As Cores
34 Capítulo 33
O homem olhou os nomes naquele papel, quase sorrindo.
Tocou o filtro do cigarro em seus lábios, os segurando firmemente, acendendo e tragando lentamente, quase orgulhoso. Ordem da Fênix, leu, fascinado. Ele já tinha até mesmo uma organização particular organizada para capturá-lo.
Era um homem perigoso, finalmente.
Tom fechou o papel, colocando perto da última edição do Profeta Diário que tomava toda a primeira página do jornal: Você-Sabe-Quem ataca novamente. Ele sequer era nomeado, as pessoas temiam que nomeá-lo era chamá-lo, como se fosse o próprio diabo. Riu sozinho, servindo-se de uísque, levantando-se na cadeira. Andou pelo escritório de Cygnus Black, indo até onde ficavam seus prêmios. Tocou os objetos sagrados da família Black, achando que era uma boa coleção, não melhor que a dele, mas digna.
A porta abriu-se bruscamente e Tom virou-se, assustando-se com a garota loura, mais assustada que ele, segurando um livro pesado.
Ela ameaçou fechar, vermelha.
— Desculpe, pensei que estava vazio. — Ele levantou a mão antes que ela fechasse.
— Pode entrar — ele sorriu — Senhorita Black, a casa é sua. Sou um mero convidado.
Narcissa pareceu ponderar, entrando lentamente, segurando o livro com dificuldade.
— Com licença. — foi até a estante e colocou no lugar que estava vazio, o empurrando.
— Esse é um bom livro. — comentou Tom. Ela virou-se lentamente, assentindo.
— Me ajudou bastante. — sorriu brevemente.
Ele esboçou um pequeno sorriso.
— Aposto que sim.
Ela sustentou seu olhar, sabendo que estava na mesma sala que o homem mais procurado da Grã-Betranha.
— Feliz Natal, senhor Riddle. — Ele tragou o cigarro.
— Ninguém me chama mais assim.
— Desculpe, fui apresentada ao senhor dessa forma. — O homem parecia estar perto de seus cinquenta anos. Ele deu alguns passos em direção de Cissy e a agora ergueu o rosto para olhá-lo. Tinha intensos olhos verdes, mas era como se alguns capilares tivessem rompido, derramando vermelho sobre a íris.
— Lord Voldemort. — ele deu a mão para que apertasse e a garota engoliu seco, forçando um sorriso, sentindo uma forte dor de cabeça.
— Prazer, senhor Lord Voldemort — Cissy, fez um sinal de respeito e saiu do local o mais rápido possível, quase desmaiando de dor. Ele tentou entrar na minha cabeça, pensou, desesperada, quase pulando os degraus das escadas em direção de seu quarto. Só respirou quando trancou a porta, ofegante. Tocou o peito, acalmando-se aos poucos. Foi até sua cabeceira, sentando-se na cama, pegando um quadro de seu pai, sorrindo ao lado de Cissy de seis anos atrás.
Ele não fazia ideia de que tudo ia desabar depois que fosse para debaixo da terra.
Colocou o quadro no lugar, cobrindo o rosto, aflita. Levantou-se e colocou seu sobretudo, arrumando-se para sair. Sua coruja invadiu o quadro com uma carta, que Cissy pegou sorrindo, imaginando ser de Billius. Abriu, ansiosa:
“Responda”
A garota encarou o pergaminho, sabendo exatamente quem mandou. Olhou a coruja, confusa. Do que esse idiota está falando, respirou fundo, cortando a carta e jogando no lixo, olhou novamente a foto de seu pai, como se implorasse por orientação. Teria que entrar naquele pulgueiro novamente para ver se o achava para que conversassem pessoalmente.
Abriu a porta e a fechou atrás de si, descendo as escadas rapidamente, saindo da casa em seguida. Deu apenas alguns passos para fora da Mui Antiga e Nobre Casa dos Black antes de aparatar de frente para a Mansão Malfoy. O único barulho que ressoava por aquela fortaleza era seu salto. Subiu as escadas, e antes que pudesse bater na porta, o elfo abrira a porta, então ela apenas continuou andando, agora com seus saltos ressoando por todo o local.
— Não preciso de companhia — avisou, indo em direção às escadas — Nem ser anunciada.
Andou pelos longos corredores da Mansão, não mais fascinada com o lugar. Parecia o inferno, ou céu, que sabia que cedo ou tarde repousaria para toda a eternidade. Até lá, tinha alguns dias de vida. Abriu a porta do quarto de Lucius, o encontrando imerso em leitura em cima de sua cama. Fechou a porta atrás de si e tirou as luvas, colocando no bolso interno de seu sobretudo negro.
— O que você quer?
Ele abaixou seu livro lentamente e colocou o indicador sob os lábios.
— Mais baixo, Cissy, há um senhor definhando não muito longe daqui, não tem respeito?
Narcissa segurou a impaciência, limitando-se a apenas revirar os olhos, ainda parada no mesmo lugar. Ele levantou-se e foi até sua escrivaninha, pegando um pergaminho, indo em direção da garota e lhe oferecendo.
Ela arrancou o papel de sua mão e leu, irritada.
“Ela me viu.
E mudou-se, novamente.
O homem está sendo seguido, e vai acabar sendo morto. Consigo proteger as duas, mas vai ser difícil matar meia duzia de Comensal da Morte”
Os olhos de Narcissa já estavam arregalados e lacrimejando quando a garota o olhou. Jurava que seu coração havia até mesmo errado a quantidade de batidas. Lucius sorriu, cínico.
— Quer me contar algo, esposa?
Apertou o pergaminho em sua mão, tomando ar.
— Como conseguiu isso? — sua voz falhou, mas continuou ereta, esperando a resposta.
— Interceptei sua coruja — ele tocou seu queixo com delicadeza. — Não há segredos entre marido e mulher.
— Seu filho da puta! — gritou Narcissa, socando sua mão para longe dela, lhe deu um tapa no rosto e em todo lugar que conseguiu alcançar até que caísse em cima da cama, onde continuou batendo até suas mãos latejarem. O garoto tentou se esquivar, finalmente conseguiu agarrar os pulsos da Black, que tentou se soltar a todo custo, o chutando.
— Para com isso! — ordenou, apertando seu rosto. — Para!
Cissy continuou chorando, sentindo seus dentes doerem tamanha força que Lucius usava ao apertá-la. Ele a soltou bruscamente e ela caiu, exausta.
Ele curvou-se e pegou o pergaminho, o estendendo novamente, mostrando para Cissy como se fosse um diploma.
— Isso aqui na mão da sua família e você é expulsa que nem cachorro. — ele sorriu, dobrando delicadamente e colocando no bolso da calça. A olhou com desprezo e então virou-se — Levanta.
— O que você quer? — Narcissa ergueu-se, apoiando-se na parede. — É por causa de Billius?
Ele virou-se, quase gargalhando.
— Você acha que eu ligo pra você? — riu Lucius. — Merlin, você é tão… Carente!
A garota encostou-se na parede, descabelada. Esperou que ele terminasse de rir, abrindo novamente o livro que estava lendo, calmamente achando a página que estava e então colocando sob a cama.
— Agora você sabe algo sobre mim, e eu sei algo sobre você.
Narcissa encarou Lucius, arrependendo-se amargamente de um dia ter olhado pr’aquele infeliz. Ofegou, ainda nervosa pelo que acontecera. Arrumou seu cabelo como pode, e secou as lágrimas.
Tocou a maçaneta gélida e encostou sua cabeça na porta, fechando os olhos, brutalizada. Lucius destruiu toda a pureza que ela um dia sentiu por ele, e por luxúria, Narcissa parecia ter feito um pacto com o diabo.
Virou-se para o garoto.
— Você pode se achar muito esperto, Lucius. Mas se eu decidir acabar com você… — ele a olhou, sério — Você não quer desafiar um Black, os boatos são verdadeiros especialmente sobre as mulheres daquela família. Eu não vou hesitar em cortar a sua garganta.
Os dois se fitaram em silêncio.
Abriu a porta do quarto e a bateu com força, quase quebrando o chão ao andar pela Mansão. Desceu as escadas, e estava tão dominada pelo ódio que apenas o olhar fizera com que as portas se abrissem e ela saísse da Mansão, já no jardim, aparatou para a Travessa do Tranco.
…
Andrômeda fechou a porta atrás dela.
Viu tantas pessoas saírem da casa que se seu mapa estivesse certo, apenas Sirius estava dentro dela. Andou lentamente pelo local, mas antes que pudesse sequer sair do Hall de Entrada, levou um susto.
— Não se mexa!— levantou os braços, indefesa. Sirius estava no topo da escada, apontando a varinha para Andrômeda, trêmula. Ele arregalou os olhos e Andie abaixou as mãos lentamente, caindo no choro em seguida. — Andie!
Sirius desceu as escadas às pressas, a alcançando e quando se abraçaram, Andrômeda soltou um choro dolorido e alto. — Sirius, Sirius… — gemeu, ainda chorando muito, o abraçando com força, não acreditando que ele já estava do seu tamanho. Sequer teve tempo de se despedir dele quando pisou naquela casa pela última vez. Pegou o rosto do garoto, completamente embasbacada. — Como você está lindo… Como é lindo… Deve estar quebrando tantos corações. — riu entre um soluço e outro. Tapou a boca, ainda chorando. O primo sorria com tristeza, mas não se permitia chorar.
Ele olhou as roupas simples de Andrômeda, quase não a reconhecendo. Não tinha mais os cabelos sedosos, nem o rosto descansado, parecia ter enfrentado guerras, envelhecido em dias.
— Como você está? — perguntou, já conseguindo se conter um pouco. O garoto respirou fundo.
— Esse foi o último Natal com esse bando de urubu, eu só saio de Hogwarts quando me expulsarem de lá — Andrômeda riu, apertando a nuca do garoto, saudosa. — Como entrou aqui? Não teve medo de estarem em casa?
Andromeda colocou a mão em seu bolso, dando o pergaminho para Sirius.
— É um mapa, eu usava quando era pequena. Bella, Cissy e eu, para nunca sermos pegas. — Sirius olhou o mapa da casa, não acreditando. — É seu.
O menino a olhou, admirado.
— Tem um livro na biblioteca que vai te ensinar a fazert esse feitiço, não me lembro o nome. Mas é útil. Tentei fazer de Hogwarts também, mas não tive paciência, é um lugar muito grande. — Ela foi até a sala, indo em direção da tapeçaria. Aproximou-se de seu nome, tocando o rosto queimado e os outros dois ao seu lado, Ted Tonks e Nymphadora Tonks. Ardia de curiosidade em saber o que achavam do nome, mas nunca saberia.
— Sirius, jogaram minhas coisas fora?
O garoto parecia envergonhado.
— Andie… Praticamente explodiram seu quarto, se desse pra eles tirarem um quarto da casa sem demolir tudo, teriam feito. — Não se surpreendeu. Sua visita teria sido em vão se não tivesse encontrado Sirius. A porta se abriu e os dois deram a mão, congelados. Andromeda encostou na parede e conseguiu de relance ver Narcissa trancar a porta. Sirius puxou o braço de Andrômeda, apontando para a cozinha, pois Cissy com certeza subiria as escadas, mas Andie soltou-se de Sirius, dando-lhe um beijo na testa.
Apareceu na porta da sala, tendo uma descarga de adrenalina. A garota loura olhou para o lado e então congelou, pálida, como se estivesse vendo um fantasma. E de certa forma estava.
— Cissy — cumprimentou Andrômeda, com a voz embargada. — Você mudou.
A loura olhou Sirius de canto de olho e soube exatamente quem iria ser castigado por aquela assombração. Narcissa respirou fundo, assentindo.
— Muito bom te ver — Andie cobriu a boca, soluçando de chorar. — Assim já posso te dar um conselho.
As duas se fitaram por uma eternidade.
— Você só está viva porque eu paguei alguém para protegê-la. E proteger aquilo que você chama de filha. — Andrômeda franziu o cenho e segurou-se no batente, como se tivesse sido sacudida. Não estava louca, realmente havia alguém a rondando. Narcissa tirou as luvas, não olhando a irmã. — Mas ele foi demitido hoje. Então se eu fosse você, tomaria cuidado.
— Cissy… — chorou Andrômeda, dando alguns passos em direção da irmã, que deu apenas um para trás, gélida. — Narcissa…
A falta de humanidade na irmã deixava Andrômeda com vontade de gritar de desespero, por mais que previsse aquele comportamento, realmente achou que pelo menos Cissy poderia lhe ceder um abraço, um simples sinal de saudade. Sentia-se um fantasma, como os de Hogwarts, transitando na frente dos vivos.
— Papai a amava muito, e sei que ele faria qualquer coisa para salvá-la. — alertou Narcissa, não se abalando com as lágrimas de Andrômeda, visivelmente perdendo toda a compostura ao ouvir sobre o pai. Andrômeda chorou tão alto que não sentiu vergonha ao segurar ao tocar Narcissa, frágil, implorando por afeto — Mas eu te amo de uma forma diferente, eu te amo o suficiente para te matar.
Andromeda vacilou, soltando a irmã, ainda exasperada.
— É melhor você nunca mais pisar nessa casa, porque esse não é o seu lugar.
Andromeda assentiu lentamente, cobrindo a boca, não conseguindo impedir as lágrimas. Deu uma última olhada em Sirius, realmente querendo desabar, mas segurou-se, dando um rápido sorriso molhado para o menino aflito. Virou-se e abriu a porta, saindo. E então, começou a andar, sabendo que nunca mais conseguiria achar sozinha a casa dos Black, e provavelmente ninguém nunca mais abriria para que entrasse.
Olhou para sua rua, completamente destruída, sabendo que quando virasse, aquela seria a última vez. Se recompôs e respirou fundo, virando a esquina, não se atrevendo a olhar para trás, desprotegida.
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