Notas iniciais
Esse é um trabalho independente, possui influencia forte de várias mídias como filmes, séries, animes, livros e jogos.

IVY

Aquela era uma sensação até pouco conhecida, Ivy se perguntava se era isso que animais costumavam sentir: encurralados, o coração saindo pela boca, o suor gélido passando por seu corpo. Essa era a sensação de estar sendo caçado.

Em queda livre Ivy se encontrava no mais completo desespero. A poucos metros do chão ele pôde ouvir Hayle gritando seu nome, naquele momento olhando o céu que parecia ter sido engolido pela escuridão e sob o encalço do Predador, ele involuntariamente passou a se recordar dos meses que haviam se passado.

***

1

Era apenas mais um dia comum, irritantemente comum. Voltava da escola, a Academia Sol Nascente, o lugar tinha este nome porque ensinava crianças do primário. Ele era o único garoto de 14 anos naquele lugar, as crianças barulhentas e os adultos que o olhavam como se ele fosse portador de necessidades especiais tornavam aquele lugar insuportável para Ivy.

Caminhava sozinho pela calçada pois sua irmã Alice, havia dito que precisaria sair um pouco mais cedo da escola para fazer um trabalho com um amigo. As pessoas passavam pela rua apressadas, provavelmente para não chegar atrasadas em seus empregos. Algumas andavam sorridentes ostentando suas roupas e jóias que acompanhavam as tendências do momento. Diante os olhos de Ivy aquilo parecia pequeno. Se perguntava se aquele era o futuro de todos. Nenhuma das pessoas parecia notá-lo, aquilo era bom.

Ao passar nas proximidades de um beco pôde ouvir a voz de uma garota se distinguir de grunhidos de dor e gritos de aprovação de um grupo de garotos. A garota pedia para que parassem mas ninguém a ouvia, continuavam a espancar um outro garoto que usava óculos. No instante em que viu uma onda de ódio percorreu o corpo de Ivy. Alice estava sendo segurada por um dos garotos e o que estava no chão mal se movia devido os golpes que levara.

Ivy não disse uma palavra enquanto se dirigia aos garotos. Um deles se aproximou e disse:

—-- Olha só cara é melhor dar meia volta e fingir que não viu nada.

—-- Por favor não machuque ele! --- pediu Alice apreensiva.

—-- Ouviu a garota. Vai embora antes que sobre pra você esquisito. --- ameaçou o garoto.

—-- Ivy não o machuque!--- disse Alice mais uma vez.

O garoto desviou a atenção devido as palavras da menina e Ivy o acertou na barriga com tamanha força que o garoto se ajoelhou, contraiu o corpo e começou a agonizar.

O resto do grupo foi na direção de Ivy. Ele acertou um deles na garganta e o derrubou, em seguida um deles acertou seu rosto duas vezes, mas ele rapidamente se recuperou e o derrubou também. O restante viu uma viatura da polícia passando e saíram todos correndo. O garoto que havia levado o primeiro golpe levantou enquanto seus amigos gritaram:

—-- Vamos rápido Aron!

—-- Isso ainda não acabou esquisito! --- ameaçou o garoto mais uma vez quando começou a correr.

Alice foi na direção do garoto de óculos caído que começava a erguer a cabeça.

—-- Minha nossa você ta todo machucado Barry!--- disse a garota ainda apreensiva.

—-- Eu... estou bem. --- disse o garoto um pouco tonto.

—-- O que aconteceu? --- perguntou Ivy enquanto passava a mão na boca para limpar a o pouco sangue que estava escorrendo. Quase não doía, ele já estava acostumado com aquilo.

—-- A culpa foi minha. Eu peguei esse caminho por que...

—-- Porque eu a convenci a vir comigo comprar os materiais para o nosso trabalho --- disse Barry interrompendo Alice.

—-- E onde está os materiais? --- perguntou Ivy embora suspeitasse da resposta.

—-- É... eles levaram. Eu tentei impedir e eles bem... você sabe.

—-- Droga! Vou fazê-los devolver.

—-- Não precisa... podemos comprar amanha denovo, estávamos fazendo com antecedência, você me conhece. Além disso, você não pode se meter mais em confusões. --- disse Alice tentando acalmá-lo.

Alguns instantes depois estavam voltando para seu lar, na verdade era o orfanato onde moravam. Barry havia dito que morava apenas a alguns quarteirões daquele lugar. Ivy e Alice andavam na direção do orfanato, não quiseram pegar um ônibus pois sabiam o que os esperava quando chegassem e tentaram prolongar a volta o máximo possível. A garota examinava o rosto de Ivy para saber a gravidade dos ferimentos e ele disse:

—-- Estou bem, não precisa se preocupar. Aqueles caras não batiam tão forte.

—-- Isso não tem graça. A diretora Joyce vai nos matar, e você já tem advertências.

—-- Relaxe. Sei lidar com ela. --- Ivy mentiu.

2

A diretora estava em pé olhando a janela quando Ivy abriu a porta ela se virou e lhe dirigiu um olhar de desdém como era de costume. Sua sala estava arrumada de forma impecável, havia um bebedouro ao lado esquerdo da porta, mas não havia nenhum copo. A mulher tinha o cabelo preso em um coque e usava um terninho que lhe caia de forma engraçada. Ela mantinha uma expressão séria e costumava oprimir todos do lugar, descontando sua frustração nos internos e funcionários.

Ivy se sentou na cadeira em frente à mesa e Joyce caminhou na direção dele e apertou seu queixo com agressividade, examinando-o.

—-- Espero que tenha doído muito--- disse a diretora.

—-- Não tanto quanto o que eu acertei. Meu palpite é que um deles quebrou o nariz, mas não tenho certeza. --- Ivy respondeu.

—-- Insolente. Não vou tolerar mais nenhuma reclamação sobre você aqui garoto! A minha paciência com você esta se esgotando. A única razão para não ter te transferido ainda é porque provavelmente ninguém te aceitaria. Além do mais a garota Alice parece te ver como uma espécie de parente. E você assim mesmo a expõe a seus atos de selvageria e violência que arriscam corromper aquela pobre garota.

—-- Eu cuido dela.

—-- É exatamente disso que quero tratar com você. Há um senhor que tem interesse em adotá-la. Ela é uma garota adorável diferente de você, mais cedo ou mais tarde eu sabia que aconteceria.

—-- Quem é esse senhor? --- Ivy perguntou de maneira intimidadora, como costumava fazer com as pessoas que não o agradavam, mas a senhora apenas deu uma leve risada de deboche.

—-- É bem educado, bem vestido, chama-se Austin Manfreed. Escute, nós temos nossas diferenças...

—-- Diferenças? É assim que você chama?

—-- Não me interrompa! E para você é Sra. Joyce. Como eu ia dizendo não suporto você, mas admito que você assim como eu, se importa com o futuro daquela garota, e o Sr. Manfreed pode proporcionar um ótimo para ela.

—-- Sei que minha opinião é irrelevante para você então por que ta me dizendo isso?

—-- Porque você pode atrapalhar. Aquela garota gosta de você, não consigo enxergar a razão, mas ela o vê como um irmão e se você lhe dissesse para não ir, ela não iria. Por isso peço para que pense no futuro dela. Diga que será melhor, pode até mentir dizendo que irá visita-la. Só não atrapalhe a melhor chance dela.

Aquelas palavras ecoaram na mente de Ivy. Ele cerrou os punhos e se levantou bruscamente da cadeira. Ao chegar à porta virou para a diretora e falou:

—-- Você diz que faz isso porque é melhor para ela, Mas eu sei que faz isso para me punir.

—-- Não seja paranoico garoto. --- disse a mulher dando mais uma vez aquela risada de deboche que tanto irritava Ivy. --- Nem tudo que acontece no mundo tem a ver com você.

Ivy foi para seu quarto onde dormia sozinho. A diretora havia dito que se preocupava com as crianças colocando-as lá com ele, Mas ele tinha certeza que ela só queria isolá-lo dos outros para que se sentisse deslocado. E estava conseguindo, embora as crianças tivessem realmente medo dele.

Apesar de ainda estar no período da tarde Ivy adormeceu e teve o sonho que o atormenta desde sua primeira lembrança vivo.

3

Ele estava no meio de uma terra estérea onde a única forma de vegetação era como plantas de espinhos que pareciam petrificadas. Não era possível ver, mas dava-se para escutar o som do mar por perto. O céu era de um preto doentio e o ar era extremamente carregado, trovões cortavam as nuvens também escuras em um ritmo constante. Ao longe havia um palácio negro que se erguia esplendoroso no cume de uma montanha. Atrás dele havia um enorme abismo no qual ele não se atrevia a olhar. Seu corpo estava totalmente coberto, usava uma túnica negra esfarrapada. Ele começou a caminhar na direção do palácio e então acordou.

Alice estava do lado dele segurando uma caixa amarrada por um laço preto.

—-- Você deve ter algum tipo de sexto sentido, eu acabei de chegar e aqui e você acordou. --- disse a menina.

—-- Não é nada paranormal. --- Ivy brincou. --- meus cinco sentidos funcionam muito bem, além do mais, seus trotes pelos corredores podem ser ouvidos até pelo seu amigo espancado hoje.

—-- Cale a boca. Eu te trouxe isso --- a garota estendeu as mãos para dar a caixa a Ivy. --- Feliz aniversário!

A data passou despercebida por Ivy, mas era compreensível. Ele não tinha nenhum apego emocional por ela, além do mais nem era a data de seu aniversário realmente. Era apenas o dia da primeira recordação que ele tinha.

Ele desde cedo era tido pelas pessoas como um garoto problema, arranjava confusões em todos os orfanatos em que passava, o que o levou a optar por morar nas ruas onde sempre conseguia uma maneira de se virar, não era nem um pouco confortável, mas ele achava melhor do que ser expulso por onde quer que se passe. Contudo ele também entendia que parte daquilo também era sua culpa, possuía um temperamento difícil e explosivo que nunca era contido, tentava se controlar, mas era difícil. Ao longo dos lugares onde passava era comum que discutisse e brigasse com muitos que estavam a sua volta.

Mas a pior parte de tudo ainda era o fato dele não possuir nenhuma memória de antes dos seus nove anos de idade. Sua primeira lembrança foi acordar em uma vila em ruinas no estado do Kansas, nos EUA. Desde que acordou começou a vagar pelas cidades onde passava, conseguia caronas sem problemas (pois na maioria das vezes as pessoas não percebiam que ele estava fazendo isso), algumas pessoas ajudavam e quando não a faziam, ele mesmo caçava para conseguir comida sem encontrar muitas dificuldades, o que para Ivy era algo fortemente instintivo. Na primeira vez que tentaram leva-lo a um abrigo sua reação não foi nada boa, não deixou que ninguém o toca-se e fez com que o perseguisem por toda cidade de Nova Iorque. Ele subia em qualquer muro e cercado, nem os prédios eram um obstáculo que conseguisse detê-lo, e em meio a uma cidade daquela proporção em território, era impossível que o pegassem.

O garoto odiava se fixar em qualquer lugar, sempre havia aquela sensação de que ele não se encaixava naquele ambiente. Monotonia, rotina, isso era considerado incrivelmente irritante por ele.

Notas finais
Quem quer que possa ver essa história não se sintam obrigados a dar suas opiniões sobre ela, mas se o fizerem ficaria bastante grato.