As Crônicas de Guerra de Alastírr

5 Zyria Rasch 5 - A Estrela D'Alma


Notas iniciais
O confronto entre Zyria e Ravir chega ao fim, quem será que levou a melhor?

Ravir ergueu a espada na altura da barriga e colocou uma das pernas à frente. Zyria sorriu, levando a própria arma à cintura e se preparando para avançar. O primeiro passo a revelou a diferença na mana que havia consumido para a qual estava acostumada. Ao tocar o chão alagado, sentiu pequenas vibrações, representando todo o movimento ao seu redor. Jurou até sentir a vibração correspondente à respiração do jölluntir. Quando se impulsionou para frente, foi como se a água a empurrasse pela superfície, deslizando como se estivesse em gelo. Zyria se moveu em zigue-zague, balançando a espada de um lado ao outro. Ravir não pareceu se abalar pela manobra, mantendo a postura neutra e os olhos atentos ao movimento da lâmina.

Quando Zyria entrou no alcance, balançou sua arma com as duas mãos, de baixo para cima e da direita para a esquerda. Seu adversário estava preparado, mas não preveu o próximo passo. Usando de sua conexão com a água, a sanärim se puxou para a esquerda, quebrando o movimento por completo e retraindo a arma. Ela então rodopiou em um golpe que o acertaria abaixo da nuca, mas lá estava a espada bicolor, com a lâmina apoiada sobre o trapézio e bloqueando o ataque. Zyria não ficou nada satisfeita, se afastando e dando voltas em alta velocidade. Logo, um tornado d’água cercou seu oponente e se comprimiu, agindo como uma segunda pele sobre Ravir. Com uma única palavra, Zyria o congelou.

— Muita palavra para pouca força. — A voz da rainha saiu ríspida e profunda, debochando do adversário. Ela se afastou alguns passos, admirando a estátua que não durou muito.

Logo a lâmina foi tomada pelo tom laranja, acendendo-se em vermelho pouco depois. O gelo derreteu em questão de segundos e a aura rubra tornou a envolver Ravir. — Impressionante, devo admitir. — Ele disse sem se virar. — Mas ainda não é o suficiente. — E assim que terminou a frase, ele desapareceu.

Os olhos de Zyria foram atraídos para o chão. Vibrações surgiam na água, uma após a outra. E parecia ser a melhor pista que tinha para saber onde estava o jölluntir, ou por onde ele passou, ao menos.

— Vocês não são as únicas que melhoram as habilidades físicas ao usarem mana de boa qualidade. — A voz veio por detrás, fazendo Zyria se virar, assustada.

A rainha não presenciou a mudança na aura, então não podia supor que ele havia deixado de usar feitiços de fogo. Aquela velocidade era surreal para acreditar que era apenas por causa de mana. Ela continuava apenas enxergando as pertubações na água e ouvindo o som das pisadas, leves e rápidas. Era isso! Ela fechou os olhos, se concentrando em sua audição. O ambiente estava bastante calmo fora os dois, então não deveria ser difícil. Canalizou a mana de seu corpo para os ouvidos e aos poucos começou a escutar. O som era como o de gotas caindo em um grande volume d’água. Suave. Mas não era o único. Tinha um outro som que indicava o oposto. O som de quando algo saía da água de uma única vez, como o salto de um peixe. O instinto de Zyria processou a informação ainda mais rápido que seu cérebro e sua boca se mexeu antes que pudesse entender o que estava a falar.

Donfal. — Ela sentiu a mana em seu corpo se esvair, se distribuindo em toda água à sua volta. Logo o chão estava congelado como Ravir fez momentos antes, e ela conseguiu acompanhar o momento em que o jölluntir pulou para fora do fluido, escapando do feitiço enquanto a água que o seguia congelava. Ele pousou sobre o gelo sem dificuldades. Seus olhos em um tom azulado conflitando com a aura vermelha que ainda o rodeava, derretendo o chão logo depois. Zyria sentiu um leve frio na espinha. Pelo visto os Jölluntir eram sim humanos melhorados. — E agora? Você não tem mais para onde se esconder. Ou vai se misturar com o ar também?

Ravir sequer esboçou uma reação. Seu rosto neutro e olhos coloridos davam a impressão de que algo o possuía, semelhante à quando alguém perdia controle para o seu zodíaco. A própria Zyria já havia perdido o controle, mais de uma vez. A sorte era que sua mãe ainda era viva.

— Parar... A... Guerra... — As palavras saíram pausadas da boca de Ravir, acompanhando movimentos duros e isolados de seus membros, como se puxados por uma corda. Todo seu braço tremeu ao apontar a espada para Zyria. — Eliminar... Ameaças... — Os olhos dele começaram a mudar de cor. Indo do azul para o vermelho, depois para o marrom e por último o prateado, repetindo o ciclo. A aura que circundava misturou-se por entre as quatro cores e logo seus olhos acompanharam, um quarto para cada cor.

Talvez Zyria estivesse certa, Ravir parecia possuído. E pelas cores que emanava, só podia significar que as quatro divindades elementais exerciam controle sobre o homem. Sem mais delongas ou palavras pausadas, ele avançou, dessa vez à uma velocidade visível. O gelo sob seus pés derretia ao toque, subindo em fumaça e sendo dispersada por fortes ventos que o cercavam. Apesar dos movimentos pouco coordenados, os golpes de Ravir eram pesados e rápidos, e Zyria sentia sua lâmina chorar a cada entrave. Até que, em um golpe vertical, ela saltou para trás e a espada de Ravir foi de encontro ao solo. A terra sob a camada de gelo reverberou ao passo que estalagmites surgiram na direção da rainha. Algumas ainda se destacaram do solo e se atiraram como projéteis. No mesmo instante, Zyria colocou todas as suas escamas destacadas à sua frente em uma barreira que balançou ao segurar os impactos. Todos uma distração.

Um vento passou pela sua orelha e quando a sanärim se virou, era tarde demais. A espada de Ravir veio de encontro as suas costelas, passando sobre as escamas imaturas e cortando sua carne. A lâmina quente a fez reagir, se afastando o mais rápido que pode e pondo a mão sobre o ferimento queimado. Seus dedos logo ficaram cobertos pelo sangue que escorreu antes que pudesse estancar o ferimento. O corte havia sido fundo o bastante para expor os ossos, fazendo-a se apressar ao máximo para revestí-lo com as escamas maduras. Aquela espada era mais perigosa do que imaginou e seu oponente não estava mais para brincadeira, muito menos de que iria parar por ali. Ravir voltou a se aproximar, passo a passo, os olhos fixos na sanärim.

— Tiamat... — Zyria chamou em sua mente, gemendo ao fazer esforço para se levantar. — É esse o destino que tem para mim? — Ofegante, ela levantou a espada com uma única mão. Todo o êxtase trazido pela mana pareceu ter sido sugado pelo golpe, tornando a dor do ferimento quase insuportável. Era a primeira vez que ela era ferida de tal forma em batalha. A primeira vez que via suas escamas, mesmo que imaturas, sendo cortadas. — Não pense que irei aceitá-lo tão fácil. — Continuou o monólogo em sua mente. Com a mão da espada, gesticulou de forma a desmontar a barreira de escamas, deixando-as livres e navegando pelo ar. Jölluntir ou não, metal divino ou não, as escamas das sanärims ainda eram um dos materiais mais duros conhecidos. — Tanmor! — Após o feitiço, Zyria passou a cantarolar uma de suas músicas preferidas, Tiamat na Foutan, uma das músicas mais antigas de seu povo, agradecendo à deusa das águas pela benção sobre sua raça. A música estava presente em todos os festivais e nas coroações e representava toda a gratidão e força das Sanärim. Para acompanhar sua voz, ela também abriu suas guelras, fazendo-as vibrar no mesmo ritmo que as Skippas, um instrumento de sopro feito com ossos de animais aquáticos. Suas escamas passaram a rodeá-la ao ritmo da música, acelerando e freando conforme a tensão ia e vinha.

Ravir parou o avanço, seus olhos acompanhando a dança que se formava. Zyria respirou fundo e deu o primeiro passo a frente, dando uma estocada ao vento e a primeira escama disparou na direção de seu oponente. Antes que ele pudesse reagir, ela continuou, dessa vez com a outra perna à frente e girando o corpo, colocando a espada sobre a cabeça e mais duas escamas dispararam. Elas faziam trajetórias curvas, procurando se encontrar com o alvo ao mesmo tempo que as batidas da música. O jölluntir bloqueava como podia, mas eram muitas escamas, e o ritmo aumentava cada vez mais conforme Zyria acelerava os passos em uma dança circular em que até o barulho das pisadas no solo alagado parecia entrar em sintonia com a canção. Não demorou até a defesa de Ravir ser sobrepujada e cortes começarem a aparecer em sua pele. Começaram pequenos e finos, observáveis apenas pelo contraste que o sangue fazia. Mas logo se tornaram ferimentos longos conforme as escamas se arrastavam pelo corpo do homem, como se desenhassem sobre sua carne, riscando como uma pena num pergaminho. Zyria finalizou cruzando os braços frente ao peitoral, a cabeça abaixada e a perna direita flexionada à frente. Nesse momento, as escamas haviam cercado Ravir e todas dispararam ao mesmo tempo, atingindo-o por todo o corpo, sem chances de defesa. A rainha caiu de joelhos logo depois, cedendo ao cansaço e as dores do corte, mas com um sorriso no rosto. A visão um pouco embaçada mostrava o sangue escorrendo e pingando de seu oponente, manchando a transparência da água aos seus pés. Zyria fincou a espada no chão, usando-a de apoio enquanto o fitava.

Ravir estava parado desde o golpe final, sem sequer reagir aos ferimentos. Sua cabeça também estava abaixada, escondendo seus olhos, mas a aura ainda o encobria. A espada em sua mão não brilhava, apresentando a dualidade inicial. Era como se ele estivesse paralisado. Até que tudo mudou. Zyria ouviu o barulho de correntes se partindo e sentiu o chão tremer, mesmo a água permanecendo parada. Em seguida, sua visão perdeu as cores, exibindo apenas tons de cinza conforme um odor estranho se espalhava pelo ar. Parecia ser a mistura do cheiro de um cadáver em decomposição e de terra molhada. A sanärim respirou fundo, reunindo forças, mas não conseguia se mexer. Na verdade, ela não conseguia sentir o próprio corpo, como quando se deixava flutuar pelas águas do lago. Um som baixo começou a preencher sua mente, ritmado e intenso feito as batidas dos tambores dos anões. Foi quando o volume aumentou que Zyria entendeu se tratar de uma voz. Um vocal poderosíssimo que se repetia e ficava mais forte a cada repetição, oriundo de todas as direções.

Sem entender o que estava acontecendo, o único pensamento que veio à mente da rainha foi o de sair dali o mais rápido possível. Mas sua paralisia afundou sua mente em desespero. Não importava o quanto ela pensasse ou tentasse se mexer, seu corpo não respondia, forçando-a a olhar para o jölluntir. Até que ele enfim levantou o rosto, agora encoberto por uma máscara branca. E se aquela luta não foi prova suficiente para dizer a superioridade dos Jölluntir perante os humanos, aquela máscara era mais do que necessário. Pois na região da testa havia parte do símbolo do único deus que os humanos não conseguiam controlar: A Estrela D’Alma, símbolo de Chinwendu. Ravir precisou de um único passo para aparecer na frente de Zyria, erguendo seu corpo pelos ombros. Em seguida, ele a tocou no centro da testa e a visão da rainha foi tomada pela luz branca, levando embora sua consciência.