As Crônicas de Reddie Hunter
10 A vida tá colaborando
Acordei pensando do que xingaria Patrick desta vez. Talvez de mula sem cérebro. É uma boa. Provavelmente terei de jogar aquela salada na planta da cozinha quando Anne não estiver olhando. Chamar Jacob de trouxa por ficar esperando mensagens da Sam o tempo inteiro. Tomei coragem para abrir os olhos e encarar mais um tedioso e péssimo dia e franzi o cenho ao perceber um teto bege ao invés do branco habitual.
Me sentei na cama, mais macia que a minha. Entreabri os lábios ao notar que realmente estava num quarto do Sheraton Seattle Hotel. Seattle. ESTOU EM SEATTLE PORRA.
Não tem Patrick, não tem treino, não tem nada daquela merda de vida. São 09 da manhã e tem um café ótimo e chique me esperando num salão. Gargalhei novamente, pulei da cama sem me preocupar em arrumar, logo viria uma faxineira e arrumaria pra mim. Wow, que demais! Minha cara já tava doendo de tanto sorrir, mas não conseguia parar. Entrei no banheiro para tomar um banho.
— Woooooooow! – Exclamei vendo que agora tinha uma banheira com um monte de sais de banho que eu nem sabia usar, mas ia misturar tudo e foda-se.
Tinha um espelho gigante na parede de mármore (tudo aqui é de mármore?), uma pia de vidro, a privada parecia brilhar, Jesus, uns vidrinhos de xampu, condicionador e sabonete liquido.
Tomei o banho mais relaxante da minha vida, com uma mistura de tudo que estava numa prateleira. Sai da banheira cheirando a rosas, canela e baunilha, o que fez meu estômago roncar o que me lembrou que eu não comia nada fazia um tempinho. Esfreguei as mãos em ansiedade por uma boa xícara e café e talvez alguns bolinhos.
Fui olhar na minha mochila, eu tinha de ir no shopping, só trouxe roupa pra uns 4 dias. Optei por uma camiseta branca, minhas pulseiras, uma calça jeans preta e meio rasgada (Nem comprei assim, rasguei treinando mesmo, mas acabou ficando bonitinho) e o mesmo coturno. Coloquei uma corrente com pingente de guitarra que havia ganhado de Jacob faz dois anos. Jacob... Ele deve ter ficado louco quando acordou e não me viu.
Não é que eu seja ingrata. Sei bem que Patrick e Anne cuidaram de mim a vida toda. Mas encaremos isso como uma independência precoce. Talvez uma vingança por tentarem me calar e destruir meus sonhos por tanto tempo. A questão é que estou feliz agora.
Olhei para meu reflexo no espelho. Eu nem tinha percebido que havia colocado as lentes e prendido meu cabelo em coque pelo hábito. Bom, vida nova, estilo novo. Tirei minhas lentes e soltei meu cabelo. Se aparecer uma freira na minha frente dependendo do meu humor ou eu saio correndo ou mando ela pra puta que pariu se tentar me exorcizar. Na mesma hora que encarei meu reflexo novamente, percebi que precisava de um corte de cabelo, eu faço quando fizer as compras.
Sai do quarto e entrei no elevador, mas antes que as portas se fechassem, o garoto loiro do dia anterior apareceu no corredor.
— Hey, espera aí! – Segurei as portas e ele entrou — Obrigado.
— De nada.
Ele olhou pra mim e percebi sua expressão assustada ao focar nos meus olhos.
— Foi você que estava me olhando ontem, não é?
— Sim. E daí?
Ele me encarou curioso e arqueou uma sobrancelha.
— Poderia me dizer seu nome?
— Reddie.
— Guilherme Jordan, um prazer conhecê-la – Ele pegou minha mão depositando um beijo e foi minha vez de arquear uma sobrancelha.
— Você veio do século 19? – Perguntei e ele deu um breve riso.
— Tem companhia para o café da manhã?
— Não...
— Agora tem – Ele sorriu, as portas se abriram e antes que eu pudesse protestar ele me puxou pela mão para fora.
— Quando foi que eu falei que queria companhia?
— Bom, eu quero te conhecer melhor, então sim, pelo menos neste café da manhã você terá uma companhia.
— Okay...
Desta vez ele me puxou com um pouco mais de delicadeza e senti como sua mão era macia. Fomos até o salão de café da manhã e eu revi minha ideia de tomar só um café com bolinho. Tive a certeza que meus olhos brilharam ao focar nas três longas mesas com panos de seda branco, repletas de guloseimas, bolos, sucos, iogurtes, pães, frios e biscoitos. No momento minha concentração estava em não babar. Percebi que Guilherme me levava pra uma mesa.
— Hey, espera aí!
— O que foi?
— Por que tá me levando pra uma mesa?
— Pra gente conversar? – Ele falou como se fosse óbvio.
— Se quer me conhecer melhor, primeira coisa que tem que saber sobre mim: Eu amo comer. Então dá licença. – Tirei minha mão da sua enquanto ele me encarava confuso e fui pegar um prato.
Enchi o prato o máximo que eu podia e sabia que ainda iria repetir. Deixei o melhor pro final e peguei uma generosa xícara de café com leite. Fui pra mesa onde Guilherme tinha um prato com um único bolinho.
— Vai comer só isso? – Ele perguntou com um pouco de ironia.
— Não sei, acho que vou repetir. Mas eu que te pergunto isso.
Ele deu de ombros e eu comecei a comer. Praticamente tudo derretia na minha boca, e incrivelmente enchi a barriga. Então fiquei dando goles no meu café. Olhei para Guilherme que me encarava assombrado. Notei que seu bolinho só tinha duas marcas de mordidas. Ou ele realmente não tinha fome ou eu que comi rápido como um mendigo tirando a barriga da miséria.
— Cara, tu vive de vento? – Indaguei.
— Não como muito.
— Tá – limpei as palmas das mãos. – O que quer saber?
— Primeiro, por quê o uso da lente?
Bati minha mão na testa.
— Não são lentes.
— Doença?
— Sou completamente saudável – Dei um sorriso cínico.
— Isso é natural? – Ele arregalou os olhos.
— Sim. A não ser que queira que eu desenhe pra ficar mais claro. – Arqueei as sobrancelhas sugestivamente e dei um sorriso de canto sarcástico.
Ele aproximou a cadeira de mim me olhando fixamente, o que me deixou tanto desconfortável quanto intrigada.
— E o cabelo? Natural também?
— Acertou. Merece um pirulito.
Ele franziu o cenho.
— Okay. O que gosta de fazer além de ser sarcástica?
— Ler, ouvir música, comer...
— Esse último já ficou bem claro. – Ele sorriu mostrando dentes brancos e eu me peguei tentando achar algum torto, logo falhando na missão. – Mais alguma coisa?
— Também gosto de desenhar.
— Pode me mostrar seus desenhos um dia? – Ele perguntou inclinando levemente a cabeça e eu sorri um pouco.
— Talvez se me contar algo sobre você além do fato de ser curioso.
— Gosto de andar a cavalo. É uma das minhas paixões. Mas também gosto de andar de skate, tocar instrumentos...
— Que instrumentos toca?
— Violão, guitarra, piano, flauta e bateria.
— Olhe só, um menino prodígio! – Sorri e tomei um gole de café – Só sei tocar uma melodia de violão e a última vez que toquei em um foi há uns seis anos atrás. Nem me lembro mais.
— Se quiser eu te ensino. – Ele deu um sorriso de canto e franzi o cenho.
— Sabe o que acho?
— Não.
— Acho que está tentando ter uma desculpa para me encontrar de novo. –Guilherme deu uma risada.
— Talvez. Assim que me disser que gênero musical que gosta.
— Rock. Um pouco de pop, mas AC/DC está na veia.
— Então definitivamente gostaria de me encontrar de novo com você, pequena. – Ele sorriu e piscou um olho.
— Hey! Não sou tão baixa!
— Imagine, sou no mínimo 30 centímetros mais alto que você!
Dei uma risada, é verdade, eu sou muito baixinha.
— Aha! Eu te fiz rir! – Ele apontou o dedo para mim.
Sorri de canto e dei de ombros.
— Estou quase achando que você é um palhaço desesperado por atenção.
— Posso até ser um psicopata tentando te atrair pra morte, você não tem como saber enquanto não me conhecer direito.
— Psicopatas são os menores problemas na minha vida. Meu verdadeiro desafio está sendo te aturar.
— Está bem, estou indo embora já que está tão incomodada com minha presença – Ele foi dramático e ia se levantando da cadeira quando segurei seu pulso.
— Espera aí dramaturgo, já enviou seu currículo para o teatro? – Revirei os olhos – Senta a bunda aí que por enquanto você é o melhor que tenho.
— Interessante saber que sou sua melhor opção atualmente.
— Pra tu ver o quanto eu tô decaindo – Ri e ele me acompanhou.
Ficamos um bom tempo conversando, descobri que ele é filho de empresários, gosta de cachorros, é de humanas, e quando percebi já era hora do almoço e ainda estávamos na sala de café da manhã. Um senhor nos olhava feio. Guilherme assobiou ao ver o relógio.
— Wow, você me fez perder a noção do tempo.
— Melhor irmos embora, acho que aqui não tem rocambole de carne. – Dei de ombros e ele riu.
Saímos de lá e demos uma volta no hotel que eu não conhecia direito ainda. Caramba, o lugar é incrível. Acabei ficando com torcicolo de tanto virar a cabeça para ver as coisas enquanto conversava com Guilherme e ele parecia achar graça na minha curiosidade em observar as coisas.
— Eu tenho um palpite. Você gosta de arte.
— Isso. E eu tenho um palpite que você é fã de Harry Potter.
— Como adivinhou?
— Seu colar com pingente das relíquias da morte. Bom gosto.
— Reconheceu? Garota, casa comigo! – Ele uniu as mãos em gesto de súplica.
Dei uma gargalhada e ele me acompanhou.
— Vou pensar no seu caso. Talvez na segunda. Na segunda encarnação.
Ele colocou uma mão no peito se fingindo de ofendido.
— Menina truculenta.
— Imagine! – Sorri e dei uma piscada pra ele. – Sou um amorzinho de pessoa.
— Nem quero saber como seria se não fosse.
— Não queira mesmo.
Uma garota se aproximou correndo de nós.
— Guilherme, onde tu tava, infeliz? – Ela se apoiou nos joelhos retomando o fôlego, ela era morena e tinha uma enorme cabeleira cacheada – O papai está te procurando desde o café da manhã!
Pela primeira vez vi Guilherme revirar os olhos.
— Diga a ele que já lhe ajudo com os assuntos. Até parece que nosso pai precisa tanto da minha ajuda na empresa.
“Nosso pai”. Perdi alguma coisa. Okay que eu sou meio lerda, mas dessa vez tá meio difícil. Encarei os dois.
— Hello?
— Ah claro, desculpe a falta de modos, Reddie essa é minha irmã Lisa.
— Jura? – Indaguei ainda tentando achar uma semelhança.
— E aí? – Ela sorriu e levantou a mão num gesto de aceno.
— Ela é adotada. – Guilherme explicou.
— Claro, você é o filho chato. Precisavam de mim pra dar um brilho na família – Ela disse exibindo um sorriso ofuscante.
Guilherme começou a discutir com Lisa a respeito dele ir ajudar com uns lances de empresa.
— Hã... Pode ir, viu?
— Tá me expulsando? – Ele indagou arqueando uma sobrancelha.
— Sim e não, eu preciso sair pra comprar roupas novas, não trouxe muitas. Então vai colocar uma gravatinha e ser o legado do papai.
Ele abriu a boca para falar algo, mas desistiu.
— Tô indo. – Acenei com a mão – Foi bom conhecer vocês. A gente se vê.
Me virei e fui para meu quarto pegar meu valioso cartão de crédito fraudado. Saí do hotel e liguei para o senhor Borisvaldo (Contive a risada ao chamá-lo no telefone) para me levar ao shopping mais próximo.
Pra falar a verdade eu nunca fui no shopping. Anne comprava as minhas roupas e me dava sem me levar nas compras. O que resultava numas roupas meio apertadas ou folgadas de vez em quando. A primeira coisa que fiz foi comer um sorvete e um hambúrguer. Depois comprei várias camisetas, jaquetas, calças (tudo jeans e couro) e alguns pares de calçados. Fiz um corte de cabelo, que antes era liso, para um repicado meio punk que deu uma vida.
Voltei ao hotel completamente satisfeita com minhas compras. Agora dá pra sair decentemente. Pedi a um funcionário que guardasse as sacolas em meu quarto.
Fui logo para o restaurante tirar a barriga da miséria feito um mendigo. Eu tô rica, posso fazer o que eu quiser! Nossa, isso é muito maravilhoso. Estava me servindo de torta de frango quando Guilherme se aproximou de mim. O guri parece que fissurou. Okay né.
— E aí? Como foi a contabilidade?
— Chata. – Ele deu de ombros e acabou me acompanhando até a mesa. Eu fiquei comendo em silêncio.
— Ás vezes te acho muito quieta.
— Sou nova nisso. Interagir com pessoas. Ser legal. Você deveria agradecer pelo fato de eu não te acertar um chute no traseiro.
— Hey!
— Ora essa, é verdade. Eu fui treinada pra lutar. – Dei de ombros, mas na minha mente me repreendi, falei demais. Guilherme ficou pensativo por uns momentos.
— Isso explica o fato de você ter um canivete na bota?
Corei um pouco, de fato a arma estava um pouco visível, coloquei ela mais para dentro. A bagaça é que mesmo aqui eu não consigo andar desarmada, é como andar pelada. Ou andar sem minhas pulseiras.
— Talvez. Mas dá pra perceber que você é bem observador. Até demais pro meu gosto.
— Eu gosto de perceber pequenos detalhes nas pessoas. Inclusive seu cabelo está lindo.
— Valeu – Dei um sorriso de canto e continuei comendo um pouco de rocambole.
Eu havia notado quando entrei no salão, mas no centro das mesas luxuosas com taças e pratos havia um pequeno palco com pista de dança em que agora entrava uma banda tocando música clássica e com isso alguns casais se levantaram para dançar. Guilherme se levantou e estendeu a mão pra mim. O olhei sem entender.
— Quer dançar comigo? – Ele perguntou.
— Sem ofensa, mas nem a pau.
— Por quê?
— Primeiro, mal te conheço, segundo que eu não sei dançar e terceiro que eu não gosto de música clássica.
— O primeiro podemos resolver, o segundo eu te ensino agora e o terceiro... Bem quanto a isso não posso fazer nada.
Ele me puxou pela mão me levando até a pista de dança e quando percebi uma mão de Guilherme se entrelaçava a minha e a outra estava pousada delicadamente pela cintura. Coloquei minha mão livre em seu ombro e ele começou a guiar enquanto eu ria por pisar algumas vezes no seu pé.
— Bem feito! Falei que não sabia dançar.
— Estou vendo agora o seu sorriso e o brilho dos seus olhos então está valendo à pena.
— Está me cantando, Jordan? – Arqueei uma sobrancelha. – Eu sei dar voadora em espertinhos.
— Talvez eu esteja, mas sou um cavalheiro. Eu nunca forçaria uma dama a nada. Isso e eu respeito o seu canivete também.
Dei uma risada. Ele até que era fofo. Mas ainda não sei muita coisa dele e estou querendo curtir minha nova fase.
— Acho bom.
Continuamos dançando, ás vezes tinha alguém nos olhando atravessado, provavelmente se perguntando porque um garoto de camiseta e calça sociais estava dançando com uma menina de cabelo punk e regata preta escrito “Foda-se” e calça jeans rasgada.
Voltamos pra mesa e Guilherme continuou a conversar comigo, mesmo com algumas alfinetadas ocasionalmente causadas por mim.
— Acho que você pode gostar do Adam e da Martina.
— Quem são?
— Dois malucos.
— Quer me apresentar gente maluca? De maluco já basta eu mesma!
— Você é normal se comparado à eles.
Eu abri a boca, mas não consegui falar nada.
— Tô pensando seriamente em cair fora enquanto ainda há tempo – Estreitei os olhos e ele riu e pela primeira vez na noite vi ele comer uma panqueca.
— Vai gostar deles. Eu juro.
— Interessante, se eu não for com a cara deles você... Vai ter que comer um prato de comida de verdade.
— Eu posso acabar vomitando! Não consigo comer muito.
— Mas vai, mesmo que eu goste deles. Tá me dando agonia te ver comer feito um esquilo! Estou pegando bastante leve com você.
— E se for com a cara deles... Vamos assistir um filme de Harry Potter.
— Oh, sério? Está bem então.
Apertei sua mão num gesto de fechamento de contrato.
— Quando vou conhecer os malucos?
— Amanhã.
Assim que acabei de comer (Que foi? Meu prato tava cheio, povo) a gente pegou o elevador para os nossos quartos. Notei que ele sempre estava indo atrás de mim enquanto eu andava pelos corredores de luxo.
— Tá me seguindo?
— Não tenho culpa. Seu quarto aparentemente é próximo do meu.
Quando toquei os dedos na maçaneta percebi que Guilherme morava no quarto ao lado. Ah que ótimo. O guri ainda é meu vizinho.
— Ah, boas vindas minha querida vizinha!
— Nunca mais me chame de minha querida – Adverti séria enquanto entrava no meu quarto – Boa noite, Jordan.
— Boa. – Acenei e fechei a porta.
Dei uma cambalhota e pulei na minha fofa cama, me cobri com o edredom e dei uma olhada nas sacolas cuidadosamente colocadas sobre a cômoda antes de apagar a luz do abajur e fechar os olhos tendo um sono tranquilo.
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