As Crônicas da Tempestade
10 Capitulo 9 - Invasão a Capital Parte 1
Capítulo 9 — Invasão a Capital Parte 1
Reino da Terra, Ba Sing Se.
As flores desabrochavam delicadamente deleitando-se das primeiras brisas quentes da primavera balançando os galhos de cerejeira, dando um brilho majestoso aos jardins do Castelo da Terra. Sob as sombras refrescantes das árvores rosadas descansava a mulher que carregava o herdeiro do Reino da Terra a observar por além das muradas do castelo, deixando por um instante o seu posto de rainha para ser apenas mais uma vez um espírito livre.
Por trás de si ela pôde notar seus novos guarda-costas se aproximarem com certa timidez. Os dois formavam uma dupla incomum, até estranha para dizer a verdade, quase como se pegassem dois opostos e os colocassem juntos. A primeira era uma mulher não muito mais velha do que ela, um ano ou dois talvez? A rainha gostava dela, achava bonitos os olhos dourados como se ardessem em seu interior, uma das joias da Nação do Fogo, no entanto ela sempre mantinha seus cabelos negros presos em um rabo de cavalo e bem mal cuidados, e isso era bem pouco feminino em sua opinião. Mas o que esperar de uma militar?
Já o segundo era o problema. Ela o observou quando se aproximou, ele tentava ajeitar seu novo uniforme de guarda-costas, mas o máximo que conseguia era deixá-lo mais amarrotado. Ele não parecia ter mudado nada nos últimos quatro anos, ainda parecia o rapaz que conhecera nas terras de seu pai em Zaofu durante sua adolescência. E lá estava ele com seus cabelos castanhos escuros que pareciam ter sido cortados com uma faca cega e seu olhar entediado de praxe. Mas Laya não se deixava enganar pela expressão do rapaz, ela podia sentir a mágoa e frieza com que a tratava. Por mais que negasse ainda doía tê-lo por perto outra vez, mas também se sentia aliviada, saber que ele estava vivo e bem era mais do que merecia. No entanto, já não havia mais lugar para a jovem Laya, ela agora era a Rainha da Terra e os sentimentos de um soldado não lhe diziam respeito.
Já se completara duas semanas desde a chegada deles e as coisas andavam calmas no castelo, coisa que não podia se dizer o mesmo no fronte que ficava cada vez mais sangrento a cada dia que se passava. Apesar do que diziam dela na corte de seu marido, Laya não era uma rainha leiga e se interessava bastante sobre o que acontecia em seu reino. Frequentemente lia as cartas que seu pai enviava para seu marido e assumia a cadeira real nas reuniões do Parlamento quando o rei as ignorava abertamente, o que infelizmente acontecia com mais vez do que todos gostariam. Ela não pedira por esse cargo, mas faria de tudo para mantê-lo pelo bem de seu filho.
— Minha senhora está anoitecendo, é melhor que entremos — sugeriu a capitã Lian Fu.
Rainha Laya se levantou do banco hesitante como se seu único ponto de fuga pudesse escapar-lhe por entre os dedos. Odiava estar tão desajeitada e tão gorda, imaginava se fora assim que sua mãe se sentira quando a carregara na barriga e não pôde deixar de sorrir, gostava de imaginar que sim. Completaria em poucos dias sete meses de gravidez e sentia como se seu bebê fosse uma bomba relógio a ponto de explodir.
— Claro... Vamos entrar — ela respondeu distante
A rainha fora escoltada de volta aos seus aposentos pelos seus guarda-costas. Nesses tempos tão tempestuosos de guerra, era perigoso manter o rei e a rainha no mesmo cômodo, por ordens do rei, a rainha teve de ser movida para um novo quarto, o qual não ficava a mais de dez passos dos aposentos dos seus guarda-costas.
— Espero que não a tenhamos aborrecido, minha senhora, mas devido as circunstâncias, o rei insiste que a senhora seja recolhida ao escurecer — Lian Fu a informou quando chegaram as portas dos aposentos.
A rainha podia perceber o cansaço na voz da outra, depois de duas semanas de constante vigilância, a capitã parecia estar em seu limite. Bem, uma mulher pode sempre dizer o que se passa com a outra, e como era uma rainha, sabia muito bem como ler as pessoas.
— Isso é tudo, volte aos seus aposentos e descanse, capitã. Se houver algum problema eu os chamo. — Ela ordenou por fim. A oficial assentiu.
— Dalai estará aqui fora, caso venha acontecer qualquer coisa apenas grite — Lian Fu a informou e depois de fazer uma reverência ela se foi deixando apenas os dois no corredor.
Por um momento tudo o que os dois fizeram foi se avaliarem, era a primeira vez que ficavam sozinhos depois de anos.
— É melhor que entre — Dalai quebrou o silêncio, mas suas palavras soaram mais ásperas do que esperava.
Laya recuperou a compostura e se precipitou a porta, no entanto parou com a mão a maçaneta, congelada. Sentia-se decepcionada? Esperava por algo mais? Já não podia mais fantasiar como uma garotinha estava no mundo real, existiam regras.
— O que esperava que eu fizesse? Pedisse desculpas? — ela se viu falando, odiava esses malditos hormônios.
Mas ele continuou inflexível e por um momento seus olhos se desviaram para sua barriga.
— Não sei do que está falando. Não deve desculpas a ninguém minha senhora — ele respondeu indiferente — Guarde-as para quem precisa.
Laya se virou para olhá-lo nos olhos, não restava nada neles, estavam vazios.
— O que fizeram com você em Valu? Pensei que estivesse morto! — ela disse baixo o suficiente para apenas os dois.
— Não por falta de tentativas, senhora. — Ele respondeu à altura — Não depois do primeiro ministro fazer o possível para que eu desaparecesse. Bom, posso entendê-lo, ele não queria a filha dele com um fora da lei, não é? Não quando se pode casá-la com um rei. Afinal, sou apenas um criminoso e devo ser mantido em cativeiro.
Laya cerrou os dentes e acertou-lhe um tapa. Sem dizer mais nenhuma palavra, entrou em seus aposentos e trancou as fechaduras. Afastou as lágrimas dos olhos, magoada, tratou de se recompor. Era uma rainha e logo seria mãe, não era bom que tentasse remoer o passado. Com um aceno dispensou as criadas que saíram em silêncio pela antecâmara. Laya afastou a porta da janela, parou no terraço do quarto e olhou as estrelas que enchiam o céu noturno, rezando, implorando por uma resposta para suas dúvidas.
A madrugada se arrastava silenciosa exceto pelo som da cidade que nunca dormia como o de costume, quando Laya, em seus enjoos noturnos, ouviu passos em seu quarto. Desorientada, ela se levantou.
— Olá? — ela chamou para o vazio mas ele não respondeu. Então continuou a avançar pelo quarto.
As cortinas da janela estavam escancaradas. Deixara a janela do terraço aberta? Ela se perguntava quando uma mão saída das sombras tampou sua boca. Antes que pudesse se debater ela sentiu o frio do aço toca-lhe por debaixo da camisola, bem abaixo de seu ventre. Lágrimas silenciosas escorreram pelo rosto: vieram pelo seu filho.
A figura sombria a segurou forte e arrastou para a janela do terraço sem fazer qualquer barulho, era um profissional, ela sabia. Mas Laya não deixaria que levassem seu filho assim tão facilmente. Com toda força que possuía, se atirou em uma parede derrubando um aquário que se estilhaçou no silencio.
Quase que imediatamente a porta veio abaixo com um ponta pé bem dado e Dalai entrou atirando uma lufada de no invasor derrubando os dois de lado no chão de madeira. O invasor tentou alcançar sua faca que voara de sua mão quando caiu, mas antes que pudesse se mexer Dalai já estava em cima dele. O rapaz pisou em sua mão com tanta violência que se fez ouvir os ossos se quebrando. O invasor guinchou de dor e tentou algo com o pulso restante porem foi novamente impedido pelo guarda-costas que o ergueu do chão e colocou contra a parede.
— Quem o mandou? — ele perguntou faiscando de raiva. Quando o invasor nada disse, lhe acertou uma cabaçada na testa — Quem foi que o mandou bastardo? Diga logo!
Dalai enfiou a mão na máscara do desgraçado e revelou seu rosto.
— Giro? — Dalai indagou ao reconhecer o rosto do irmão da Nação do Ar. Isso não podia estar certo, não podia ser mesmo verdade, até ele havia traído o credo?
Giro arquejou e sorriu.
— Yako mandou você? Como ele ousa a passar por cima do credo dessa forma!
— Estamos em outra era Dalai, não precisamos das limitações do credo, nós criaremos um novo credo!
— Não pode nos deter Dalai, outros virão no meu lugar — ele arquejou — A vitória nos espera, chegou a hora de expurgar os impuros e subjugar os pecadores! Chegou a vez da Nação do Ar criar um mundo melhor! — ele exclamou e então abocanhou algo em seu ombro. Uma pílula de veneno.
Dalai ficou a observar impotente enquanto seu irmão se debatia e convulsionava freneticamente até finalmente parar.
— Descanse em paz, meu irmão, estaremos juntos novamente do outro lado. — Dalai sussurrou aos ouvidos do irmão e fechou seus olhos.
Então se virou para Laya, ele desviou os olhos de sua nudez e apanhou um lençol da cama cobrindo-a carinhosamente.
— Você está bem? — ele perguntou ajudando-a a se levantar
Mas ela continuava com os olhos vidrados no cadáver morto do monge. Ainda tremia só de pensar naquelas pessoas terríveis.
— Eles queriam levá-lo, Dalai, queriam o meu filho.
— Olhe para mim! Isso não vai acontecer! Eu não vou deixar, me ouviu?
Ela o envolveu nos braços e não pode conter os soluços. Se não fosse por ele teriam levado seu bebê, se não fosse por ele poderia ter morrido, uma vez mais ele a salvara. Então outra figura irrompeu na porta, uma Lian Fu ofegante e pronta para a ação.
— O que aconteceu aqui? — ela perguntou totalmente surpresa, ainda mais com intimidade dos dois. — Eu ouvi sons de luta...
Dalai soltou sua senhora delicadamente e ajeitou os lençóis ao seu redor e disse para sua parceira:
— Parece que a Nação do Ar nos fez uma visitinha — e gesticulou para o corpo caído no chão.
— Deuses — ela franziu o cenho — Você o matou?
— Não. Ele veio preparado o para o pior.
Ela assentiu com a cabeça. Mas como ele havia entrado tão fundo nas instalações do castelo? Como eles poderiam saber em que quarto estava a rainha? Tudo isso ainda era um mistério.
— Venha comigo senhora, vamos para um lugar seguro — Lian Fu disse e conduziu a rainha para fora do quarto. Mas não antes lançar um olhar de censura para Dalai.
Sozinho no quarto, Dalai vasculhou os bolsos do irmão e encontrou um rádio, mapas e uma segunda lâmina. Isso não era bom. Ele sabia muito bem pelo seu tempo na Nação do Ar o padrão de ação que utilizavam, era sempre mandado um batedor a frente para preparar o terreno para a equipe principal. Se estivesse certo, Giro era o batedor, e logo estariam ali para finalizar o serviço.
— Estão aqui — Dalai anunciou ao Rei da Terra quando adentrou seus aposentos escancarando a porta.
E o que encontrou lá não esperava, mas também não lhe surpreendeu. Deitadas ao lado do rei duas garotas, que Dalai reconheceu como camareiras do castelo, soltaram gritinhos e tentaram cobrir sua nudez. Dalai sentia a raiva arde-lhe o rosto. Então era assim que passava suas horas livres? Com malditas camareiras?
— Quem está aqui? — perguntou o Rei da Terra em sua voz mais natural, como se não tivesse nada de errado com estar na cama com outras mulheres.
— A Nação do Ar. — ele repetiu impaciente — Enquanto sua majestade err, "se distraia", sua esposa foi atacada. E não se preocupe, ela está bem. Felizmente consegui impedir o sequestrador e pude identificá-lo como um homem do Ar.
O Rei da Terra se levantou da cama sem nenhuma vergonha, atou bem o robe verde esmeralda e se virou para o rapaz com toda sua arrogância.
— Parece que não vocês dois foram o desperdício de tempo que eu pensava, muito bem soldado. Agora me leve até minha esposa e dê o sinal par— Então foi interrompido por um tremor no chão.
Os quadros e jarros com água despencaram no chão com um barulho oco enquanto as camareiras soltavam outro gritinho. Dalai se segurou a uma coluna para não cair. E de repente o tremor cessou.
— O que foi isso? — a pergunta veio do rei.
Dalai se impulsionou para a janela e se virou para ver o céu noturno. Por alguns instantes deixou seus olhos se ajustarem a escuridão e lhe revelarem seus segredos. Vultos escuros quase invisíveis aos olhos destreinados cortavam o céu se misturando a noite, certamente homens do Ar, mas ele sabia que tinha de haver algo mais, então se deu conta do que estava havendo.
— Estamos sob ataque! Estão bombardeando o castelo — ele esmurrou a janela e, num instante, guerreiros Dai Lis surgiram da porta para proteger o seu rei — Fiquem aqui com o rei e o mantenha seguro. Tranquem as janelas e o leve para um lugar seguro. Entenderam? Eu irei ver como está a rainha, nos vemos no abrigo subterrâneo.
Sem esperar por uma resposta, ele disparou para os corredores com toda a velocidade que podia reunir.
Foi aí que veio a explosão.
Enquanto atravessava o corredor do jardim interno que dava ao outro lado do castelo um vulto escuro se aproximou e soltou a bagagem que carregava. A explosão o arremessou pelo ar e o jogou na pequena lagoa do jardim como uma bala. O vulto pousou a cerca de cinco metros de distância.
— Hora de acertar as contas, traidor! — a figura encapuzada gritou.
Dalai apenas levou a mão a cabeça e sorriu ao ver o sangue quente escorrendo. Deu um tapa em cada ouvido e sacudiu a cabeça para se certificar de que ainda estava inteiro.
— Manda a ver! Ataque-me se tem coragem!
A figura cerrou os dentes e atacou em arco com um chute mandando uma massa de ar no fora da lei, mas Dalai se esquivou facilmente do ataque com um bom jogo de pés.
— Vou dizer apenas uma vez: saia do caminho — Dalai ordenou ao homem.
No entanto, a figura permaneceu parada, provocando-o. Ao redor podia-se sentir os tremores das outras bombas explodindo e sobre as muradas percebia-se o laranja das labaredas se espalhando sob o coro dos gritos dos Dai Lis lutando contra os invasores e atirando pedras nos que ainda bombardeavam o castelo. Dalai apagou uma chama em seu ombro e avançou.
Foram dois golpes em série, dois socos velozes carregados de ar que foram rapidamente desviados e em seguida um chute médio na altura do peito do inimigo. Mas o dominador de ar se esquivou com um rolamento e contra-atacou com uma lufada cortante em direção ao rosto de Dalai, este que a dissipou com as mãos. Não importava o que tentasse, ele não parava de vir.
Dalai trabalhou com os pés e começou o gingado, estava cansado de perder tempo. O inimigo, confiante de suas habilidades, aproveitou para um ataque corpo-a-corpo com as palmas das mãos. Dalai se esquivou ao mesmo tempo que o acertou com o calcanhar em um chute invertido com a perna esquerda em suas costelas lhe roubando o ar dos pulmões.
Dalai pulou e desferiu outro golpe de cima para baixo. mas o inimigo o evitou no último segundo. Com a mão livre, o dominador de ar sacou a lâmina em sua perna e atacou. Dalai agarrou a mão do oponente, apertou o seu pulso para que largasse a arma e o jogou por cima do ombro.
— Não serei eu que vai ser derrotado hoje — Mande meus cumprimentos a Yako — Dalai rosnou no rosto do irmão e lhe acertou um soco munido de ar.
Arfante, Dalai tocou as costelas, pelo menos três quebradas durante a explosão. Engolindo a dor, continuou até os aposentos da rainha onde encontrou Lian Fu na porta lutando contra dois irmãos do Ar, e os vencendo.
Lian Fu atacou o primeiro com uma pequena fagulha nos olhos, o cegando e por fim mandando uma bola de fogo em seu peito, bem a tempo de evitar por pouco o ataque do segundo. Em seguida ela tomou impulso na parede do corredor e deu uma cotovelada entre os olhos do inimigo.
— Dalai! Onde esteve? Estamos sob ataque!
— Eu sei, onde está Laya? — ele respondeu adentrando o quarto
— A rainha está nos fundos. Você está sangrando, está ferido? — Lian Fu lhe perguntou por cima dos ombros
— Esses arranhões? Com quem acha que está falando? Isso não é nada! — ele respondeu abrindo a porta dos fundos.
Laya estava sentada em uma das camas respirando forte e descontroladamente. Dalai se aproximou e tocou seu rosto delicadamente e ela se virou para olhá-lo e seus olhos se arregalaram mais ainda.
— Laya temos de ir, aqui não é seguro — ele a ajudou a levantar, mas via que ela ainda hesitava, temia pelo seu filho, ele sabia — Nós a levaremos para junto do rei em um lugar seguro no subsolo. Lá as bombas não farão efeito. Vamos.
Ele a pegou pela mão e os três saíram para o corredor derrubando qualquer dominador de ar que se aproximasse. Em pouco tempo chegaram ao jardim onde os esperava a última pessoa que Dalai desejaria naquele momento.
— Leve a rainha daqui — ele ordenou a Lian Fu — Eu cuidarei do Avatar.
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