IVY

1

O táxi havia saído da cidade, a pedido do senhor. Ivy achou estranho que ele não tivesse se identificado ainda e mais ainda por ele mesmo não ter perguntado o nome do homem. De uma maneira estranha o garoto sabia, de alguma forma, que poderia confiar, pelo menos por enquanto.

A medida que anoitecia a sensação que Ivy tinha ia aumentando e o velho senhor parecia partilhar desse sentimento com postura apreensiva. Ele se contorcia no banco da frente ao lado do motorista, insistindo para que fossem mais rápido. O garoto observava um chaveiro em forma de cabeça de alguém famoso que ele não sabia identificar pendurado no retrovisor. Parecia hipnotizado com aquele objeto enquanto a sensação opressiva vinha crescendo gradualmente até o ponto em todos os sons começaram a ficar abafados. Ele já não conhecia perceber com clareza o que acontecia ao seu redor. Tentou desviar o olhar do chaveiro e ver a janela quando notou uma figura disforme se mover entre as árvores. Pouco detalhes eram distinguíveis naquela velocidade, mais definitivamente haviam dois centros de luz (olhos talvez?) irradiando um vermelho tão forte e vivo que doía a visão só de tentar olhar diretamente.

Os olhos se voltaram diretamente na direção do carro e Ivy teve certeza de que o estava encarando. O garoto se encontrava entorpecido como se tentasse processar o que acontecia. O tempo parecia ter parada. A sensação no seu peito parecia que iria esmaga-lo por dentro. Em seguida tudo a sua volta girou. O garoto ouviu o grito do motorista e o senhor de sobretudo murmurando alguma coisa indecifrável. O táxi estava capotando e só então Ivy sentiu a dor do impacto causado pela figura virou o carro.

Nesse momento ele apagou. Tinhas flashes onde recuperava a consciência por um curto período e apagava novamente. Nesse meio tempo viu um carro em chamas, ele estava balançado, sendo carregado pelo senhor. Ouvia gritos dele dizendo para aguentar firme. O senhor também carregava o motorista do taxi e corria muito rápido até para alguém jovem.

A escuridão já havia invadido tudo a sua volta quando o garoto voltou a notar luzes ficando cada vez mais fortes atrás dele. Eles adentraram um estabelecimento com o senhor abrindo a porta com um ponta pé. Sentiu braços envolverem seu corpo enquanto a porta se fechava novamente e ele tinha seu último vislumbre da figura negra de olhos vermelhos antes de perder a consciência novamente.

2

Ivy acordou confuso, gritando coisas sem sentido, incapaz de formular uma frase coerente. Se levantou abruptamente e sentiu todo seu corpo doer.

—-- Calma! Sou eu! --- O senhor pôs a mão em seu ombro tentando acalmá-lo --- Assim vai abrir os seus pontos!

Ivy olhou tudo ao redor rapidamente para se certificar de que estava seguro. Ele se encontrava deitado em uma poltrona em um dos cantos de um bar com várias pessoas ao redor algumas bebiam e conversavam calmante enquanto outras discutiam exaltadas por algum motivo. No meio daquele ambiente, com a adrenalina a mil, o garoto distinguiu frases estranhas como “que tipo de criatura da noite acha que era?”, “o que a Ordem vai fazer a respeito?” e “já está amanhecendo, eles estão seguros por enquanto”.

De fato, o leve brilho do amanhecer já podia ser notado pela janela empoeirada. Alguém aproximou um copo de água perto do rosto dele, que surpreso bateu na mão da pessoa e arremessou o copo direto no chão fazendo um barulho que chamou a atenção de vários no local.

—-- O que- o que era aquilo? --- gaguejou o garoto encanto tentava recuperar a compostura.

—-- É complica-

—-- Chega! Chega de evitar minhas perguntas ou falar ou vago! Seja direto e responda minha pergunta. --- o garoto intimou o senhor.

—-- Aquilo era uma criatura da noite, provavelmente um vampiro, mas não se preocupe estamos seguros agora.

—-- Não, não, não! Isso é um sonho. Eu dormi no táxi e você me carregou até aqui. Só pode ter sido isso.

—-- Negação... atitude típica dos ignorantes. --- Disse o velho revirando os olhos por um instante e em seguida olhando para o copo quebrado no chão --- É o que se acontece quando se vive tanto tempo entre eles.

—-- Você não pode estar falando sério. Fomos jogados da estrada, nosso carro foi virado como se não fosse nada! E o taxista... onde está o taxista?

—-- Calma vou responder todas suas perguntas, as coisas já foram jogadas no ventilador mesmo. --- Disse o senhor suspirando --- O taxista está bem, só inconsciente no momento, mas admito que é melhor assim, não teria nenhum diálogo racional saindo de nós três nesse momento. Vou explicar claramente então, sem arrodeio como você quer está pronto?

As pessoas ao redor já voltaram a seus afazeres e não olhavam mais na direção de Ivy, o que permitiu que eles conversassem de maneira mais confortável. O garoto se acomodou na poltrona e o velho senhor começou a falar:

—-- Me desculpe. Eu só notei a criatura quando estávamos saindo do prédio, mais para ser sincero nem eu esperava que fosse tão forte, deve ser sem antiga.

—-- Estamos realmente seguros agora?

—-- Sim, já está amanhecendo e criaturas da noite bem... costumam andar por aí a noite. Além disso vê esses quadros?

Ivy olhou cuidadosamente para todas as paredes e notou vários quadros como inscrições que ele não compreendia.

—-- Isso são runas que impedem que alguma criatura desse tipo entre aqui. Além disso essas pessoas nesse bar, todas elas, são transcendentes. --- disse o senhor continuando seu discurso.

—-- Runas? Transcendentes? O que é tudo isso? --- perguntou o garoto ainda confuso.

—-- A sua definição de realidade está prestes a mudar. Espero que esteja preparado e não surte.

3

O garçom que havia servido o copo com água que Ivy derrubou trouxe comida e pôs na mesa no meio ao conjunto de poltronas onde o garoto se encontrava.

—-- Obrigado Bucky --- O senhor agradeceu e em seguida se voltou para Ivy--- Por onde começo? Bem. Eu sou Jack Murray. Sou o líder de um clã de transcendentes composto por pessoas que não conhecem sua origem ou que não mais família para lhes mostrar a Verdade.

A entonação que ele usou na palavra verdade era diferente do habitual. O garoto já estava mais calmo e prestava bastante atenção no que o senhor Jack dizia. O homem fazia pausas no discurso para beber um gole da cerveja em sua mão, a barba por fazer estava molhada pela bebida.

—-- Eu estou constantemente procurando pessoas com esse... perfil para leva-las a um lugar onde elas possam se desenvolver, foi assim que encontrei você. Veja bem, a maior parte de das histórias e mitos se originaram através de uma coisa bem real: magia.

—-- Esse conhecimento já foi muito difundido mais com o tempo ele passou a ser esquecido pois uma pequena parcela da população podia senti-la e pouquíssimas delas podiam manipulá-la.

—-- Então você é algum tipo de feiticeiro ou mago?

—-- Já usaram esses termos para nos descrever, assim como vários outros, como heróis, demônios, e até deuses. Hoje usamos o termo transcendentes. Que por sua vez se dividem em dois tipos. Tem os manejadores, que treinaram seus sentidos, corpo e mente, para manipular a magia dentro de nós e do ambiente ao nosso redor. E claro existe o nível mais básico composto por pessoas com potencial latente para se tornarem manejadores, mas que no momento apenas tem um sentido mais aguçado para sentir a magia. E esse meu caro, é o seu tipo.

Toda a tensão que embrulhava o estômago do garoto até então começou a se desfazer e ele finalmente levou a mão a o hambúrguer que havia sido posto a sua frente.

—-- Todos as pessoas têm acesso a seis sentidos, no entanto a ciência comum reconhece apenas cinco. --- Continuo Jack tomando mais um gole de cerveja --- O sexto sentido consiste na capacidade que transcende todos os limites, algo que desafia a própria lógica. Trate-se de algo que chamamos de intuição. Sabe quando algo terrivelmente ruim esta prestes a acontecer e de uma forma inexplicável você simplesmente sente? Como pessoas que sentem a morte de entes queridos no momento que ocorre a milhas de distância? É disso que me refiro.

Jack tomou seu último gole e se levantou. Deu alguns tapas no sobretudo e agradeceu pela estadia. Ivy apenas saiu em seu encalço, atravessaram a porta, e ele notou que o bar se encontrava em um lugar bem remoto, a estrada que os levara até alí sequer era asfaltada. O lugar era cercado por carvalhos altos, e no topo da fachada do estabelecimento ele leu uma placa que dizia "Joane's Bar". Já que nem metade de suas perguntas haviam sido respondidas, o garoto interrogou o velho pela última vez:

—-- É isso? Acha que preciso saber mais nada? Você me deve mais que isso! --- O garoto gritou para o homem que estava já alguns metros a sua frente.

—-- Precisamos aproveitar a luz do dia para viajar. É melhor não nos arriscarmos por terra, pegaremos um voo. Vamos deixar o resto de suas perguntas ao nosso destino final está bem?

—-- Vai me dizer agora onde é nosso destino?

—-- Claro! Georgia. Esta na hora de você conhecer o clã.