As Crônicas de Reddie Hunter

20 Acabo numa prisão sem querer


Notas iniciais
Desculpa a demora, semana meio atarefada :T

Dois meses depois...

Agora fodeu pro meu lado. Pensei quando vi uma dúzia de Lufflamas acenderem nas sombras. Nos livros a alcatéia era formada por uns 4 ou 5... Eu havia trazido 8 presas de javali. Ou seja, teria que ter uma mira certeira e ainda reciclar.

Saltei para evitar o ataque direto do lobo em chamas abaixo de mim. Senti o calor derreter a sola das minhas botas. Lobos são animais inteligentes, tenho que admitir. Uma alcatéia de Lufflamas é poderosa e estratégica. Pareciam prontos pra atacar quando entrei no celeiro da fazenda abandonada. O chão estava repleto de cinzas da palha que queimou quando eles entraram no modo de combate e por pouco não causou um incêndio.

Desci do salto e dei um chute em seu focinho. Seus olhos eram vermelhos cor de sangue, o pelo avermelhado podia inflamar na hora que quisessem, ao mesmo tempo que apagados podiam se mesclar nas sombras, garras e presas do tamanho de dedos e uma expressão penetrante como quem está planejando a melhor maneira de te matar.

Lutei contra tantos ninhos de vampiros, por que seria derrubada por uma alcatéia?

Porque eles são 12. Não são burros. Você não tem armas o suficiente. É difícil lutar contra todos eles ao mesmo tempo. E você é tão burra que nem cogitou que poderia ter mais que o previsto.

Odeio este lado negativo da minha mente. Eu cogitei, sim. Por isso havia trazido oito. Após tanto tempo lutando, eu comecei a terminar a maioria das lutas sem sequer um ferimento, a não ser quando eu queria me utilizar como isca. Mas nessa briga eu já tinha levado várias mordidas e arranhões, o cheiro da minha pele e carne queimada estavam me agonizando. Mas eu me recusava a desistir. O que são esses lobos de nada?

Uma rajada de chamas me fez rolar para o lado e a manga da minha jaqueta pegou fogo e eu tive que afagar para apagar. Okay. Não são lobos de nada. Foi mal aí. Aceita uma coisinha de presente? Eu finquei a faca de presa de javali no lombo de um deles. Ele uivou alto e desabou ganindo. Os outros onze pareceram bem furiosos. Arranquei a presa. Três avançaram contra mim.

Esses daí deviam ser úteis num churrasco.

Tenho a impressão que se eu sair viva dessa, vou sair cheirando a churrasco de carne humana. Quando um saltou para destroçar meu rosto, enfiei a presa em seu coração. Eu acho né. Não estudei a anatomia dos lobos.

Cara. Lá se foi minha jaqueta favorita. Tive que tirar, estava muito quente ali. Me assustei ao ver meu braço. Estava com um arranhão profundo cheio de bolhas. Não sei quanto tempo continuei lutando, metendo chutes em focinhos. Sempre perco noção de tempo quando os oponentes são bons. Restavam cinco lobos. Três facas. Eles fizeram um círculo a minha volta. Andando em sentido horário como se discutissem uns com os outros. Eu sabia que atacariam juntos. Tinha que estar preparada.

A porta do celeiro abriu e eu ouvi passos apressados. Cometi o erro de olhar de esguelha na direção e ver a silhueta de duas pessoas correndo no meio da fumaça. Foi a brecha que um Lufflama teve para cravar os dentes na minha perna. Uma dor alucinante me atingiu, mas eu enfiei a presa na sua garganta a atravessando e o matando.

O cheiro da borracha da sola das minhas botas com a fumaça e o odor da minha carne queimando estava me asfixiando. Acabei caindo e senti dois braços me ampararem. Não vi quem era. A fumaça negra deixava minha visão turva.

Talvez, só talvez eu esteja um pouco ferida. Mas é só uma probabilidade mínima. Não se preocupem, eu tô bem.

Me debati contra os braços de quem estava me segurando. A pessoa tinha um cheiro familiar.

— Me larga... – Murmurei, mas minha voz estava grogue. – Que merda.

Eu me lembro dos olhos cor de rubi de mais um Lufflamma avançarem contra mim, mas algo o abateu, um pequeno vulto preto. Não sei o quê ou quem foi, mas minhas pálpebras pesaram e eu desmaiei.

...

Acordei. Okay. Por um instante achei que estava na minha cama. Mas o aroma do lençol era diferente. O meu era lavanda e aquele era meio amadeirado. Eu conhecia aquele cheiro de algum lugar...

Espera, se estou numa cama diferente...

Abri os olhos. Dor de cabeça e no corpo inteiro. Minha perna estava doendo como o inferno.

— A bela adormecida acordou, foi?

Essa voz, céus, não é possível. Maravilha, comecei a ter pesadelos com a voz do Ethan. Respirei fundo já pedindo pra acordar no meu trailer. Ethan estava ao meu lado, sentado numa cadeira, me olhando. Ele usava uma camiseta preta e uma calça moletom cinza.

— Meu Deus, eu preciso acordar. – Resmunguei tentando me remexer, mas a dor não colaborava.

— Bom saber que sonha comigo. – Ele deu um sorriso de canto.

— Se eu tivesse sonhos com você, eles seriam pesadelos.

Ele revirou os olhos.

— Onde eu...?

— Você está no quarto de hóspedes da minha casa. E tenho prazer em dizer que salvamos sua vida.

Ah, Jesus, agora que eu quero cair fora daqui mesmo.

— Ata. Bom, obrigada, mas eu já estou indo.

— Ah, claro. Vá em frente – Ele deu um sorriso de escárnio que me irritou.

— Cala a boca.

Tentei me levantar. Não deu certo. Minhas pernas e braços estavam cobertos de ataduras. Minha perna esquerda nem se mexia. Que merda. Não eram nem os curativos, eu sabia que abaixo deles minha pele estava em carne viva ainda. Ou em carne frita, assada, em brasa... Sei lá. Não sei de mais nada nessa vida.

— Eu tenho um remédio pra isso no meu trailer.

— Se for aquela mistura de ervas, a gente tentou e não funcionou. Vai ter que esperar curar normalmente.

— Mas que porra.

— Você xinga muito.

— Isso não é da sua conta. E, espera, cara, cadê meu trailer?

Arregalei os olhos. Aquele momento que bate um desespero básico. Meu Deus, o seguro já acabou e eu esqueci de renovar.

— Achamos e usamos pra chegar até aqui.

— Você dirigiu o meu trailer?

— Sim.

— Quem te deu essa ousadia? Eu quero o dinheiro da gasolina, infeliz!

— Que absurdo, eu salvei sua vida! Você que deveria me pagar!

— Salvei sua vida primeiro, estamos quites e só. E eu prefiro me recuperar no meu trailer.

— Vai ter que esperar sua perna se curar totalmente. É meio difícil sair daqui.

— Por quê?

— Moramos no subterrâneo. A única saída é uma escada beeem longa.

Não sei muito bem como estava minha carranca, mas Ethan começou a rir. Garoto chato. Sério isso, produção? Tanta coisa pra fazer, alfa pra caçar e eu vou parar imobilizada na casa de sujeito que mal conheço, mas já detesto? Beleza, acontece. Mas é só comigo mesmo.

Me ajeitei na cama. Se fosse pra ficar ali contra a minha vontade, eu não falaria mais com aquele idiota. Eu nem sei porque ele ainda estava ali. Queria perguntar, mas preferi ficar calada. Passou um bom tempo naquele silêncio desconfortável. Acabei pegando um livro de entrevistas de emprego (Coisa com a qual nunca me preocupei graças ao cartão fraudado) e senti falta de fones de ouvido e um MP3. Lá pela página 17 Ethan provou que não consegue ficar em silêncio por muito tempo.

— Por que você é tão calada?

Eu o fitei e continuei de boca fechada, logo abaixando o olhar para as linhas que explicavam como me portar diante do entrevistador. Cara, pessoas normais tem que se preocupar com isso? Que desgraça.

Então veio o maldito som. Uma coisa sobre mim: Odeio sons irritantes. Uma caneta batendo, estalar de dedos e, mais do que tudo, uma pessoa mascando chiclete sem educação. E quando levantei o olhar lá estava Ethan mascando chiclete.

— Você pode, por favor, parar de mascar chiclete feito um jegue sem dentes?

— Não.

— Eu te odeio.

— Legal sua opinião, é de comer?

— Sim, eu faço questão de enfiar ela pela sua garganta.

— Pena que nem consegue sair do lugar.

Pai nosso que está no céu, livre-me de toda vontade de tascar esse livro na cabeça dessa criatura e causar um traumatismo craniano.

Luna entrou no quarto, ela estava com um pijama da mulher maravilha, uma tiara com orelhas e pantufas de panda e segurava uma xícara de chocolate quente. Identifiquei pelo cheiro.

— Hey, você acordou! Que legal!

Algo nela me lembrava Lisa um pouco. Acho que era o sorriso. O mesmo sorriso dócil. E isso me lembrou que eu não poderia ficar ali.

— Ah, obrigada por ter me salvado. E desculpe por incomodar.

— Isso não é nada, não se preocupa. – Ela sorriu.

— Assim que eu estiver melhor irei embora.

— Por que com ela você é gentil e comigo não? – Perguntou Ethan.

— Porque ela é legal e você não, idiota.

Luna riu e Ethan fechou a cara. Meu estômago roncou, mas eu estava tão desconfortável naquele lugar que preferi não falar nada. O colchão da cama era macio, tinha um jarro de margaridas na cômoda, um guarda roupa com a porta aberta revelava cabides com moletons de cores diferentes, uma prateleira que vi que continha a saga do Senhor dos Anéis, mas eu não queria ficar. Aquele não era meu lugar. Queria meu trailer, ficar na minha cama, com as minhas armas.

Mas não, eu estava bem ali. Com uma garota tentando fazer cosplay de panda e um guri idiota que masca chiclete parecendo um jumento. Acabei numa prisão sem querer.

— Ei! – Um garoto apareceu na porta. – Luna, eu achei um caso e... Ah, ela acordou!

— Hã... Oi?

A franja do cabelo castanho escuro lhe caía na testa, os olhos eram verde mar, usava óculos de armação preta, seus lábios eram finos e tinha um piercing na sua orelha. Vestia uma camiseta do Star Wars, um casaco quadriculado em preto e branco e bermuda preta. Parecia um nerd que teve seus dias de rebeldia, colocou o piercing, mas aí voltou ao normal. Ele era bonito e tinha bochechinhas coradas. Devia ter 16 anos. Por um momento tive o palpite que ele era o namorado de Luna. Mas ela não deu muita atenção quando ele chamou seu nome.

— Oi! Reddie, certo? – Ele estendeu a mão e eu a apertei, embora justamente a mão que cumprimento pertencia ao meu braço ferido.

— Certo. E você é...

— Bryan. Estava querendo te conhecer desde que salvou o Ethan. – Ele sorriu.

— Salvou... – Ethan resmungou sarcástico — Ela me roubou um vampiro, isso sim.

— Eu só roubei um vampiro, e você que roubou toda a idiotice dos Estados Unidos e guardou na sua cabeça? – Falei com a voz carregada de sarcasmo.

Ele me fuzilou enquanto Luna e Bryan riam.

— Como pode ver, Luna, ela está muito bem. Eu já posso sair daqui. – Ele se levantou e foi embora.

— Cara, tu demorou pra acordar.

— Quanto tempo?

— Quatro dias.

Sabe, eu tô achando que tem algo de errado. Pessoas normais desmaiam por alguns minutos. Eu desmaio por quatro dias. Meu Deus, cara. Tá um pouquinho exagerado hein vida. Relaxa um pouco aí. Bebe uma água com açúcar, qualquer coisa, mas pega mais leve comigo. Nunca te fiz nada, caralho.

— Tá com fome?

Antes que eu pudesse responder, meu estômago respondeu por mim roncando tão alto que eu senti minhas bochechas corarem. Fiz uma careta.

— Okay... Eu acho que estou com um pouquinho de fome...

— Deu pra notar. – Disse Bryan – Ô ETHAN!

Demorou um tempinho e Ethan apareceu na porta.

— Que é?

— Carrega a Reddie pra cozinha.

— Quê? – Perguntamos em uníssono.

— São surdos agora?

— Gente, eu ainda tenho pernas. Uma tá tipo churrasco, mas ainda assim. – Protestei cruzando os braços.

— Por que você não carrega ela? – Ethan perguntou.

— O único exercício físico que eu pratico é digitar e me levantar pra comer. – Ele deu de ombros.

— Não preciso dele me carregando. Não é mais prático só me trazer a comida? – Ethan revirou os olhos e colocou as mãos nas minhas costas e na parte detrás dos joelhos – Já falei que não precisa! Caralho, me larga.

Ele me ignorou e me carregou pra fora do quarto. Eu não conseguia me debater ou socar sua cara. Me sinto vulnerável feito um caramujo sem concha.

— Você é muito leve.

O lugar tinha basicamente decoração em preto, branco e cinza. Era legal. Tinham corredores extensos e eu sabia que se tentasse andar por ali sozinha precisaria de um mapa bem detalhado. Chegamos a cozinha. Pacotes de macarrão instantâneo estavam sobre a bancada de mármore negro. A geladeira, o fogão, o microondas e a máquina de lavar louça eram de inox. Alguns dos armários no topo das paredes brancas abertos mostravam uma quantidade absurda de doces. Faz anos que eu não como doces. Não vai ser agora que irei sucumbir.

Ethan me deixou sentada num banquinho alto. Meu corpo estava latejando de dor, mas me mantive indiferente.

— O que quer comer? – Ethan perguntou abrindo a geladeira.

— Tem alguma fruta?

Ele me olhou como se eu fosse um alienígena.

— Temos pizza, comida japonesa, sorvete, miojo, donuts, nutella e doce de leite.

Santo pai da gordura. Senti meu corpo estremecer ao ouvir doce de leite. Não. Eu não vou fazer isso.

— Não tem uma maçã? Sei lá, até cenoura eu como.

— Eu acho que não tem nenhuma dessas comidas de coelho... Eu esqueci de passar nessa parte do supermercado. É muito chata.

— Meu Deus, como você não tá gordo?

— Impressão minha ou você ficou observando meu corpo?

— Não. – Imagina, nem tô notando essa tatuagem tribal no seu braço — É que eu não tô vendo uma barrigona sobressaindo aí, então...

— Eu sei que sou lindo – Ele se aproximou e sorriu pra mim, seus olhos azul turquesa com uma expressão zombeteira — Faço exercícios se quer saber. Aí como o que eu quero e sou feliz. Deve ser por isso que você é rabugenta. Devia comer mais doces.

— Meu pau. – Rebati, sentindo meu sangue ferver de raiva pela sua expressão de quem está zoando com a minha cara.

— Não sabia que você tinha um – Deu um falso sorriso.

Cara, eu ia falar algo agora, mas ia ser pesado até pra mim, então só o encarei. Me toquei que fiquei 4 dias sem tirar as lentes. Acho que isso é meio perigoso. Mas eu precisava tirar no banheiro. Suprimi um sorriso de canto ao imaginar o susto de Ethan ao ver meus olhos.

— Bom, já que não tenho nenhuma opção saudável... Vai comida japonesa mesmo.

Ele me deu uma caixinha fumegante e eu fiquei lá comendo. Estava morrendo de fome.

— O seu cabelo é natural?

Eu até admiro essas pessoas que mesmo depois de patada tenta conversar comigo. Aqui tem coragem.

— Sim. Ele também é hippie, come beterraba e vai na praia assistir o pôr do sol.

— Dá pra me responder sem usar sarcasmo?

— Se você parar de fazer perguntas estúpidas eu penso no seu caso, Ross.

Ele revirou os olhos. Talvez eu esteja sendo rude. E aí percebi o motivo do meu mau humor.

— Tem café aqui?

— Sim.

— Faz pra mim?

— Quais são as palavrinhas mágicas?

— Eu tenho um arsenal de armas.

— Calma garota – Ele levantou as mãos em forma de rendição – Era só falar por favor.

— Eu fico de mau humor quando não tomo café.

— Então faz um ano que você não toma café?

— Olha a boca...

Ele acabou por fazer uma xícara de café e eu segurei como se ele fosse o elixir da imortalidade. Tomei a xícara num segundo sentindo meu corpo se aquecer. Até a dor pareceu ser entorpecida um pouco. Café é tão bom, velho.

— Obrigada – Murmurei. Estava me sentindo bem agora.

— De nada. — Ele deu de ombros.

Ethan me levou de volta pro quarto. Ele era quentinho. Eu queria voltar a andar. Parecia uma criança que não conseguia andar sem cair de cara no chão. Eu penso na minha dignidade nessas horas. Ela deve estar bastante ferida.

O chato me deixou na cama, desejou boa noite e foi embora. Me perguntei a última vez que alguém tinha me falado boa noite e senti falta do meu pedacinho de céu no teto. Demorei bastante, mas consegui pegar no sono.

Eu só queria que pelo menos dessa vez os zumbis me deixassem em paz. Mas acho que meu desejo, pela milésima vez, não foi atendido.

Notas finais
Espero que tenham gostado ^-^