As Crônicas da Tempestade
9 Capitulo 8 - Uma nova missão
Notas iniciais
Capítulo 8 — Uma nova missão
Polo Norte, Tribo da Água do Norte.
A cada respiração Lana sentia seus pulmões encherem de fragmentos de gelo, na verdade seu rosto todo parecia estar preste a se tornar um picolé gigante. Ela fechou os olhos e se concentrou na missão, isso ajudava a esquecer o frio da noite e a ansiedade crescente. Mas por mais que tentasse ignorar aquelas palavras ainda ecoavam em sua cabeça: Você deveria liderar seu povo para a paz e não mandá-lo para morrer em seu nome. Você é apenas uma criança, eu me recuso a reconhecê-la como o Avatar.
Talvez ele estivesse certo, ela seria tão boa quanto os Avatares Aang e Korra? Talvez não pudesse ser como eles, sentia que sempre seria inferior a eles por mais que tentasse nunca seria o suficiente. Sentiu repentinamente vazia como se algo faltasse dentro de si, algo que perdera, mas não conseguia se lembrar exatamente o que, porém que lhe fazia falta de alguma forma.
— Senhora, os navios estão se aproximando — chamou-lhe o capitão Kajin o líder do esquadrão.
— Certo, estou pronta.
Ela se endireitou no monte fofo de neve próximo à costa onde espreitavam os navios batedores da Nação do Fogo. Eram três no total, possuíam cascos pequenos para melhor movimentação e camuflagem, além de trazerem consigo os mais novos motores silenciosos do Reino da Terra. Lana puxou o capuz branco por cima da cabeça e com um movimento suave mergulhou da costa. Logo atrás, sentiu outras oito figuras se chocarem com a água e a seguirem.
Lana formou ao redor de seu corpo uma bolha protetora onde armazenava ar e com os pés, ia chutando a água dando poderosos impulsos subaquáticos. Alguns instantes depois ela pôde ver o casco do primeiro navio bem a sua frente. Inspirou fundo e reuniu uma energia considerável, em seguida congelou as hélices do motor para atrasá-los, depois deu impulso para cima se arremessando para fora da água como uma bala de canhão caindo e rolando pelo convés do navio.
Os homens da Nação do Fogo a fitaram, perplexos por tempo o suficiente para que outra figura saltasse da água trazendo consigo um tubo aquático varrendo-os para fora do navio. Kajin piscou para ela e acenou com cabeça, se referia aos outros soldados que se aproximavam.
Lana se esquivou de uma bola de fogo com um movimento gracioso e contra-atacou com uma rajada de chamas acertando seu agressor. Lana sorriu, nada como uma boa ação para livrá-la de pensamentos problemáticos. Depois sentiu a conexão com a água do convés, a deu uma ordem silenciosa e ela se enroscou nos tornozelos dos soldados e se tornaram gelo.
Então Kajin, que já havia chegado à sala de controle e desligado os motores fez sinal para os outros navios onde outras equipes operavam. Parece que todos haviam conseguido sem incidentes inesperados. Então ele desceu e veio de encontro com ela.
— Ótimo trabalho Lana! — ele exclamou surpreso de seu plano ter dado tão certo.
Ele tirou a máscara, não deveria ter mais do que vinte e dois anos, tinha os cabelos castanhos da tribo e a pele morena exceto pela cicatriz em uma bochecha. Lana sorriu, ele era uma das poucas pessoas que a chamavam pelo o seu nome, e não apenas por Avatar.
— Mas é claro que sim, não esperava menos do próximo chefe da Tribo da Água do Norte — ela bateu em seu ombro, depois se virou para os homens presos no convés — o que faremos com eles?
Kajin sacou a lâmina que trazia na cintura e se aproximou sombrio dos soldados indefesos, havia um brilho macabro em seus olhos.
— Eu vou dizer como vai ser senhores — ele disse com sua melhor voz de comando — Eu vou prender vocês e depois os interrogarei, os que não pretendem falar, digam agora e os darei um fim rápido e indolor, detesto perder meu tempo à toa — ele se aproximou de um soldado e descansou a lâmina em seu ombro, perto demais do pescoço dele — Mas para os que pretendem dividir informações conosco eu posso assegurar uma estadia segura em nossas prisões até que essa guerra acabe. Isto é, se nos oferecerem informações úteis, se não apenas os mataremos. Então, como vai ser?
Os soldados permaneceram em silêncio.
— Sugiro que não o provoquem, esse cara é louco — Lana acrescentou depois e Kajin se virou para lhe deitar um olhar divertido.
Aos poucos os soldados largaram suas armas e se renderam.
— Então conseguiram deter os navios batedores da Nação do Fogo, e, além disso, recuperaram dois motores silenciosos do Reino da Terra e extraíram meios de informações do inimigo? — Kan ergueu as sobrancelhas para os dois jovens a sua frente — Tudo isso em apenas uma emboscada?
— Sim, senhor — concordou um Kaijin muito nervoso — Graças ao apoio do Avatar, ela com certeza nos foi de muita ajuda.
Kan arqueou as sobrancelhas para Lana.
— Vejo que foi uma boa ideia colocá-la em campo. Com as pessoas a vendo agir se inspirarão em sua imagem e receberão novas forças. Você deve conquistá-los com suas ações além das palavras.
Lana apenas concordou com a cabeça. Você deveria liderar seu povo para a paz e não mandá-lo para morrer em seu nome. Outra vez aquelas palavras.
— Mestre não há mais como voltar atrás nisso? — Lana perguntou, sentia que não podia mais esconder isso, não aguentaria todo aquele peso sobre seu ombros — Não há mais como impedir essa guerra?
Kan se endireitou em sua cadeira, estava ficando velho demais para essas coisas dos jovens.
— Meu neto, poderia nos dar alguns minutos a sós? — ele perguntou a kajin e este se retirou. Depois continuou para Lana agora sozinhos — Está em conflito sobre nossos ideais minha cara? Fale comigo, o que a preocupa?
— Não é nada mestre, apenas tenho esperança de que possamos encontrar outra forma de resolver isso com diplomacia. Eu andei pensando sobre o Conselho das Nações e...
— As palavras do rapaz ainda lhe incomodam — ele completou com compaixão em seus olhos — Aquele garoto foi criado pelos nômades do Ar, cresceu e viveu entre eles como irmãos, devoto ao credo e aos princípios do Ar, bom, até que um dia ele foi encontrado ao lado do corpo ensanguentado de seu mentor.
— Então ele é um assassino?
Kan assentiu com a cabeça.
— Não só um assassino como um ladrão e infrator da lei, um bandido da pior espécie que aterrorizou o Reino da Terra durante anos, tamanha sua ferocidade que era conhecido como o Filho da Tempestade por trazer caos a onde quer passasse. Há quem diga que ele é a personificação viva da fúria das ventanias. Aquele garoto nasceu para destruir, por isso não entende o que estamos tentando criar.
Lana abaixou os olhos e lembrou-se do rapaz na porta do hotel em Cidade República, de como ele agredira aquele cara. Podia imaginá-lo perfeitamente arrasando aldeias e destruindo tudo que encontra pela frente, não há lugar para um homem assim no novo mundo em que deveria criar.
— Obrigado pelo esclarecimento mestre — Lana fez uma mensura e se virou para se retirar.
— Lana, não deixe de lutar pelo que acredita — Kan acrescentou enquanto a garota saia. — A única coisa que nós levamos conosco dessa vida são nossas virtudes. Viva sem arrependimentos.
De volta ao seu quarto, Lana se jogou na cama e pôs a imaginar como um bandido podia ter a capacidade de pensar ser mais sábio do que o Avatar para dizer o que é melhor para seu povo. Mas descartou a ideia facilmente, afinal quem era ele para julgá-la? Então ouviu batidas na porta. Quem poderia ser aquela hora?
— Boa noite, senhora — Kaijin cumprimentou formalmente da porta e ele não estava sozinho, com ele vinham outros dois homens. O capitão usava o uniforme completo da Tribo da Água do Norte: farda azul clara que lhe caia muito bem com quepe da marinha (principal potência da tribo) e trazia consigo a espada cerimonial na cintura. Seu rosto estava fechado em uma carranca profissional — Mestres Firion e Kan requisitam sua presença no porto. Eles pedem para que leve sua bagagem para a viagem.
— A essa hora da noite? Algo aconteceu? — Lana caminhou até a cabeceira da sua cama e começou a enfiar qualquer roupa em uma mala.
— Não fui informado da situação. minha senhora, mas creio que deixaremos a capital essa noite.
Deixar a cidade? Deveria ser algo sério para a chamarem às pressas. Lana se sentiu extasiada com a ideia de uma missão secreta. Enfiou tudo que podia em sua mochila com uma nova determinação.
— Estou pronta. — disse finalmente jogando uma mochila por cima do ombro.
Fora escoltada até o porto pelos soldados. Apesar das altas horas da madrugada, o porto que nunca dorme ainda mantinha seus trabalhadores a todo vapor carregando e descarregando suprimentos e armamentos para enviar aos diferentes lugares do fronte. O cheiro salgado do mar encheu-lhe os pulmões e Lana se sentiu mais viva.
Atracado junto a um cargueiro, se achava um discreto navio de duas velas que poderia se passar facilmente por um navio mercantil. Mas na polpa quem os esperava era o líder da Lótus Branca e o chefe da Tribo da Água do Norte.
— Boa noite, Avatar Lana, espero que não tê-la perturbado com minhas medidas de segurança — disse mestre Firion quando a jovem se aproximou.
— Não esperaria menos do senhor, mestre. Sempre cheio de mistérios. — Ela respondeu gentilmente — E então qual o motivo dessa convocação?
Firion franziu o cenho, era o código dele que Lana conhecia como "aqui não, agora não".
— Falaremos sobre isso depois que partimos, temos uma longa viagem até nosso destino.
No dia seguinte ela foi convocada novamente para uma reunião com mestre Kan e Firion. Ela estava a caminho quando esbarrou em alguém no estreito corredorzinho entre as cabines.
— Se você foi chamada também acho que não estou encrencado — Kaijin falou enquanto coçava a cabeleira, sua barbicha rala se formou em um sorriso menos formal do que da noite anterior.
— Tem algum motivo em especial para pensar o contrário? — ela provocou.
— Eu poderia passar o dia todo lhe contando o quanto eu sou mau, mas não é uma boa ideia deixar mestre Fírion esperando.
Lana sorriu para ele e ambos seguiram para a cabine principal da Lótus onde mestre Kan e mestre Firion os esperavam impacientes.
— Vejo que conseguiram encontrar o caminho, embora sejam muito bons em fazer os outros esperarem — disse mestre Firion em tom repreensivo — Temos assuntos importantes para tratar.
— Que assuntos seriam esses, senhor? — Kaijin indagou ao fechar a porta para que tivessem privacidade.
Firion o olhou de soslaio como se dissesse "ainda está aqui?", mas continuou de qualquer modo ignorando-o.
— Em alguns dias nossos aliados da Nação do Ar irão liderar um grande ataque coordenado a capital do Reino da Terra, a grande Ba Sing Se, com o intuito de fazer da família real de refém. Não pediram nossa participação muito menos nossa benção, mas ainda é uma oportunidade.
Kaijin assentiu com a cabeça, mas franziu o cenho, era uma tática suja porem efetiva para tomar a cidade ou até mesmo o próprio Reino da Terra sem arriscar vidas tribais.
— Segundo nossos espiões, a Rainha da Terra carrega o herdeiro do trono. Usaremos isso a nosso favor, sem seu herdeiro o rei não terá escolha se não ceder.
— E que espera que façamos mestre? — o Avatar perguntou.
Firion assumiu uma expressão de prazer. A expressão que usava sempre que tinha algo grande em mente.
— Quero que roubem-na para mim bem diante do nariz ganancioso de Yako.
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