As Crônicas da Tempestade

16 Capítulo 15 - Calmaria antes da tempestade


Capítulo 15 — Calmaria antes da tempestade

Em algum lugar, Reino da Terra

— Não! Está fazendo errado! — Mestre Yako gritou bem perto de seu rosto fazendo chover saliva na sua cara. — Quantas vezes eu já disse, Avatar Lana, você tem que se desprender de tudo que é material, só precisa deixar de lado seus bens mundanos. Deixe o espírito ascender como uma borboleta deixando seu casulo! Sinta o fluxo do ar ao seu redor, se torne um com ele, seja ele!

A única coisa mundana que Lana queria se livrar nesse momento seria aquela maldita roupinha vermelha e amarela colante. Vestia-se como um palhaço de circo. Aquela seria a quinta vez que tentava passar pelos malditos biombos. Seja o ar? Vou mostrar quem é o ar daqui a pouco! ela pensou frustrada. O Avatar acenou com a cabeça e o ajudante fez os biombos voltarem a girar com uma rajada de vento. Lana respirou fundo e se permitiu sentir, deixou seu corpo se conectar com o ar e deu o primeiro passo acompanhando o giro, leve como uma folha, em seguida foi o segundo, seu time perfeito — até que Ba Sing Se veio à mente — e sua concentra evaporou e nem viu chegando o biombo que a acertara na testa e a mandou para fora da plataforma.

— Isso é impossível! — ela gritou impaciente, por que a dobra de ar era tão difícil? Como aquele bastardo conseguia se conectar com o ar daquela forma?

— Você precisa de paciência e disciplina. Apenas com esses dois encontrará o equilíbrio entre o corpo e o espírito. É um processo gradual.

Aprender a dobra de ar lhe pareceu uma boa ideia alguns dias atrás quando aportaram na ilha, queria estar preparada para quando Dalai chegasse. Bem, na verdade a vingança seria mais doce se o derrotasse com sua própria arma. Uma pequena vingança pessoal. Mas agora percebia a complexidade da arte, ainda mais para ela que nascera no Reino da Terra e a terra foi seu primeiro elemento. A disparidade entre as duas técnicas dava um nó no cérebro. Crescera para ser durona e não para ficar dando passinhos de ballet como uma gazela!

— Vamos! Faça novamente! — mestre Yako ordenou. O mestre insistira em lhe ensinar pessoalmente a arte do ar e seu credo milenar. Mas Lana achava que o velho mestre comedor de vegetais apenas pensava em se aproximar dela.

— Só preciso de um segundo, tudo bem? Me dá um segundo! — ela bufou e sai antes que pudessem impedi-la. Estava farta daquele velho gritando por hoje.

Lana correu para o parapeito e pulou aterrissando em um telhado de telhas de barro ao estilo tradicional, que quase desprendeu sob seu peso. Lana ergueu o rosto para ver o olhar de reprovação do mestre do ar e sorriu. Você não pode me prender! Sou livre como o ar. Assim lhe deu as costas e fez seu caminho pelas telhas observando sem pressa a vida dos cidadãos da cidade. Imaginava se não fosse ela o avatar teria uma vida despreocupada dessas, talvez tivesse sido mais feliz, talvez outra pessoa pudesse ser melhor nesse lance de Avatar.

Com uma ligeira pirueta desceu para a rua onde algumas crianças bateram palmas, ela sorriu para eles e os viu partirem em bando para brincar pelas barracas. Era por eles que lutava, pelo futuro... Lana olhou ao redor e algo chamou sua atenção. Tratava-se uma enorme estátua de uma mulher usando uma espécie de vestido e maquiagem no rosto, nas mãos, dois leques de combates.

— É inspiradora não? — uma voz disse por detrás da jovem. Pertencia a uma senhora por volta dos setenta anos, tão enrugada e baixinha que parecia que qualquer brisa poderia ceifar sua existência. A senhorinha balançava sua cadeira de balanço enquanto alisava um gatinho gordo — É a primeira vez que vem a Kyoshi?

Lana assentiu com a cabeça:

— Mas de alguma forma sinto que já estive aqui antes. É um sentimento nostálgico — Lana sorriu para a senhora que concordou com a cabeça.

— Esta é a nossa querida Kyoshi, nossa protetora e senhora — a velinha disse sonhadora. — Ela é um símbolo de justiça! A insígnia de ouro em suas vestes representa a honra do coração da guerreira, e os fios de seda simbolizam o sangue valente que flui em suas veias. Seus inimigos tremiam ao ver seu rosto armado para a guerra.

— Sim, ela também era um símbolo de paz. Certamente uma das minhas heroínas. Decidida, durona e não tinha medo de sujar suas mãos quando necessário. Acreditava que apenas a justiça traria a paz. Espero um dia ser como ela.

A velinha não pôde deixar de sorrir e lhe deu um tapinha no braço da garota:

— Você não precisa ser como ela, minha filha, seja você mesma, caminhe com as próprias pernas, sem pressa, desde que não pare, tudo vai ficar bem. Seja o tipo de pessoa que deseja ser e não o que os outros esperam de você. Já vivi por muito tempo e acredite no que digo, essa coisa de destino é só baboseira de biscoito da sorte: nós fazemos nosso próprio caminho.

— Mesmo que esperem tanto de você? — Lana perguntou deixando transparecer seus medos — E se eu falhar? Se não for boa o suficiente?

— Com exceção do tempo, tudo que foi perdido pode ser reconquistado. Enquanto existir vida vai haver esperança, e se você luta pelo que é certo não irá falhar, Lana. Acredite em sua capacidade, pare de se espelhar nos outros e trace seu próprio caminho!

— Obrigado senhora — Lana sorriu e de repente uma onda fria percorreu seu corpo e num instante a velha desapareceu. — Senhora? Senhora? — ela chamou, mas nem sinal dela. Então Lana viu seu reflexo em uma vidraça: seus olhos brilhavam.

Tão rápido como surgira, seu brilho sumira e voltaram ao verde normal num piscar de olhos. Será que havia enlouquecido? Quem diabos fora aquela velha e como sabia seu nome? Kyoshi? pensou, mas logo descartou a ideia, todos sabiam que o contato com os outros avatares havia sido cortado durante o tempo da Avatar Korra. Mas mesmo assim...

Lana estudou com outros olhos a estátua da guerreira, agora com orgulho. Ela era uma representante da Terra e não faria feio, libertaria seu povo das garras dos tiranos e os guiaria em busca de um futuro brilhante!

Dalai fitou taciturno empoleirado no mastro do navio a famosa Ilha Kyoshi logo a frente. Quanta ironia, quem diria que o Avatar estaria na ilha do Avatar? Dalai riu para si. Estava tão perto agora, apenas alguns quilômetros os separavam de Laya. Se bem me lembro ela é esposa de rei e será a mãe do futuro Rei da Terra, entende isso? Dalai não conseguia tirar as palavras da cabeça, Você a ama não é?

Várias coisas o trouxeram até aquele momento, más escolhas principalmente, mas Laya certamente fora uma das certas, um dos poucos raios de felicidade em sua vida amarga e não poderia simplesmente abrir mão dela dessa forma. Foda-se o Rei da Terra, foda-se as classes sociais e foda-se o Avatar, ele não sairia sem ela. Se fosse preciso derrotaria a Lótus Branca, a Nação do Ar e até a Tribo da Água do Norte! Se preciso reduziria a cidade a escombros.

— Dalai desça aqui um minuto — Mizu o chamou da proa lhe trazendo para o mundo real.

Com um salto ele foi ao seu encontro.

— Já posso vê-la daqui, logo estaremos em Kyoshi. Quer mesmo fazer isso? — ela perguntou.

— Agora não tem mais volta. Mas me preocupo mais com você. Quer mesmo arriscar tudo por isso? — ele a fitou.

— Alguém tem de bolar um plano, não é? Não posso simplesmente te deixar ir lá só com a cara e a coragem, seria suicídio.

Dalai lhe deu um abraço carinhoso.

— Não sei como lhe agradecer por tudo que tem feito por mim...

— Não precisa. Mas se depois que resgatarmos a Laya, não seria ruim se ela quisesse me dar um novo bar!

Kaijin subiu as escadas e apareceu na proa. Lá estava Kyoshi, apenas mais alguns passos e estava livre! Teria de dar um jeito de se livrar das algemas e fugir, nem ferrando que seria usado como refém. Agora seria uma ótima oportunidade... ainda não, se mergulhasse algemado seria capturado pelo bastardo do vento sem dificuldade. Deveria tê-lo deixado morrer quando teve a chance.

Ao anoitecer Lana voltou ao QG depois de umas voltas pelas feiras da cidade. Havia mais dúvidas do que respostas, mas finalmente sentia-se confiante, sentia que já não precisava viver na sombra dos outros avatares e que poderia descobrir seu próprio caminho. Encontrou mestre Yako no terraço meditando onde sentou-se ao seu lado.

— Acho que estou pronta para aprender, mestre.

— Essa é a segunda vez que vem até mim me pedindo para lhe ensinar — ele disse sem abrir os olhos — Como posso saber se não vai abandonar o treino outra vez.

— Porque, dessa vez, tive uma revelação. Agora eu entendo do tipo de avatar que vou ser.

O mestre a estudou.

— Veremos isso pela manhã

Lana mal pode conter a felicidade.

— Não vai se arrepender, mestre! Vou me dedicar e ser paciente, mal posso esperar!

Assim saiu aos pulos de volta ao seu quarto. No entanto, quando passou pela porta deu de cara com uma figura conhecida.

— Olá princesa, como tem passado? — Dalai a cumprimentou da janela.

Lana armou a guarda, estava prestes a chamar por ajuda.

— Você deve ser muito burro para vir até aqui sozinho!

— Eu diria que sou ousado — Dalai deu de ombros. — Mas não vim lutar, bom, não ainda. Venho com uma oferta que pode ser do seu interesse.

— Fale o que quer de uma vez — disse sem perdê-lo de vista

Dalai sorriu e se aproximou com passos confiantes e a colocou contra a parede. Estavam bem próximos agora, uma distância de um palmo, mas nenhum dava o braço a torcer.

— Proponho uma troca: minha rainha por seu príncipe. O que me diz?

Lana quase chegou a rir. Quase.

— Você esqueceu que não está em posição de negociar, certo? — ela ergueu uma sobrancelha. — Kaijin é um soldado disposto a dar a vida por sua causa. Já sua rainha? Nem tanto, não passa de uma covarde!

Dalai controlou sua ira e exibiu sorriso amarelo.

— Não estou dando escolha a ele, mas sim a você. Não ligo se ele é um suicida em potencial, o que importa é o que você quer. A vida dele está em suas mãos, princesa.

Lana podia sentir o veneno em sua voz.

— Não posso fazer isso...

— Mesmo? Até onde sei o jovem Kaijin só foi capturado porque você não foi capaz de me derrotar. Por um erro seu ele pode perder a vida! É assim que vocês pagam pela lealdade? — Dalai prosseguiu. Te peguei. Podia sentir o coração da garota, ela se importava com o moleque. — Esse é o tipo de avatar que quer ser?

Dalai então se afastou, voltou para a janela e disse por cima do ombro:

— Você tem até amanhã para trazer a Laya. Nos encontraremos no Pier 8 às 23 horas. Não me atrasaria se fosse você, para o próprio bem do seu amigo.