IVY

1

Uma semana havia se passado desde que sua irmã havia ido. O garoto se encontrava dentro de seu quarto analisando o presente que recebera: Um crucifixo prata que servia de pingente em uma corrente da mesma cor. Podia escutar o som abafado de uma TV em um cômodo ao lado, onde uma reportagem relatava casos de desaparecimentos misteriosos, Ivy examinava o presente com certa curiosidade enquanto refletia sobre as palavras de Alice antes de ir embora. Ele nunca foi uma pessoa religiosa e ainda assim recebeu aquilo.

No momento em que partiu, a garota lhe deu um último abraço enquanto o mordomo que veio buscá-la se encontrava na entrada do orfanato. Ela lhe disse para que ele tentasse "fazer dar certo", pois precisava de um novo começo. Ele via um pouco de verdade naquilo, de fato nem tentava pois não via muito a frente em sua vida. Nada parecia ter algum sentido, como se existisse um vácuo que não pudesse ser preenchido. Começou a rir com a ideia, apesar de se distinguir de manei maneira tão gritante dos outros ainda tinha o mesmo tipo de sentimento que não o distanciava de um órfão qualquer.

Ouviu passos, a pessoa que adentrou o cômodo nem se incomodou em bater. A senhora com o terninho, Dra. Joyce, parou na porta com um sorriso de satisfação que o garoto nunca havia visto, e tinha certeza que aquilo não era para o bem dele.

—-- Existe um homem interessado em tirá-lo daqui. --- ela disse.

2

Enquanto se dirigia a sala da diretora onde o homem o espera, Ivy não podia negar que estava intrigado, afinal não acontece com frequência um garoto com sua idade ser procurado por alguém.

Quando tocou a maçaneta teve uma sensação repentina de hesitação. Era mais como um pressentimento, uma intuição.

Abriu sala como já havia feito muitas vezes e lá encontrou o homem. Ele usava um sobretudo preto surrado e vestes simples por baixo, uma camisa azul parda, calças bege e sandálias. Ele estava sentado na mesa quando o garoto entrou e olhava direto para ele. Possuía cabelos longos grisalhos e tinha um ar bem despreocupado.

Ivy bateu a porta e quando sentou na cadeira a sua frente o homem puxou duas balas que mais pareciam pílulas, uma vermelha e outra azul.

—-- Então... se você escolher a vermelha --- o homem riu subitamente como se houve acontecido algo hilário --- desculpe essa uma velha piada comum em...

—-- lugar algum --- interrompeu Ivy.

—-- Ok --- você não costa de piadas entendi. Vamos direto ao ponto. Sabe por que estou aqui? Sente algo?

—-- Achei que fosse direto ao ponto.

—-- Nossa você é simpático gostei. --- disse o homem mantendo o bom humor.

—-- Eu gerencio um lugar parecido com esse, só que destinado a pessoas digamos... como você: especiais.

Era oficial. As pessoas já haviam feito insinuações, piadas, mas essa era a primeira vez que disseram abertamente que ele era retardado, Ivy pensou.

—-- Você não faz ideia do quanto é difícil. --- disse o garoto --- ter que pedir para as pessoas repetirem o que falam devagar.

—-- O que? --- interrogou o homem confuso --- não, não. Não foi o que quis dizer. Preste atenção. Ele fez uma pausa procurando as palavras certas. Nossa isso vai ser complicado...

—-- Então assim que tornar simples me chame e conversamos denovo --- o garoto levantou impaciente.

—-- Caramba --- os olhos do homem brilhavam enquanto examinava o garoto mais uma vez e assoviava. --- Você é uma pessoa bem difícil, por isso a administradora do estabelecimento pareceu tão animada quando disse que pretendia leva-lo. Isso até me deixa um pouco preocupado em levar isso adiante. Disse o homem sussurrando como se estivesse falando com sigo mesmo e Ivy nem estivesse presente. --- Isso pode dar muito errado... dane-se você vem comigo.

—-- Desculpa não lembro de ter ouvido sequer uma pergunta no meio da sua frase. Por que eu faria isso?

—-- Por que caso não tenha notado --- o homem se inclinou para frente e pôs uma das mãos afrente da boca como fosse falar algo em segredo e sussurrou --- Você não pertence a esse lugar.

—-- Agora sim fui convencido.

De repente Ivy parou, não tinha nada que o ainda o segurasse naquele lugar, nunca pretendeu passar muito tempo ali e só o fez por Alice. Uma vez lá dentro era difícil sumir sem alertar a todos. No entanto sair daquele prédio ao lado daquele senhor e depois despistá-lo parecia ser a solução mais fácil.

O senhor continuava o encarando como se lesse sua mente.

—-- Façamos um trato, eu lhe apresento o lugar e se não se sentir à vontade com ideia... bem... eu lhe trago de volta ou lhe deixo onde quiser. Tenho certeza que quer ficar em qualquer lugar menos aqui. Além disso o que tem a perder?

Ainda com a ideia fixa de despistar o homem Ivy aceitou.

3

O garoto não tinha muita coisa. Não precisou de mais do que uma mochila para levar tudo. Estava usando uma jaqueta de couro surrada e causas camufladas no estilo militar. Um terror súbito lhe fez levar sua mão até o pescoço e ele notou que lá se encontrava o crucifixo no lugar onde ele costumava usar seu pingente de cristal negro, ao qual ele entregou a sua irmã segundos antes dela partir. Era o item mais pessoal que ele possui e o principal elo que tinha com a pessoa que fora um dia. Quando ele entregou aquele o objeto ele reforçou sua postura de começar de novo e se empenhar em fazer as coisas darem certo dessa vez.

Quando saia a Dra. Joyce lhe deu um abraço com desdém mais lhe disse algo que pareceu sincero devido as circunstâncias: seu lugar não é aqui, mas espero mesmo que as coisas deem certo para você.

O garoto apenas acenou e seguiu caminhando um pouco atrás do homem que andava calado de maneira pesada olhando a cada esquina como se espera que algo ruim surgisse. Estranhamente Ivy sentia algo semelhante desde que deixara o prédio.

Afim de quebrar o silêncio Ivy fez uma pergunta para iniciar uma conversa:

—-- Então, onde é esse lugar para onde está me levando exatamente.

—-- Não posso falar agora, ande um pouco mais rápido. --- disse o homem apreensivo. --- Precisamos sair das ruas. Existe um lugar onde podemos ir até as coisas acalmarem.

Ivy não viu como as coisas podiam não estar calmas, mas aquela sensação estava ficando mais forte e ele assentiu. O senhor parou um taxi e os dois seguiram até o local mencionado.

Notas finais
Quem quer que possa ver essa história não se sintam obrigados a dar suas opiniões sobre ela, mas se o fizerem ficaria bastante grato. Qualquer comentário é bem vindo!