As Cores
18 Capítulo 17
O jantar fora barulhento, ainda mais com Walburga falhando em controlar seu filho mais velho, que parecia ter uma necessidade de ter atenção o tempo inteiro, dividindo-se entre comer e jogar comida nos outros. Diversas famílias de puro sangue foram convidadas, em especial os Malfoy, Greengrass e Rosier, além dos Lestrange. Narcissa ria das piadas de Amico, dando olhares dóceis para Lucius.
Olhou Kreacher enfeitiçar os pratos pela mesa, sempre servindo mais. O elfo acabou aproximando-se demais de Cissy, o que a irritou.
— Argh, não tão perto! — esganiçou, afastando sua cadeira. — Papai, este elfo é tão sujo!
Daí em diante, os pratos e conversações sucederam-se uns aos outros numa profusão desconcertante, boiando numa enchente de uísque e vinho. Bellatrix entregou-se em uma conversa com Andrômeda, que comentava sobre seus N.O.M’s.
Bellatrix apenas riu quando alguns convidados já estavam bêbados o suficiente para ser o divertimento, como o pai de Rodolphus, um homem robusto e avermelhado por conta do vinho em excesso. Em sua vigésima taça, inclinou-se para a jovem Narcissa, soprando seu bafo bêbado sobre a coitada.
— Ahhh, se eu fosse jovem, eu arranjaria um duelo para toma-la como esposa! — e bateu na mesa, gargalhando. Bella olhou sua esposa, Margareth, dura em sua cadeira, sorrindo polidamente para seu prato, visivelmente constrangida e irritada. Parecia assistir seu futuro. Cissy olhou para seu pai, apavorada.
— Acho que está na hora do vinho se transformar em água, Evan. — disse Druelle, dócil. Entretanto, o Lestrange estava bêbado o suficiente para perder a classe.
— Agora que estou me divertindo? — riu ele. — Mais vinho!
— Está na hora de parar, Evan. — a voz de Cygnus era firme e profunda. — Não vamos roubar o brilho dos noivos, não?
Evan Lestrange mirou seus olhos verdes para o homem, risonho. Bellatrix pegou a mão de Andrômeda, que a olhou, curiosa.
— Bem, eu sabia que os Black eram mão de vaca, mas não tanto. — a mesa parecia morta com o silêncio. Até mesmo o jovem perturbado Sirius havia se calado, com o rosto melecado de torta de limão. O pai de Bella e o pai de Rodolphus se encararam, sérios, por segundos intermináveis, um em cada ponta da longa mesa. Abraxas Malfoy fora o único que se movera, apoiando-se em seu cajado em forma de cobra. Os olhos pareciam ter facas imaginárias, prontas para o ataque.
Evan Lestrange bateu palmas, assustando todos na mesa.
— Mais vinho! — gritou, bateu na mesa. — Onde está a música?
Rodolphus e Bellatrix se entreolharam quando a vitrola começou a ressonar pelo local, e Sirius novamente roubou a atenção, gritando como sempre. Aos poucos, as conversas preencheram o silêncio constrangedor e Evan conseguiu mais vinho. Bellatrix observou seu pai tomar mais uma taça de vinho, com uma mão entrelaçada na de Druella. Abaixou os olhos, tocando seu pentagrama. A festa continuou por alguns minutos e a mesa tornou-se barulhenta novamente.
Quando a mesa foi limpa dos pratos vazios, seu pai erguer-se da cadeira, estranho. Parecia enjoado. Mesmo suando em bicas, bateu o garfo em sua taça, fraco. Bellatrix tirou o lenço de seu colo, tensa.
Kreacher escondeu-se nas sombras da cortinas, com seus olhos cravados no rosto de Bellatrix, que desviou o olhar, apertando sua cadeira com todas as suas forças.
O homem deu-lhe um olhar afetuoso que pareceu durar anos.
— Hoje... — ele tomou ar, ensopado de suor. — Hoje... Minha mais querida... Filha... — Ele recolocou a taça na mesa, visivelmente fraquejando.
— Pai... — sussurrou Andrômeda ao lado de Bellatrix, então, em um segundo, o homem caiu para trás, jogando a cadeira longe. A Sala de Jantar virou um caos, todos correram para cima do homem caído, que estava passando lentamente do vermelho para o roxo, sem conseguir falar uma palavra sequer. Druella perdera toda a sua famosa compostura e gritava, desesperada, rasgando as roupas do marido. Os elfos corriam desesperados, crianças berravam, homens gritavam conselhos inúteis uns aos outros. Metade dos convidados estavam em pé, alguns empurrando-se para ver melhor, outros gritando feitiços inúteis.
Bellatrix levantou-se, com as pernas trêmulas, se posicionando ao lado de Andrômeda, olhando para seu pai sufocando no chão, estática. Seus olhos dilataram-se, brancos de terror. Ele agarrou seu vestido negro, debulhando-se em lágrimas, provavelmente dando seus últimos sopros de ar. A garota soltou seu vestido do aperto do pai, afastando-se, cobrindo a boca com a mão.
— É magia negra, não adianta! — urrou Druella, dando um soco na varinha de Abraxas Malfoy, que tentava curá-lo em vão. — Meu marido... Meu marido... Merlin, não faça isso comigo...
Ninguém notou que Cygnus havia morrido, apenas quando Druella parou de embalá-lo, em um choro escandaloso e cortante. Narcissa estava do outro lado da sala, apoiando-se na parede, branca feito um fantasma, completamente endurecida de pânico. Bellatrix assustou-se em notar as lágrimas que pulavam de seus olhos e mal sentiu Andrômeda a abraçando, inconsolável, em um choro alto e soluçante.
Margareth Lestrange cravou seus olhos em Bellatrix, que desviou o olhar, escondendo seu rosto nos cabelos de Andrômeda.
Druella assumira um rosto jamais visto, molhado e cruel, apontando firmemente para Evan Lestrange, que parecia apavorado com o acontecido, encolhido perto de sua esposa.
— Você! — urrou Druella, trêmula. — Você matou meu marido! Você o envenenou! Matou meu marido! MATOU MEU MARIDO!
...
Ela olhou o Salão negro, impassível.
O enterro de seu pai conseguira juntar, por um milagre, os poucos restantes do Sagrado Vinte e Oito. Cissy estava fascinada com a presença de todos os bruxos de puro sangue mais famosos e raros do mundo bruxo. Claro, que faltam os Weasley e Longbottom, mas não faziam falta. A garota apertou o pentagrama em seu peito, sofrendo com a dor da mãe.
Não saberia consola-la como Andrômeda conseguia. Então preferiu a distância.
Diferentemente de Andie, ela e Nascissa não conseguiam expressar sentimentos na frente de todos. Não suportaria que vissem sua fraqueza. Preferia a solidão de seu quarto, onde apenas ela saberia o que seu coração conseguia segurar. Seu pai era o único homem que amou na vida, e mesmo tendo a traído, ainda o amava.
Coçou atrás de sua orelha, ouvindo sua cabeça falar. Fechou os olhos com força, ignorando a voz, coçando com mais força, até sentir carne viva. Olhou suas unhas sujas de pele e sangue e apertou sua taça, sentindo a loucura querer possuí-la. Tomou mais um gole de seu vinho, enjoada. Queria que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível. Um homem posicionou-se ao seu lado, segurando sua taça com um conteúdo intocado. Bellatrix olhou-o atordoada.
Tom parecia mortalmente ofendido. Seus olhos eram frios, mas suas feições disfarçavam. Desviou o olhar, sem ar.
— Sinto muito pela sua perda. — lamentou o homem, sem olhá-la. Bellatrix olhou para o chão, sentindo seus pulmões se negarem a pegar ar.
— Obrigada. — murmurou, envergonhada.
— Creio que a aliança com os Lestrange fora quebrada após essa tragédia. — Bellatrix assentiu, ainda sem olhá-lo. Tomou mais um gole do vinho, que desceu cortante por sua garganta. Kreacher passou por eles, a olhando com peso. Bella desviou o olhar, seca. — Magia Negra... A mais poderosa e letal.
— Todos sabem que não se deve confiar nos Lestrange. — disse ela, firme. — Meu pai foi um tolo em querer apaziguar uma história de anos.
Tom sorriu lentamente, finalmente a olhando. Bellatrix sentiu-se invadida. Ele parecia ver sua alma. Quis sair correndo e proteger-se com um pano tamanho peso de seus olhos. Tentou manter-se inexpressível, mas estava difícil.
— Então providências tiveram de ser tomadas. — disse ele finalmente, fazendo Bellatrix ficar sem ar. Ele voltou a olhar Druella, choramingando sobre o corpo morto de seu marido. — Poção Spine... Normalmente leva apenas alguns segundos, claro, se bem feita. — então olhou para Bellatrix, parecendo divertido. Mas a garota estava dura feito concreto, sem ar. — É conhecida por ser indolor, muito usada por suicidas. Eu diria que foi um erro de principiante... Mas de alguém rico e com contatos, afinal, os ingredientes não são fáceis de serem achados.
Então ele finalmente virou-se completamente para ela, tocando seu maxilar com doçura. Bellatrix segurou as lágrimas, apavorada. Mal conseguia sentir suas pernas tamanho medo. Ele sabe, desesperou-se Bella, encostando-se no batente da porta.
— A estratégia... — ele balançou a cabeça, parecendo fazer contas mentais. — Boa, mas previsível. Não muito bem planejada, já que todos sabem que Evan Lestrange é um completo idiota, mas inofensivo. Seria mais inteligente esperar que ele realmente tentasse algo com a doce Narcissa, seria a deixa perfeita.
O homem sorriu, enxugando as lágrimas de Bellatrix.
— Mas é claro que não sacrificaria sua irmã. — qualquer um que os olhasse, pensaria que ele estaria a consolando. Sua mão continuou no rosto de Bella, leve e carinhoso. — Fique tranquila, ninguém irá desconfiar de você. A fria e distante Bellatrix, ou, como dizem as más línguas, a filha esquizofrênica.
Ela abaixou os olhos, trêmula.
— Admiro sua firmeza. Entretanto, eu teria sido mais... Calculista. — sorriu ele. — Os Lestrange tem voz em peso no Ministério... E bem, Rodolphus poderia ter morrido de felicidade no dia de seu casamento, quem diria. — Bellatrix o olhou, sentindo-se burra e pequena. — Mas eu entendo, você não quer se submeter a isso. Perder seu sobrenome... Está certa, o mundo é injusto com as mulheres.
Ele finalmente tomou o conteúdo de sua taça em uma única golada. Ela observou, impressionada e abalada. O homem voltou a olhar o salão, descontraído.
Agarrou seu pentagrama, machucando as mãos tamanha a força.
Bellatrix manteve-se quieta durante os dias que se passavam, a Mui Antiga e Nobre Casa dos Black entrou em um silêncio mórbido. A garota refletia seus atos, ignorando a pintura imóvel do pai, com sua pose intocável. No sexto dia de luto, ela finalmente entrou no quarto de sua mãe, ainda incapaz de derramar uma lágrima.
— Não. — disse Druella, completamente coberta de negro. — Por favor... Não posso ficar perto de você.
Bellatrix olhou a mãe, sentido cada órgão de seu corpo falhar.
— Você é idêntica a Cygnus. — Bellatrix deu um dolorido soluço, debrulhando-se em lágrimas, sentindo seu peito apertar-se. Curvou-se, chorando verdadeiramente, após segurar por tantos dias. Tocou seu peito, sentindo uma dor imensurável.
Tomou ar, tentando se recompor. Assentiu lentamente para a mãe, segurando o choro. Virou-se e saiu do quarto de Druella, fechando a porta.
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