As Crônicas de Guerra de Alastírr
6 Zyria Rasch 6 - Destronada
Notas iniciais
— Ai ai ai. — A reação à dor de Zyria veio antes mesmo que pudesse abrir os olhos. Ela estava deitada ainda no mesmo lugar. O chão ainda estava alagado e a região das costelas ainda doía. As únicas diferenças era que Ravir não se fazia presente e o sol já havia avançado por demais no céu. Com pressa, ela levantou e olhou mais uma vez os arredores, de fato estava sozinha. De forma instintiva, levou a mão até o lado direito do torso e passou os dedos sobre a mais nova cicatriz em sua pele, e a única. Apesar da dor, sentia que o ferimento estava completamente curado. Não só isso, mas parte de sua reserva de mana corporal também estava recuperada. Será que Ravir havia feito tudo aquilo? Só de pensar no homem misterioso, Zyria levou a mão à testa, sua cabeça latejando. A visão da Estrela D’Alma surgiu na frente de seus olhos fechados, o símbolo tremeluzindo como a chama de uma vela. Afastou a lembrança com um sacudir de cabeça e virou-se para o sul, sua missão havia acabado. Se os Jölluntir já estavam ali, era questão de tempo até a guerra acabar, como os humanos fizeram quando surgiram, ou assim ela ouviu. Preferiu sair logo da estrada e dos olhares indesejados, adentrando a breve floresta que se formava antes das planícies pantanosas.
O percurso de Zyria não foi nem um pouco calmo. Apesar de só, sua mente lhe bombardeava pensamentos. Possíveis argumentos para explicar o porquê dela ter saído na calada da noite e pior, por voltar de mãos vazias. Não que ela devesse satisfação à alguém, mas seu plano era sair e voltar com o coração de Malakvek em mãos antes do fim do dia. Até Kallya havia deixado de seguí-la. E agora ela estava voltando de mãos vazias. Era apenas mais argumentos para suas guerreiras desconfiarem de sua capacidade e liderança. Sem o coração não havia justificativas plausíveis para a missão. Já conseguia imaginar a anciã clamando ter razão desde o princípio. Merida nunca gostou de seu posto como rainha, mesmo sendo legítima. A morte prematura de sua mãe havia deixado uma vacância de experiência no trono que Zyria sabia ser difícil de preencher. Suas duas antepassadas assumiram o trono em idade mais avançada do que ela própria e por mais que tivessem passado por momentos conturbados, a relação para com o conselho era mais amistosa do que a sua agora. Tinha que estar preparada para no mínimo um pedido de afastamento, por mais que não tolerasse. Pensou em falar sobre Ravir, mas logo concluiu que de pouco adiantaria. Os Jölluntir ainda não passavam de lendas e os argumentos de desculpa esfarrapada seriam muitos, ainda mais se comentasse sobre a Estrela D’Alma. Ia ter que encarar tudo com sua coragem, sua única qualidade que lhe vinha à cabeça no momento.
O fim do dia já estava se aproximando quando Zyria sentiu-se pisar em terras úmidas. O mato verde e molhado aos seus pés a fez levantar a cabeça, reconhecendo a planície onde seu grupo estava, ou deveria. Apenas uma sanärim se fazia presente e a rainha nem precisou pensar para saber que era Kallya. Com o máximo de coragem que conseguiu reunir, Zyria forçou um sorriso, caminhando de encontro à velha amiga e não precisou ver a própria feição para perceber que deveria ser péssima em forçar sorrisos. Contudo, quando se aproximou notou que algo estava errado. De fato era Kallya, mas ela estava parada com os braços colados ao corpo e calada. Imaginou que a guardiã ao menos viria ao seu encontro, perguntar os ocorridos e talvez consolá-la, mas nada disso.
— Kallya, está tudo bem? — Ao se aproximar mais, Zyria notou que a única parte do corpo da amiga que se movia eram os olhos, esbugalhados e apontando para todos os lados. Por instinto, a rainha levou a mão à espada na cintura, tarde demais. O manto da ilusão se desfez, revelando todas as suas guerreiras amarradas e amordaçadas, inclusive Kallya. Por detrás de cada uma delas, um humano da tribo da água segurava uma lâmina contra o pescoço. Ao ouvir a risada vexatória e excessiva, Zyria virou-se para se deparar com Aberon se aproximando com um sorriso no rosto e a mulher de Polvo mais atrás. — Você? O que está fazendo aqui? — A mente de Zyria começou a processar rápido. Lembrou de Aberon fazer magias de ilusão nas espadas, mas em todos ali era um nível diferente, muito acima do que ele deveria ser capaz.
— Ahem! — Aberon pigarreou, fazendo gestos no ar de como se estivesse abrindo um pergaminho. — Cara Zyria Rasch, venho por meio deste comunicado informá-la que vossa majestade está destituída do cargo de rainha e líder das Sanärims. Se tornando, portanto, vossa ex-majestade. Também veio comunicar-lhe que está banida dos domínios clamados pelo povo que um dia você pertenceu, declarando aqui então seu banimento da sociedade Sanärim.— Ele finalizou com um meio sorriso, erguendo as palmas das mãos. — Como pode ver, vim trazer um pequeno comunicado.
— Não fale asneiras! Vocês não podem me destituir de posto algum! — Zyria deu um passo à frente, desembainhando sua espada por alguns centímetros.
— De fato não podemos. Mas o conselho, após ser informado do fracasso de sua missão e extermínio de seu esquadrão não viu outra alternativa. — Aberon rodopiou os olhos, seguindo o movimento com a cabeça.
Zyria sentiu seu sangue congelar ao ouvir a afirmativa. Seu esquadrão, aniquilado? Ela olhou em volta, no olho de cada uma de suas guerreiras e sentiu o desespero que habitava nelas a invadir. Viu quando cada membro da tribo da água aproximou a lâmina dos pescoços, deixando um fino filete de sangue escorrer pela pele azulada das companheiras.
— Mas é claro que não vou matá-las. Não sou tão desumano assim. — Por um instante, Zyria se sentiu aliviada, mas o sorriso constante de Aberon a fez engolir em seco. — Elas são muito mais valiosas vivas.
Ele não precisou completar ou dar qualquer outra dica. A imagem das lâminas arco-íris ainda estava vívida na mente da rainha. Sem titubear, ela sacou a espada e começou a prece de seu zodíaco na mente, sentindo a marca começar a ferver em suas costas. — Não pense que...
— Alto lá! — Aberon apontou para as guerreiras. — Se decidir usar a força não terei alternativa se não matá-las de verdade. Você deveria ficar feliz que vamos deixar você viver.
— Minha rainha... — Kallya falou aos suspiros. — Não se preocupe conosco, somos guerreiras.
Zyria entendeu o que a amiga quis dizer, mas não podia sacrificá-las aqui. “O conselho não teve escolha...” Sua mente começou a processar e não precisou de muito esforço. — Merida! — Deixou o nome sair em voz alta. Só podia ser obra da anciã. — Mas perder meu pelotão não deveria ser motivo suficiente para minha descoroação.
— Não. Mas assassinar membros da tribo da água sim. — Com um estalar de dedos, uma lâmina arco-íris surgiu atrás de um dos humanos, atravessando seu peito junto com o da sanärim refém. — Ao menos vamos poder tirar as escamas dela uma vez. — Aberon finalizou em tom de tristeza.
A rainha prendeu a respiração de susto, sentindo a raiva percorrer-lhe o corpo e agitar seus membros. A dor de ver uma das suas morrer perante seus olhos não era algo ao qual podia se acostumar. As outras guerreiras fecharam os olhos, com exceção de Kallya, e Zyria pode sentir o medo que as percorria, também visível pela cor verde-claro, tendendo ao amarelo, em suas escamas. Elas podiam ser guerreiras, mas não estavam prontas para perderem suas vidas. As Sanärims viviam séculos, algumas chegando ao segundo milênio segundo as lendas. Muitas ali não estavam na metade do primeiro. Em contrapartida, nenhum dos humanos pareceu ter reagido, talvez por estarem sobre influência da mulher, ou por apenas serem frios por natureza.
Aberon estreitou seu olhar, como se estivesse forçando Zyria a tomar uma decisão. Ela olhou firme, a mão ainda no cabo da espada e a vontade de desembainhá-la maior do que nunca. Ela era rápida, mas talvez não o suficiente para impedir a morte de suas companheiras, além de que não conseguiria confrontar Aberon em seu estado atual. Devagar, ela ergueu os braços em sinal de desistência.
— Você venceu. Ou melhor, vocês venceram. — Zyria calou os murmúrios de lamento de Kallya com um aceno de mão, mantendo seu olhar no líder do pelotão humano. — Só me prometa que não irá matá-las.
— Han? Então a antiga rainha planeja salvá-las com as próprias mãos? — Ele abriu um sorriso. — Adoraria estar presente nesse momento apenas para frustrá-la mais uma vez. E não se preocupe, as manterei vivas enquanto elas se manterem úteis. Lucrativas, eu quero dizer. — Ele se corrigiu, sorrindo.
Zyria ergueu uma das sobrancelhas, cruzando os braços abaixo dos peitos.
— É bem simples. — Aberon continuou. — Depois de um tempo tendo suas escamas coletadas, — Aberon enfatizou a última palavra, tentando dar um tom de delicadeza. — vocês acabam “quebrando”. Perdem suas reações, estímulos e até a capacidade de raciocinar. Os especialistas até criaram um nome para isso... — Ele coçou a cabeça por um momento, voltando a falar. — Eles dizem que vocês recebem as informações mas não são capazes de processá-las, como se seus cérebros estivessem destruídos. Algumas ainda se movem em ocasiões específicas, mas nada promissor. Bom, é algo assim. Quando chegam nesse estado vocês já não tem serventia, as escamas crescem frágeis demais, então nos livramos de vocês.
Zyria sentiu seu corpo congelar como nunca antes. Nem em nenhuma de suas magias ou nas de Ravir. Ela não conseguia acreditar naquelas palavras. Ao mesmo tempo, sua mente foi invadida por imagens de tais situações com todas as suas guerreiras, em especial com Kallya, que estava consigo desde o nascimento. — Você não ousaria... — Foi tudo que conseguiu dizer. As palavras se arrastando para sair de sua boca, sem nem um pingo de confiança.
— Você não está em posição de demandar nada, muito menos fazer ameaças. Considere-se grata por a deixarmos viver. — Aberon ergueu o indicador e o rodopiou no ar, fazendo seus subordinados darem meia-volta e começarem a sair, arrastando as reféns por cordas amarradas à cintura. — Mais uma coisa. — Ele se virou para encarar Zyria mais uma vez, estendendo a mão. — Sua espada.
Zyria ficou um tempo encarando-o, sem entender até que ele repetiu a frase algumas vezes. Ela olhou por instinto para a cintura, sem aceitar o que ele falava.
— Não se faça de desentendida. Sua espada é feita com escamas maduras, bem melhor do que o trabalhado inacabado que fazemos. Além de que ela vai ser minha arma pessoal daqui para frente. — Aberon observou Zyria recuar alguns passos, fazendo um som de negação ao estalar a língua. — Não seja teimosa. Não tem medo de que algumas de suas subordinadas se machuquem? Tragam ela aqui! — Ele comandou para um de seus subordinados.
Zyria arregalou os olhos ao ver Kallya ser trazida à frente, uma espada contra o seu pescoço desprotegido. O olhar da guerreira não trazia medo nem coragem, mas a ternura de quem acompanhou a rainha desde o começo. Uma ternura que buscava livrá-la de qualquer culpa se assentando sobre seu coração. Devagar, Zyria removeu a espada junto com a bainha da cintura e a ergueu com ambas as mãos.
Aberon retraiu o próprio braço momentos antes, apontando o indicador para chão. — De joelhos.
— Zyzy... Não... — Kallya falou as lamúrias.
Zyria olhou para a amiga e para todas as que estavam atrás dela, observando-a. Nunca havia se sentido daquela forma. Tão... Tão... Derrotada. Jurou em sua própria mente que resgataria todas ali e as vingaria, junto de sua honra. E a retaliação também chegaria à Merida, rezando para que a anciã não morresse antes de reencontrá-la ao menos uma vez. Quanto à Aberon, ela o esganaria com as próprias mãos, sem precisar usar armas ou escamas, mas com as mãos nuas. Não só ele, mas toda a Tribo da Água.
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