As Crônicas de Verminia
1 Combinados, uns trocados e explosões!
“Que calor infernal...” Resmungo de cima da cabeça de Jolmorf, olho para o lado, e vejo sempre a mesma coisa: areia, matos ressecados e árvores retorcidas. Apesar do meu olho esquerdo estar cego, duvido que eu enxergaria mais do que isso.
“A ideia de vir para cá foi sua, Krug.” Jolmorf responde. Ele vem sido meu amigo dês de muito tempo, eu nem lembro de como nos encontramos, e ele é algo bem engraçado, eu nunca vi algo ou alguém parecido com ele, mas também não vi ninguém mais burro. Ele é um brutamonte peludo de dois metros, de pelagem parda, uma cara de abobado, dois chifres que parecem de boi e pernas no formato das de um carneiro e uma postura corcunda, ele reclamava comigo que era de tanto me carregar, mas do jeito pequeno que eu sou, eu duvido muito.
“A culpa não é minha se o cliente mora longe. Mas vai valer a pena! Ele prometeu uma fortuna, e já me deu metade.” Digo, enquanto vasculho por meus bolsos e observo com meus olhos brilhando, aquela quantidade de ouro. Um sujeito me entregou isso, e disse para eu encontrar um cara do outro lado do deserto Miranmar. Ele prometeu mais ouro, se eu vendesse umas coisinhas que explodem para ele.
“Ah... tá.” Num berro lerdo, ele sacia sua implicância e fica quieto.
“Ei, Jolmorf! O que você é?” Digo aos berros, numa tentativa desesperada de arranjar algum assunto e não enlouquecer nessa desgraça de lugar.
O gigante para. Ele contorce o rosto para uma expressão de pensativo e apoia a mão no queixo. Eu seguro o riso, e pensar que uma criatura tão burra faria essa pose.
“Um orc, eu acho.” E eu desabo na gargalhada, não me segurando. Me apoio segurando seus chifres, que são pequenos, mas ainda conseguem ser maiores que minha mão.
“Hm?” E ele solta um grunhido demente. Recomponho minha postura, para não cair de cima da cabeça dele.
“Orcs são verdes, seu idiota!” Digo em alto e bom som, porque parece que essa besta só grava o que eu digo quando eu grito.
“É, verdade.” Ele concorda, sacudindo a cabeça, quase me derrubando. Ele volta a andar, com passos pesados e largos.
E eu já ia resmungar de novo, se ele não tivesse abrido a boca para prosseguir com o assunto.
“E você? O que você é?”
“Um goblin. Eu já disse milhares de vezes!” Quase certeza que das outras milhares de vezes eu não gritei.
“Mas vermelho? Goblins não são verdes?” Olha só, parece que o brutamonte não é tão retardado.
“É, eu tenho um problema de nascen... deixa pra lá. É um problema.” Se eu falasse “de nascença”, ele perguntaria o que é. Sim, eu quero um assunto, mas não falar coisas complicadas para um idiota que vai esquece-las.
“Ata.” Outro resmungo. Ouço vozes na minha cabeça, e um espeto no auge da minha careca. Eu berro, agarro a minha coifa de couro e a aterro num dos meus bolsos. Essa porcaria tava me esquentando, e me deixando maluco.
“Acho que é aqui.” Comento com Jolmorf, parece que achamos a cidade onde o cliente está. Olho aos arredores e dou uma fungada. O lugar cheira a mijo e merda de Orc, mas parece que eu tô anestesiado pelo calor e nem me importo mais com isso.
“E agora?” Jolmorf me pergunta, faz uma cara de perdido e observa a cidade.
“Me desce. Era para a gente achar algo como uma taberna, mas aqui é tudo tão estranho...” Deslizei a mão pela minha testa para retirar o suor, e já é a vigésima vez que eu faço isso, eu acho. Jolmorf inclina a cabeça para frente, como se fosse dar uma cabeçada em alguém, eu grito enquanto caio, mas logo em seguida ele me segura.
“Seu desgraçado! Me larga!” E ele me encara, confuso. Eu ia até falar “Me põe no chão”, mas do jeito retardado que ele é, seria mais provável ele me arremessar.
“Eu fiz algo errado?” Disse ele, me soltando.
“Ora seu...!” E eu seguro meu impulso de gritar com ele, não quero causar uma confusão. Não ainda.
“Vem. Temos que achar o cliente.” Chamo-o e começo a andar pela cidade. O estilo da cidade é bem estranho, eu nunca vi isso antes; as casas são quadradões ou retângulos enormes, feitos de blocos de pedra amarelados. Vejo várias pessoas quase peladas, com uns trapos surrados, parecendo mendigos. Sério que o cara que me deu aquela fortuna recomendou um cliente aqui? Não acredito que ele estava me zoando.
“Acho que achei.” Depois de andarmos um pouco, Jolmorf aponta para uma das maiores construções da cidade. Eu me aproximo do lugar, e leio o que estava entalhado na pedra acima da entrada: “Coelho Caolho.” E logo me lembro que era esse o nome que o encapuzado me deu para procurar. Jolmorf é bom em palpites, vou me lembrar disso. Se bem que ele disse que era um orc mais cedo... deixa para lá.
Entrando no bar, avisto várias cadeiras feitas de palha e couro, e uma enorme bancada de pedra. Vejo também olhares de desgosto se direcionando para mim e para Jolmorf, e algumas risadinhas de deboche. Ah, sim, eles vão pagar. Com a mesma facilidade que eu levei para lembrar o nome da taberna, também me recordo da descrição do cliente: Um cara jovem, moreno e de cabelo grosso e loiro, um nariz grande e olhos azuis. Olha só que surpresa! Vejo a figura sentada no canto da taberna, sozinho. Antes de me aproximar, eu o encaro melhor. Ele parecia bem compulsivo, olhava para todos os lados o tempo todo, e não parava com as mãos quietas. Solto uma risada forçada, algo que eu faço quando estou com um mal pressentimento. É, eu sei, é estranho.
“E aí, narigudo!” O cumprimento com agitação, saltando sobre o banco e Jolmorf permanece ao lado da mesa. Ele se assusta e começa a esfregar as mãos, ele não tem cara de quem tem dinheiro.
“Ah, oi... oi Krug! Esse aí é o... Jolmorf!” O cliente fala, tropeçando a cada palavra. Percebo que a cada pausa, ele olhava para trás de mim, como se estivesse esperando algo.
“Sim, esse é o Jolmorf.” Digo em alto e bom som, capturando a sua atenção, saltando do banco para a mesa. Estabeleço um contínuo contato visual, como se eu quisesse o intimidar.
“Então... Você... você trouxe, né? O que eu p-pedi.” Ele tá muito nervoso, e fica desviando o olhar, olhando para os lados e para suas mãos agitadas.
“Claro. Eu sempre trago, mas... sabe! Eu não lembro muito bem o seu pedido. Qual era mesmo?” Enquanto eu falo lentamente, as vezes bisbilhoto para trás, e percebo vários homens encapuzados adentrando ao estabelecimento. Eles cochichavam de pouco em pouco com as pessoas do bar, como se não quisessem ser percebidos, e alguns tempos depois, as pessoas saiam.
“E... E... As mais poderosas e explosivas!” Ele respira fundo, e grita isso. Sua respiração tá rápida, e ele está suando, e não, não é pelo calor dessa merda.
“Há há há! Assim que eu gosto, garoto! Jolmorf, vai lá fora buscar as mais poderosas e explosivas.” Esbravejo contra meu amigo gigante, porque é assim que ele geralmente me obedece, e escuta.
“Tá.” E ele sai andando para a saída. E sabe o que é mais engraçado? Não tem nada lá fora. Eu sempre carrego meus equipamentos num saco sem fundo preso a minha cintura. Ele é realmente um idiota.
Enquanto Jolmorf anda para a saída, os homens encapuzados o abordam, apontando suas espadas para ele, e começam seu discurso entediante.
“Parado aí! Nós somos do exército de Serendia, e você vai ser condenado a execução em praça pública, por ser cúmplice de um criminoso nível 3, de nome Krug.”
“Uh?” Ele solta outro gemido demente, enquanto encara os guardas, não entendendo a situação.
O guarda que estava mais a frente, passa com dificuldades ao lado de Jolmorf e vai caminhando até mim com o chapeuzinho vermelho dele. Pelo jeito é o líder deles. Lá vem. Ele aponta sua espada para mim e encara o garoto a minha frente, e ele faz um sinal com a cabeça, algo semelhante a: “Vai logo, bebê chorão.”, e o moreno sai correndo, tropeçando pelos bancos até sair.
“Krug. Você é condenado a execução em praça pública de Serendia por contrabandear drogas, artilharia pesada, explosivos, explodir oficiais serendianos, e causar danos a aldeias sobre domínio de Serendia.” Droga, ele diz isso com um ar tão imponente que dá vontade de esmurrar ele mais ainda.
“Não conheço nenhum Krug não.” Comento, fazendo uma expressão de deboche, enquanto eu sorrateiramente remexia entre meus bolsos sem fundo, tentando achar alguma bomba. Eu não daria uma resposta tão idiota atoa.
“Não? Krug é um goblin vermelho, com o olho esquerdo branco, geralmente usando uma coifa esbranquiçada, vários sacos e bolsos, com uma túnica sem mangas azul, e uma tanga marrom. Certeza que não é você?” Perfeito. Ele dizia isso com um tom de superioridade que me dá um nojo, e caiu direitinho na enrolação.
“É. Parece que sim.” Retiro bruscamente de um dos sacos sem fundo uma meia dúzia de esferas esverdeadas, que arremesso contra o chão e provocam uma névoa que limitava a visão de quem estivesse dentro, a um palmo de distância. Passo por de baixo das pernas do guarda e retiro do bolso um cristal, também azulado. Eu o solto e ele começa a flutuar.
Saio da névoa, o guarda de chapéu vermelho solta um grito. He, mal sabia ele que o cristal que eu joguei congelava ao contato.
“Jolmorf! Atacaaaaaaaar!” Esbravejo, enquanto pulo nas costas de Jolmorf e começo a escalar sua pelagem parda. Jolmorf pode até ser um retardado, mas é bem forte e sempre responde bem aos meus comandos, bem, quase sempre.
Jolmorf entende o sinal, ergue seus dois braços e os desce com violência, jogando para baixo e matando imediatamente o guarda a sua frente, e desestabilizando a postura dos de trás.
“Jolmorf, corre!” Ele solta um bufo e dá uma investida para frente, atropelando e pisoteando os guardas e escancarando a porta da entrada da taberna. Sorte nossa que a entrada tinha 3 metros. Ele para na frente da taberna, gritando e berrando, mas confuso.
“Volta! Jolmorf, volta!” Ele freneticamente olha para todos os lados, encara a taberna e começa a correr em direção a ela. Consigo me estabilizar encima dele, mas eu vejo que ele realmente estava entrando com tudo na taberna.
“Não, não, calma! Para!” E ele realmente para, mas de forma brusca e me arremessando por cima dos guardas. Um foi morto, outro congelado, e mais três estavam grunhindo de dor com os ossos esmagados. Um guarda muito determinado, eu diria, balança a espada contra mim, eu me esgueiro pro lado e saio correndo de volta para Jolmorf, arremessando cristais laranjas contra eles e... Cabum! Todos vão pelos ares. Sim, eu realmente voltei só para matar eles.
“Uhuw! Boa Jolmorf!” E eu estava me preparando para descer e saquear o que restou dos guardas. Nunca se sabe, mas né? As vezes eles tem algo útil pra vender.
Eu realmente ia descer, mas mais guardas do reino nos cercavam fora da taberna, e dispararam uma flecha contra Jolmorf, que o fez correr desesperadamente.
“Para! Para! Para!” E essa foi uma das poucas vezes que Jolmorf me escutou, e não me obedeceu. Ele saiu pisoteando qualquer um em sua frente, e eu olhei desesperado para trás. Uma dezena e mais um pouco de homens furiosos nos perseguiam a cavalos. Todos com a mesma armadura e querendo nos matar.
Voltando meu olhar para frente, vi a muralha da cidade e logo saquei o que Jolmorf pretendia: Ele iria atravessar aquilo. Ou pelo menos pretendia, porque aquela merda era muito grossa, até que eu puxei sua cabeça pelos chifres para a direita, querendo que ele fosse para essa direção, mas parece que esse brutamonte é teimoso, e foi justamente para a esquerda. Acabamos por virar num beco sem saída, e os guardas já estavam se aproximando.
Jolmorf não iria parar, e muito menos dar meia volta. Retirei do meu saquinho alguns orbes laranjas e os arremessei contra a parede a nossa frente. Ela explodiu e Jolmorf prosseguiu, destruindo a mobília do interior daquele estabelecimento. Arremessei de novo, para explodir a parede da frente daquilo que já foi uma casa, mas parece que ouve um engano porque eu arremessei os cristais errados, e invés de explodir a parede, gerou uma névoa. Jolmorf contornou a névoa, receoso e deu um murro na parede. Ele não podia fazer isso todas as vezes? Droga, os guardas estão cada vez mais perto.
Passamos pela casa e enfim visualizei ao longe a saída da cidade.
“Para lá!” Eu berrei, e apontei o dedo, por mais que eu estivesse acima dele e ele não pudesse me ver. Mas acho que ele entendeu a mensagem, porque começou a correr desenfreadamente para frente. Ele atropelou mais algumas pessoas e destruiu algumas barraquinhas de frutas e essas coisas, mas nada que eu me importe, mas os guardas estavam quase nos alcançando.
Me virei, e procurei os cristais laranjas, e desta vez eu verifiquei o que eu estava arremessando. Droga de novo, há apenas um cristal. Me concentrei e mirei, arremessando contra o cavalo que mais estava na frente, e que cena linda de ver! Os cavalos foram caindo como se fossem dominó.
E finalmente chegamos a saída do reino.
“Uff! Essa foi intensa!” Eu disse, já exausto e tonto encima dele, já pulando para seu braço e caindo até o chão, de forma suave.
“E o cliente?” Jolmurf resmungou, confuso e bufando. Ele realmente não entendeu nada do que aconteceu.
“Deixa pra lá. Ele era só uma isca pra gente. Vamos descansar um pouco.” Digo, retirando um cristal azulado mal polido da bolsa, e com esforço eu o esmago. Ele libera um ventinho delicioso.
“Bem melhor.” Aprovou Jolmurf, sentando no chão.
“De volta a lugar nenhum. Mas sabe, do outro lado do continente, lá nas Terras Abrasadas do norte, tem outro cliente. Então?” E eu estendo minha mão minúscula fechada para Jolmurf, como um toca aqui.
“Unff.” Ele solta uma risada, e bate na minha mão com seu mindinho. Sabe, ele é um idiota, mas é o meu melhor amigo.
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