As Crônicas De Nárnia - Expresso Londres
10 Edmundo e Lucia - Encontro
Notas iniciais
POV Lucia
Estava tão nervosa, era meu primeiro desfile, e as garotas que dividiam o camarim comigo não estavam ajudando em nada. Só esperava que a Lil aparecesse logo pra me dar àquela força. Estava tão perdida no meio daquelas garotas que pareciam tão mais experientes do que eu naquele ramo. Mas eu não queria deixar que a minha insegurança me atrapalhasse de concluir o que eu fui fazer ali. Sei que nunca fui a garota mais bonita, ou mais interessante, mas, eu precisava muito daquele emprego. O que eu ganhava como estagiaria jamais pagaria os meus estudos. E eu estava prestes a conseguir uma vaga em uma faculdade renomada de Londres, tinha que fazer o que estivesse ao meu alcance pra pegar aquele emprego.
– Tudo bem, é coisa rápida, só quero desejar boa sorte pra ela. –ouvi a voz da Lil vindo da porta do camarim.
– Lil? –me levantei e corri até ela.
Lilian entrou passando pelo segurança após dizer que era assistente pessoal da rainha e correu até mim.
– Que bom que veio! –eu disse sorridente e aparentemente aliviada.
– Eu não ia deixar a minha ruivinha sem uma força! –disse ela sorrindo e me abraçando. – Mas espera aí! –ela me segurou pelos ombros e olhou meu cabelo. – Você pintou o cabelo?
– Gostou? –disse me exibindo.
– Ficou linda! Tá arrasando! Que cabelo é esse, garota? Ta tudo de bom! –disse ela empolgada.
– Para! Não é pra tanto! –eu ri.
– Gostei da cor! Destacou mais ainda seus olhos!
– Obrigado!
– Então eu só vim te dar boa sorte mesmo, por que o grandão ali tá de olho em mim! –ela apontou para o segurança brutamonte em pé na porta.
– Tá bem! Mas você vai ficar pra me ver entrar né?
– Claro, estarei na primeira fila! –ela sorriu. – Bom, a primeira fila é pros mais ricos, mas eu estarei lá!
– Certo!
– Boa sorte Lu! Tenho certeza que você vai arrasar!
– Valeu Lil!
Abraçamos-nos e então ela saiu do camarim me deixando sozinha, com aquelas modelos perfeitas que estavam ali de olho em mim como se eu fosse uma ameaça. Ainda pra variar assim que Lil passou pela porta, eu notei que uma antiga “amiga” minha também ia participar do desfile. Revirei os olhos, e tentei ignorar a mesma, mas ela se aproximou assim que me viu e veio destilar seu veneno.
– Olha só, nunca imaginei que você fosse participar de um desfile Henley! –disse ela com toda sua arrogância.
– Olá Samantha... –eu respondi me virando e olhando-a.
– Boa sorte pra você querida! Você sabe que vai precisar não e?
– Eu sei sim, mas digo o mesmo pra você...
– Eu não preciso de sorte amor, eu tenho talento! –disse e se virou me deixando com vontade de vomitar na cara azeda dela.
Alguns minutos depois fomos avisadas que a abertura do desfile já tinha começado e que logo seriamos as próximas a entrar. Fiquei ainda mais nervosa e comecei a suar frio. Minhas mãos tremiam, e meu coração batia acelerado. Mas era isso, eu teria que enfrentar meu medo de ficar em publico e receber toda a atenção dos fotógrafos e dos convidados.
POV Lilian
Assim que sai do camarim de Lucia, fui direto procurar um bom lugar para me sentar. Queria ver pelo menos a metade do desfile antes de ir falar com Pedro. Ainda não tinha decidido se passaria aquela noite com o rei, mas eu não poderia simplesmente deixá-lo a minha espera, eu lhe devia pelo menos uma explicação. Então, ao passar pelas cadeiras, avistei alguém que eu conhecia. O príncipe Edmundo, irmão mais novo do rei Pedro estava prestigiando a festa, logo sentado em uma das primeiras fileiras e virava o centro de todas as atenções. Aquilo devia ser um pé no saco pra ele, que ainda era tão novo, mas tinha que lidar com todo o assedio do povo sobre si, apenas por ser um membro da família real. A me ver, ele abanou a mão em um cumprimento discreto e sorriu. Retribui o aceno e me sentei em uma cadeira perto do palco. Logo depois se iniciou o desfile com a diminuição das luzes, e com a música se tornando mais alta. As moças começaram a desfilar sobre o palco coberto por pétalas de rosas brancas e vermelhas, já que o tema do desfile era justamente a primavera. A música de abertura escolhida para a entrada triunfal das moças era uma canção do Garbage chamada One. Notei que Edmundo havia se sentado bem diante da escada do palco, de onde poderia apreciar cada detalhe do evento sem perder absolutamente nenhum movimento das modelos. O jovem príncipe me pareceu bastante empolgado com as lindas garotas que andavam sobre o palco, em passos sensuais e suaves.
Depois de algumas lindas garotas fazerem sua devida entrada, lá estava Lucia, lindíssima em um vestido preto bem diferente, tomara que caia com seus cabelos novos cor de mel, soltos sobre os ombros. Notei que as maçãs do seu rosto estavam levemente coradas, ou era nervosismo ou era culpa dos famosos beliscões que as modelos levavam na face para dar um aspecto mais, saudável as mesmas. Vi aproximadamente suas quatro primeiras trocas de roupa, antes de olhar o relógio e conferir a hora. Levantei-me e me dirigi à saída no intuito de pegar um taxi e seguir até o hotel onde o rei estaria a minha espera. Ainda não tinha decidido se ficaria em sua companhia, e talvez estivesse sendo ingênua demais acreditando que ele me deixaria sair de lá, depois que me visse, mas eu acabei tentando do mesmo jeito. Caso não me sentisse bem com aquela situação, eu pediria pra ir embora e pronto. Assunto encerrado...
POV Edmundo
Recebi o convite para o tal evento e acabei aceitando já que minha presença ultimamente estava sendo bastante cogitada em festas, e eventos do tipo. Tinha suas vantagens ser irmão do rei afinal, eu sempre podia me divertir nas festas sem precisar me esforçar para impressionar as pessoas. Bastava elas saberem quem eu era, e pronto, faziam o diabo para me agradar. Às vezes era chato, pois nem tudo que eu fazia era da conta do povo, mas bastava um passo em falso, e lá estava minha cara estampada nas capas das revistas, ou nas paginas dos jornais, falando sobre minha ultima bebedeira na boate tal, ou da minha ultima namorada casual com a qual passei a noite. Mas fora esses pequenos detalhes, nada me incomodava tanto assim.
– Belas moças não, majestade? –disse o meu acompanhante.
– Sim, muito bonitas, Mark! –era seu nome.
– Tem alguma que lhe chamou a atenção em particular? –insistiu ele querendo manter uma conversa.
– Não! Nada demais até agora...
Omiti parcialmente a verdade. Claro que todas elas eram bem bonitas, mas todas tinham aquele olhar frio, e metido de garotas mimadas, do tipo que eram criadas pela mãe, que tratava as mesmas como bonecas de louça, sempre muito cuidadosas e exigentes demais para deixar a garota respirar por conta própria. Nunca gostei desse tipo de garota, do tipo, metidinha e de nariz empinado. Meus pais diziam que eu deveria me casar com uma princesa assim como meu irmão se casou com Suzana antes de se tornar rei. Mas eu queria distancia de garotas da minha classe social. Todas eram esnobes demais pro meu gosto, e eu sempre tive preferência por garotas mais simples, e humildes. Mas como eu disse, omiti em parte sobre minha resposta, já que havia uma dentre todas aquelas garotas que tinha mesmo chamado minha atenção, não somente por ser linda, mas porque me pareceu ser a mais nervosa entre elas. As demais pareciam estar à vontade com o assedio das câmeras, mas aquela pequena de cabelos longos cor de mel, me deixou intrigado pelo seu nervosismo aparente. Sentei-me mais na beirada da cadeira para observá-la melhor, e debrucei meus cotovelos sobre os joelhos, enquanto admirava seu lindo caminhar e sua face levemente corada. Embora eu pudesse sentir o nervoso em seus lindos olhos azul, ela desfilava com graça, e suavidade.
– Mark, sabe me dizer quem é aquela modelo? –perguntei discretamente evitando parecer muito interessado.
– Ah, não majestade, não deve ser fixa. –disse ele folhando um dos panfletos que recebemos na entrada.
– Descubra o nome dela pra mim. –voltei a olhar a linda desconhecida a minha frente.
– Sim, majestade! Agora mesmo... –dito isso ele se levantou e foi fazer o que pedi.
Após certo tempo de desfile, eu já não conseguia aguentar a espera entre as trocas de roupa para ver aquela linda garota desfilar pra mim de novo. Então ela voltou ao palco ainda mais deslumbrante em um vestido longo e floreado, com uma fenda central. Notei que ela parecia mais nervosa do que antes, e ao chegar bem a minha frente, na beirada no palco perto da escada, ela deu uma torção no pé, e despencou de cima de seus saltos, caindo de joelhos diante de todos os flashes. A pobre ficou tão envergonhada, mas mal podia se levantar. Notei que ela sentia dor, já que sua face se contorceu enquanto ela tocava o tornozelo. Enquanto os fotógrafos continuavam batendo mil fotos, sem um pingo de dó da garota esparramada no chão, eu me levantei de onde estava e atravessei entre eles dizendo:
– Por favor, tenham respeito, não estão vendo que ela se machucou? –eu me manifestei fazendo cara feia.
Dei alguns passos até onde ela estava sendo atendida por alguns envolvidos no desfile, e subi os degraus sem ligar para o falatório que viria a seguir sobre meu ato. Ajoelhei-me perto da linda garota, que naquele momento chorava sentada no palco, e apanhei seu sapato, notando que o mesmo estava com a sola e o salto separados. Deixei o mesmo ao lado de suas pernas e pedi licença aos demais homens ali.
– Majestade! –disse um deles.
– Você se machucou? –eu me dirigi a ela, ignorando o homem que falava comigo.
– Meu tornozelo está doendo muito acho que está quebrado. –reclamava ela por conta da dor.
– Me deixe ver... –eu sabia o que estava fazendo, já que estudava em uma faculdade de medicina e faltava só dois anos para me formar na minha área.
– Sabe o que está fazendo majestade? –perguntou Mark atrás de mim.
– Tem algum médico aqui? –eu ignorei mais um, e me dirigi ao organizador do desfile.
– Sim, ele deve estar a caminho...
– Não se preocupe, não parece estar quebrado, deve ter apenas torcido... –eu sorri olhando seu rostinho vermelho molhado, enquanto segurava o pé dela.
– Que vergonha... –disse ela cobrindo o rosto.
Virei-me e notei que aqueles fotógrafos sangue sugas continuavam me fotografando.
– Mark... –chamei meu acompanhante. – Se livre desses fotógrafos.
– Sim, majestade... –ele se afastou e desceu os degraus logo obedecendo minha ordem.
Como a droga do medico que devia estar presente demorou a chegar e assumir seu posto, eu mesmo me encarreguei de tomar a garota no colo, e retirá-la do palco, para evitar seu constrangimento. No fim das contas, ignorei a chegada do médico no camarim, e a levei para minha limusine e ordenei que meu motorista nos levasse ao hospital San Angel, o melhor hospital da cidade.
– Não se preocupe, eu conheço o melhor medico de traumatologia do hospital. Ele vai cuidar do seu machucado... –disse enquanto seguíamos para o destino.
– Obrigado majestade. Está sendo muito gentil... –disse ela com um sorriso fraco, já que ainda sentia muita dor.
– Senhor, o salto estava solto. –se manifestou Mark no outro banco da limusine. – Veja, parece que foi cortado... –dizia me mostrando o sapato que ela calçava no desfile.
– Por que alguém cortaria o salto do seu sapato? –perguntei a ela.
– Não sei... Estou tão surpresa quanto você, majestade...
– Edmundo, por favor. E você? Ainda não me disse seu nome...
– Lucia... Eu trabalho para a rainha, majestade...
– Edmundo! –sorri.
– Desculpe. Edmundo.
– Verdade? Como nunca nos vimos antes?
– É recente, eu trabalho para a secretaria pessoal da rainha Suzana.
– Liliandil? Que coincidência! -creio que abri um sorriso ainda mais satisfeito. – Se eu tivesse tal informação anteriormente...
A linda Lucia apenas sorriu ao meu lado tentando ser o mais educada possível, sabendo que estava diante de alguém da realeza. Imagino que ela ficou surpresa com minha atitude, e confesso que eu mesmo me surpreendi com ela, mas, não podia deixar aquela moça tão angelical passar por aquela situação. Mark e eu desconfiamos de que aquele não fora um simples acidente, alguém armou para que Lucia passasse por tal vergonha pública, o que me deixou ainda mais firme da minha atitude para com ela.
– Seja lá quem for que lhe fez isso senhorita Lucia! –se manifestou Mark. – Deve ter se arrependido amargamente ao vê-la receber toda a atenção do príncipe Edmundo!
– Não seja indiscreto Mark! –sorri sabendo que ele estava certo.
– Estou muito desconcertada com isso. Mas grata pelo seu gesto tão gentil... Edmundo! –ela sorriu pra mim, e confesso que gostei disso.
– Me agradeça depois... –respondi com um sorriso.
Assim que chegamos ao hospital, eu mesmo a carreguei até a sala de um amigo doutor, que tratou de cuidar da torção da linda Lucia. Após cuidar bem dela, e receitar alguns comprimidos para a dor, e receitar também um pouco de repouso. Nós saímos do hospital, e eu deixei-a em casa.
– Nem sei como agradecer, Edmundo. –disse ela levando uma mecha de cabelo para trás da orelha e sorrindo docemente, “ela era muito linda”.
– Agradeça jantando comigo um dia desses... –fui direto, não gostava de rodeios.
– Está falando sério? –ela aumentou seu lindo sorriso.
– E por que não? A menos que seu namorado seja um empecilho!
– Seria se eu tivesse um...
– Isso me deixa muito contente! –ela nem imaginava o quanto. – Então você aceitaria?
– Claro!
– Ótimo! Então está combinado! Eu entrarei em contato!
– Ok...
– Cuide bem desse pé Lucia! –disse de pé diante da porta do carro ajudando-a a se levantar do banco.
– Eu vou! –ela sorriu de pé diante de mim. – Boa noite Edmundo!
– Boa noite Lucia!
Fiquei escorado na limusine enquanto ela seguia até a porta de casa e abanava seus dedinhos pra mim, me dando tchau. Sorri, fazendo o mesmo gesto de volta, e então entrei na limusine sorridente e me escorei para trás me jogando no banco com os pés pra cima, dizendo:
– Que bela noite não Mark?
– Certamente senhor! –sorriu ele entendo do que eu falava.
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