As Crônicas de Reddie Hunter
33 Fofo? Não, obrigado
Notas iniciais
ETHAN
— Nós... Trouxemos hambúrguer – Franzi os lábios e ergui o pacote do Burguer King – Vou deixar na cozinha.
Eu não sei se sou só eu, mas eu não consigo disfarçar minha cara de cu quando tô puto com algo. Não tenho aquele maravilhoso sorriso do “Dane-se, nem me importo”.
Minha cara praticamente diz “Ow, desgraça dá pra tu largar minha garota ou tá difícil?” Mas Reddie não é nada minha, a não ser aquela linda crush platônica que eu sei que não vou ser retribuído, a não ser se for na mesma intensidade de ódio e patada, então eu não posso simplesmente falar isso como estava querendo. Fui pra cozinha e Sel foi atrás de mim.
Deixei o pacote em cima da bancada.
— O que foi? Cara feia pra mim é fome. – Ela diz e eu bufei.
— Tô com cara feia nenhuma, olha bem pra mim garota, eu sou lindo de morrer, até carrancudo eu sou bonito.
— Morrer de susto só se for – Ela gargalhou e eu fechei a cara, fique aí achando que isso atingiu meu ego. Me sentei ao lado dela e arquei uma sobrancelha vendo seus olhos mudarem para um tom de azul brilhante. – O que foi gatão, tá apreciando a paisagem?
— Na verdade não, se olhar queima — Eu pisquei para ela.
— Tanto brilho que você não aguenta né? Não vou mentir, adoro.
— Brilho no seu olho é o que não falta. – Ela pegou um hambúrguer e jogou na minha cara – Tem certeza que não é parente da Reddie? A gentileza é igualzinha.
— Vamos fazer um acordo?
— Fala aí.
— Cala boca e come um hambúrguer tá? – Eu dei de ombros.
— Tanto faz — Disse e Sel me olhou com uma sobrancelha arqueada.
— Falou a Elsa, pensei que o cargo era do Nicho.
— Acredite, não pretendo roubar o cargo do teu namoradinho.
— Me fale dele não, ele parece meio ocupado. – Ela revirou os olhos.
— Mas foi você que falou dele primeiro, viada.
— Ninguém te perguntou, caralho. Mas agora perguntando mesmo, tu gosta da vegetal vermelho, não é?
— Ah, espere. – Revirei os olhos, cacei uma caneta e um pedaço longo de papel toalha, escrevi “Reddie é minha crush”, e amarrei na minha testa – Achei que já tava escrito na minha testa, agora tá claro?
— Tá mais que claro. – Sel gargalhou. – Espere.
Ela pegou o papel toalha e a caneta, escreveu nele, e amarrou na testa, estava escrito “100% puta com esse namorado que nem é namorado”.
— Agora meu sentimento tá estampado na testa também. – Nós rimos e tiramos e jogamos fora as faixas antes que os motivos daquilo vissem aquela coisa ridícula. – Devia ter escrito também “100% com fome”.
O cheiro do hambúrguer me atingiu, abri a caixa que Selena havia tacado na minha cara e comecei a comer. Sel pegou dois hambúrgueres e assim a gente ficou comendo trocando farpas um com o outro de vez em quando e rindo logo em seguida.
— Caralho, mulher, tu não consegue nem comer sem se sujar.
— Você tá falando de mim e parece um bebê que acabou de vomitar.
— Eu não – Mas mesmo assim peguei um guardanapo e limpei a boca – Sou educadinho comendo.
— Então leva a garota pra jantar antes de comer?
— Com a Reddie não funcionou. E olhe que eu ainda salvei a vida dela uma vez. – Falei com uma expressão séria.
A gente se olhou e começou a rir feito uns loucos.
— Pesado – Sel riu limpando uma lágrima que surgiu no canto do olho.
Senti algo gelado na nuca que me causou um arrepio, toquei o lugar e meus dedos estavam com pequenos flocos de neve. Olhei para a porta da cozinha e Nicho estava lá com cara de cu como se dissesse “Quê que vocês estão fazendo aí rindo, casalzinho?”.
Olha só, eu não sou o único que não sabe disfarçar cara de cu quando tá puto. Vamo trocar logo 50 reais, talarico.
— Quer parar de congelar meu cabelo ou tá difícil, Elsa? – Reclamei e Nicho revirou os olhos.
Então a gritaria habitual da casa de Selena Cook recomeçou. Levantei devorando o último pedaço do hambúrguer e fui pra sala.
— SEL! — Rafa gritou — NICHO E AARON LÁ EM BAIXO AGORA. JACK VOCÊ TAMBÉM.
— Vamos fazer as poções agora? – Nicho perguntou descendo junto com Sel – Reddie, vem comigo.
Assim que falou isso meu punho se fechou e o de Sel também, Reddie desceria de qualquer jeito, ele não precisa ficar chamando ela como se precisasse que ela o seguisse ou qualquer coisa do tipo. Garoto chato.]
Desnecessário.
— Vamos, Sel, Nicho, Reddie e Aaron na estrutura, Aaron e eu na escolha dos feitiços. Jack e Ethan na montagem. – Disse Rafa.
— Porque tanta gente na estrutura? — Eu perguntei franzindo o cenho.
— É mais trabalhoso – Nicho respondeu.
— MERMÃO, AQUI É SÓ OS LOCÃO! OS RAIO-X DO MORTAL KOMBAT, OS HAMEHA DO GOKU — Sel brincou e não me toquei que ela havia falado em português até ver a cara confusa dos outros, eu entendia tão bem que não tinha dificuldades, então dei risada.
Selena pegou um caderno do Deadpool e estendeu um caderno do One Piece para Nicho. Minha mãe era brasileira e me ensinou por bastante tempo, inclusive a fazer brigadeiro, que é meu doce favorito.
— Você entendeu o que eu disse, Ethan? – Sel perguntou ainda em português, notando que eu fui o único a não fazer uma cara confusa.
— Sim, eu entendo – Respondi no mesmo idioma sorrindo.
— Aaaaaah, toca aqui, é nóis parça. – Ela estendeu a mão.
— É nóis que domina nessa bagaça. – Bati na mão dela rindo e os outros olhavam boiando.
— Estão falando em... Português? – Reddie perguntou.
— Sim – Falei em inglês de novo. – Eu amo expressões brasileiras.
— Meme é vida, querido – Sel falou em português.
— Nunca nem vi – A gente riu de novo.
Milagre esse eu me dando bem com Selena.
— Mas que desgraça é essa? Quer que a gente calcule letras? Passei da fase de estudar matemática — Reddie olhava fazendo careta para o caderno a sua frente. Ela poderia pedir ajuda para mim, eu sou excelente em matemática, contudo eu sabia que ela não ia pedir.
E ela também não sabe que eu sou bom em matemática. Se a gente namorasse ela ia saber, mas a cerejinha não colabora.
— Algumas anotações — Sel começou a explicar para Reddie que prestava bastante atenção, Nicho estava quase babando pela Sel.
Eu admirava comportadamente a cara que Reddie fazia quando estava concentrada. Pelo menos eu sabia disfarçar ao mesmo tempo que fazia o meu trabalho, o meu caderno estava lotado de cálculos. Nicho estava com o caderno a frente dele em branco.
Aaron já tinha saído da mesa. Sel começou a corar notando que Nicho a secava e o olhou brava.
— Você pode parar de me encarar e continuar o seu trabalho? – Ela ralhou.
— Tá — Resmungou e olhou para a folha do seu caderno que estava em branco.
— VOCÊ NEM COMEÇOU?! — Sel berrou — EU NÃO ACREDITO, É UMA SIMPLES EQUAÇÃO!
— Nicholas — Ela respirou fundo e Nicho apoiou o cotovelo na mesa e colocou sua mão no seu rosto, ela se aproximou e pegou seu caderno — SEU BURRO! É SÓ VOCÊ COLOCAR X-Y+4/5=X-Y-2X.
— Desde quando isso é simples, Cook?! – Ele berrou de volta. Caramba, que isso vai dar merda...
— Se você parar de ser lerdo, a conta fica fácil!
— Eu não sou lerdo, você que é!
— Não sou eu que não sei fazer uma conta simples como essa!
— Isso não é simples.
— Para de questionar!
— Por que eu que tenho que parar? Você que tem que parar de me encher! A Reddie tá ali na dela, não gritando no meu ouvido, siga o exemplo.
Cara.
Tá querendo morrer?
Sou um ano mais velho que esta criatura, mas ele já devia saber que comparar uma garota com outra dá muita merda. Selena estava com uma expressão de fúria, mágoa e incredulidade. Talvez nem ela acreditasse que ele tivesse sido capaz de ter dito aquilo. Reddie se remexeu desconfortável na cadeira e deu um tapa na testa fazendo uma careta como se dissesse “Agora que ele ferrou tudo de vez”.
— Tudo bem — Selena afastou sua cadeira e um silêncio desconfortável se instalou. – Vou seguir o exemplo da Reddie, mas já que ela é tão boa, fique com a Hunter.
— Sel, você pode me ajudar?- Rafa perguntou e Selena se levantou e foi até Rafa com o seu caderno.
Eu voltei minha atenção para o meu trabalho e lambi os lábios suspirando. Eu acho que estava fazendo merda. Meu frasco borbulhava com um líquido azul. Mas era assim que devia ficar mesmo de acordo com o livro e meus cálculos, então parecia estar tudo tranquilo. Então Reddie saiu dizendo que ia ao banheiro. O que eu acho que era uma desculpa pra não ficar no local que emanava uma tensão terrível. Ouvi ela murmurar algo do tipo “Eu não acredito que ele foi tão burro”.
Nicho estava com as mãos cobrindo o rosto, nitidamente arrependido. Disse que ia tomar sorvete. Jack disse que tomar chocolate quente. Estava mais do que claro que ninguém queria ficar ali. Somente eu, Sel e Rafa permanecemos. Aí minha poção começou a adquirir um tom amarelado como o livro disse. Sel franziu o cenho.
— Isso aí tá errado, não tá?
— Não tá, não.
— Sel, tá certo. – Rafa disse.
— Não tá. Precisa de mais raiz de mandrágora. – Ela colocou a raiz picada no meu frasco antes que eu pudesse impedir e o líquido ficou vermelho. Bufei de frustração.
— Ah Sel, tava certo cara! Por que você fez isso? – Me lamentei.
— Ainda dá pra salvar, é só colocar essas sementes aqui. – Rafa colocou e a poção ficou de um tom de amarelo neon que com certeza era fluorescente e com certeza também não era o que o livro estava dizendo.
— Cara, acho que você só piorou a merda aqui.
— Claro, precisa desses espinhos aqui. – Sel disse.
— Sel, é óbvio que tem que colocar mais algumas gotas de suco de dente de leão. – Rafa retrucou.
— Tá piorando! Coloca essas folhas de urtiga! – Ela ralhou e agora minha poção estava verde escuro e espumando pra caramba.
— Caralho! Essa porra vai explodir daqui a pouco! – Reclamei.
BUM.
Foi dito e certo. Escutei o barulho da explosão e de Sel e Rafa se jogando no chão, mas eu fui atingido em cheio pela fumaça negra que foi bombardeada na minha cara. Tossi, tentando tapar o nariz, mas era tarde, eu já havia inalado completamente a fumaça, meus pulmões estavam com a sensação de queimação e senti algo muito estranho, minha visão sendo alterada, sei lá, parecia que eu estava vendo em tons de preto e branco.
E estava vendo tudo do baixo. Senti algo crescer na minha cabeça.
Meu corpo diminuiu, pelos pretos cresciam de todas as partes. O cheiro da fumaça estava intenso como nunca, parecia que alguém havia soltado um pum na minha cara. Ouvi nitidamente Selena e Rafa se eu estava bem.
O que tá acontecendo pelo amor de deus?
Quando a fumaça sumiu eu vi a merda que tinha acontecido comigo. Foi só olhar para minhas mãos. Ou devo dizer patas?
Eu virei um coelho.
Alguém me ajuda que eu não tô bem. Isso não tá acontecendo.
Eu não estava acreditando. Uma hora eu estava fazendo minha poção perfeita e outra hora viro um coelho por causa da incompetência de uma lobisomem e um bruxo. Mas não era um pesadelo ou alucinação da fumaça.
O fato é que eu era um coelho. Pelado em cima das minhas roupas. Com pelo preto. Sequer era um coelho grande, era um pequeno que caberia em minha mão. Eu tinha um rabo. UM RABO. Senti a extrema necessidade de me depilar. Nunca estive tão peludo na minha vida. Há determinados limites.
— O que vocês fizeram?! – E para meu horror minha voz saiu fina e adorável, o que aumentou minha irritação. – Minha voz. Ninguém sai. Minha voz, cara! EU SOU UM COELHO! E A CULPA É DE VOCÊS!
Eu berrava desesperado com a minha voz fininha e Sel e Rafa me olhavam boquiabertos e desesperados. Sel colocou uma mão no cabelo e fez uma careta do tipo “Mais essa agora”. Experimentei pular em cima da mesa. Nossa, que estranho. Comecei a xingar tudo quanto era xingamento. É um atentado contra minha dignidade.
— Segura o focinho sujo, Ethan – Rafa segurou a risada. Óbvio, eu também estaria rindo se um coelho que cabe na palma da minha mão com uma voz de quem parece que inalou hélio estivesse me chamando de filho da puta.
— Tá rindo de quê? Tá querendo levar uma mordida no traseiro, otário? Espera aí, não vou morder tua bunda, mas eu ainda posso roer a tua cara! – Levantei minhas patas dianteiras e tentei fazer uma pose de Kung Fu, mas acabei me desequilibrando e cai de focinho na mesa, o que só esmagou minha dignidade que já estava destruída.
— Se acalma, Ethan – Selena falou também segurando a risada.
— Me acalmar? Me acalmar? Eu sou um coelho! Um coelho! Me transformem em humano de novo senão eu vou roer a tua mobília, garota!
— Nem se atreva ou te coloco na gaiola até arranjarmos a cura!
— Venha! TENTE! Eu vou comer a tua mão, trouxa!
— Pelo menos você tá muito fofo!
— O que diabos importa se eu tô fofo, Selena?
— É o lado bom ué.
— Não tem lado bom!
— Ai meu Deus, Reddie não pode ver você assim, ela pode pirar. – Sel fez mais uma careta.
— Nem pense em esconder isso da Reddie, eu preciso pedir a ela pra dar uma voadora em vocês dois! Idiotas! – Resmunguei remexendo o focinho e balançando as orelhas, mano, que esquisito. – Ah, cara na boa, que fome, pior que essa mesa tá sendo minha melhor opção.
— Não come a minha mesa!
— Então me arranja uma cenoura! Eu não acredito no que vou dizer, mas eu daria tudo por uma única verdura ou fruta! Aliás, melhor ainda! Me cura logo agora.
— A gente fez uma mistura danada, vamos ter que chutar antídotos até conseguir te curar. – Rafa falou.
— Ah seu... – Comecei a xingar novamente todos os palavrões possíveis, o que não dava certo, eles estavam dando risada! Também desse jeito, nem eu tô me levando a sério. – Quanto tempo isso vai demorar?
— Não sabemos.
Nesse momento a porta se abriu e Reddie entrou. Antes que eu falasse algo Sel me pegou, o que era bem fácil, eu era só um pouquinho maior que a mão dela. Meu Deus, eu nem posso ser um coelho grande. Eu ia protestar, mas Sel pressionou meu focinho com as pontas dos dedos. E como é que eu respiro hein minha filha? É atentado agora? Me transforma num coelho e ainda quer me matar me sufocando.
Ouvi mais passos, mas não sabia dizer com exatidão quantas pessoas haviam voltado.
— Hey, cadê o Ethan? – Ouvi a voz de Reddie, ela havia sentido minha falta.
Tentei mexer meu focinho e Sel apertou mais os dedos em volta dele, desisti, agora movendo o suficiente somente para conseguir uma quantidade miserável de ar.
— Foi ao banheiro – Sel respondeu rapidamente.
— Mas eu acabei de voltar de lá e não o vi.
— Então não faço ideia de onde ele está, do jeito que é lerdo deve ter se perdido no caminho do banheiro – Ela deu risada. Que mentirosa cara de pau. Ainda me chama de lerdo. Se não fosse a lerdeza dela eu não estaria nessa situação.
— Okay então... – Ouvi ela suspirar. Minha audição estava incrível. Podia ouvir até o batimento do pessoal. Me senti numa escola de samba.
— Hã... Eu tenho que ir fazer uma coisa antes, já volto.
Sel saiu correndo me escondendo em suas costas, e quando finalmente terminou de sair do porão largou meu focinho.
Tomei uma grande golfada de ar, sentindo uma sensação de alívio no pulmão.
— Selena! O que pensa que tá fazendo? – Eu reclamei. – Queria me matar por asfixia?
— Não sei como a Red vai reagir.
— Você não é corajosa? – Debochei.
— Eu acabei de ganhar a amizade dela, não vai ser um coelho que vai estragar.
— Um coelho uma vírgula, o ETHAN transformado num coelho. Está sendo estúpida.
— Tanto faz, você vai ficar escondido aqui. – Ela me mostrou uma caixa velha com alguns furos.
— Onde?
— Aí! Ou coelhos são cegos?
— É que eu não tô crendo que tu vai me colocar numa caixa mofada! Mereço respeito, você não pode simplesmente me enfiar numa caixa, Selena! Seja um lobisomem de verdade e enfrente a Reddie! Eu não vou ficar aí.
— Tu não tem escolha, trouxa.
Ela me enfiou na caixa que por sinal estava fedendo.
— Deixa eu ver... Ah, sorte a sua, tem uma maçã aqui. — Ela jogou a maçã na caixa e quase me acertou.
— Hey, cuidado! Você não cansa de atentar contra a minha vida. – Comecei a mastigar a maçã. Nossa. Isso é tão bom. Eu tava com fome.
— Agora você fica aí bonitinho enquanto eu e o Rafa tentamos encontrar a cura. – Antes que eu protestasse ela fechou a caixa que tinha uns furos tanto nas laterais quanto em cima.
Ela tá ligada que eu sou um coelho, certo? Assim que terminei de comer a maçã (Lógico, comida primeiro) comecei a roer a caixa de papelão. Hey, isso tem um gosto bom, tá mofado, mas tem gosto bom, eu aproveitei e comi a caixa também. Pulei da caixa semi destruída e comecei a correr pela casa, eu acabei me vendo num espelho.
Eu tava ridiculamente fofo e minúsculo. Era um daqueles coelhinhos que crianças pequenas amam esmagar em abraços. Acredito que meus olhos continuavam na mesma cor. Eu não sei, estava enxergando em preto e branco afinal de contas. Preferi não ficar me martirizando e continuei a correr pela casa o máximo que minhas patas pequenas me permitiam, eu já estava perto do porão.
Até que ouvi um rosnado. Era longe.
Mas era um maldito rosnado e eu sabia o que era.
Aiko. O lobo da Selena.
Eu estava absolutamente fodido. Rezei a Deus pedindo ajuda, quem nunca virou religioso quando está prestes a virar comida de lobo, não é?
Aiko era o animalzinho de estimação da Sel, seu xodó. O conheci na caçada pela manhã. Ele só aparece quando Sel precisa de ajuda ou quando quer. Ele conseguia derrubar monstros sozinho.
Que bela hora pra querer aparecer.
Voltei correndo desesperadamente para a cozinha, na tentativa de ficar mais longe o possível do rosnado. Mas quando cheguei lá notei que foi burrice não ter ido de vez para o porão que lá sim teria gente para me proteger e eu fui pra área da casa onde ninguém me ouviria gritar enquanto Aiko me dilacerasse.
Olhei ao redor, o lugar mais seguro que achei foi em cima da geladeira.
Acho que em toda a minha vida, nunca considerei que ficar no alto era a opção mais segura.
O problema era como alcançar. Rapidamente calculei uma rota, por mais que o som do rosnado parecesse aumentar a cada instante. Pulei em cima da cadeira, depois para a mesa, agora meu verdadeiro desafio, pular da mesa para a bancada. Eu ia conseguir. Confio em minhas habilidades.
Tomei impulso e pulei.
Por bastante tempo acreditei que conseguiria, eu estava a milímetros da bancada. Aquela música “Eu consigo voar” até ecoou em minha cabeça. Então caí de cara no chão e por pouco não quebrei uma pata. Mas a vida é feita de desafios e eu não tinha escolha senão tentar de novo, não dava mais tempo de tentar achar outro esconderijo. Pulei novamente na cadeira e na mesa, respirei fundo e tentei de novo.
Glória aos céus, dessa vez eu havia conseguido. Decidi deixar pra comemorar quando estivesse em cima da geladeira. Aquela parte era mais fácil, consegui pular de uma caixinha que havia para a geladeira.
Espero que Aiko não pule bancadas também. Graças a minha audição sensível eu sabia quando Aiko já estava próximo. Me escondi atrás de um pinguim que estava em cima da geladeira. Claro que não ia adiantar. Lobos ouvem batimentos. E o meu coração tá disparado. Nem é pelo medo, coelhos tem o coração acelerado mesmo.
Logo, assim que eu virei meu focinho, vi Aiko entrando na cozinha. As presas enormes a mostra. O pelo cinzento meio esbranquiçado, o que o ajudava a se camuflar na neve. Esse lobo nunca foi tão enorme pra mim. Ele parecia estar farejando algo. Com certeza eu. Ele se sentou na frente da geladeira. Ainda bem que eu não continuei naquela caixa. Ela estava no baixo, cara, eu ia morrer em questão de segundos. Aiko me encarava faminto como se esperasse que eu pulasse dentro de sua boca. Cadê Selena nessas horas? Ela que venha aqui domar o lobo dela. Eu tô sofrendo risco de vida! Vai que ele resolve pular aqui?
Foi dito e certo. Aiko cansou de esperar meu suicídio e pulou na bancada derrubando várias coisas que estavam nela. Agora o desespero bateu. Eu não podia pular da geladeira, era alto demais pra mim. Eu já estava com medo por estar no alto, agora pular dali seria demais, mas também tinha o medo pelo Aiko que com certeza ia me matar numa mordida só.
Então Aiko apoiou suas patas na lateral da geladeira e ela não suportou seu peso. A geladeira cedeu para o lado e eu escorreguei e fui atingido na cabeça pelo pinguim.
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