As Cores
19 Capítulo 18
Narcissa olhou o horizonte, em silêncio.
Era sua parte preferida da casa, gostava de ficar ali quando queria um pouco de paz. Refletir... O que quer que fosse que estivesse rondando sua mente. Seu pai estava morto. Ela não parava de lembrar, parecendo estar presa em um sonho terrível que estava só no começo. O que ela iria fazer dali em diante? Como iria sobreviver? Quem iria mandar na família se não há nenhum homem para substituí-lo? Continuou fitando sua vizinhança, em silêncio.
A porta do sótão se abriu, revelando um garoto louro. Cissy observou como Lucius crescia rápido, mudando drasticamente a cada centímetro conquistado. Ele fechou a porta delicadamente e encostou-se nela, fitando a garota com pesar.
— Não estou com saco para brigas. — cortou ela, seca, voltando a fitar a passagem. — Meu pai morreu, me deixe sofrer em paz.
Lucius continuou em silêncio. Narcissa o olhou, irritada.
— O quê? Acha que não tenho coração? Que sou falsa a ponto de sequer sofrer por meu pai? Está enganado. — sibilou ela, levantando-se da cadeira. — Eu mataria por ele. É o único homem que eu faria isso.
O garoto abaixou os olhos, ainda quieto. Cissy desesperou-se, quase arrancando os cabelos, chutou a cadeira onde estava sentada e grudou seu rosto na janela. Virou-se para o garoto, com uma face assassina.
— Agora pode quebrar esse compromisso. — disse ela, rouca. — É seu sonho não é? Voltar correndo pra sua latina bolsista. — Cissy segurou o choro, querendo estapeá-lo. — Então vá! Diga para seu pai que não quer casar comigo! VAI! Eu não ligo... Eu posso arranjar outro como você em segundos!
Lucius olhou-a, impassível.
— Eu sou... — ela sorriu, trêmula. — Perfeita! Se eu estralar os dedos, um homem cairá aos meus pés, não preciso de você. Sozinha eu estou muito bem acompanhada. Então... Não se dê o trabalho. Eu estou cansada de tentar fazê-lo me enxergar como algo humano... Vá se foder.
O Malfou deu um suspiro antes de iniciar sua caminhada até Cissy, ela esperou ele se aproximar e lhe deu um tapa forte no rosto, pronta para bater nele. Não queria usar a varinha, queria socar, usar o modo tradicional. O estapeou em todos os lugares que conseguiu enquanto Lucius aguentava, calado.
— ME BATA! — gritou ela. — VAMOS, DEVOLVA! EU ODEIO VOCÊ, EU ODEIO!
Lucius agarrou os braços de Cissy quando ela fraquejou, a abraçando em seguida. Narcissa abraçou Lucius, desesperada, sentindo a ferida em seu coração pulsar outra vez, reabrindo mais um pouco. Entrou em um choro desesperado e angustiante, apertando o garoto como se fosse uma boia de salva vidas.
— Meu papai morreu! — choramingou Cissy, descontrolada. — Meu papai...
...
Tom acendeu o cigarro de Bella, ainda admirado com a biblioteca dos Black.
Ele acomodou-se na cadeira de Cygnus, com um sorriso perverso brincando em seus lábios. Tomou mais um gole de seu uísque, tragando seu cigarro, observando os livros. Entretanto, Bellatrix não conseguia parar de pensar nos passos pesados que teria de dar dali em diante. Chegou a se arrepender ao assistir o sofrimento da mãe e das irmãs, mas não voltaria no tempo e mudaria nada. Planejou aquilo desde que soubera que fora prometida. Kreacher fechou a garrafa de uísque, saindo da sala, não sem antes dar um olhar de peso para Bellatrix. Seu mais fiel companheiro, deve ter lido atentamente os incontáveis livros de Poções de Magia Negra que comprara com o sangue ruim do Tonks.
Pensava naquilo desde que menstruou pela primeira vez e descobriu que um dia seu pai a venderia para alguém, como uma mercadoria. Se não tivesse o poder por bem, então teria por mal. Sem nenhum herdeiro homem, os Black seriam obrigados a assumi-la como herdeira. O homem inclinou-se na cadeira ao lado de Bella, soltando a fumaça lentamente.
— Você tem que sabotar o corpo de delito. — a garota continuou fitando o nada, com a voz de Tom entrando em sua mente. — Precisa tirar a culpa dos Lestrange e conseguir seu tio como aliado.
A garota virou-se para ele, seca.
— Eu matei meu pai para tomar seu posto, não para colocar outro em seu lugar.
O homem sorriu docilmente.
— E você realmente acha que vai conseguir mudar o mundo de patriarcado para matriarcado em um dia? — ela virou o rosto, irritada. — Pare de pensar feito uma criança.
Bellatrix tomou todo o conteúdo em seu copo, levantando-se, indo até a mesinha para servir-se de mais uísque. Precisava da ajuda de Tom, mas ele parecia ignorar suas vontades. Virou-se para ele, tentando não transparecer desesperada.
— Eu quero controlar as finanças Black. Eu sou a herdeira. — Tom tragou seu cigarro. Ela apontou para si mesma, trêmula, de olhos arregalados. Ela odiava se descontrolar pois sabia que parecia uma louca desvairada. — Não podem me castigar dessa forma só por ser uma mulher! Eu me recuso a ser uma propriedade!
— Seu tio Orion é o chefe agora, você é só mais uma das irmãs Black. — a garota tremeu os olhos, enfiando as unhas na palma da mão. Tom Riddle levantou-se, com o cigarro pendendo na boca ao colocar seu copo na mesa. Tocou o rosto da garota com as duas mãos, próximo. — As crianças da sua geração são tão... Ansiosas. As coisas não se resolvem tão rápido, é preciso engenhosidade, paciência, inteligência...
A garota o olhou, com os olhos cheios de lágrimas, sentindo-se o ser mais incapaz do mundo. O homem enxugou as lágrimas que caíram, a olhando docilmente. Bellatrix soluçou, abaixando o rosto, fraca. O rosto de Tom retorceu-se levemente de nojo, mas continuou com as mãos no maxilar da garota. Ergueu seu rosto, olhando-a firmemente.
— Você nunca vai ter seu espaço nas finanças dos Black enquanto não abaixar a cabeça para seu tio. — explicou ele, delicado. — E ninguém vai te dizer isso, mas você não pode ser um homem. Não adianta tentar. Seja uma mulher. É um negócio poderoso, quando feito corretamente.
Bella soluçou mais uma vez, trêmula, fazendo Tom apertar levemente seu rosto.
— Matar um homem afeta o coração... — ele aproximou-se, a abraçando, beijando levemente sua orelha. — Mas seu jogo apenas começou. E não há tempo para lágrimas.
Bella absorveu todo o cheiro de se terno, com o rosto completamente coberto por seu peito. Respirou fundo, reunindo forças.
Tom sorriu levemente para o prêmio de Ordem de Merlin de Cygnus.
...
— Kreacher, por favor, vá ver quem é. — pediu Andrômeda, ainda com a mão da mãe entre as suas. Druella parecia dormir acordada em sua cama, fitando a filha de forma vazia. Andie voltou a olhá-la, preocupada. Seu pai morreu no sábado e o mundo caiu na semana que se seguiu, era apenas domingo e ela já teve que fazer tanta coisa que parecia ter se passado um mês.
Bellatrix só queria saber de falar com Gringotes, exigir sua cadeira no Sagrado Vinte e Oito e brigar com tio Orion. Narcissa passava dia e noite trancada em seu quarto, penteando o cabelo, fazendo um novo vestido ou inventando uma nova maquiagem. Druella não saia da cama, parecendo decidida a esperar a morte ali.
Sozinha, Andrômeda estava tendo que segurar todos os pedaços.
— Mãe, eu preciso de ajuda... — sussurrou ela, desesperada. — Não consigo sozinha. Eu não sei o que fazer...
Druella continuou em silêncio.
— Me diga o que vamos fazer. — implorou ela, aproximando-se da mãe, deitando em seu peito. — Me diga o que vai acontecer...
A porta abriu-se novamente e a garota sentou-se bruscamente, assustada com o elfo indelicado. Kreacher aproximou-se:
— É um auror, senhorita Black. Alastor Moody. — a garota levantou-se, temerosa. Olhou a mãe, dando em beijo em sua mão, saindo em seguida, sendo seguida pelo elfo. Arrumou levemente seus cachos enquanto descia as escadas, fechando com mais força o seu casaco negro. Foi até a Sala de Estar, já erguendo a mão para o brutamontes que a esperava. Controlou o rosto ao ver as cicatrizes no rosto do Auror e sua aparência bruta. Ele tinha madeixas ruivas e era visivelmente impaciente, já que apenas deu um balanço brusco na mão de Andie e soltou, analisando a casa com desconfiança.
Mancou até a garota e pegou algo em seu bolso.
— Auror Alastor Moody, a senhorita é...? — mostrou o distintivo.
— Andrômeda Black. — ele a mediu, indiferente.
— Será que não tem nenhum responsável para conversar?
— Eu sou a responsável. — Bellatrix saiu da biblioteca, sendo seguida por seu amigo. Andrômeda olhou o homem, desviando o olhar em seguida. Sejá lá de onde Bella tirou este namorado, ele era mais bonito que todos os outros juntos. Tom pareceu ter visto algo engraçado, então ficou de costas, recuperando-se. Mas Moody queria ver seu rosto, curioso, parecendo reconhece-lo. — Pois não?
— Senhorita Bellatrix Black, estou certo? — indagou Alastor, apertando a mão de Bella. — Eu gostaria de falar com o encarregado da família... Seu tio Orion está?
— Eu sou a encarregada. — cortou ela, seca.
Moody e Bellatrix se fitaram, parecendo guerrear com os olhos.
— Eu me refiro ao novo chefe da casa. No masculino. — esclareceu ele. Bellatrix ergueu as sobrancelhas levemente, o fitando ironicamente.
— Bem, como pode ver, meu pai não deixou nenhum homem, só mulheres. — ela o analisou também, indiferente. — Me perdoe por não ter um pênis entre as pernas, senhor, mas sou o que sobrou para... Encarregada da família.
O clima ficou tão denso que o único barulho fora Tom Riddle limpando a garganta, apertando sua boina contra a cabeça. Aproximou-se de todos, com um sorriso educado. Moody não tirava os olhos dele, parecendo conhece-lo de algum lugar, mas Tom parecia enlouquecido para gargalhar, apressando-se.
— Bem, eu acho que chegou minha hora... Senhorita Black. — ele beijou a mão de Bella, — Senhor. — apertou a mão de Moody. — Senhorita. — ele olhou direto nos olhos de Andie ao beijar sua mão. A garota abaixou os olhos, sentindo suas bochechas queimarem. Reprimiu-se ao ver o olhar duro de Bella em sua direção. O Auror suspirou quando Tom saíra da casa, fechando a porta.
— Vou direto ao assunto... Essa nem é a minha maldita especialidade, mas... — abriu sua bolsa, pegando um pergaminho. — Está aqui o inquérito para o corpo de delito.
Bellatrix sequer moveu-se ou piscou.
— Não queremos. — Moody e Andrômeda uniram as sobrancelhas.
— Mas... Mas mamãe disse... — Bellatrix virou seu rosto para ela lentamente.
— Mamãe estava louca de dor. — retrucou a irmã mais velha, fria. — Não sabia do que estava falando.
— Filha...
— Não sou sua filha. — cortou Bellatrix. — Não quero que toquem no corpo do meu falecido pai.
— Sua mãe fez acusações graves aos Lestrange...
— Como eu disse, ela estava louca de dor. — Andrômeda não estava entendendo a atitude da irmã. Notou Narcissa esgueirando-se na estrada da Sala de Estar, curiosa. Alastor Moody semicerrou os olhos para Bella, desconfiado. Guardou o pergaminho novamente, sem desviar os olhos gélidos.
— Estranho não querer saber como seu pai morreu. — ele sorriu lentamente. — Um homem como Cygnus Black não simplesmente cai duro no chão, morto. Se for uma doença...
— Todos os homens irão morrer. — ela o cortou.
—... Você deveria se preocupar se não é hereditário.
— Mas nós não somos homens. — retrucou, sorrindo lentamente. Alastor olhou Bellatrix, Andrômeda e Narcissa, ainda intrigado. Fechou sua bolsa e respirou fundo, assentindo bruscamente. — Posso leva-lo até a saída?
Alastor girou os olhos e simplesmente foi até a porta, abrindo. Desceu os degraus da casa, pronto para aparatar, mas então virou-se, sentindo que deveria dizer algo. Assustou-se com a bela imagem das três irmãs na porta, com Andrômeda no centro, como uma junção das outras duas.
— É um mundo perigoso para as senhoritas andarem sozinhas. — disse ele, tentando não abalar-se com o vento gélido. Olhou a face fria e cadavérica da irmã mais velha, ignorando as cicatrizes em seu pescoço, como se ela tivesse o arranhado por horas. Apaixonou-se pela beleza dócil, inocente e pura da mais nova, mas sentindo que havia uma malicia quase indetectável naquele olhar. Entretanto, a do meio o fitou decidida, parecendo ter décadas de idade.
— Então andaremos juntas. — retrucou Andrômeda, fechando a porta, apagando a visão dela e de suas duas irmãs, uma em cada lado, diferentes e iguais, compartilhando o olhar frio e seco.
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