As Crônicas de Reddie Hunter

1 Capítulo - O melhor dia da minha vida. Só que não


Notas iniciais
Heeeey, espero que gostem do livro, não esqueçam de comentar o que acham (aceito super bem críticas)! Boa leitura!

É meio triste quando você percebe o quão ditatorial é a sociedade. Um exemplo disso é quando seus pais exigem que você siga a mesma carreira que eles. Tipo “Hey, a gente nem liga para o que você quer ser seja lá o que for, você vai ser igual a nós!”. Um dos males da família, você tem uma corrente pesada que une você a seus parentes não importa a distância. Tipo quando você se muda e as criaturas conseguem descobrir seu endereço e vão lá acabar com a comida. Pra mim é um mal pelo menos. Ser uma Hunter é um peso bem grande nas costas.

Talvez esse seja um pensamento caótico e gótico demais para uma menina de oito anos. Porém eu acabo de receber uma bomba dos meus pais que foi como um tapa da realidade que dizia que eu nunca seguiria os planos que andava criando.

Desde os seis anos eu havia percebido um porão em nossa casa, ele estava repleto de armas. Eu achei bizarro e quando perguntei ao meu pai ele desconversou e ignorou meus questionamentos.

Meus pais, vulgo Patrick e Anne Hunter, também faziam viagens misteriosas para fora da cidade de Vancouver, me deixando aos cuidados do meu irmão Jacob, sempre que eu questionava isso, desconversavam novamente. Eu me sentia meio invisível naquela família.

Eu estudo em casa, meus pais nunca quiseram que eu fosse a escola. Ainda bem. Eu vejo aquelas crianças remelentas saindo correndo da escola como se o lugar fosse o inferno, trombando umas nas outras, gritando e bagunçando. Eu preferia passar meu tempo lendo sobre a origem da arte, tentando aprender a desenhar, gostava de tirar fotos com meu celular de coisas simples e lendo algum livro introspectivo e interessante.

Meu pai diz que é perda de tempo, mas minha mãe me defendia e me encorajava a continuar. Eu estava alimentando as esperanças do sonho de ser artista plástica e fotógrafa um dia. Mas agora esse sonho foi por água abaixo. Okay. Vocês devem estar achando que estou fazendo drama e que provavelmente sou uma criança mimada que pediu um doce ao pai e ele negou.

Então vamos recapitular um pouco. Meu nome é Reddie Hunter. E meus pais acabam de dizer que são caçadores de monstros e que eu serei treinada para ser igual a eles. Bom. Eu não reagi tão bem. Até porque meu pai disse isso como se estivesse falando: O céu é azul. Ou seja, uma afirmação, uma verdade absoluta sem ter para onde fugir e estragando qualquer possibilidade ou existência de protesto.

Saí correndo de casa, e estou já faz 3 horas no parque da cidade. Refletindo sobre a minha vida que virou de cabeça para baixo. Até passou uns relances de pegar um cabo de vassoura, amarrar uma trouxinha com algumas maçãs e sair por aí afora sem rumo somente vendendo artesanato pra alguém que tivesse pena de uma pobre garotinha. Só que eu não sou idiota. E nem a vida é como um desenho animado.

Na melhor das hipóteses eu iria morar na rua e ficar implorando comida. Na pior eu poderia ser seqüestrada, estuprada e morta. Eu não fui uma criança superprotegida. Pelo contrário, meu pai me fala as verdades nuas e cruas do que algumas pessoas são capazes de fazer. Como ás vezes os verdadeiros monstros são as pessoas. Então não sou daquele tipo que aceitaria uma bala de gente estranha. Mas se fosse dinheiro eu pegava e saía correndo.

Algumas crianças me olhavam de relance assustadas. Logo percebi que era porque saí de casa sem touca (o que explicava meus dentes batendo uns nos outros), com os cabelos soltos e ricocheteando em meu rosto por conta do vento frio e forte, e o pior, sem minhas lentes de contato que tornavam meus olhos castanhos. Nem na aparência eu sou normal. Desde que nasci sou desse jeito. Com cabelos e olhos vermelho vivo. Eu pareço um tomate humano.

Sempre que me olho no espelho eu me sinto desconfortável com minha própria aparência. Eu me destaco demais entre as outras crianças loiras e morenas. Meu pai também se sente desconfortável, então eu ando com o cabelo preso em coque e com uma touca, usando lentes de contato. Eu também não me sinto confortável desse jeito. A cor não combina comigo, mas é melhor do que ficar atraindo olhares como agora.

— Hey sua estranha! – Um garotinho falou provavelmente se referindo a mim. Mas não virei a cabeça em sua direção. Primeiro que essa seria a comprovação que eu mesma me acho estranha. Segundo porque eu não iria perder meu tempo com isso, estou tentando tomar uma decisão que mudaria o rumo da minha vida. Vamos ignorar o fato que na verdade eu não tenho escolha nenhuma. – Ei, estou falando com você!

Continuei encarando a copa das árvores com tons de laranja, amarelo, vermelho e marrom. O outono caí bem em Vancouver, principalmente no Queen Elizabeth Park. Com as fontes de água, o lago rodeado de pedras brancas e grandes. Nunca fui boa em descrever lugares, mas aquele me transmitia uma paz indescritível. Exceto quando eu tinha que lidar com umas crianças irritantes que não tiveram a tolerância incluída na educação dentro de casa.

Já estava no fim de tarde e eu tentava adiar o inevitável. Voltar para casa e dizer que serei caçadora somente para ver o orgulho na face da minha família. Serei. Não irei dizer que QUERO ser porque isso seria uma mentira bem descarada e eu não tenho essa habilidade toda.

Eu estou prestes a engolir meu orgulho, jogar meus sonhos na lixeira, deixar minha vontade de lado somente para agradar minha família. Que porcaria. O bom é que minhas ilusões de vida normal duraram pouco. Será que há alguém na família que meio que enlouqueceu ao receber essa notícia aos 8 anos?

Muitas coisas começaram a fazer sentido, o porão de armas, os livros com figuras estranhas e textos em outro idioma estranho, as viagens e o fato de que certa noite ano passado, quando falei com meu pai que achei que tivesse visto algo debaixo da minha cama, ao invés de fazer o que eu imaginava (tenham em mente que eu imaginava que ele iria lá ver o que era e dizer: Não é nada filha, pode voltar a dormir), ele simplesmente me deu uma arma e disse “atire em qualquer coisa que se mover”. Muito obrigada pai.

— Você é surda também? – Desta vez revirei os olhos. Não se pode mais conseguir paz num parque? Não dá pra perceber que estou num momento reflexivo aqui?

— Não, só não quero olhar pra sua cara. – Respondi ainda sem dirigir meu olhar a ele. Deu para ouvir ele ofegar, mas pelo menos calou a boca depois dessa.

Eu não sei o que estava fazendo ali. Acho que só precisava tomar ar mesmo, se não, minha cabeça explodiria. Relutantemente, pulei do banco em que eu estava sentada. Teria que voltar para casa de qualquer maneira.

Cada passo eu me segurava para não chorar de frustração. Eu não queria ser uma criança mimada e fazer greve de fome e ficar em depressão até que meus pais desistissem da ideia de me tornar caçadora. Wow. Matar monstros? Claro, super haver com uma garota que planejava ser artista plástica e fotógrafa. Isso vai dar MUITO certo. Eu nem vou me ferrar totalmente.

Eu me abraçava na tentativa de me aquecer. Suspirei fundo ao encarar a minha casa. Era vermelha com detalhes em branco, uma porta de carvalho e sem janelas na parte da frente. Bom, na minha antiga e destruída vida de ilusões em que sou uma garotinha normal, meus pais eram empresários. Eu os via trabalhando mesmo nisso. Acho que caçadores não recebem dinheiro do governo.

Essa é uma das piores partes. Eu não vou nem receber dinheiro por isso! Que absurdo! Resolvi parar de enrolar, o que não ia adiantar nada e girei de uma vez a maçaneta tendo a visão de Anne ralhando com Patrick que estava com uma cara do tipo “Dá pra calar a boca, mulher? Eu nem sei o que eu fiz!”. Amor em família! Isso vocês só vêem aqui na residência Hunter.

Acho que já perceberam que sou um tanto irônica.

— Por sua culpa nossa filha pode estar em qualquer lugar! – Minha mãe apontou o dedo para Patrick que a olhou indignado.

— Minha culpa? O que eu fiz?

— Ah, sério? Custava dizer para a menina de um jeito melhor?

— Enrolar pra quê? A vida é curta demais para discursos, a vida de um caçador é ainda mais curta então eu só simplifiquei as coisas!

Nossa. Quantas vantagens tem essa profissão.

Eles finalmente me notaram, depois de 5 minutos de espera. Não falei que sou invisível nessa casa? Eu sei que sou baixinha, mas não sou uma formiga, não povo.

— Querida, você voltou! – Minha mãe foi me abraçar. Eu permaneci imóvel.

— Claro que ela voltou, ela é minha filha! Já está pronta para segurar uma besta! — Eu tô pronta é pra dar meia volta e ir vender miçanga na praia. E olha que nem tem praia em Vancouver. Eu acho. Nunca fui na praia. Depois eu pesquiso isso.

— Filha, é isso mesmo que você quer? – Anne perguntou carinhosa. Dava pra ver em seus olhos que ela queria que eu dissesse isso, mas um bolo se formou na minha garganta.

— Anne! Óbvio que sim! – Patrick respondeu por mim, ela olhou pra mim um pouco mais como se dissesse “Fale o que quer de verdade”.

Mas eu não consegui.

— Eu serei uma caçadora. – Meu pai deu murros no ar, minha mãe sorriu, Jacob desceu as escadas gritando em comemoração. Toda aquela animação era palpável, mas não me contagiava. Eu acabo de assinar meu contrato de submissão e infelicidade.

Tá. Estou exagerando. Talvez ser caçadora não seja tão ruim. Tendo em mente isso e o orgulho estampado no rosto de meus pais, eu me forcei a fazer um sorriso falso brotar nos meus lábios.