Kaiser, Manuelk Berifor e Rickon Mester sabiam que eles iriam a Capital. Fora algo decidido depois de receberem os convites para a coroação, embora tivesse contado outra história a Felipe Meneai. A verdade era que tudo fora cuidadosamente planejado. Quando os convites chegassem a Balázios, os outros reinos já estariam a caminho de Capital.
“Não poderiam receber nenhuma mensagem até chegarem lá”, e esse seria o tempo que Atur teria para sitiar Neão.
“Um belíssimo plano... ou pelo menos era, até o anúncio dessa Reunião Gama!”
Suspirou cansado. Em todo caso, teria que resolver o problema do garoto antes de se preocupar com a reunião. E, considerando todas as possibilidades, ainda que a ideia fosse absurda, era a única que poderia explicar tudo de uma forma racional.
“Embora não explique nada sobre como Octavius entra nesta história.”
Segundo o que pôde descobrir, Octavius, como todos os nobres de Capital, estava ligado ao comércio e, nos últimos anos, vinha tendo grandes lucros com sua companhia mercantil.
“Mas isso não me diz nada, só que ele de fato é um nobre.”
Suspirou novamente.
“Espero que o homem que seguiu o garoto tenha informações melhores.”
— Algo errado? — perguntou a irmã ao seu lado, com curiosidade.
— Bem, minha irmã... — disse assumindo um ar sombrio — isso é algo que ainda vou descobrir...
— Sabe, Rober, você não precisa se preocupar tanto com a reunião amanhã. Vai correr tudo bem — falou de modo conciliador Alek, diante da repentina mudança de humor do primo.
Poderia tê-lo respondido, mas a visão da casa de Octavius indicava que era o momento de se separarem.
— Tenho alguém que preciso encontrar. Vocês, por favor, me esperem. Não irei demorar.
— Algo com que eu deva me preocupar? — perguntou Alice, um tanto aflita.
— Poderei responder quando voltar — respondeu à irmã, de modo afetuoso.
— Tem certeza que não quer que eu vá com você? — indagou Alek, de uma maneira que não imaginaria o primo abrindo mão de sua ajuda.
— Tenho, é algo muito simples, na verdade. Quando voltar, falaremos a respeito. Agora preciso ir — disse ao descer antes que mais perguntas surgissem, para então seguir rumo à praça central.
“Bom, veremos o que descubro.”
Abriu a amarra do punhal que levava preso embaixo do sobretudo.
“Melhor prevenir desta vez”, concluiu ao tomar o beco.
Quando já não estava muito longe da Catedral da Estrela, fora pego de surpresa.
— Bem, não era você quem eu pretendia encontrar... — falou ao garoto sentado nas escadarias, numa parte escura a uns doze corpos de distância.
— Bem... — o garoto disse, abrindo um sorriso — Ele teve um compromisso muito importante, de modo que me pediu para encontrar com você em seu lugar — concluiu, olhando para os três sinos no alto da catedral.
— Se é como diz, imagino que você me deva algumas respostas.
— E o que te faz pensar isso, ‘nobre’? — disse a palavra de forma vomitada enquanto o fitava repulsivamente.
— Ora, vamos... — disse com um sorriso no canto do rosto, tentando manter a calma — Você não está sendo ingrato? Afinal, não transportamos você em segurança sem receber nada em troca?
— Hunff... Não diria totalmente em segurança, mas bem, vou bancar uma fada das neves e te dar três respostas — disse, olhando os sinos — Pense bem nas que fará.
“Fada das Neves? Está mais para um Kra-gulz...” pensou ao olhar os olhos malévolos do menino.
— Me diga qual a participação de Octavius nisso.
— A de um cão que segue as ordens de seu dono. — suspirou em tédio, ainda fitando os sinos — Próxima.
A atenção que o garoto estava dando aos sinos estava o incomodando. Se fosse analisar a situação, por que o menino não tinha fugido? Afinal, ele já sabia que fora descoberto.
“Por que vir se encontrar comigo?”
De repente, sentiu um arrepio em toda a espinha.
— Por que você não fugiu? — perguntou só para ver o garoto voltar sua atenção para si, com uma expressão de cansaço. Tinha certeza de que não iria gostar do que viria a seguir.
— Muitas pontas soltas — disse, com visível estresse.
— O que isso significa? — Rober perguntou num impulso.
Tooooooom... Toooooom... Tooom... Soaram os sinos.
Rober rapidamente foi levado ao encontro dos olhos do menino, que abria um sorriso no rosto.
“Maldito! Era isso que você estava esperando!”
— E acabaram as perguntas, bem como nosso tempo — o garoto disse numa voz inocente e dissimulada — Quanto à resposta... significa que, dentro de alguns instantes, uma garrafa de vinho será servida a todos na sala e, é claro, que ela contém veneno. Imagino que você sabe o que vem a seguir...
— Você está mentindo! — disse ao puxar o punhal. Pôde ver os olhos do garoto presos na arma. De alguma forma, o menino parecia se divertir com tudo aquilo.
— Você julga mal a situação, ‘nobre’. Como você mesmo disse, por que vir ao meu encontro?
Rober entrou em choque. Estava claro que o que o garoto pretendia era impedir que a única pessoa que tinha descoberto sua farsa voltasse antes da hora para casa.
— Pelos demônios do gelo, quem é você?
— Quem eu sou? — repetiu a pergunta para si de modo inocente, depois voltou-se para o nobre à sua frente com um sorriso maligno — Sou um fantasma de guerras passadas que voltou pela sua vingança, mas não deveria perder tempo comigo, você já perdeu seus pais, imagino que não queira perder sua irmã também — completou com um sorriso.
“Maldito! Maldito!”
— Ainda iremos nos encontrar, garoto, e quando isso acontecer vou me certificar de destruí-lo! — concluiu enquanto se preparava para correr em direção à casa de Octavius.
— Não tenho dúvidas disso, ‘nobre’. Afinal, você é de Balázios. Um último aviso: seria sábio encontrar as ‘coisas’ no quarto de Alice — terminou enquanto sumia numa viela.
“Tenho que ser rápido, não posso me desesperar”, dizia a si mesmo enquanto corria como um louco na direção da casa de Octavius.
“Eles estarão bem, estarão, não posso me desesperar!”
Suor escorria pelo seu rosto, a respiração arfava e seu peito doía.
“Mantenha a calma, mantenha a calma!” gritava a si mesmo à medida que avançava.
“Não se desespere! Mantenha a calma!”
E então a imagem daquele dia veio à sua mente...
A carruagem seguia para Pugna, depois de saírem de Escobo. No caminho, sua irmã trocava gracejos com o pai enquanto todos se divertiam... até o primeiro grito do lado de fora.
“Bandidos!” soou o alarme de um dos guardas. Seu pai foi rápido ao sair da carruagem com sua espada, enquanto sua mãe levantava o banco em busca de uma pequena besta.
Nunca sentira tanto medo na vida. A irmã chorava enquanto os tilintares e berros no lado de fora seguiam freneticamente. Não demorou para que saíssem pelo lado esquerdo, mas a tentativa de seguir adiante na floresta acabou frustrada por dois homens que o cercaram. Sua mãe acabou com um deles, atirando-lhe um dardo na testa. Entretanto, o segundo foi rápido o suficiente para golpeá-la, levando-a ao chão.
Do outro lado, seu pai lutava contra cinco homens ao mesmo tempo. Podia ver várias feridas nele, mas não demonstrava nada. O bandido aproximou-se de sua mãe no chão e, depois de agarrar seus cabelos, a puxou com violência.
Alice estava encostada em uma árvore, chorando. Não perdeu tempo ao observá-la, apenas avançou contra o agressor numa tentativa desesperada de defender a mãe... A bofetada que recebera o lançou a uns dois corpos de distância, mas deu à mãe a oportunidade de sacar um punhal e cravá-lo na garganta do homem com uma fúria tão intensa que jamais imaginaria sentir na vida.
A essa altura, os guardas já estavam mortos, seu pai terrivelmente ferido, mas ainda lutando. Sua mãe segurou-lhe a mão enquanto ele ainda estava no chão, enquanto a irmã avançava correndo na direção dela.
“Fuja para a floresta! Corram o mais rápido que puderem... E não olhem para trás!”
Queria ter dito não, mas não conseguiu.
Os olhos azul-escuros estavam presos nele. Podia ver medo, terror neles e percebeu que aquela poderia ser a última imagem de sua mãe. O seu pai já tinha caído, mas havia levado três consigo. Mas naquele momento, não sabia disso. Não podia ver. A única coisa que via era o rosto da mãe bem em frente ao seu, até que...
A flecha atravessou a garganta dela.
Pôde ver o brilho da vida deixando seus olhos, enquanto ela vomitava sangue sobre ele.
O grito que soltou pareceu levar consigo sua voz e sua sanidade. Ajoelhado, com o rosto da mãe sobre seu colo, gritava para ela não os deixar...
E, depois de alguns segundos, já não era a mãe em seu colo, mas sua irmã.
E então tudo virou um borrão...
Fale com o autor