As Crônicas da Tempestade
15 Capitulo 14 - Velhos amigos e novos inimigos
Capitulo 14 — Velhos amigos e novos inimigos.
Bee Wan, Reino da Terra
Dalai se remexeu inquieto na cama. Frustrado, socou o travesseiro na tentativa de amaciá-lo, em seguida fechou os olhos novamente. Não vai dar, de novo, concluiu após dois segundos. Desde que se entendia por gente tivera problemas em dormir, embora atualmente este problema estivesse vinculada aos pesadelos que o atormentavam. Só de fechar os olhos ele o via. Via os olhos vidrados a encará-lo, ouvia suas últimas palavras e sentia seu corpo sem vida em seus braços. Até quando vai perder seu tempo me assombrando Iann?
Dalai crescera um órfão em Cidade República, a maldita capital lhe ensinara tudo que precisava saber para sobreviver quando menor, sem dúvidas sua dominação o ajudara em muitos furtos. Bem, até o dia em que roubou a pessoa certa. Mestre Iann não ficara radiante em ser roubado e lhe dera uma bela surra aquele dia, apesar de ser um monge do ar tinha um temperamento bem difícil e mãos bem pesadas para um coroa de 60 anos. Agora que via as coisas de outra forma, imaginava se não fora esse temperamento que os aproximara tanto.
Mestre Iann o recolhera e o levara ao seu lar no Templo do Ar do Oeste onde lhe deu comida e o que vestir e o chamou de aluno. A princípio os mestres do ar não haviam ficado muito contente com sua vinda, afinal não passava da escória da capital e, na época, os dominadores de ar geralmente vinham de famílias de dominadores de ar puras. Mas Iann enxergava seu talento, foi o único que realmente quis ensiná-lo.
Com o passar dos anos Dalai rapidamente ultrapassou seus companheiros que, se já não tinham motivos o suficiente, passaram a odiá-lo ainda mais. Iann o ensinou a arte do ar e lhe moldou de acordo com o credo dos monges do ar originais. Embora os dois tivessem um relacionamento difícil e brigassem o tempo todo, o velhaco fora o mais próximo de um pai que Dalai tivera.
Talvez os pesadelos fossem uma forma de poder revê-lo.
Sem muitas alternativas, Dalai se esgueirou para fora da cama e abriu a janela para deixar a brisa da noite entrar. O cheiro de areia e mijo se revelara uma boa distração para sua melancolia. No andar abaixo as luzes do bar de Mizu, o Tartaruga de Jade, ainda fervilhava com o canto dos bêbados que comemoravam a vitória de uma corrida que ocorrera mais cedo no deserto. Dalai gostaria de ter ido vê-la, fazia tempo que não assistia uma, e nada era mais divertida do que ver uns caras destruindo uns aos outros.
Dalai olhou para seu prisioneiro que dormia como pedra na cama de cima. Imaginava como ele conseguia dormir algemado à cama, e por um momento sentiu inveja daquele nobrezinho meia boca. Em busca do que fazer, ele desceu para o bar.
Mizu corria de um lado para o outro preparando bebidas e atendendo clientes impacientes. Uma vez outra recebia uma cantada ou era alisada por uma mão boba de um aproveitador. Quando acontecia ela geralmente ia buscar o “educação”, o velho facão de caça dos velhos tempos.
— Dalai me dê uma mão aqui! Minha garçonete está dando à luz e estou sozinha hoje. Já que está dormindo aqui de graça ao menos trabalhe! Não me olhe com essa cara, não estou pedindo.
Talvez ter ficado quietinho no quarto tivesse sido uma ideia melhor. Mas ele não era tão louco a ponto de dizer não para Mizu, quando ficava realmente zangada podia ser uma mulher terrível. Sem muita escolha começou a servir as bebidas e até mesmo recebeu algumas alisadas, que é claro retribuiu com uma pancada.
Algumas horas depois, próxima à alvorada, após o último cliente ir embora cambaleando, Mizu se jogou em uma cadeira e suspirou cansada.
— Você faz isso todos os dias? — Dalai indagou enquanto trazia um copo de água e alguns biscoitos.
— Nem todo mundo tem a sorte de tirar férias na cadeia. Alguns de nós temos de trabalhar para sobreviver — ela atirou e se serviu de um biscoito. — Deus! Eu tenho de jogar essa porcaria fora!
Dalai riu, um riso de verdade.
— Senti falta desse seu humor ácido sabia?
— Os guardas não eram tão divertidos?
Dalai se sentou ao seu lado.
— Nem um pouco, só sabiam dizer "nem tente algo prisioneiro", "não jogue comida na lava, prisioneiro", "não tente me dar um soco". Essas coisas da vida — Ele pegou um biscoito e o mordeu — Esse troço é pior que a comida da prisão!
Ela o fitou intensamente.
— Estou feliz que esteja de volta.
— Nunca abandonaria meus irmãos.
Ela desviou o olhar, decepcionada.
— É uma pena que os outros não estejam mais em Bee Wan. Aposto que gostariam de vê-lo.
— O que aconteceu com o resto do pessoal?
— Samira se casou e se mudou para a Tribo da Água do Sul, ela tem dois filhinhos lindos e trabalha nos correios — ela tirou uma mecha dos olhos — Lee foi encontrado morto em uma vala há dois anos, dizem que foi uma overdose, ele estava muito mal uns meses antes de morrer. Jen Yuu conseguiu um patrocinador e se tornou um músico famoso em Cidade república, nunca mais deu notícias nem apareceu mais por aqui...
— E o Ranko? Por onde anda aquele filho da mãe encrenqueiro?
— Ranko entrou para a polícia depois que seu irmão foi preso, foi a única forma que encontrou de ficar perto dele. Mas no fim acabou gostando e hoje é detetive em Omashuu.
Dalai não podia acreditar;
— O nosso Ranko? O Ranko que mijava nos policiais de cima da ponte Laulin? Nossa, como as coisas mudaram. — E uma tristeza acabou por assolá-lo. E o que fizera todos esses anos? Seus irmãos continuaram suas vidas e seguiram seus próprios caminhos sem ele. Foi quando sentiu a mão de Mizu na sua, ela o olhava como se pudesse ver dentro de sua cabeça.
— Nunca esqueceremos o que fez por nós Dalai, salvou nossas vidas incontáveis vezes, foi nosso herói quando precisamos. Hoje somos quem somos porque o conhecemos, e seguimos nossas vidas porque sabíamos que era isso que gostaria que fizéssemos.
Dalai sentiu seus olhos umedecerem, mas logo tossiu.
— Estou feliz que tenham conseguido ser felizes, isso pra mim já basta.
De repente a porta se abriu com um estrondo e um homem encapuzado entrou.
— Ei amigo estamos fechados — Dalai anunciou — Desculpe, mas acho que terá de encontrar ou lugar para tomar um porre.
Mas o enorme homem apenas ficou a fitá-lo, as mãozonas nervosas se remexendo junto ao corpo.
— Ei Dalai, sabe quem ele é? — Mizu sussurrou apressada, o medo em sua voz o assustou — Esse cara é o Olhos de Tigre!
— E daí? — Dalai deu de ombros. Mizu suspirou, como se a ignorância dele fosse infinita.
— E daí que esse cara é o mais forte caçador de recompensas do deserto!
Dalai o avaliou de alto a abaixo. Podia reconhecer um assassino quando via um, dava para ver em no rosto os olhos sem vida.
— Por que não se senta? Vou te servir uma bebida — o Filho da Tempestade o convidou.
Olhos de Tigre sorriu, mal podia se controlar, mas por uma presa como aquela valia a pena esperar. Qual seria seu sabor? Tomado por essa curiosidade ele se sentou à mesa e Dalai trouxe dois copos e os encheu.
— A quê brindamos? — Dalai perguntou com um sorriso no rosto.
— Que tal ao Avatar? — Olhos de Tigre sugeriu.
— Não gosto muito dele! Esse brinde é muito clichê. Que tal a algo mais divertido?
— O que tem em mente? — Anum indagou, agora tamborilava a mesa com as garras.
— Que tal ao rei do deserto?
— E quem seria esse rei? — perguntou sem tirar os olhos do rapaz.
— Por que não descobrimos? — Dalai sugeriu e ambos viraram a dose ao mesmo tempo.
A mesa veio abaixo com o murro dado por Olhos de Tigre para dar impulso para agarrar o rapaz. Mas Dalai aparou o golpe e contra-atacou com uma rajada de vento, porém o mercenário se esquivou no último segundo e recuou dois passos. Dalai olhou para seu antebraço e viu o sangue quente a escorrer.
— Mizu, pegue o Kaijin e saiam daqui! — ele ordenou para a garota que já mantinha o “educação” firme entre os dedos — peguem o satomóvel e fuja. Nos encontramos na antiga base.
Mizu assentiu e correu para a escada. Mas o mercenário não deixaria escapar tão facilmente a isca perfeita, por isso agarrou a faca que trazia na cintura e arremessou contra a garota. No entanto uma rajada de ar desviou a trajetória indo se cravar do outro lado do balcão.
— Ei! Olhos de Tigre, pensei que fosse uma luta entre dois homens. Não achei que fosse um covarde...
E Anum investiu com um sorriso perverso no rosto. Dalai se esquivou do primeiro movimento com uma acrobacia indo parar em cima da mesa onde evitou um segundo golpe com um pulo para o chão e um rolamento. Olhos de Tigre continuava a pressioná-lo com ataques constantes sem dar tempo de reação.
Dalai se viu contra a parede, seu adversário se aproximava enfurecido. Dalai armou a defesa e esse foi momento em que se arrependeria depois. Não deveria ter subestimado seu inimigo. O golpe de Anum fora uma finta que se transformou em um chute na perna e um golpe com os dois dedos no estomago do rapaz.
Dalai sentiu seu estomago se contrair de dor. Em seguida sentiu o murro no rosto.
— Mais! Eu quero mais! Vamos garoto, deixe-me ver! Deixe-me ver o monstro que arrasou a vila Guaba em uma noite! — Olhos de Tigre gritou e o arremessou por cima do balcão estatelando garrafas coloridas.
Dalai se levantou em um pulo em cima do balcão, sentia a raiva pulsar. Mandou uma rajada de vento — foi o que pensou — mas sua dobra havia sumido.
— Apenas alguns truques que aprendi no exército revolucionário, garoto! — Anum riu e investiu com um golpe horizontal.
Dalai se esquivou e pulou por cima de seu ombro do grandão para então acrescentar uma rasteira derrubando-o e começando seu gingado. Olhos de Tigre riu alto e começou a se erguer, Dalai chutou sua mão, mas o veterano já esperava por isso, agarrou seu pé e o derrubou.
Ambos ofegavam quando levantaram.
— Vamos garoto! Venha! — Anum podia sentir o sabor. Esse era o sabor de um peixe grande! Talvez quando acabasse com o garoto fosse atrás do Avatar, apostaria que seu sabor deveria ser tão bom quanto. — Talvez precise de um incentivo! — e tirou um isqueiro do bolso — É uma pena para sua amiguinha, gosto desse bar — e deixou cair. As chamas se alastraram pela bebida derramada e logo alcançaram as cortinas.
Em um piscar de olhos tudo pela qual Mizu havia lutado nos últimos seis anos se foi. Todo esforço, todas as horas de trabalho exaustivo, todo sofrimento, em vão.
— Filho da puta! — Dalai gritou e atacou com seu gingado.
O chute acertou o mercenário bem no rosto impossibilitando que ele visse o segundo chegando na mandíbula. Atordoado, Anum deu dois passos para trás. Em todos aqueles anos naquela profissão nunca havia visto aquele tipo de dobra de ar. Seus ataques imprevisíveis o confundiram, ritmado demais para ser um estilo tradicional. Ali nos confins do Reino da Terra, o rei do deserto, Olhos de Tigre encontrou seu grande alvo. Se pudesse derrotar o maior dos dominadores de ar, com toda certeza se tornaria o mais forte de todos.
— Sua vida pertence a mim Filho da Tempestade! — Anum urrou de prazer.
Nesse momento uma torrente de água irrompeu pela janela arrastando o mercenário para longe de vista.
— Vamos! Temos de ir agora! — Kaijin berrou do lado de fora.
Dalai sentiu a raiva aumentando. Quem era aquele merdinha para interferir em sua luta? Como ele podia passar por sua cabeça de peixe que em algum momento Dalai poderia perder? Quando ele estava prestes a ir atrás do mercenário seu olhar se cruzou com o de Mizu e ele soube que se continuasse a perderia para sempre. Dando valor a razão, Dalai pulou pela janela e entrou no carro com Kaijin. Mizu engatou a marcha e partiram, deixando para trás o que sobrara do bar.
Lana não conseguia dormir, não depois do que fizera. Como conseguiria? Primeira vez na vida se perguntava se ainda era uma boa pessoa. A lembrança de Ba Sing Se ainda a perturbava. A Rainha da Terra lhe suplicando para deixá-la em paz e mesmo assim ela a raptara. Alguém que sequestra mulheres grávidas ainda pode se chamar de bom?
Lana pulou para fora da cama, vestiu um casaco grosso e saiu. A lua brilhava alto naquela madrugada e poucos os vigias de plantão, então sair não fora um problema, afinal de contas ela era o Avatar e fora treinada para situações como essas. Esgueirou-se pela escuridão e se aproveitou dos pontos cegos das câmeras para avançar em seu caminho pela verdade.
Quando finalmente chegou ao seu destino viu que dois soldados guardavam a porta, teria que encontrar outro jeito de entrar. Dutos de ar, dã! Ela deu um tapinha na cabeça e saltou para o teto. Se fosse um pouco mais gordinha não caberia pelos dutos apertados, agradeceu mentalmente ao mestre Kan por sua dieta a base de frutos do mar e se esgueirou para dentro. Não demorou mais do que cinco minutos e estava dentro.
Parada dentro de sua cela a Rainha da Terra se encolhia de frio e de medo, olhos estavam inchados de tanto chorar e as mãos sangrando de tanto bater nas paredes. Aquilo não fora o que Lana esperava, em sua cabeça criara outra imagem de uma rainha. Mas o que encontrou foi apenas uma mulher com medo, encontrou um ser humano igual a ela.
Lana deixou-se cair para dentro da cela. A rainha quase pulou com o susto e já ia gritar por ajuda quando a garota a agarrou e tampou sua boca.
— Shhhh! Calma, não vou machucá-la... Ai! Você me mordeu! — ela sussurrou — Sua... Ok! Vou tirar minha mão e você não vai gritar, tudo bem?
A rainha assentiu e Lana retirou a mão.
— O que quer de mim, Avatar? — perguntou a Rainha da Terra sua voz demonstrava seu desprezo.
Eis aí a questão. O que ela queria? O que a fizera vir até aquela cela no meio da noite? O que lhe tirava o seu sono?
— Eu vim me desculpar por tudo isso, gostaria que houvesse outro jeito, gostaria mesmo...
— É isso que veio procurar, Avatar? Perdão! — a voz da Rainha da Terra de repente assumiu um tom ríspido — Por sua causa meu filho vai nascer em uma cela, por sua causa me tornei um fardo para meu país, por sua causa ele vai vir atrás de mim e vai acabar morto! Não me venha pedir perdão! Se busca satisfação pessoal não a encontrará aqui, você é tão cruel quanto Fírion e seus macacos.
Lana tentou dizer algo, mas não conseguiu rebater aquela sinceridade. Aquelas palavras a machucaram mais do que se ela apenas a tivesse batido ou xingado. A verdade, o tormento que não conseguia admitir: sua inocente se fora. O Avatar já não era mais puro.
— Ele virá, não é? Ele vem te buscar certo? — Lana perguntou timidamente — O assassino do ar...
A Rainha da Terra suspirou, infelizmente o conhecia muito bem.
— Sim, Dalai vai vir me buscar, aquele idiota!
— Meu amigo também foi capturado durante a invasão. Também vou ir buscá-lo em breve, não poderia abandoná-lo.
— Vocês são mais parecidos do que imaginam. — Laya disse — Ambos pensam que estão certos e são teimosos demais para perceber que essa guerra destruirá tudo que lutamos para construir.
— Não sou um assassino como ele! — Lana rebateu — Para construir um mundo novo precisamos destruir o antigo.
— Mesmo que isso signifique sacrificar vidas inocentes?
Lana fechou a cara.
— Essas vidas já estão perdidas nas mãos dos governantes opressores, governantes como você. É fácil ver a miséria do alto dos seus muros, não é?
— Como se você já estivesse nas sarjetas! Não venha falar sobre o que não sabe menina. Suas palavras são vazias, não tem ideia da dos horrores que estão por vir. Suma da minha cela antes que eu mesma acabe com você.
Laya a encarou com pena enquanto a menina voltava pela tubulação. Ela era apenas uma criança nesse mundo sanguinário, um peão nas mãos de Firions, e muito em breve ela se machucará, talvez por Dalai ou até mesmo pelo próprio Fírion. Mas essa guerra iria quebrá-la.
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