IVY

1

A viagem de avião foi um tanto quanto tranquila. Jack e Ivy mal conversaram nesse meio tempo, até por que falar de monstros e magia no meio de várias pessoas comuns poderia chamar atenção, com sorte eles achariam que estavam falando de algum tipo de jogo popular entre os nerds. Um dos poucos assuntos que veio a tona foi o que aconteceria com o taxista, a qual o homem se limitou apenas a responder "a Ordem vai resolver a situação, e se não conseguir, quem acreditaria nele?". Outra coisa que havia chamado sua atenção na breve conversa foi que Jack ja estava nos arredores de Waville, a cidade do orfanato, mas que não conseguiu sentir a presença do garoto mesmo estando tão perto. Isso nunca havia acontecido antes segundo ele, foi como se o garoto de uma hora para outra tivesse surgido no mapa, e que talvez o ele e os olhos vermelhos tivessem notado ao mesmo tempo.

Na saída do aeroporto os dois foram recebidos por uma uma BMW que poderia até ter impressionado, mas já tinha tido seus melhores dias, o que fez o garoto pensar que o local para onde iriam tivesse tido seus dias de glória. Dentro do automóvel se encontrava um senhor com cerca de cinquenta a sessenta anos, vestia uma camisa regata laranja e um short (que mostrava até mais do que o necessário segundo o garoto) além de sandálias. A expressão no rosto do senhor era antipática.

Quando entraram Ivy achou que finalmente teria abertura para mais perguntas até que o motorista, despejou uma série de reclamações que segui durante cerca de uma hora e meia. Jack chamava o senhor de Tom, enquanto o desabafo sobre como fazia muito e ganhava pouco não era satisfatório. Ivy ouviu uma série de reclamações sobre os garotos e na maior parte deles era um chamado Oliver.

Enfim haviam chegado, o carro havia parado na frente dos portões de ferro que cercavam uma grande propriedade que se localizava numa área bem isolada. Muros de tijolos vermelhos se estendiam dos dois lados, o que deixou Ivy preocupado pois da maneira que ele via o lugar parecia uma prisão.

O sol forte da tarde invadia a parte de dentro do carro e o calor era sufocante. Jack olhou para trás empolgado e anunciou:

—-- Bem-vindo aos Vaga-lumes.

Dois homens saíram de dentro da propriedade, ambos vestindo preto, desde o terno até a gravata. Um deles era negro, por volta de trinta a quarenta anos, o outro não parecia muito mais velho. Quando eles abriram o portão, o velho tom resmungou sobre o carro não estar dando a partida e mandou que descessem e seguissem na frente.

As pernas de Ivy doíam pelo tempo que passou sentado, ele abriu a porta e sentiu um ar tão puro que seu corpo inteiro se encheu de energia. A sensação que sentia vinda do lugar era absurdamente aconchegante, o que fez o garoto se perguntar se aquilo era o que o velho chamou de Intuição.

Em frente ao portão os dois homens de preto examinavam Ivy enquanto ele se aproximava do portão, Jack se encontrava caminhado um pouco a frente dele. Quando as duplas ficaram frente a frente, o homem negro indagou:

—-- Esse é o novo pirralho? Ele não parece grande coisa, o senhor deveria ser mais seletivo.

Ivy serrou os punhos, todos notaram instantaneamente, e o garoto questionou se talvez a Intuição também detectasse emoções como agressividade e medo. De qualquer forma eles reagiram com um sorriso.

—-- Ele é cheio de atitude e é isso que importa. --- disse Jack dando risadas, que poderiam ser deboche.

—-- Não seja cruel Lincolm --- disse o outro homem de terno --- Dá para notar a chama queimando no coração desse jovem, ele tem potencial para ser grande.

—-- Talvez Martin. Talvez. --- Lincolm disse ainda sorrindo olhando para as mãos do garoto, que notou que ainda estavam serradas.

—-- Sem mais delongas, os outros devem estar ansiosos para conhecer você. --- disse Jack pondo um fim ao encontro no portão.

2

A parte de dentro deixou uma impressão melhor do que a aparência exterior da propriedade que passava a ideia de cativeiro. No interior existiam ainda mais plantas e árvores, lagos e pequenas colinas que se estendiam até onde não podia mais se enxergar. Ivy conseguiu perceber uma estufa em meio as árvores altas e um enorme casarão de cinco andares no centro de tudo. Era vermelho assim como os muros, parecia datado do século XVIII, os detalhes da arquitetura eram brancos e a residência possuía enormes vidraças com cortinas brancas. Tudo parecia feito em concreto e madeira.

No entanto o lugar parecia vazio, nenhum som, seja de animais ou pessoas. O garoto ficou nervoso.

—-- Eles devem estar lá dentro, não se preocupe, não menti. --- disse Jack, o que comprovou a teoria do garoto sobre poderem ler as emoções.

A porta da casa era de madeira escura com entalhes estranhos, Ivy imaginou que fossem runas. Quando se aproximaram a porta se abriu sozinha, mas o garoto não ficou impressionado, já tinha visto coisas mais estranhas. O hall era um enorme salão com vários quadros espalhados pelas paredes, a maior parte mostrava pessoas em poses heroicas enfrentando monstros mitológicos, o garoto reconheceu Hércules enfrentando o leão que ele não se recordava o nome em uma das obras. Também haviam mais quadros com runas pelas paredes. Todos os andares eram conectados por uma enorme escadaria que deixava um enorme espaço quadrado entre elas podendo se ver o que existia em cada andar. Um enorme tapete vermelho se estendia pelo chão de mármore branco da porta as escadas. No espaço entre as escadas uma tapeçaria preta gigantesca se estendia na parede branca com a imagem simplificada de um vaga-lume branco. O lugar deveria ter sido estonteante em seus melhores tempos, mas ainda podia-se notar a grandeza do lugar. De certa forma idade avançada da construção davam um toque especial no lugar.

Jack guiou o garoto na direção da primeira porta a direita do segundo andar. A medida que se aproximavam Ivy notou barulhos de pessoas vibrando, como se existisse uma torcida. Ele não pode deixar de se sentir aliviado. Assim como na entrada, a porta se abriu sozinha e revelou um grande cômodo com dezenas de adolescentes aglomerados ao redor de uma TV com cerca de oitenta polegadas. Dois deles jogavam um jogo de basquete no aparelho quando Ivy e Jack entraram e alguém marcava uma cesta de três pontos quando chegaram. Todos gritavam e emitiam grunhidos de aprovação enquanto um garoto loiro, que provavelmente marcou o ponto, se levantava vitorioso cumprimentando os demais.

—-- Não foi dessa vez Josh.--- disse o garoto loiro para o outro que jogou o joystick na parede frustrado.

Antes do impacto Jack estendeu a mão e o objeto parou no ar. Todos se voltaram para a porta e Ivy estranhamente se sentiu sem graça, algo que nunca tinha acontecido, ou pelo menos não tinha memória de sentir.

—-- Deem as boas-vindas a Ivy Turner. --- Anunciou o senhor com empolgação.

Boa parte permaneceu imóvel até o garoto loiro tomar a iniciativa de se aproximar e apresentar-se:

—-- Muito Prazer! Eu sou Oliver Blake.