As Crônicas de Reddie Hunter
11 EU Sou Foda
Notas iniciais
Eu não sabia que horas eram. Mas sabia que aquela cama estava mais confortável que o normal e a preguiça me consumia. Olhei para o relógio digital, já eram 09:00. Bocejei, me espreguicei feito um gato, mas não sai da cama, pelo contrário fechei os olhos e voltei a dormir. Acordei novamente com umas batidas na porta.
— Me deixa dormir, desgraça! – Gritei e afundei minha cara no travesseiro, mas as batidas continuaram, tomei coragem e levantei só pra poder abrir a porta e bater na cara do ser humano que estava incomodando minha hibernação – Que foi, infeliz?
Guilherme vestia uma camisa cinza e uma cara calça jeans. Seus olhos se arregalaram e desviaram pra baixo por um segundo e ele corou, logo voltando a me olhar nos olhos, acompanhei seu olhar.
— Porra!
Fechei a porta com força na sua cara quando percebi estar só com um moletom largo. Caralho já comecei bem o dia.
— Oh, céus – Bati minha mão na testa pensando como foi que eu fui atender o guri vestida desse jeito. Coloquei uma calça de moletom também e abri a porta de novo, onde ele estava no mesmo lugar – Hey! Foi mal. Tava dormindo.
— Eu que peço desculpas. Não era minha intenção, mas já são duas da tarde...
— Ah sim, seus amigos! – Me recordei — Desculpa aí, espera um momentinho que eu já vou me arrumar! Me espera no salão de café da manhã. Espera, já são duas da tarde, né? Me aguarda na recepção então. Eu sou rápida, já vou – Fechei de novo a porta antes que ele respondesse.
Me olhei no espelho e tomei um susto. Meu cabelo agora repicado estava apontado em todas as direções como se eu tivesse tomado um choque. Notei que falei com Guilherme sem ter escovado os dentes e por instinto tapei a boca com a mão. Eu sou uma anta. Fui tomar um banho rápido e fiz a higiene matinal (ou vespertina) necessária.
Coloquei um dos meus novos pares de tênis, camiseta branca, jaqueta jeans, uma corrente de prata com pingente de guitarra, logicamente minhas pulseiras e calça jeans azul escuro.
Saí do quarto e fui para o elevador, tentando adivinhar o motivo do porquê que Guilherme acharia que eu me daria bem com seus amigos. Talvez eles sejam realmente dois malucos. Mas okay né, quanto mais amigos melhor. Tô aqui pra isso, recomeçar! Serei legal. Eu acho.
Entrei em passos lentos admirando a decoração da recepção quando vi Guilherme sentado em um dos sofás cor de marfim olhando insistentemente para o relógio. Será que eu havia demorado?
— Oi. – Falei me aproximando.
— Hey, meus amigos estão atrasados – Ele sacudiu o relógio no pulso.
— Ainda bem, seria meio embaraçoso dizer que eu ainda estava dormindo – Fiz uma careta e cocei o couro cabeludo como ás vezes faço quando fico constrangida. O que não rola muitas vezes.
— E aí, seus viados? – Uma garota de cabelos escuros com mechas de cores vibrantes chegou gritando e o homem de bigodinho da recepção se sobressaltou e a olhou apavorado como se ela fosse uma criminosa com botas de lama fazendo imundícies no seu saguão – Hey, tiozinho! Sei que sentiu minha falta, tu me ama rapaz! A poderosa chegou, quem é a vermelhinha?
Ela usava uma regata azul com a estampa “O punk não morreu”, um short jeans surrado e botas de cano alto, tinha uma aura de energia contagiante, como se possuísse a maior auto estima do mundo. Seus olhos eram castanhos e brilhantes e embora tivesse um rosto dócil eu tinha certeza que a personalidade não era. Seu sotaque era diferente, mas eu não sabia especificar de qual país pertencia.
Logo atrás vinha um garoto um pouco mais discreto, ele era muito bonito, cabelo preto num topete meio arrepiado, olhos castanhos quase chegando no âmbar, alargadores nos ouvidos, ele parecia estar no mundo da lua olhando para o nada (A não ser que ele achasse a parede de marfim da recepção muito impressionante) embora caminhasse em nossa direção.
— Oi – Guilherme balançou a cabeça como se ela fizesse essa entrada todas as vezes – Essa aqui é a Reddie, e estes são Martina e Adam.
A menção do seu nome Adam acordou, piscou um pouco os olhos e aí acenou e sorriu, o que retribui.
— Se levante e me cumprimente direito garota! Sou a melhor pessoa que você pode conhecer na sua vida! – Eu ri e me levantei estendendo uma mão e ela me puxou pra um abraço, tinha cheiro de uma mistura de baunilha e pinheiro – Mas gente que cabelo divo! Fui com sua cara!
— E eu fui com a sua! – Ela me largou sorrindo, olhei de esguelha e Guilherme estava com uma curva nos lábios discreta.
— Prazer! Adam Malacchin – Ele estendeu a mão e eu apertei – Seus olhos, são diferentes.
Notei um leve e charmoso sotaque italiano na sua voz.
— Como assim? – Martina me girou pelo ombro e me olhou fixamente – Caralho, que foda! Só não te pergunto onde comprou porque já sou perfeita desse jeitinho, querida!
— É natural. – Os dois tiveram expressões surpresas, dei de ombros. – Nasci desse jeito.
— Puta que pariu, vou te guardar num potinho! Mas primeiro, tu sabe andar de skate?
— Sou boa em qualquer esporte.
— Ui, senti firmeza! Bora pra pista, meu povo! Tem uma competição lá hoje e se eu ver que a guria tem talento, ela entra pra equipe!
Ela me puxou pela mão e vi o senhor da recepção fazer uma expressão de alívio, Guilherme e Adam estavam atrás quando Lisa entrou correndo.
— Hey! Eu quero ir também!
— Não, você só tem 12 anos, Lisa. – Guilherme falou e Lisa colocou as mãos na cintura.
— E daí? Sou mais macho que tu, infeliz! Eu vou sim!
— Por mim tanto faz. – Adam disse.
— Eu não sei... – Martina colocou uma mão no queixo pensativa.
— Ah qual é, gente? Ela pode só assistir. – Opinei, Lisa e Martina deu de ombros.
— Tudo bem então, venha guria! Mas se tu for assaltada foi você que quis vir.
Onde foi que eu fui me meter? Guilherme fez uma careta emburrada.
— Papai vai me matar por te deixar ir.
— Ela vai NOS matar se souber, você também tá escapando que eu sei!
Ele se fez de inocente e eu ri.
— Eu? Imagine! – Pela primeira vez vi Guilherme ser um pouquinho sarcástico.
Conversamos o caminho todo andando até a tal pista. Quando chegamos lá percebi o que Martina quis dizer com ser assaltada. Tinha gente de todo tipo andando de skate, alguns brigando, outros até se drogando e bebendo direto de gargalos de vodka. Pessoas com tatuagens, piercings, a maioria usava roupas pretas e correntes pesadas, a pista estava cheia de grafites com xingamentos. Não sei porque, mas até que gostei do lugar. Parecia um tipo de refúgio para rebeldes.
— Lar doce lar! Hey, Lola! Vem cá, tenho uma novata! – Eu não sabia quem era Lola até ela estar na minha frente e percebi que realmente não se julga alguém pela aparência.
Lola era tinha longos cabelos loiros, grandes olhos verdes, e nariz e lábios delicados. Vestia uma blusa florida, um gorro cor de creme, uma calça jeans e sapatilhas brancas. Se não estivesse com um skate sob os pés eu iria perguntar se ela estava perdida.
— Olá! Qual seu nome?
— Reddie. – Ela estendeu a mão e eu a apertei.
— Prazer em conhecê-la, Red. – Até a voz da guria era fofa – Então acha que tem talento?
— Sim.
— Tome meu skate e mostre o que tem. – Ela me entregou o skate bege e eu o segurei. Nunca andei de skate na verdade. Mas não devia ser difícil, assim pus meus pés nele, soube exatamente o que fazer como se já tivesse feito há anos – Ah, espere, quer um capacete?
— Não, valeu.
Dei impulso com o pé e vi alguns veteranos focarem o olhar em mim. Pra mim estava de boas, eu estou acostumada a saber como praticar qualquer esporte. Assim que despenquei com o skate na grande curva de cimento deixei a adrenalina tomar conta do meu corpo.
Peguei mais impulso e subi a curva e senti meu corpo ficar leve no ar. Dei uma cambalhota, apoiei uma mão no skate, fiz mais uma pirueta e coloquei os pés de modo que o objeto pousasse empinado. Nem olhei a cara do povo, aquilo era divertido pra caraca!
Comecei a rir e repetir as manobras, ás vezes dando giros de 360º. Senti o meu cabelo bagunçando com o vento forte a cada vez que eu despencava do ar. Era como uma nova realidade, como se o limite fosse apenas o céu. Por fim percebi que já tinha passado um bom tempo daquele jeito então dei mais uma subida e dessa vez com mais um giro pousei no chão onde estava o pessoal. Todos tinham parado para me ver e estavam pasmos.
— E aí? Como eu fui? – Sorri prepotente, todo mundo aplaudiu e fez coro. O som era como música para meus ouvidos. Martina veio correndo na minha direção.
— A menina é de ouro! Já tá no meu time!
— Hey! Qual é? Você já tem o Gui e o Adam no seu time! – Um garoto protestou.
— Deixe de ser recalcado, Matt! Ela é do meu grupo sim e se reclamar eu acerto esse skate na sua cara!
Guilherme, Adam e Martina já estavam com skates sob seus tênis e eu vi a equipe adversária. Eram altos, mas pela estrutura corporal eram meio lentos. Usavam roupas largadas e tinham expressões arrogantes como se já tivessem a vitória em suas mãos. Dei um sorriso de canto. Seria tão fácil quanto tirar doce de criança. Espera, analogia errada. Isso não é fácil não.
— Ah, Martina, você acha mesmo que essa daí vai te salvar dessa surra? – Um deles zombou.
Martina levantou o dedo do meio pra eles e o mandou para o inferno. Deu impulso e foi para a frente da pista.
— É o seguinte, otários! Não tem regras. As equipes tem que dar a volta no quarteirão e a que chegar completa aqui primeiro, ganha. Ou seja a minha. Se quiserem desistir, a saída é logo ali. – Ela gesticulou para fora dos portões. – Quero minha equipe a postos. É hora de fazer esses filhos da puta ralarem a cara no asfalto.
— Impressão minha ou com ela é 8 ou 80? – Cochichei para Guilherme e ele riu.
— Com a Martina é sempre 80.
Ficamos ao seu lado e Lola soprou num apito fazendo todos voarem.
Não tem regras. E a equipe tem que chegar completa.
Com uma manobra dei uma rasteira num garoto ao meu lado e ele tropeçou fazendo eu honrar a promessa de Martina de ralar a cara deles no asfalto. Ela ouviu o barulho dele caindo e quando olhou por cima do ombro gargalhou.
Martina estava na frente disputando com o que havia zombado dela, Guilherme logo atrás se desviando de chutes. Adam seguia na mesma velocidade que eu, nos entreolhamos e como uma conversa telepática, aceleramos e ficamos na mesma reta que Martina e Guilherme.
A latina perdeu a paciência e socou a cara do seu oponente que cambaleou e caiu. Ele estava no meu caminho, saltei, ele tentou pegar o skate, mas dei um chute me seu peito e o tempo que levou para tomar fôlego foi o suficiente para eu atravessar a esquina. O resto da equipe adversária estava logo atrás. Nem tentavam nada. A equipe não ganharia se não estivesse completa.
Demos a volta no quarteirão e ganhamos ao som de aplausos e vaias ao resto dos perdedores. Martina começou a dançar e colocou as mãos para o alto dando socos no ar.
— Quem é a rainha da porra toda? Quem é? Vamos, respondam pra mim! – Todos começaram a gritar seu nome e ela me puxou pela mão – E agora temos uma nova favorita, Reddie! Essa daqui é digna do grupo dos campeões, galera!
Eu estava êxtase, a adrenalina percorrendo minhas veias enquanto ouvia as palmas ao meu redor. Tudo estava dando certo. Eu encontrei meu lugar e pessoas gostam de mim. Eu sorri abertamente e tratei de comemorar também.
Lisa, Guilherme, Martina, Adam e eu praticamos a tarde inteira e de noite estávamos numa sorveteria.
— Ah, Red, seus pais não vão ficar preocupados? Já tá tarde – Guilherme disse e a resposta saiu mecanizada dos meus lábios.
— Eles não estão comigo. Posso fazer o que eu quiser.
— Tá morando sozinha com 14 anos?
— Sim ué. Já ouviu falar em suborno?
Todos riram na mesa e eu tomei um pouco mais de Milk shake de doce de leite. Não tinha pensado mais em Anne, Patrick ou Jacob. Até bateu uma curiosidade de como teria sido a reação deles ao perceberem minha fuga sem rastros. Deixei o pensamento de lado e quando a sorveteria estava fechando que saímos. Ainda cantávamos vitória.
— Ah cara, o que eu não daria pra ver agora a merda que deve estar a cara do Brandon, tu deu uma rasteira maravilhosa! – Adam comentou e eu ri lembrando da cena. Do nada ele mudou de assunto – O que acha da teoria da existência de seres fora da Terra?
— Seria arrogante e idiotice pensar que estamos sozinhos. Se o ser humano for a única forma de vida inteligente... É melhor nos prepararmos para um apocalipse.
Ele pareceu gostar da minha resposta e ficou pensativo. Adam era assim. Parecia viver num outro mundo até que alguém o acordasse para nossa realidade. Tinha vezes que Martina não tinha paciência e tascava-lhe um tapa no pescoço. Tadinho.
Na recepção, Martina e Adam só entraram pra se despedir, então o susto do Sr. Bigodinho foi em vão. Um dia eu pergunto porque o cara tem medo dela.
— Byeeee, meu povinho! Amanhã a gente se vê, gostei de tu Reddie, e Gui, não faz besteira meu filho! Boa sorte com seu pai! – Ela gritou e por um momento Guilherme pareceu estremecer a menção de seu pai.
Assim que eles foram embora, subimos pelo elevador, Lisa foi para o quarto dela e eu aproveitei que estava a sós tirei minha dúvida com Guilherme.
— Problemas com o pai?
— Um pouco. Não quero seguir a carreira que ele escolheu pra mim. – Senti compaixão por Guilherme. Ele tinha o mesmo problema que eu.
— No meu caso também era assim. Até que eu fugi de casa anteontem e vim pra cá.
Guilherme me olhou sobressaltado, depois ficou confuso.
— Como você conseguiu fugir de casa sozinha?
— Estava planejando há uns quatro anos. – Dei de ombros não dando real importância — Depois te explico as merdas da minha vida. O que você quer ser de verdade? Vim pra cá pra ser artista e fotógrafa – Respondi animada.
— Okay. Está bem. Eu queria ser escritor. Mas meu pai quer que eu seja engenheiro.
— Acredite, o meu caso era mais brabo guri. Já tentou conversar com ele?
— Quando tentei ele disse que meu caminho era nos números – Ele disse frustrado.
— Já pensou em fazer seu próprio caminho? O que importa é ser feliz, cara! Imagine aí, passar a vida inteira fazendo algo que não gosta? Eu te entendo. Sei como é uma merda isso. Mas tem que aprender a fazer seu caminho, Gui. Não vai viver na sombra do seu pai pra sempre. Tem mais potencial que isso.
O abracei e dei um beijo na sua bochecha.
— Até amanhã, loirinho. Se cuida e pensa no que eu te falei. – Acenei e ele ficou lá plantado na frente da porta enquanto eu entrava no meu quarto.
Tomei um banho e escovei os dentes, embora tivesse tido um dia agitado, não me sentia cansada, então peguei um livro qualquer da prateleira. Fiquei passando os olhos pelas páginas até que o cansaço venceu e minhas pálpebras pesaram. Me espreguicei, coloquei o livro no criado mudo e me aconcheguei na cama macia mais uma vez.
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