As Crônicas da Tempestade
14 Capitulo 13 - O Gato do Deserto
Capítulo 13 — O Gato do Deserto
Bee Wan, Reino da Terra.
A noite caíra rapidamente substituindo o mormaço escaldante da tarde pelos ventos rigorosos da noite dos desertos do Reino da Terra. A escuridão começara a tomar Bee Wan fazendo com que a cidade começasse a se movimentar prestes a revelar a sua verdadeira face. Afinal, os predadores saem para caçar à luz do luar. E era exatamente isso que Anum Olhos de Tigre estava prestes a fazer. Com um movimento rápido sua moto derrapou sobre a pista de terra batida e traçou seu caminho para o Lamento do Homem Morto.
O pequeno bar mais parecia um barraco, sustentava-o em pé um tosco conjunto de colunas de madeiras tão podres quanto às comidas servidas naquele buraco de ratos. No acostamento, uma fileira de satomóveis extravagantes, desde labaredas vermelhas até caveiras de olhos brilhantes em vermelho sangue até ossos cruzados, descansava seus motores após uma longa corrida pelo deserto, uma da qual muitos dos pilotos não retornariam.
Olhos de Tigre parou sua moto junto à fileira e encarou os carros por cima do ombro encapuzado. Crianças e seus brinquedos cada vez mais coloridos, pensou o mercenário antes de atravessar a portinhola para o ar abafado do bar. O Lamento do Homem Morto, tão destruído por dentro quanto por fora, possuía o teto baixo e poroso tornando praticamente impossível tomar uma bebida sem experimentar um pouco do reboco, já suas paredes não eram pintadas e, combinadas com as luzes opacas e a caixa de música, davam um ar claustrofóbico. Um lugar perfeito para negócios sem atrair suspeitas.
Um homem dançava em cima de uma das mesas com uma garçonete visivelmente perturbada, um pobre coitado que bebera demais, e que não esperava que aquela fosse a sua última noite na terra.
— Tai Chiao? — Olhos de Tigre perguntou ao homem que cantava alguma coisa incompreensiva com os amigos. O dedo do mercenário coçava por ação.
O homem bêbado piscou três vezes antes de enxergar a massa encapuzada de dois metros a sua frente. Um brilho de compreensão passou por seu rosto, talvez um sexto sentido dos bêbados de saberem quando estão prestes a se dar muito mal, afinal não havia nenhum filho da puta em todo o deserto que não conhecesse Anun, Os Olhos de Tigre.
— Diga ao Alban que tenho o dinheiro dele, eu juro que vou pagá-lo amanhã de manhã! — o bêbado garantiu — Consegui uma boa grana com as apostas dessa tarde. Amanhã cedo eu vou vê-lo pessoalmente.
Olhos de Tigre por baixo do espesso casaco sentiu as mãos começarem a tremer, um mal sinal, um péssimo mau hábito que predizia sanguinolência. Um sorriso perverso se formou nos lábios do mercenário e o homem engoliu em seco.
— Não estou aqui para negociar Chiao, sabe bem disso.
— Mas eu vou pagar! — o homem insistiu. 1..., o mercenário começou a contagem mentalmente. — Diga ao seu chefe que tenho o dinheiro essa noite, se quiser posso dá-lo a você — argumentou, seu rosto agora vermelho e suando. 2..., Olhos de Tigre mal continha a excitação — Eu te pago o dobro do que ele esteja te dando, eu prometo cara, só não me machuque — o bêbado suplicou agora dando um passo atrás. 3... E tropeçando na bordada, derrubou a mesa e caiu no chão, se arrastando para longe daquele monstro.
Então que Olhos de Tigre sentiu uma mão em seu ombro. Um dos amigos do sujeito.
— Ei cara, ele disse que vai pagar. Só dá o fora, não queremos problemas com o Alban... — então o companheiro viu, escondido sob a manga do casaco, um brilho metálico, mas já era tarde demais.
As garras metálicas rasgaram sua garganta antes que pudesse ver o que o atingira se limitando apenas a agarrar o pescoço enquanto se engasgava no próprio sangue. É isso aí! Ah! Isso mesmo, brilhe para mim! Eu quero mais.
Dois outros caras se levantaram prontos para lutar, pela forma como se posicionavam sem dúvidas eram dominadores experientes endurecidos por aquelas terras. Uma boa presa para aquela noite.
O primeiro avançou com um movimento rápido dos pés fazendo o chão se erguer e afinar em forma de pequenos espinhos de terra. No entanto, não foi à toa que Anum acabara conhecido como Olhos de Tigre. Percebera o golpe antes mesmo de começar e já previra o movimento e o evitou chutando uma das cadeiras para o alto bloqueando os estilhaços. Em seguida, aplicou com as duas mãos um golpe na cadeira, que se projetou para cima do seu atacante.
O segundo já estava sobre ele com o punho reforçado com pedras. Novamente Anum se esquivou do golpe e já armara a defesa para a próxima pancada que viria em seguida. Com a mão livre enterrou as lâminas no estomago do dominador — ou foi isso que pensou — pois de um instante para o outro as pedras que estavam no punho do inimigo agora formavam uma armadura em sua barriga evitando o golpe mortal.
Tentou retirar as garras, mas o dominador as prendeu com a dominação e em seguida lhe deu uma cabeçada. O golpe o pegara de surpresa. Oh! Isso! Mais, que oponente delicioso!
Depois o dominador tentou outro soco, mas foi facilmente repelido por Anum que também lhe deu uma cabeça. Em seguida agarrou-o pelo ombro e, o erguendo no ar, desceu com tudo sobre a mesa partindo-a ao meio. O primeiro agora se levantando apanhou a corrente que prendia na cintura.
O primeiro fora rápido o suficiente para acertar o ombro do mercenário, sem dúvidas esmagara alguns ossos. O segundo golpe veio serpenteando como um raio incrementado com a dobra de metal, sendo imprevisível. Mas muito pouco era imprevisível para Olhos de Tigre, conhecia cada músculo, cada movimento, cada batimento do corpo humano. Uma regalia que conseguira servindo no exército de chi bloqueadores do revolucionário Amón.
A corrente veio como o esperado, Anum a agarrou com um movimento ágil e, enrolando-a no braço, puxou seu adversário para si, onde as lâminas mortais perfuraram seu coração. Tremendo de excitação, Olhos de Tigre se virou para o seu alvo que jazia congelado num canto, observando em pânico seus amigos caírem um após o outro.
— Ainda temos negócios a tratar....
Anum entrou pela portinhola que levava aos subterrâneos e virou à esquerda em uma porta enferrujada. Lá encontrou seu empregador sentado com o chapéu sob os olhos em sua mesa fumando um dos seus malditos cigarros fedorentos. Sem dizer uma palavra apenas jogou a bolsa com o dinheiro ao chão.
— Tenho outro trabalho para você Olhos de Tigre — o chefe disse erguendo levemente a aba para poder encarar sua arma mais mortífera — Já ouviu falar do Filho da Tempestade?
Um sorriso malicioso se formou nos lábios do mercenário.
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