As Cores
7 Capítulo 06
Bellatrix estava começando a ficar nervosa.
Apertou sua taça mais ainda no salão mal iluminado. Só haviam homens no local, todos conversavam entre si, baixinho, como se falassem algo muito secreto. Ela não conseguia tirar seus olhos daquele rosto. Era diferente de tudo que já vira: Sua voz suave, mas firme e profunda, seus movimentos tão bem pensados. Ele conversava gentilmente como MacNair quando Bellatrix respirou fundo, indo em sua direção.
Quando estava ao seu lado, simplesmente congelou, percebendo que não planejara o que falar. Sentiu vontade de sair correndo, mas ele já tinha batido seus olhos nela. Ele pareceu reconhece-la e então, sorriu levemente. MacNair afastou-se sem que ele sequer tivesse que mandar. Bellatrix sentiu seus lábios racharem, olhando no fundo de seus olhos.
Eles se fitaram em silêncio por segundos, como se estivessem em uma luta mental.
— Está gostando da fraternização? — finalmente indagou. Sua voz era firme e gentil, mas extremamente formal, como se falasse com uma pessoa surtada.
— Admirável. — expressou, ainda anestesiada. Seus rostos estavam próximos como se sussurrassem, ela sentia um perfume irreconhecível.
— Não me parece muito impressionada. — ela não desviou o olhar.
— Qual é a sua opinião, então? — questionou, encantada. Ele sorriu levemente mais uma vez, sem tirar seus olhos do dela.
— Olhar crítico, quase frígido, mas ambos sabemos que isso é a última coisa que a senhorita é. Mãos descobertas... Todas as mulheres nesse local estão de luva. Quer descobrir algo novo, gosta do perigo. Tudo é banal demais para a senhorita. Seu olhar é firme e desafiador, mas seus lábios te traem toda vez que tenta manter sua arrogância, e se me perdoa, seu decote é convidativo, mas as mangas vão até o pulso, o que mostra um mesclo pensamento de independência e ceticismo. Algo como “você pode ver, mas não pode tocar”. — Bellatrix arfou, o que fez um sorriso aparecer no canto da boca do homem. — Você é triste. Você não sabe para quem está rezando, mas reza. Você nem sequer lamenta a vida que não vai ter, porque já estará morta, e os mortos não sentem nada... Nem mesmo lamentam.
Bellatrix sentiu seus olhos lacrimejarem, então desviou o olhar, ainda sentindo seu coração descompassado. O homem colocou sua taça sobre a mesa, tocando a mão de Bellatrix, para pegar sua taça também. Ela deixou, sem sequer pestanejar. Ele aparentava ter quarenta anos enquanto Bellatrix estava próxima de seus dezesseis.
Ele grudou seu corpo no dela, como um convite para dançar. As mãos se encontraram naturalmente assim como a braço dela encaixava-se perfeitamente em seu ombro, apesar da diferença de altura. Ela não conseguia ouvir um ruído sequer enquanto o olhava.
— Qual o centro do mundo para você? — murmurou Bellatrix, ainda sem desviar seus olhos. O homem sorriu gentilmente.
— Eu.
...
Andrômeda e Frank fitaram a estátua de Corvinus Gaunt, silenciosos.
Haviam apenas alguns casais no jardim onde eles estavam, distraídos demais entre beijos e sussurros. Andie olhou para o garoto ao seu lado de canto de olho, ainda tensa. Ele notou seu olhar e segurou um sorriso maroto, ainda observando a estátua.
— Dizem que ele está aí dentro. — finalmente disse, colocando as mãos atrás das costas.
— São lendas. — disse Andrômeda. — Maldosas, assim como os que dizem que Regulus I foi acimentado nas paredes de minha casa.
Frank olhou-a parecendo assustado.
— E não é verdade? — Andie acabou rindo, dando as costas para a estátua, voltando para a Mansão com o Longbottom. Ela procurou sua irmã com os olhos, um pouco preocupada. Quando os dois finalmente entraram no Salão Principal onde alguns casais dançavam, bêbados e felizes, Frank curvou-se levemente, convidando Andrômeda para uma dança. Ela aceitou, envergonhada, sentindo a mão dele em sua cintura.
Adorava seus olhos castanhos e o cabelo da mesma cor, achando uma combinação impossível de ser reproduzida. Ela sabia que seria prometida a Rabastan, mas talvez se... Se conseguisse algo com Frank... Seu pai não lhe diria não, afinal, ele é de uma família sangue puro.
— No que está pensando? — indagou ele. Ela deu de ombros, sorridente. — Imagino que já teve sua chamada fatal.
— Chamada fatal?
— Essa besteira histórica em que temos de prometer nossos filhos. — Frank girou os olhos. — Quanta idiotice, não estou em 1800 para ser prometido...
Andrômeda riu, fascinada.
— Eu tive a sorte de meu pai me deixar escolher minha esposa. — eles giraram delicadamente pelo salão. — Seja ela sangue puro ou não.
— Você faria isso? — questionou Andrômeda, assustada. — Se casaria com alguém... Mestiço?
— Ou nascido trouxa. — a garota arregalou os olhos, fazendo Frank rir. — Ah, Andie, não me decepcione, deixou as falas dos seus parentes entrarem na sua cabeça?
Ela desviou o olhar, ofendida.
Não achava que seus parentes estavam sempre certos, na verdade não achava nem um pouco engraçado Abraxas repetir diversas vezes sob a mesa que tem trouxas em seu porão. Ela sabe que não é certo, ela sabe que é um crime, mas não tem forças para ficar contra eles. Não consegue ver maldade em seus pais, apenas ignorância, talvez... Mas Frank estava certo. Seu corpo, sua alma e sua mente estavam contaminados.
Ela e todos ali eram preconceituosos, xenófobos e racistas. Foram criados para serem daquela forma... Apenas faziam o trabalho.
Frank a girou pelo salão, a fitando docilmente.
Eles ficaram naquela dança por minutos intermináveis, até que a pista estivesse praticamente vazia. Ela pousou sua cabeça no peito do garoto, envolvida pelo cheiro doce que ele exalava, fascinada. Sentiu seu queixo no topo de sua cabeça e simplesmente o abraçou, entregue. Ficaram assim por algumas horas, em silêncio.
...
Cissy passou a mão em seu cabelo novamente, sem tirar seus olhos de Lucius.
Ele parecia imerso no tapete da Sala de Estar, mesmo com o silêncio mórbido do lugar. Ela não conseguia entender como ele conseguia ser tão apático. A garota pegou sua varinha e girou-a lentamente, diversas vezes, em direção de Lucius, até que pequenos flocos de neve começassem a cair sob sua cabeça.
O garoto despertou, assustado, observando os flocos. Focou seus olhos em Narcissa, parecendo pronto para repreendê-la.
— Não se deve usar magia fora de Hogwarts. — disse ele, rouco. Parecia não usar sua voz há muito. Cissy guardou sua varinha, sorrindo.
— Bem, eu duvido que irão aparecer Aurores aqui. — disse ela, levantando-se do sofá e indo para o lado dele. Ele afastou-se delicadamente, parecendo incomodado. Olhou para toda a Sala, menos para ela. — Por que você é tão silencioso?
Nunca estiveram tão próximos, então Cissy assustou-se com a beleza do garoto. Ele era raro, ela sabia. A cor platinada de seu cabelo a deixava admirada. Lucius uniu as sobrancelhas e então desviou o olhar novamente, dando de ombros.
— Não tenho o que falar.
— Bem, você fala muito com seus amigos em Hogwarts. — Lucius a olhou como se fosse burra.
— Porque são meus amigos.
— Eu também posso ser sua amiga.
— Para isso... Eu preciso querer que seja minha amiga. — retrucou ele, seco. Narcissa mudou sua expressão doce e gentil para uma máscara de fria e dura. Lucius pareceu um pouco assustado com a mudança brusca, mas manteve-se firme. Então ela sorriu docilmente, pendendo a cabeça para um lado.
— Claro... Que tolice a minha... — pegou a varinha no bolso de Lucius, parecendo fascinada. — Essa é a sua varinha? Linda... Do que é feita?
— Me devolva! — ordenou Lucius, levantando-se. Narcissa ouviu passos em direção da Sala e apontou a varinha de Lucius para o vaso na mesinha perto do quadro preferido de tia Walburga, a explosão foi tão forte que Lucius não tivera reação quando a garota empurrou a varinha dele para suas mãos. A sala foi invadida pelos adultos, assustados.
— Lucius! — exclamou Abraxas, atônito, vendo o filho com a varinha em mãos. — O que estava fazendo?
Narcissa levantou-se do sofá, ofegante e exaltada. Lucius parecia a ponto de ter um infarto, o pai tinha o poder de deixar o garoto trêmulo e recatado em segundos, como se fosse uma fera perigosa.
— Ele queria me mostrar um feitiço novo. Eu disse que não devemos fazer magia fora da escola, mas ele não me ouviu... — Narcissa virou seu rosto para Lucius, perplexo, não acreditando na ruindade da garota que assumira uma face perversa em seu sorriso de anjo. — Não o castigue, tio Abraxas, ele só queria me impressionar...
Cygnus riu, entrando na sala e concertando o vaso apenas com um acenar da varinha.
— Se quer impressionar minha filha, meu rapaz, dê-lhe flores, não quebre os vasos da casa! — os adultos voltaram para a Sala de Jogos e Cissy foi atrás, ainda dando a Lucius um sorriso malévolo. O garoto apenas respirou quando ela se fora. Sentou-se no sofá, sentindo seu coração pular pela boca. Apertou seus joelhos, ainda trêmulo. Tentou não pensar nos olhos raivosos de seu pai e engoliu o choro, atordoado.
Limpou o suor da testa.
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