REDDIE

Eu tentava responder a uma questão qualquer de matemática (na verdade estava viajando na maionese e pouco me ferrando pra quanto valia x) quando todo mundo se assustou com um barulho alto de algo grande caindo no andar de cima.

— Mas que porra é essa? – Selena franziu o cenho e pareceu fazer questão de sair correndo na frente pra ver o que era. Nós fomos logo atrás.

Coloquei a mão na adaga em meu bolso. Subimos de forma sorrateira e quando chegamos a sala, parecia tudo normal, então fomos para a cozinha.

Tinha um lobo enorme. A geladeira estava no chão com a porta aberta. O pingüim que estava em cima dela estava quebrado.

— Aiko? – Selena arregalou os olhos – O que tu tá fazendo aqui?

— Tu conhece o lobo? – Foi minha vez de ficar surpresa.

Sim, eu fiquei surpresa com isso e não com o fato de ter um lobo farejando os restos mortais da geladeira que ele fez cair, ele estava mastigando algo.

— Ele é meu. – Ela foi até ele – Ai meu Deus, abre aí a boca.

O lobo pareceu obedecer prontamente, mostrando as presas gigantes que estavam avermelhadas, parecia sangue, seja o que for que estava comendo, já tinha engolido.

— Ai, Jesus Cristo. Não pode ser.

— Não pode ser o quê?

Selena forçou uma risada.

— Hehe. Nada não gente, acho que ele comeu minha geléia de morango. – O riso foi de um completo nervoso. – Rafa, me ajuda aqui meu filho que era minha geléia favorita.

Rafa pareceu estar informado da causa do nervoso de Selena porque olhava pra tudo quanto é lado desesperado.

— Então né gente, podem voltar lá pro porão que eu vou arrumar tudo aqui e ver o que o Aiko quer, ele não costuma aparecer assim, não é Sel? Podem voltar.

— É, isso, podem voltar, a gente vai arrumar tudo aqui. O Aiko é um desastre quando está com fome – Ela deu mais um riso nervoso e eu franzi o cenho.

— Tem certeza que está tudo bem?

— Claro, meu amorzinho, relaxa.

Dei de ombros e dei uma olhada em volta, então notei que a porta do banheiro estava aberta. Me perguntei novamente aonde estaria Ethan, mas talvez ele também não tivesse curtido muito a atmosfera ruim que se instalou no porão depois da discussão de Selena e Nicho e deu chá de sumiço. Bom, não é da minha conta de qualquer forma.

SELENA

Tem coisa nessa vida que é difícil de se realizar.

Porém, eu sempre tô naquela de se superar e pode pah que eu sempre consigo.

Nada na minha vida é normal então eu nem me surpreendo de conseguir transformar meu amigo em um coelho e que ele possivelmente foi devorado pelo meu lobo de estimação. Eu sentia o cheiro dele na cozinha, mas não fazia ideia se o que estava nas presas do Aiko era sangue dele mesmo ou de outra coisa, só sabia que era sangue.

Haha. Minha vida é uma desgraça.

Salve, Reddie! Tu ficaria bolada se eu dissesse que o Ethan morreu? Só na dúvida básica, uma hipótese, sabe como é né? Você ficaria tipo “Segue o baile” e arranjaria outro boy ou ficaria uns 300% puta? Eu te aconselho a seguir a primeira opção, ela é ótima.

A geladeira estava aberta, tratei de vasculhar. Tinha um pacote de carne aberto e dilacerado. Obviamente pelo Aiko, mas ele podia ter devorado o Ethan de entrada e de prato principal a carne. Olhei para todos os lados. O povo finalmente desceu, só sobrando Rafa que me olhava igualmente desesperado.

— Quê que a gente vai fazer, puta merda?

— Vamos procurar ele, cara, talvez ainda esteja vivo.

ELE TINHA QUE TÁ VIVO NÉ, PELO AMOR DO PAI. Meu coração disparado e eu não sabia se esganava Aiko, não imaginava que ele iria aparecer. Verifiquei a caixa que havia deixado Ethan, a maçã ele provavelmente comeu toda porque não havia nem o miolo e tinha um buraco gigante que com certeza ele roeu para sair. Bicho burro, era só empurrar a tampa, não precisava ter o trabalho de roer a caixa. Mas se eu encontrar ele, juro que dou um biscoito.

Comecei a chamar baixo por Ethan.

— Ethan, seu filho da mãe, pelo amor de Deus aparece. – Eu e Rafa procuramos a cozinha toda, dentro dos armários, debaixo da geladeira pra ver se ele não foi esmagado, e nada.

EU JÁ TÔ ENTRANDO EM PÂNICO NESSA MERDA.

— Aqui ele não tá. – Rafa disse, verificando até na parte do congelador.

— Vamos procurar na sala.

Procurei debaixo do tapete e do sofá, Rafa atrás da televisão e da cômoda. Nada de Ethan. Meus olhos começaram a lacrimejar. Era tudo culpa minha, pra que merda eu fui inventar de achar que a poção dele tava errada? Ainda tinha escondido de todo mundo e não tratei de acelerar e achar a cura mais rápido.

Qualquer coisa boto a culpa no Rafa. Ethan coelho? Que dia foi isso? Nunca nem vi.

Então eu tive a impressão de ouvir algo. Mandei Rafa ficar em silêncio, sim, parecia um coração pequeno batendo bem fraco. Olhei para o banheiro, é claro, um lugar que ainda não tinha visto. Entrei lá, me concentrando o máximo possível para ouvir o som. Estava muito baixo. Vasculhei o banheiro todo e nada. Só tinha um lugar, o cesto de roupa suja. Tirei as roupas com cuidado, o som parecia vir de lá. Agachada, depois de duas camisetas, três shorts, uma cueca e quatro moletons com cheiro desagradável, meu coração se encheu de alívio ao ver um coelho pequeno e preto.

E em seguida desespero porque Ethan estava com a pata traseira direita muito torta.

— Se eu sobreviver a essa, te mato Selena. – Ele murmurou.

— Calma, calma, espera, eu vou te ajudar. – Peguei Ethan, o coitado estava tremendo com a dor, o coração batendo tão fraco que nem sei como ainda tava vivo.

Me concentrei, e senti a dor vindo pra mim, veias negras subindo pela minha mão e braço, a dor era consideravelmente forte, um adulto humano suportaria facilmente, mas pra um corpo como o de um coelho pequeno aquilo era insuportável a ponto de causar morte. Não foi mordida do Aiko, não tinha marcas e se Aiko tivesse conseguido morder Ethan, aí sim que ele não estaria vivo. Ele parecia ter caído. Talvez de cima da geladeira. Ethan gemeu, e seu coração parecia estar voltando a velocidade normal de batimentos.

— Obrigado – Ele murmurou – Ah espere, a culpa disso ter acontecido é sua.

Dei de ombros porque era mesmo.

— Importante é que tu tá vivo – Pisquei pra ele sorrindo.

Aiko entrou no banheiro, olhando de forma ameaçadora pra Ethan que se encolheu na minha mão.

— Você pode, por favor, me tirar de longe desse bicho? – Me levantei, antes que Aiko pulasse em cima de mim – Nunca mais te dou biscoito, desgraçado.

Em outras ocasiões eu mataria Ethan por xingar meu lobo, mas dessa vez, e só dessa vez, entendo ele. Aiko rosnou para Ethan, me perguntando porque eu estava resgatando sua comida.

— Ele não é lanche, é amigo.

Aiko inclinou a cabeça pro lado, e se fosse possível, certeza que ele reviraria os olhos.

ETHAN

Reddie subiu as escadas e Sel me escondeu novamente.

— Conseguiu arrumar tudo?

— O quê? – Selena indagou confusa – Arrumar tudo o quê?

— A cozinha ora essa.

— Ah, eu me distrai conversando com o Aiko, não é todo dia que ele aparece aqui sem motivo nenhum, sabe?

Aiko me encarava como se lamentasse não poder me rasgar em pedacinhos. Toma essa. Minha pata ainda doía um pouco por ter sido quebrada em meu pulo estratégico para fugir das presas dele. Não sei como consegui mancar o suficiente pra fugir pra cesta de roupa suja enquanto Aiko estava atordoado pela queda da geladeira e distraído com um pedaço de carne que convenientemente para minha sorte caiu para o lado de fora.

— Entendo... Acho que vou tomar um chocolate quente. – Reddie foi pra cozinha – Se eu achar as coisas nessa bagunça.

— Vai na fé, querida.

Suavemente e discretamente, movi meu focinho pra cima e assim que consegui uma brecha nos dedos de Selena gritei socorro o mais alto que podia, sendo rapidamente contido de novo. Mas não rápido o suficiente.

— Ouviu isso? – Escutei Reddie perguntar – Parecia uma voz fina.

— Ouvi não.

— Será que estou ficando louca? Jurava ter ouvido algo. – Ela murmurou.

— Você está enlouquecendo. Mas isso não é problema. Eu sou louca e tô aqui de boas. Só tem eu e o Aiko aqui, não é garoto? – Sel deu de ombros o que significou me dar um solavanco na barriga.

Aiko rosnou um pouco, isso, me denuncia lobinho, presta pra alguma coisa.

— Okay... – Ela murmurou novamente e pelos seus passos, percebi que foi para dentro da cozinha de novo.

Selena me segurou em sua frente se afastando um pouco da cozinha e mantendo seus dedos perto do meu focinho como sinal que se eu gritasse ela iria me conter logo.

— Por que saiu da caixa? – Sel indagou sussurrando.

— Teu lobo sanguinário ia me pegar fácil, eu quase fui devorado Selena!

— Se tu não ficar quieto sou eu quem vai te devorar.

— Não teria coragem... – Eu não sei se consegui fazer uma cara de desconfiado sendo um coelho, mas tentei. Sel me segurou mias forte e seus olhos brilharam intensamente.

— Fique aí duvidando, parça... Quando tu perceber já vai tá na minha barriga.

— GAROTA ISSO É CANIBALISMO! PELO AMOR DE DEUS! REDDIE! RE... – Sel pressionou meu focinho antes que eu pudesse gritar por socorro. Eu ainda vou dar uma dentada na mão dessa trouxa.

— Não é canibalismo se eu te devorar nesse corpo.

Reddie apareceu na porta da cozinha e Sel me escondeu atrás de si.

— Sério que não tá ouvindo isso? – Ela perguntou.

— Você deve estar com algum problema Red. Não estou ouvindo nada.

— Ahn... Ok. Você viu o Ethan? Ele sumiu desde aquela hora e não apareceu... – A voz dela soou preocupada. Awn. Que fofa. Se preocupando comigo. Me remexi o máximo que podia e acabei escorregando das mãos de Sel e ela me segurou pelas orelhas. Ai caralho, isso dói muito! Sua doente psicopata e torturadora! Isso dói demais! Pelo amor de deus para com isso, mulher! Eu tentei gritar, mas só consegui dar um gemido de dor antes que daquela criatura segurar meu focinho de novo.

— Não vi não... Relaxa, ele deve ter dado um passeio.

— Mas ele tava trabalhando na montagem, ele não ia sair agora.

— É né... Que irresponsável – Ah, essa eu não ouvi! Olha só quem fala! A garota me transforma em coelho, deixa um lobo sanguinário e furioso das trevas solto pela casa e ainda tem coragem de me chamar de irresponsável. Mexi meu focinho e consegui dar uma mordida em seu dedo. – Para com isso, trouxa.

— Quê?

— Nada!

Vi a mordida se regenerar e se é que era possível, bufei. Mano, que humilhação. Na boa. Meu orgulho está ferido. Dignidade? Nunca nem vi. Eu não podia ser transformado num leão? Um tigre? Um cachorro? Sei lá, mas coelho não, cara. É muita coisa. Sel saiu correndo o que significou eu ser balançado e apertado, filha, eu tenho um estômago meio frágil agora. Ela entrou em seu quarto e me colocou em sua cama.

— Eu vou arranjar um lugar melhor pra você ficar. – Dito isso ela saiu e na mesma hora minha ideia de vingança bateu.

Na verdade deu vontade mesmo. Eu fiz xixi na cama. Me senti como se tivesse voltado a ter 4 anos. Mas eu sou um coelho. Tá perdoado. Eu dei a mais maléfica risada que essa voz fina poderia me permitir. E fiquei lá, lambendo minha pata despreocupadamente, sei lá, isso é bom, parecia que eu estava tomando um banho. Sel apareceu e deu um grito de raiva.

— VOCÊ FEZ XIXI NA MINHA CAMA?! QUER MORRER PARÇA?! AGORA QUE EU VOU TE COMER! – Ela berrou.

Meu cérebro de coelho ficou processando lá. Só havia uma coisa a ser feita. Eu levantei minhas patas dianteiras e as uni numa forma de súplica e fiz um olhar pidão.

Tinha que ter algo de bom em ser um coelho.

— Me perdoa.

Sel estreitou os olhos.

— Isso é um golpe muito baixo.

— Então ser fofo tem um lado bom afinal. – Remexi meu focinho e pulei da cama dela pra escrivaninha. – O Rafa tá procurando o antídoto?

— Ele tá fazendo vários pra gente ir testando até você virar humano. – Ela deu de ombros.

— Isso quer dizer que vou ser cobaia de laboratório.

— Exatamente.

— Ah... Que rebaixamento. Tem uma cenoura aí?

— A gente come pizza no cadê da manhã, acha mesmo que tem alguma verdura aqui? Eu posso sair e comprar alguma coisa pra você, a não ser que coelhos possam comer biscoitos de unicórnio.

— Tem sem cobertura?

— Tem.

— Então me dá.

Sel saiu e quando voltou tinha um pote de biscoitos. Ela me deu um e eu comecei a comer, mano, isso é bom. Isso é muito bom. Eu amo esses biscoitos. E é engraçado comer desse jeito. Bizarro, mas engraçado. Sel me olhava querendo rir. Eu devo tá ridículo.

— Como é que você pretende me esconder da Reddie?

— Escondendo.

— Sabe que sempre que eu tiver uma chance eu vou tentar falar com ela né?

— Sei, e por isso mesmo fique sabendo que se tentar de novo, eu arranco teu rabo.

Ai. Isso doeu só de falar. Depois dessa eu até me escondi debaixo do travesseiro. Garota agressiva. Ela estendeu a mão até mim. Eu até tremi aqui.

— Vem cá. Você tá muito fofinho.

— Sai pra lá. – Eu me remexi, mas Sel me pegou pela barriga – Isso é desconfortável sabia?

Ela me colocou no colo e começou a fazer carinho em mim. Tá. Sel é bipolar.

— É, pode continuar, isso é realmente muito bom – Me deitei no colo dela e Sel fez carinho na minha barriga rindo.

É, cafuné é realmente uma coisa dos deuses.

— Sel, com quem você tá falando...? – Nicho apareceu e Sel arregalou os olhos. – Por que tem um coelho no teu colo?

MINHA ESPERADA CHANCE! Me endireitei e gritei antes que Sel me impedisse.

— SOCORRO! NICHO ME AJUDA! – Nicho arregalou os olhos.

— Okay, agora me explica porque esse coelho fala e por que ele sabe meu nome.

— Essa doida me transformou! Sou eu! O Ethan! Ela e Rafa me transformaram nisso!

— Você tem a boca grande demais... – Sel resmungou e Nicho abriu os lábios e então desistiu de falar algo.

— Tem que falar pra Reddie disso.

— Ela pode ficar brava! – Eu não lia mentes, mas sabia que Selena pensava exatamente “Porque contar exatamente para a Reddie?” Tinha outros. Tinha Bryan, meu melhor amigo, Luna, minha irmã, e ele fala que tem que falar justo pra Reddie.

Pelo menos era isso que eu estava pensando.

Quengo talarico.

— Mas ela vai ficar brava mesmo se você não falar.

— Eu tô sendo humilhado aqui.

— Na minha opinião, você estava perfeitamente bem no colo dela. – Nicho disse, meio bravo e Sel corou.

— Não foi você que foi perseguido pelo Aiko e quase virou lanchinho de lobo.

— Eu não vou discutir com um coelho que cabe na palma da minha mão.

— Ah, mas tu quer levar uma mordida no traseiro mesmo, né?

— Parem com isso pelo amor de Deus! – Sel reclamou. – Por favor, me ajuda a esconder ele.

Nicho suspirou, claro que pensando “Eu já fiz merda demais por hoje, melhor concordar com isso”. Não garoto... Faça mais merda e discorde, mas não me deixa na mão. O que é um peido para quem já está cagado? Vá pelo senso de justiça.

— Ajuda nada, Red precisa saber disso, eu quero pedir a ela pra dar uma voadora nessa garota!

— Não é tão grande coisa! Você tá fazendo drama.

— É, claro, se você tivesse chegado 5 minutos depois eu morreria de dor com aquela pata quebrada. Também é drama eu estar coberto de pelos e do tamanho da sua mão, sua desgraça.

— Por favor, Nicho... – Ela uniu as mãos em forma de súplica.

— Tá bom... Eu te ajudo.

Sel sorriu um pouco. Aff. Que bosta. Continue fazendo merda e me ajuda cara. Tá certo que não gosto de você, mas aceitaria uma parceria.

— Eu quero morrer... – Na mesma hora que disse isso, me arrependi. Vai que o Aiko volta.

— Vamos ter que sair daqui. – Sel disse e foi até o guarda-roupa, pegou um moletom preto dos Beatles e vestiu por cima da blusa que usava.

— E onde vai me esconder? Tentar me sufocar me escondendo atrás de você não é legal.

— Você acharia melhor que a Reddie soubesse e ficasse chateada?

— Você poderia falar. Quem sabe ela poderia ajudar.

— Ajudar com o quê se isso é questão de magia.

— Tá. – Eu disse derrotado. Como se tivesse escolha. – Vamos pra onde?

— Vamos para o meu treino de basquete, temos que ficar longe daqui.

— Na boa isso é muito bizarro – Nicho disse e eu mexi o focinho revoltado.

Nossa Ethan, super demonstração de revolta! Tá pior que manifestação, hein.

Sel pegou uma mochila rosa de unicórnios. Pelo amor de Deus. Me diga que ela não vai me colocar aí. Já não basta ser pisoteada por uma manada de búfalos, minha dignidade também tem que ser triturada e frita.

— Você vai me levar ou não criatura? – Meu fio de esperança tá mais fino que teia de aranha.

— Você aceita ficar em uma mochila? – E lá vem o balde de água fria.

— Eu tenho escolha? A que ponto cheguei? Eu não consigo acreditar que isso está acontecendo. – Mano. Eu tô quase chorando aqui. Mas minha dignidade não merece ser frita e ainda por cima comida e digerida até virar merda.

— Vamos lá, eu coloco lanches na mochila pra você comer. – Ao menos um ponto positivo né, filha. Ela me pegou e me colocou na mochila.

— Não vou mentir, estou com fome e se Nicho não tivesse aqui eu iria te devorar.

Então afinal Nicho serve pra alguma coisa.

— Eu vou com vocês. – Ele disse e Sel respirou fundo. Ah qual é. Mais uma desvantagem nisso. Eu não posso fugir de ter que ouvir essa DR de casal.

— Para quê você quer ir? Era pra eu não te encher, né? – Ui. Que essa doeu em mim. Tomou na cara hein? – Não se preocupe, eu não vou mais te incomodar, Nicholas.

— Selena nem vem com essa, você sabe que eu não falei por mal. – Eu não vi o que ele fez (afinal estou dentro de uma mochila) depois, mas a Sel fez uma cara tipo “Me larga babaca”. A que nível cheguei. Tendo que presenciar discussão do casalzinho.

— Ai!

— Doeu? – Ele fez uma voz meio assustado.

— Doeu na minha alma – Para quem vai o Oscar do drama esse ano? Sim, senhoras e senhores para Selena Cook!

Depois disso ela desceu as escadas, ele a seguiu e... Eu fui esquecido. Então né... Eu vou ficar aqui esquecido numa mochila rosa de unicórnios? Eles resolveram ter uma DR e esqueceram de mim? Beleza então. Isso me dá uma chance de tentar escapar. Pulei pra fora da mochila. Mas eis a surpresa quando eu notei, só no meio do salto, que a mochila tava em cima de uma cadeira e eu bom... Cai de focinho no chão. Graciosidade, cadê tu? Só mandando lembrança, né? Seja o que for eu tava no chão pelo menos.

Sai correndo antes que o casalzinho se resolvesse e viesse atrás de mim. No instante em que terminei de descer a escada e entrei no banheiro, ouvi Sel subir as escadas, notei que era ela porque seus passos são como de um elefante em debandada, não tô dizendo que ela é gorda, ela que coloca força nos pés e o barulho dos passos dela estão amplificados pra mim.

Tentei pensar, embora o cérebro de um coelho seja bem menor que o meu. Eu tinha que encontrar não a Reddie, mas pelo menos alguém racional que me ajude. Essa ideia da Sel de me esconder é muito idiota. A Reddie levaria numa boa. Eu acho. Me desesperei um pouquinho ao ouvir “Eu vou devorar aquele cosplay de Alvin”. Alguém deve ter notado que eu sumi.

Olhei para o banheiro. Privada? Nunca. A não ser que eu queira que minha dignidade já transformada em merda seja comida de mosca e aí vire merda de mosca. Área do chuveiro? Tão óbvio. Além disso, Sel deve sentir o meu cheiro. Corri para o porão, Reddie deveria estar lá.

Então me toquei que o lobo das trevas ainda deveria estar por ali. Aí fiquei parado. Tentando captar algum rosnado, e pior que consegui ouvir.

Agora se é de Aiko ou Selena aí já não sei, estou morto se topar com qualquer um dos dois. E ali estava eu tentando decidir pra que lado ia.

E acabou que caguei pra ir procurar alguém porque minha indecisão venceu.

Selena surgiu da cozinha e fiquei parado ali mesmo.

— Desistiu desgraça?

— Desisti. – Sou um coelho muito obstinado e destemido nessa vida.

— Quer saber? Eu vou te levar te ao Rafa. A essa hora ele deve estar sozinho e pode ter feito algum avanço.

Finalmente uma atitude correta. Boa menina. No caminho certo da vida! Parabéns! Ela me agarrou pela barriga e me levou até o porão onde Rafa misturava várias coisas em pequenos caldeirões. Rafa olhou para Sel e depois pra mim, tentando segurar a risada. Ah filho da mãe, deixa eu voltar ao normal pra tu ver o que é bom. Ele pegou uma concha e foi colocando um pouco de cada poção em frascos com rótulos diferentes.

— Ok, primeiro vamos tentar esse. – Ele entregou a Sel que tirou a rolha do frasco e empurrou na direção do meu focinho quando me lembrei de algo.

— Espera aí. Eu tô sem roupa, cara. Se eu voltar ao normal vou estar pelado! – Eu disse. O que era verdade, seria um mico ainda maior esses dois me verem sem roupa.

Daqui a pouco tá lá Nicho me chamando de talarico por aparecer nu na frente da namorada dele.

Ei, eu sou lindo, não culparia a Sel se achasse bonito. Mas eu prefiro a cerejinha.

— Aqui estão suas roupas então, a gente vai te entregar e você toma a poção no quartinho que tem aqui. Se der certo você coloca sua roupa lá.

Eles me deixaram no quartinho e me entregaram o frasco, junto com minhas roupas. Tomei um pouco do frasco. Cara, isso tem gosto de meia suja. Me senti muito estranho e meio tonto. Aí me ocorreu que eu pudesse bater as botas com esse troço. Ah não, eu não escapei do Aiko pra morrer assim. Meu rabo começou a crescer e ficar listrado. É. Definitivamente não estou morrendo.

Muito menos voltando a ser humano.

Assim que a tontura passou, eu me olhei num espelho que tinha lá. Eu era um guaxinim gordo agora. Que lindo. Só que não. Quer saber? Tá melhor do que ser um coelho felpudo.

Arranhei a porta e eles abriram. Sel caiu na risada e Rafa também. O apoio deles é comovente. Bufei, se é que isso era possível pra um guaxinim.

— Não tô achando graça. – Se minha voz podia piorar? Você acha impossível? Pois é possível.

Agora eu tô com uma voz tão grossa que... Meu Deus nem sei descrever isso, talvez uma voz daqueles caras de academia lotados de anabolizantes. Sel e Rafa, se é que era possível, gargalharam ainda mais. – Me passem logo mais um frasco, babacas.

Rafa, enxugando algumas lágrimas de riso, me passou mais um frasco, esse com um líquido amarelo. Hey, guaxinins enxergam cores. Interessante. Eu segurei com minhas patas, nossa, eu tenho garras. Esse ao menos já não é tão humilhante quanto o coelhinho. Voltei para o quarto e tomei do frasco. Lá vem a tontura de novo. De cara eu vi que não estava me tornando humano. Meus pés estavam laranja, e aos poucos minha visão foi para tons de preto e branco de novo.

Me olhei no espelho. Um pato.

UM PATO? Jesus amado, ninguém merece essa.

— Testando, testando? – Adivinha quem é o ganhador do cosplay do Pato Donald desse ano? Sim, senhoras e senhores! Ethan Ross!

Empurrei a porta com o meu bico. Que estranho. Aliás, pelo amor, pra que eu preciso falar “que estranho”? Todo mundo já sabe que isso é bizarro, convivo com o bizarro todos os dias. Como já estava óbvio, os dois gargalharam da minha cara.

— Tá pagando pato hein Ethan? – Sel riu e eu revirei os olhos, que piada genial. Olhe só, patos reviram olhos – Tenta esse agora.

Ela me entregou um frasco e eu não falei nada. Não queria mais uma onda de risos. Peguei o frasco com meu bico. Assim que entrei no quarto bebi como pude a poção. Dessa vez eu estava crescendo. Tipo. MUITO. Algo estava crescendo na minha cabeça. A tontura estava bem mais forte. Quando ela passou me olhei no espelho. Tá aí uma coisa que a Sel vai gostar. Empurrei a porta com meu chifre.

— Hey, povo! Se liga! Sou um unicórnio – Eu disse, dessa vez minha voz estava até legal, parecia a do Adam Sandler.

Ponto alto de hoje. Eu tinha uma crina arco-íris.

Sel me olhou com a boca entreaberta, como se estivesse hipnotizada, depois gritou.

— Jesus amado, tu é um unicórnio! Alguém me ajuda que eu não tô bem! Me deixa montar em você, Ethan! É meu sonho, cara. Oh meu Deus, eu tô vendo um unicórnio.

— Mas nem a pau. – Bufei. Sim, unicórnios bufam. – Me dá outro frasco.

— Não! Eu preciso ver você cagando arco-íris! Eu preciso fazer muita coisa com você! Por que quer voltar ao normal? Você é um unicórnio fabuloso! – Selena sorria e pulava. Quase dava pena estragar sua alegria.

Quase.

Lembrei que o lobo dela tentou me matar.

— Desculpa aí. Mas eu prefiro ser humano.

— Que tipo de pessoa não quer ser um unicórnio? Ser humano é uma merda.

— Eu.

— Trouxa. Vamos... Deixa eu montar em você. O que custa? Eu quero descobrir se você se alimenta de doces! Se você vomita arco-íris!

— Garota não estraga o que restou da minha dignidade.

— Algum dia tu teve dignidade?

— Quer que eu enfie esse chifre na tua barriga, infeliz?

— Não me obrigue a machucar um unicórnio.

— Rafa me dá logo um frasco antes que essa infeliz resolva me atacar

Rafa me jogou um frasco e peguei com a boca. Sel resmungou que eu era um chato e eu me virei, então meu estômago deu uma remexida e saiu um bombardeio de purpurina de debaixo da minha cauda.

— Então unicórnios peidam purpurina? Belo jeito de descobrir. – Ela resmungou se sacudindo, mas depois deu uns pulinhos sorrindo – EU SEMPRE SOUBE! Cara, pelo menos me diz que sobrou um pouco no frasco.

— Nem dá, bebi tudo.

Sel bufou e eu entrei no quarto novamente.

— Por favor que dê certo dessa vez. – Murmurei, o que saiu abafado por causa do frasco na minha boca, dei meus malabarismos e consegui beber. Processo vocês já conhecem né? Eu fui ficando cada vez menor, e quando me olhei no espelho, eu bufei.

Coelho Ethan de novo senhoras e senhores. Arranhei a porta e eles abriram.

— Por favor diz que tem mais um frasco – E novamente a voz do Alvin. – Eu aceito ser um unicórnio, mas não aceito ser um coelho de novo.

— Tomou Ethan! Não quis ser um unicórnio fabuloso agora é um coelho de novo! – Sel apontou e começou a rir de mim. Só que eu tava abrindo um sorriso porque a Reddie tava bem atrás dela, com a expressão completamente confusa. Eu dei uma risada.

— Vira pra trás querida.

— Que foi? Depois eu limpo a purpurina que você peidou, vou guardar num potinho... – Ela se virou e perdeu e voz quando viu Reddie. – Culpa do Rafa.

— Quê?

— Por que esse coelho fala e você estava chamando ele de Ethan? Que porra tá acontecendo aqui? – Ela perguntou, tentando decidir se olhava pra mim, Selena, Rafa ou pra névoa estranha que saía dos caldeirões de Rafa.

— Não é nada, eu só adotei um coelho que por acaso fala e como ele é muito chato apelidei ele de Ethan. Combina muito né.

— Que mentira mais vagabunda! Eu fui transformado por esses incompetentes malucos, quase virei lanche do Aiko e da Selena e ainda fui cobaia e transformado em unicórnio! Então, por favor, dê uma voadora neles por mim.

Reddie olhou de mim, pra Sel e depois pra Rafa, fez isso umas três vezes e quando eu pensei que ela ia atender meu pedido. Ela começou a rir. Red colocou a mão para cobrir os lábios tentando disfarçar o sorriso no seu rosto, mas não demorou cinco segundos e ela riu tanto que caiu de joelhos e seus olhos lacrimejaram.

Eu nunca vi, e provavelmente nunca mais verei Reddie rir tanto como agora.

— Você... Tá... Tão ridículo! – Ela gargalhava sem parar, nossa, quanta consideração pela minha pessoa. – Socorro, minha barriga tá doendo demais! Meu Deus, você é um coelho.

Reddie ainda rindo conseguiu se levantar e foi respirando fundo até se recuperar da crise de risos. E eu? Eu esperei pacientemente que ela resolvesse ter algum respeito pela minha condição.

— Então... Como que isso rolou mesmo? – Ela foi até mim e me segurou pela barriga me olhando com curiosidade. – Dá pra praticar um bullying legal com você agora.

— Isso é muito desconfortável okay?

— Sua voz... – Reddie deu mais uma gargalhada – Ah meu Deus, isso é hilário. Você se ferrou tão, mas tão bonito dessa vez, quase que dá dó.

— Sua consideração é comovente.

— Cara. Nem venha, se sua dignidade existia agora ela foi massacrada.

Valeu pelo aviso, não sabia dessa.

Sel deu uma risada.

Rir fazia bem a Reddie, eu sempre via ela tentando esconder o riso com uma carranca. Mas depois daquela gargalhada genuína que minha forma atual conseguiu arrancar dela, seus olhos até brilhavam mais. Ela estava sem lentes, e mesmo assim estava com uma expressão tão dócil que achei que até valia minimamente a pena ser um coelho.

Nunca mais me verão falar isso de novo;

— Viu, criatura? Tanto esforço pra me esconder e ela tá rindo da minha situação! – Quis revirar os olhos.

Sel deu de ombros.

— Antes prevenir do que remediar.

— Então você tá... Assim, desde aquela hora que a Sel disse que você estava no banheiro? – Seu olhar confuso foi de mim para Sel. – Por que mentiu?

— Eu pensei que ficaria brava... – Sel juntou os dedos indicadores. Reddie suspirou, e depois de um pouco de convivência com ela sei que isso é um sinal que ela estava irritada.

— Não importa se a verdade me foder, acabar com minha vida, me deixar brava ou triste, me conte, nunca minta pra mim. É isso que me deixa puta – Reddie revirou os olhos. – Estamos combinadas?

Reddie estendeu a mão livre e Sel a apertou.

— Estamos. – Sel sorriu.

— Então, como é que tá indo o antídoto?

— Mal, tentamos vários, mas nenhum deu certo – Rafa balançou a cabeça.

— Tentou verbena e pó de fada?

— Não.

— Tente, sempre dá certo. – Rafa foi procurar nas prateleiras e começou a preparar num caldeirão.

— Como sabe algo de magia? – Sel indagou.

— A família da minha mãe sabia tudo de magia, era um de seus métodos de caça, então sei uma ou duas coisas.

Ela ficou com aquele olhar distante novamente quando falou da mãe.

— Tomou! Eu te falei que ela poderia ajudar! – Reddie despertou com minha voz.

— Cala a boca que sua voz já tá começando a me irritar mais que a normal. – Sel retrucou.

— Que grosseria com um pobre coelhinho.

— Não é porque você tá fofo que eu não vou acabar descobrindo como é o gosto de um assado de coelho se continuar falando.

— Qual é a desse lance de me comer?

— Cala a boca. – Ela e Sel falaram em uníssono.

— Tá pronto! – Rafa mostrou um frasco e me deu, Reddie me colocou no chão e eu fui pro quarto.

— Porque ele tem que se transformar lá?

— Porque ele tá pelado – Sel riu e Reddie corou um pouco, tive vontade de rir.

Rafa fechou a porta e eu tomei o frasco. Quando a transformação passou me olhei no espelho.

Céus.

Fiquei gostoso de novo, glória.

Graças a Deus eu sou humano de novo, minha gente! Tá certo que tô como vim ao mundo, mas okay, coloquei minha roupa, tava cheia de pelo de coelho, mas tudo bem. Eu não tenho que reclamar de nada. Até girei na frente do espelho, só pra garantir que eu não tinha ainda um rabo ou orelhas, mas eu tava totalmente de volta. Até dei um chute na porta rindo.

Uhuuuul! Voltei ao normal galera!

— Eu nem ligo – Reddie deu de ombros. – Tava mais legal antes.

— Preferia você como unicórnio. – Sel também deu de ombros.

— A animação de vocês me deixa comovido – Revirei os olhos.

Elas deram de ombros de novo e se viraram.

— Hey, porque tá com esse monte de purpurina?

— Ethan virou unicórnio com uma das poções, aí peidou na minha cara.

— Ah, entendi.

E assim elas subiram as escadas do porão, esquecendo completamente de mim e Rafa enquanto conversavam.

— Vai entender. Não me dão nem um obrigado – Rafa balançou a cabeça e voltou ao trabalho.

Eu apenas revirei os olhos com uma estranha vontade de comer aqueles biscoitos de unicórnios. Deve ser efeito colateral.