As Cronicas de Ivy Turner- O Predador
6 Passando a Noite
Ivy
1
Depois do jantar Ivy foi direto para o quarto descansar, ele não havia descansado direito desde o acidente e seu corpo sentia isso. Nada tirava de sua mente que o pedido de Oliver era na verdade um trote que ele fazia com qualquer novato. Seus olhos não aguentaram mais o cansaço e ele caiu no sono, seus pensamentos cessaram.
O garoto nunca se importou com sonhos, mas o pesadelo que teria ficaria bem gravado em sua memória. Ele estava de volta ao banco de trás do táxi no meio da estrada, exatamente como aconteceu no acidente, entretanto dessa vez ele não estava mais entorpecido pela situação, ele conseguia notar tudo a sua volta com bastante clareza, Jack pressionava o motorista para ir mais rápido, o taxista percebia a preocupação e perguntava porque enquanto pisava fundo no acelerador. Em seguida vinha os olhos vermelhos, tudo parecia se mover em câmera lenta como se alguém estivesse editando um vídeo. Quando os olhos vermelhos investiriu na direção do carro, Ivy e ele ficaram cara a cara e o garoto pôde ter detalhes sobre a aparência do seu agressor: ele era humanoide, com quase dois metros e meio e tinha pele preta com veias se projetando para fora enquanto se movia, ele só tinha pelos em partes do corpo, em especial em sua cabeça que mais parecia a juba negra de um leão. Seu rosto não era humano, era um misto de homem com o que poderia ser um felino ou um canino, o globo ocular não era branco como o de costume, era completamente preto assim como todo o resto e com ainda mais veias ao redor deles, suas íris eram vermelho vivo. Quando a criatura ergueu seu braço e acertou o carro, Ivy quase teve certeza de ver, na expressão monstruoso da criatura, o que pode ter sido um sorriso.
O garoto levantou da cama num salto. Sem qualquer razão lógica abriu e fechou a primeira gaveta do criado mudo, toda sensação de segurança que havia sentido desde a estadia no Joane’s Bar havia sumido. Ele, paranoico, abriu levemente a cortina e do outro lado da janela a vários metros de distância, viu a criatura parada, bufando. Ivy começou a andar para trás se afastando lentamente da janela na esperança de que o monstro não conseguisse vê-lo pois as luzes do quarto estavam apagadas. Ele foi na direção da porta para chamar alguém, qualquer pessoa, e antes que girasse a maçaneta a criatura adentrou o quarto partindo a porta em pedaços. Suas garras atravessaram o estômago de Ivy como se fosse feito de espuma, as garras da criatura eram grandes o suficiente para se fincarem na barriga do garoto e prenderem-no contra a parede. O garoto sentia o gosto metálico enquanto engasgava com o próprio sangue. Diferente do acidente do carro Ivy dessa vez teve tempo para sentir desespero, pois o monstro estava parado com a vida do garoto em suas mãos.
— Eu te encontrei --- disse a criatura com uma voz grave que mal podia ser produzida pela fisionomia do rosto.
2
Quando Ivy acordou estava completamente ensopado de suor, seu coração estava a mil. A porta estava intacta. Começou a sentir falta de ar. Em toda sua vida já havia passado por situações bem ruins, conhecido todo tipo de pessoa, mas nunca tinha sentido medo daquela forma. Estava tendo um ataque de pânico. ACALME-SE, repetiu para si inúmeras vezes até olhar um quadro no lado do quarto que pertencia a seu colega desconhecido. Ivy se lembrou das runas de proteção e do que Jack havia dito, sobre impedirem a entrada de criaturas de noite, só o então o garoto voltou a se acalmar, ele estava seguro.
Ainda faltavam duas horas para o amanhecer e o garoto não conseguia mais dormir, começou a perambular pela casa. Presumiu que todas as portas do andar fossem dormitórios então passou a vasculhar os seguintes até que abriu uma porta que o levou a uma enorme biblioteca. Lá dentro Ivy achou que pudesse descobrir alguma informação sobre os olhos vermelhos e começou a procurar. Boa parte dos livros eram de um autor chamado apenas de Hawking.
—-- Por que está acordado essa hora?
Ivy levou um susto ao notar Oliver ao seu lado, ele nem notou quando o garoto tinha chegado.
—-- Eu sei, não consegue dormir, não é? Passo muito por isso. --- Oliver continuou.
—-- É só... --- Ivy tentava encontrar as palavras certas enquanto segura um livro chamado “Os Males que Vagam a Noite”
—-- Entendi --- disse Oliver olhando o livro na mão de Ivy. --- Eu posso te ajudar.
Os dois se sentaram olhando vários livros, Ivy não sabia exatamente como Oliver estava procurando pois não tinha referência da criatura para pesquisa. O silencio dominava o lugar até o garoto loiro voltar a falar:
—-- Você sabia que no mundo mágico três criaturas são constantemente confundidas? Tem os skinwalkers, que são uma linhagem de transcendentes nativo-americanas. Tem os Lycans que são lobos humanoides nativos da Europa e tem os verdadeiros lobisomens, que são escravos da lua cheia enquanto os outros dois não tem nenhuma ligação. Todos os três são erroneamente chamados de lobisomens.
—-- De fato é interessante.
O silencio voltou a reinar no cômodo e já começava a amanhecer.
—-- Vocês podem ensinar não? --- disse Ivy interrompendo o silencio.
—-- Magia? Manipular-la?
—-- Vocês podem me dizer como fazer algo como aquilo que a garota ruiva fez?
—-- Não exatamente. Não podemos te dizer como usar magia.
Ivy não conseguiu esconder o desapontamento, e pôde ver que Oliver havia notado. Desde o acidente ele vinha se convencendo que estaria seguro com aquelas pessoas, no entanto o pesadelo o lembrou de que só estaria realmente seguro se pudesse se proteger sozinho. As esperanças de estar no controle de suas emoções novamente quase tinha ido embora, até que Oliver completou:
—-- Mas podemos mostra-lo.
3
Essa foi a última coisa que Oliver falou antes de sair deixando Ivy sozinho mais uma vez, confuso. As pessoas do lugar pareciam ter um dom para ser vagos quando falavam. Permaneceu na biblioteca até o momento em que os raios de sol invadiram por completo o cômodo. O garoto decidiu descer também e à medida que fazia, escutava o som de uma música ficando cada vez mais alta indo em direção ao salão onde havia jantado no dia anterior. Ivy reconheceu a música, All-star de Smooth Mouth, ela tocava na abertura do filme Shrek quando Ivy assistira com sua irmã um ano antes. Quando chegou ao salão, estava vazio, ele olhou para a parede e viu que o disparo da garota ruiva havia desaparecido, o furo chamativo no concreto desapareceu como se nunca tivesse existido. Ele foi na direção da porta dentro do salão, era o lugar de onde a música vinha, provavelmente a cozinha.
Quando se deparou com a cena bizarra onde Oliver e Caitlin preparavam comida enquanto cantavam e dançavam (Ou pelo menos o garoto tentava) com vários pratos e talheres flutuando a sua volta. Era estranho como aquilo não deixava mais o garoto desconcertado, ele já estava começando a se habituar aquela realidade. Quando o viu, Caitlin o puxou pela mão para dançar com eles contra sua vontade.
—-- Preciso dar um jeito nesse seu cabelo. --- disse a garota examinando o longo cabelo do garoto enquanto ele ficava imóvel.
—-- Eu acho que ele está ótimo assim --- respondeu
—-- Eu acho que não pedi sua permissão.
Em qualquer outra situação aquilo iria irritá-lo, ele já fizera muito por bem menos, no orfanato haviam lhe diagnostica com TEI, uma forma simples de descrever transtorno explosivo intermitente, ou seja, ele tinha problemas com o temperamento. Mas Ivy estava estranhamente à vontade naquele lugar, com aquelas pessoas.
As pessoas começaram a entrar na cozinha, pegando o que já estava pronto e levando para as mesas do salão. Quando todos estavam lá voltaram a papear enquanto comiam:
—-- Afinal quem divide o quarto comigo? Esperava saber quem era durante a noite, mais fiquei sozinho lá. --- disse Ivy.
—-- Own. Ele queria companhia. --- respondeu Chloe zombando enquanto acariciava o cabelo encaracolado de um garoto, Alex, apresentado durante a chamada de Oliver no dia anterior.
—-- Ele não está aqui no momento. --- Interveio Caitlin. --- Seu nome é Agon. Ele é uma pessoa...
—-- Desprezível --- completou Oliver.
—-- Eu ia dizer difícil. Mas é compreensivo, quando era mais novo passou por problemas bem difíceis.
—-- Isso não dá o direito de ele ser um babaca com os outros, todos aqui tiveram problemas. A única pessoa com quem ele se dá bem é a ruiva, com exceção do mestre é claro.
—-- Sabia que falavam de mim --- Entrou Jack no salão vestindo um pijama inspirado nos roupões da franquia Harry Potter.
—-- Sério. Como se atreve a entrar aqui com a camisa da Sonserina? --- perguntou Oliver, sério, embora fosse brincadeira.
—-- O que foi? Eles são constantemente mal compreendidos. De qualquer forma do que falavam?
—-- Agon. --- disse Josh secamente.
—-- Ele é uma pessoa bem difícil de lidar, mas quando se conhece o garoto é impossível não gostar dele.
—-- Concordo plenamente. --- a garota ruiva, Barbara, entrou subitamente na conversa. Era a primeira vez que Ivy escura sua voz, era firme e imponente.
—-- Ele é bem parecido com você na verdade. Estou quase certo que vão ser amigos quando forem devidamente apresentados.
—-- Ou vão tentar matar um ao outro. --- completou Oliver.
A conversa mudou facilmente de rumo. Filmes e séries de TV passaram a ditar o trajeto que a conversa tomava, e Jack era bastante antenado quanto a elas. Enquanto falava, Oliver e os outros adolescentes falavam nomes das possíveis obras das quais o senhor se apossava dos discursos, ele parecia fazer constantemente referências a elas.
Quando finalmente se levantou e saiu, Oliver se inclinou para Ivy e sussurrou:
—-- Se lembra daquele favor que te pedi? Agora seria uma boa hora.
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