As Cores
24 Capítulo 23
Tom virou-se assustado quando Avery abriu a porta, jogando-se na poltrona. Ela enxugou o suor em sua testa e se recompôs, fechando sua caixa de poções, sorrindo, dissimulado, para os olhos gélidos do antigo amigo.
— Posso ajuda-lo em algo? — questionou Tom, seco.
— Essa merda está ficando louca. — disse Avery, cruzando os dedos das mãos sob o terno. — Você enfiou uma caralha de crianças em um negócio sério.
— Ninguém tem menos de dezessete. — retrucou ele, tentando não se irritar com o palavreado chulo do homem. Tom encostou-se no armário, e os dois se fitaram profundamente no quarto gelado do Riddle. Avery não olhou para a pequenina cobra de estimação branca que se rastejava na cama do homem. Ele lembrou-se de todas as vezes que quase desmaiou de susto ao pegá-la rastejando-se pelos cantos, ou quando simplesmente pegava Tom gargalhando com a cobra, como se fossem melhores amigos.
De todos, Avery era o que lhe conhecia melhor, ou o que achava que conhecia. Foi o que lhe sorriu em seu primeiro dia de Hogwarts e o que abriu a porta após sua viagem de estudos, onde desapareceu da face da terra por anos. Fora ele que apenas aceitou quando Tom disse que tinha um plano, por mais suicida que ele parecesse ser.
— Você está parecendo que vai desmanchar a qualquer segundo. — disse Avery, com uma voz rouca. Tom girou os olhos teatralmente e virou-se para sua caixinha, guardando de vez todas as poções que estava guardando. — Seja lá o que você está fazendo, está acabando com você.
— Estou me tornando uma entidade, Avery. — sorriu o homem, pálido. — Talvez Merlin.
— Vai tomar no cu.
— Será que você consegue conversar sem xingar? — questionou Tom, impressionado. — É divertido ter as crianças por perto, eles são perversos.
— Eles são desleixados. — numerou Avery. — Preguiçosos, estourados, aquele maldito do MacNair fodeu minhas primas...
Tom bufou, dando as costas para o homem novamente.
— E aquela garota é louca. — Tom reprimiu um sorriso, organizando sorrindo para um fraco cheio de sangue de unicórnio, lembrou-se do prazer que sentiu ao tomar, era melhor do que qualquer coisa que já provara em vida. — Charlotte disse que ela deve ter algum probleminha mental que ela se coça até arrancar a pele.
— Ela é esquizofrênica.
— Que porra é isso?
— É um distúrbio mental que faz a pessoa ver a realidade de forma distorcida.
— Puta que pariu, que merda essa menina vai trazer de bom? Pensei que fosse noite dos rapazes, não noite dos rapazes e uma louca! — Tom virou-se, com as mãos em seu colete do terno, aproximando-se de Avery.
— Nobby Leach precisa morrer esta noite — disse Tom, como se dissesse que precisava de novas meias. — Quero que seja usado como mátir. Morte aos Trouxas... Coloque-o em cima do bruxo no Hall do Ministério... Uma simbologia refinada.
Avery levantou-se, o olhando de igual para igual. Ele não sentia medo de Tom, mas sabia que deveria sentir. Ele olhou o amigo com lealdade, mas o temor, sabia que ele talvez não hesitaria em mata-lo para conseguir algo. Tocou o peito dele, sério. Tom olhou lentamente sua mão e depois seus olhos. Avery achava incrível como seus olhos pareciam estar mudando de cor.
— Tome cuidado, Lord Voldemort. — ironizou ele. — Um cara no passado tentou fazer isso e se fodeu.
— Você realmente está me comparando a Grindelwald? — questionou o homem, fingindo-se de ofendido.
— Charlie está grávida. — disse Avery, colocando as mãos no bolso. — Isso tudo vai dar em uma puta guerra e eu não estou afim de ver meu filho ser criado só pela mãe.
Tom sorriu, apertando o ombro de Avery, rindo. Passou a mão direita em sua cama, pegando a pequena cobrinha branca, que envolveu-se em seu braço, subindo até o pescoço, como se fosse um colar. Avery olhou a cobra com nojo, afastando-se um pouco.
— Vamos limpar o mundo para seu filho. — garantiu Tom, mas ele não estava preocupado com o filho de Avery, e sim com a possibilidade de perder um excelente duelista, e um fiel companheiro, que lhe abriu muitas portas. — Vamos fazer acontecer.
...
Tom arrumou suas vestes mais uma vez, sorrindo para o longe.
Joan Wytte descia delicadamente de sua vassoura, a fazendo desaparecer apenas com um aceno. O homem limpou a garganta, indo em sua direção, sorrindo enormemente. Ele tinha um fascínio por bruxos que conseguiram prolongar sua vida e fez questão de conhecer todos eles durante suas viagens. Joan era uma bruxa nascida em 1775, era praticante de magia entre os trouxas, mas não tinha a menor paciência com eles, os assustando ou matando quando perdia a paciência.
Foi presa aos trinta e oito anos e usou o que lhe restava de magia para forjar sua morte e ser enterrada, em 1813, conseguindo sua fuga. Entre todos os magos sábios que conhecera, ela era uma das únicas que realmente queria tocar fogo em todos os trouxas, desprezando qualquer ser que não tivesse magia em seu sangue.
— Voldemort. — sorriu ela, dando sua mão ossuda para que ele beijasse. Ele sorriu enormemente para seu anel amaldiçoado, que lhe dava a aparência jovem. — Disse que voltaria para um chá e desapareceu.
— Me desculpe, Joan, mas a Polônia é muito longe. — ela gargalhou, arrastando suas vestes negras, envolvendo seu braço no dele. Ela tocou seu chapéu pontudo enquanto caminhavam em direção da mansão dos Lestrange, onde acontecia a pré cerimônia de Bellatrix Black e Rodolphus Lestrange.
— Walburga estará aqui? — questionou ela, animada, passando pelos portões, acariciando o topo da cabeça dos elfos. — Ahhh, a última vez que vi aquela vaca ela tentou envenenar Druella. Eu que troquei o vinho, é uma bruxa muito bonita para morrer.
Tom a olhou, chocado.
— Ela queria matar a mãe de Bellatrix? — questionou ele. Joan riu, acariciando seus cabelos negros longos, com suas unhas grande e afiadas.
— Porra. — murmurou Joan, girando os olhos assim que tocaram o piso do Salão branco, lotado. Tom não se preocupou em tentar ver o que ela estava vendo, apenas admirou o local, tudo era absurdamente branco, as paredes, móveis e pilares. Fazia um contraste absurdamente perfeito com a vestimenta negra de todos, especificado no convite. Havia uma abertura gigante que dava no jardim, onde havia mais pessoas ainda. Elfos corriam de um lado para outro com bandejas de bebidas e a música parecia que ia explodir o local. — Alice, que prazer em revê-la.
Tom olhou a mulher loura de meia idade diante deles, olhando Joan com veneno.
— Quem teve a brilhante ideia de te convidar, sua bruxa feia. — disse a mulher, olhando Tom com desgosto. — Quem é você?
— Voldemort, meu namorado. — apresentou Joan, fazendo Tom forçar um riso. O homem beijou a mão de Alice, que olhava para os lados, entediada.
— Não se fazem mais festas como as de antigamente... Não há nenhum trouxa para brincarmos! Essa nova geração foi castrada, não sabem se divertir. Me lembro das maravilhosas festas de Marie Laveau... Maldito seja Godric e todos os outros, eles fizeram isso acontecer.
— Você fodeu Godric! — acusou Joan, olhando Alice com chacota. Tom olhou para os lados, tentando absorver as informações, surpreso. Alice Kyteler foi a primeira mulher condenada por bruxaria na Irlanda, foi praticamente a inventora da Poção do Amor e sabia executar Imperius melhor que qualquer pessoa e matou seus quatro maridos, e outros homens avulsos. Sumiu de forma curiosa quando foi condenada a fogueira.
A mulher deu de ombros, tomando um pouco de vinho.
— Ele era um homem bonito. — retrucou ela, olhando para a amiga de forma maliciosa, fazendo Joan gargalhar. — Venha, Orion estava contando da vez em que Elizeth tentou montar uma vassoura, aquela desgraçada se nega a pegar um corpo novo...
Joan e Alice desapareceram entre as pessoas e Tom pegou um copo de uísque com um elfo, caminhando pelo local, não esperando achar Bellatrix, a noiva só apareceria no momento da cerimônia. Tomou o conteúdo em seu copo, batendo seus olhos na belíssima Narcissa Black, vestida de dama de honra, um vestido negro, longo e rendado, com um chapéu pontudo. Virou-se e foi em direção do outro ambiente, onde parecia ser mais calmo.
Parou na entrada da sala ao ver Papa Legba conversando com Carlotta Pinkstone, presa várias vezes por tentar falar aos trouxas que bruxos ainda existem. Deu um passo para trás, suando frio. Se ele estava ali, então...
— Ah, que surpresa. — Tom fechou os olhos com força quando ouviu a voz de Ifemelu. Virou-se novamente, com um sorriso forçado. — Meu aluno mais antigo.
Tom reverenciou a Rainha Ifemelu, beijando sua mão. Ela estava magnifica com seu vestido negro e seus xalés amaldiçoados, com o pescoço cheio de colares mágicos e um turbante preto enorme e exuberante cobrindo suas tranças. Ela tinha gigantes brincos em suas orelhas e Tom sempre ficava embasbacado ao ver que cada acessório seu era algum tipo de proteção mágica ou algo que mataria uma pessoa apenas com um toque. Ela sorriu, com os lábios desenhados pelo batom vinho.
— Pensou que ia fugir de mim? — sibilou ela, maliciosa. — Suas peripécias chegaram aos meus ouvidos. E eu estou em outro continente. — sua voz tornou-se gélida e seu rosto transformou-se em uma máscara dura de repreensão.
Ele engoliu seco, olhando para os lados, nervoso. Ela tocou seu rosto, maneando a cabeça negativamente.
— Está usando meus ensinamentos de forma errada. — ela apertou seu maxilar, fazendo Tom irritar-se profundamente, mas não perdeu sua elegância. — Está fazendo tudo errado!
— Eu sei o que estou fazendo, Sua Majestade. — murmurou Tom, retirando a mão da mulher de seu rosto gentilmente, mas firme. — Eu sou um ótimo aprendiz.
Ela semicerrou os olhos, o avaliando.
— Você quebrou sua alma. — disse ela, ainda o olhando como se tivesse sido traída. Tom focou seus olhos claros na mulher, não temendo sustentar seu olhar maligno. — Não brinque com magia, Lord Voldemort. — sibilou o medindo com desgosto.
Ele sorriu lentamente.
— Eu não estou. — respondeu, suavemente.
Rainha Ifemelu virou o rosto bruscamente ao ver alguém erguer a varinha e girou os olhos de deboche.
— Vocês europeus, pegam tudo que é nosso e ainda usam de forma errada. — resmungou ela, dando as costas para Tom, indicando que ele devia segui-la. O homem fechou as mãos, com ódio, mas a seguiu, reunindo toda a sua paciência. Ela era tão poderosa quando Dumbledore, quem sabe até mais, não podia desperdiça-la. Ela o olhou rapidamente, sorrindo, com veneno. Provavelmente tentou ler sua mente, mas Tom a fecha cada vez que entra em algum lugar.
— Pensei que você não saía mais da Nigéria, muito menos Papa... — disse Tom, passando seus olhos no homem negro de dois metros de altura, elegante com seus dreads e o top hat. Ela sorriu carinhosamente para um elfo que lhe deu uma taça de vinho.
— Eu já estava na cidade, tive um pequeno encontro com Nicolau Flamel e a Ordem de Merlin — os olhos de Tom cresceram de ganância. — Ele me disse que tinha um pirralho fazendo bagunça.
Nicolau Flamel era o único bruxo do mundo que conseguira prolongar sua existência sem usar magia negra, como todas as bruxas antigas de Salem, como Alice, Joan e a Rainha Ifemelu.
— Nessas palavras? — sorriu Tom, feliz em saber que Nicolau Flamel já estava ciente de sua existência.
— Eles vão saber que eu tirei seu cinto de castidade colocado por Albus Dumbledore e aquilo que ele chama de escola! — ela afundou seu dedo no peito de Tom, o acusando. — Você mexeu com a bruxa errada, moleque!
Ela o olhou, ameaçadora.
— Eu tenho um bonequinho seu, no meu altar. — ela sorriu. — Eu enfio uma agulha bem no coração se você me foder.
— Essa reunião deve ter sido bem séria para você estar tão alarmada. — cortou Tom, perdendo a paciência. Aproximou-se da Rainha, sério. — Fique aqui, estou prestes a... — ele olhou para os lados, conferindo se não seria ouvido. — Estou prestes a instalar uma nova Ordem. Vamos dominar o mundo, vamos vingar nossos antepassados.
Ifemelu pendeu a cabeça para o lado, com deboche.
— Seus antepassados brancos, seu demônio? — sibilou Ifemelu. — O mundo estava bem até seus antepassados burros invadirem minha terra e deitar com os nossos. Foram os seus antepassados burros que causaram essa merda inteira.
Tom trancou a mandíbula, querendo socar a cabeça da Rainha na parede. Ela sentiu sua raiva e aprofundou seu olhar, erguendo o queixo.
— Afaste-se, demônio branco. — resmungou, o empurrando para longe dela apenas com um acenar leve da mão, ele negou-se a tocar o peito, mesmo com a pressão da magia que ela fez para forçar seu corpo a ir para trás. Terminou seu vinho em uma única golada. Vou matar você, pensou Tom, sorrindo para Ifemelu. Ofereceu o braço.
— Me dê a honra, Sua Majestade. — Ifemelu o olhou, com a boca retorcida, ainda desconfiada, mas aceitou pegar seu braço. Os sinos já ressonavam, anunciando o ínicio da cerimônia. Todos caminhavam para o jardim, as bruxas com seus chapéus pontudos, com excessão de algumas, como a Rainha Ifemelu, que usavam turbantes. Um elfo apresentou-se para os dois, direcionando ele e a Rainha para um dos lugares na segunda fileira.
Tom ajeitou-se em suas vestes, olhando para o altar flutuante. Uma Sarcedotista aguardava a noiva, ao lado de Rodolphus, ansioso. Seu irmão mais novo e Simon Gibbon aguardavam ao seu lado. E no lado de Bellatrix, suas duas irmãs, Andrômeda e Narcissa. Tom olhou para Andrômeda, admirado. Ela notou seu olhar e desviou, ruborecendo.
Todas as velas do jardim se iluminaram em um choque, num fogo esverdeado, e todos se levantaram e olharam para trás, em direção da noiva. Tom sentiu um pouco de tontura quando viu Bellatrix, após meses sem vê-la. Ela tinha seus cabelos muito bem presos em um coque seco, e sua maquiagem escura apenas ajudava a aparência cadavérica de seu rosto.
Ifemelu deu um risinho de escárnio, mas pareceu gostar de Bella.
Tom sequer conseguia piscar. Ela andou secamente em direção do andar flutuante, sem soltar um sorriso sequer, e sem tirar os olhos do pentagrama em fogo atrás da Sarcedotista. Ela estava coberta por um belíssimo vestido negro de renda que lhe apertava até a cintura e então se tornava enorme e elegante, rastejando-se atrás dela.
Bella subiu no altar, segurando seu vestido, posicionando-se diante de Rodolphus, que parecia emocionado. Todos se sentaram novamente e Tom ignorou o leque de Ifemelu, que ainda admirava a beleza de Bellatrix.
A Sarcedotista deu inicio a cerimônia e Bellatrix ainda não tinha desfeito a cara emburrada. Rodolphus beijou sua mão após colocar seu anel. O homem comentou com Ifemelu que aquele anel é uma réplica perfeita do anel amaldiçoado de Morgana Le Fay. O livro fora posto diante de Bellatrix e por um segundo, Tom pensou que ela ia cair no choro.
Ela pegou a pena com que Rodolphus assinara o Livro Sagrado e escreveu seu nome, assistindo o Lestrange queimar ao lado do Black, tapando seu nome verdadeiro. A garota mirou seus olhos marejados nele, como se tivessem enfiado uma faca em seu peito. Tom invadiu sua mente, sentindo um peso enorme cobri-lo.
Estou morta, sussurrava ela em sua mente, enquanto Rodolphus a beijava e todos levantavam para aplaudir, estou morta.
Ela e Rodolphus se viraram para os convidados, de mãos dadas. A garota tinha uma face assassina, mesmo de queixo erguido, Tom sentiu sorte por não estar na pele de Rodolphus.
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