As Cores

29 Capítulo 28


Narcissa continuou fitando o nada, aflita.

Aos observadores fiéis, era visível a mudança. Não só a idade, agora com quinze anos, mas havia uma sombra dura que apossou-se da juventude de Narcissa Black, agora mais distraída, menos paciente para fingir-se de sonsa. Muitos deduziram que ela estava assim por conta da irmã, Andromeda Black. Por mais que a família tenha tentado abafar o caso, rapidamente espalhou-se pela mídia e consequentemente por Hogwarts, que uma das irmãs Black havia fugido de casa para ficar com um nascido trouxa. Não demorou muito para que todos deduzissem que Andrômeda estava grávida, por isso fugiu, e Narcissa não se deu o trabalho de desmentir.

Sentia-se fraca demais para tentar polir o brasão familiar que seu pai tanto lutou para cravar na história bruxa. Desviou da fumaça do cigarro de Lucius, rindo de algo que Louis dissera. Seus olhos acharam Sirius em seu uniforme da Grifinória, gargalhando com os amigos pelo jardim.

Antes que pudesse raciocinar, suas pernas já estavam caminhando em direção do garoto de doze anos, que pareceu sentir a presença da prima: virou-se bruscamente, já com uma expressão de raiva.

— O que você quer? — perguntou antes mesmo de Narcissa terminar de se aproximar. A garota ofendeu-se com a agressividade do garoto, mas não o culpou. Provavelmente também tinha saudades de Andrômeda. Olhou os outros garotos que estavam brincando com ele e se surpreendeu ao ver o pequeno Potter. Pelo menos um amigo de sangue puro, pensou Cissy, quase sorrindo.

— Não precisa falar nesse tom, Sirius. — corrigiu Narcissa. — E não se esqueça que sou mais velha que você, mereço respeito.

O garoto revirou os olhos e Cissy olhou feio para os amigos dele.

— Quero falar com você à sós.

Não! Nem pensar, não tenho nada pra falar com você- — aumentou o tom quando os amigos começaram a se mexer para afastar-se, mas Cissy não teve paciência e agarrou o braço de Sirius — Desgraçada!

Afastou-se das outras crianças, finalmente longe o suficiente para soltar Sirius, que já era quase mais forte que ela. Cissy segurou o riso, cobrindo a boca, quase chocada. Meu deus, ele não tem mais cinco anos!, pensou sentindo algo estranho dominá-la. Conseguia ver as feições de tia Walburga começarem a se desenhar em seu rosto, rapidamente perdendo os traços infantis que tornavam todas as crianças iguais.

— O que você quer? — perguntou de braços cruzados, impaciente.

— Eu… — Cissy queria perguntar sobre Andrômeda, mas não sabia como. — Como é a Grifinória?

Sirius uniu as sobrancelhas, desconfiado. Ela tentou sorrir.

— Lembra que você perguntou o que aconteceria se alguém não caísse na Sonserina? — riu ela, assustada em não ter que olhar mais para baixo para falar com Sirius. Ele fez uma careta de impaciência.

— Não, não lembro.

— Como não? Faz o que, três anos?

— Narcissa o que você quer, porra? — Sirius perdera a paciência, quase batendo o pé no chão, ansioso, olhando para os amigos ao longe.

— Você fala com ela? — indagou finalmente, nervosa.

O azul gelado de Sirius finalmente encontrou os de Cissy, como se sentisse pena. Ele não vai falar a verdade, pensou, quase chorando, não pra mim.

— Não. — disse, e Cissy soube que era mentira. Assentiu lentamente, e Sirius não ficou para consolá-la, finalmente livre para voltar para seus amigos. Aquele seria o último ano de Andrômeda, e então ela tecnicamente teria a companhia apenas de Sirius e Regulus em Hogwarts, mas o primeiro filho de tio Orion não queria saber dela, e a carga horária de primeiranista de Regulus era lotada demais para que ele pudesse fazer companhia à prima.

Olhou Lucius e seus amigos ainda rindo e fumando no jardim e não sentiu vontade de voltar. Pensou em ir para o dormitório, costurar um novo vestido enquanto conversava sobre amenidades com Clementine, mas tudo parecia fútil e estúpido para Narcissa.

Fitou o lago, sentando-se.

Pensou em Andromeda.





A mansão Lestrange era grande e gelada demais para Bellatrix.

Ela viveu numa casa, que apesar de grande em andares, era apertada, confortável, perto e cheia de pessoas pra lá e pra cá. Entretanto, lá estava ela, como seu pai planejou, no meio do nada da Suíça, em uma mansão com dois moradores e um elfo que ela odiava.

Os dias pareciam iguais dentro da cabeça de Bella, a ponto de que ela tinha uma crise de choro caso não visse o ponteiro do relógio se mover, sentia-se presa em um história sem pé nem cabeça. Passava muito tempo no jardim, andando, conversando com o elfo Crory, de onde ele era, o que fazia antes de ser capturado, como cozinhava. Então o acompanhava nos afazeres, observando manejar a cozinha como ninguém. Bellatrix amava criaturas mágicas, a mais pura forma de magia.

Quando não estava observando, dedicava-se à sua religião. Tirava tarô para si mesma todos os dias, sempre tendo a mesma resposta: ela sempre tirava a carta da morte.

A noite, principalmente quando chovia, lia poesia. O silêncio parecia ter acalmado os demônios que rondavam seu espírito por todos os lugares que ia, as vozes eram mais baixas e não sussurravam coisas horríveis, nem ordenavam nada que a fizesse sangrar.

Pensou em seu pai quando sentou na cadeira principal da mesa do Sagrado Vinte e Oito. Fleamont Potter retirou-se do tratado assim como seus vassalos (Weasley, Lovegood, Longbottom…) quando houve divergência em se posicionarem contra as políticas de Eugenia Jenkins, principalmente o tratamento de silêncio frente aos atentados contra nascidos trouxas e traidores do sangue.

Por unanimidade, Bellatrix sentou-se na ponta da mesa onde antes Potter se sentava, onde seu pai passou vinte anos tentando se sentar. Cada decisão de Bellatrix, quando sua voz saía, era como se fosse um boneco sem vida, repetindo as palavras de Tom, como se fizesse parte de uma orquestra, de uma peça cujo acesso fosse limitado apenas a seu papel. Já se faziam nove meses que se comunicavam apenas por cartas, sempre raras e objetivas por parte dele, e extensas e constantes por parte dela. Não a visitou durante a dor de perder uma irmã, nem quando despediu-se dos conhecidos para assumir seu posto na Suíça, governando uma casa de pó e silêncio.

Acendeu um cigarro em seu escritório, sentada na janela, observando Rodolphus aparatar próximo ao portão, abrindo em seguida. Assistiu seu marido, com as sempre refinadas vestes negras, caminhar em direção da mansão. Subiu seus olhos, ainda fitando o horizonte. Meus amigos desistiram de mim, como uma memória perdida.

Sentiu seus olhos queimarem, mas negou-se a chorar. — Sou o consumidor das minhas próprias mágoas — sussurrou, lembrando-se da Bellatrix de dez anos, isolada na Polônia, relendo o mesmo livro de poemas de John Clare, um presente dado por alguém que Bellatrix seria capaz de matar se visse novamente — Elas ascendem e desaparecem em chão estéril, como sombras em dores delirantes de um amor sufocado.

Apenas seus olhos se moveram quando Rodolphus fechou a porta após entrar. Um estranho conforto a cobre, por mais que os dois mal trocassem mais de duas palavras na semana, sentia-se menos adoecida quando ele estava em casa.

Aproximou-se da mesa de Bellatrix, pegando para si um cigarro e acendendo.

— John Clare — disse, dando seu primeiro trago. — Você era tão popular em Hogwarts que dificilmente eu pensaria que era uma leitora de poesia.

Bella deu um breve sorriso.

— Fui amaldiçoada pela poesia muito cedo — explicou Bellatrix, ainda observando a névoa que borrava as árvores altas que recobriam a propriedade, a isolando do mundo.

Rodolphus levantou-se, aproximando-se da janela.

— Sabe, você não precisa ficar aqui. Não tem problema se quiser retornar para Londres, eu… Eu posso morar com você e sua família. — Bellatrix olhou Rodolphus, também sentando-se no batente da janela. Ele olhou os artefatos wicca de Bellatrix e suspirou, também fitando o nada. — Nunca fui muito adepto ao mundo das Artes das Trevas.

Ele não se envergonhou com os olhos de Bellatrix, agora focados nele.

— Nunca fui estudioso como Rabastan, e nem nunca senti essa aversão tão forte com nascidos trouxas ou mestiços… — ele respirou fundo. — Mas ainda assim eu segui você até Salem e fiquei quase um mês sem falar, trabalhando feito um corno.

Bellatrix tentou segurar o riso, mas não conseguiu. Levantou-se para pegar o cinzeiro e apagou o cigarro, de costas para Rodolphus.

— Seja lá o que você fez de você, eu estou aqui pra te aceitar. — Bella fitou o cinzeiro. — Estamos juntos por um motivo.

Ela virou-se.

— Plano de Deus? — quase sorriu.

— Sim. — concordou Rodolphus.

Bellatrix o fitou, sentindo algo estranho dominá-la, uma calma que nunca sentira antes. Seu espírito havia feito as pazes com Rodolphus: aquele já não era mais um inimigo. Seu ego parecia ter finalmente encarado o outro, a cruel percepção que aquele ser diante dela também era um ser humano, com dores, dúvidas e tormentos. O homem terminou seu copo e saiu do escritório, fechando a porta, demonstrando a Bellatrix que sua alma também estava em paz, um Rodolphus mais jovem não teria a maturidade de se retirar, iria insistir em tentar tirar algo daquele ser pertubado. Mexeu suas cartas de tarot, sentando-se novamente.

E ainda assim eu sou, eu vivo. — sussurrou, terminando o poema. Passou a mão por cima da cabeça, apagando todas as velas do recinto e acendendo a fogueira. A encarou as labaredas, sentindo uma intensa energia dominá-la. Espalhou as cartas pela mesa, flexionando o pescoço, ouvindo os sussurros.

Fitou as labaredas tão intensamente concentrada que sentiu-se flutuando, desta vez, com a mesa e a cadeira. Seus olhos chegaram a lacrimejar quando as labaredas se tornaram verdes, aos poucos tomando forma. Segurou-se na cadeira, caindo, assim como a mesa. As cartas mantiveram-se alinhadas de forma oval, assim como ela tinha posto, exceto por uma, que havia saído um pouco do lugar.

Son Lux — Let me Follow

Um homem de olhos gélidos saiu de dentro da lareira. Alguns poucos fios grisalhos cobriam sua cabeça, apenas nas laterais raspadas, pois em cima mantinha-se negro como a noite, intacto. O longo sobretudo negro quase tocava o chão enquanto Tom Riddle caminhava em direção da mesa de Bellatrix, emocionada, como se tivesse acabado de presenciar um sinal divino.

Por favor — pediu Bellatrix, olhando rapidamente para as cartas. Tom a fitou brevemente e então começou a escolher a carta. — Não. Não desse jeito.

Ela fitou seus olhos que antes eram em um tom verde precioso e único, mas era como se algo tivesse explodido em seus olhos e deixado gotas de sangue.

— Não sem pensar. — a voz da Lestrange era baixa. — Olhe pra mim.

Riddle a fitou pelo que parecia a eternidade. Sua mão deslizou sobre o baralho, parando na que estava fora do lugar, arrastando na direção de Bellatrix.

Ela virou a carta e o olhou, sorrindo.

Tom olhou a carta, e então a olhou. Bellatrix guardou a carteira de cartas deixando “os amantes” por último, no centro da mesa. Estava há meses tirando a mesma carta, amaldiçoada. A primeira vez que ele tocou, o destino confirmou-se para ela. Cruzou as mãos o fitando como se fosse Deus, aparecendo antes que seu filho abandonasse a fé, desesperançoso. Tom sentou-se na cadeira, de costas para a lareira que o iluminava como se fosse feito de fogo.

— Como tem sido governar a Suíça? — indagou, tirando as luvas de couro — Mãos de ferro?

Ela riu brevemente, tentando segurar o choro. Era como respirar depois de nove meses afogada. Tom desviou o olhar, seco como sempre, para qualquer tipo de demonstração de emoções. Assistiu o homem se servir de uísque, chorando sem perceber.

— Eu… — Bellatrix engoliu seco, tentando se recompor. Passou a mão nas bochechas molhadas das lágrimas que escaparam. — Pensei que tinha acabado. Que o senhor… Tivesse esquecido. De mim.

— Como eu poderia? — indagou Tom, suavemente.

Os dois se fitaram em silêncio, ouvindo o fogo consumir a lareira.

— Nossos estudos foram abruptamente interrompidos em Salem, mas não vejo porque não continuá-los. Se importaria que eu fosse seu professor? — Bellatrix o fitou, estática.

Milorde? — sussurrou, até mesmo com tontura ao perceber que Lord Voldemort estava se oferecendo em pessoa para passar seus ensinamentos.

— Não sou nenhum bruxo de quatrocentos anos, apenas um… homem mortal… comum. — ele deu de ombros. — Mas eu vejo potencial em você. Quero treiná-la eu mesmo.

Bellatrix esboçou um pequeno sorriso, assentindo lentamente. A névoa que assombrava a mansão Lestrange transformou-se em tempestade, tornando-se em um barulho sufocante. Tom ameaçou fechar a janela com a varinha, mas a garota ergueu a mão, o impedindo. Ele a olhou, desnorteado.

— Eu amo tempestades — explicou. — O mundo deve ter sido feito desse jeito.

— Ou deve ser o jeito que termina — replicou Tom, acendendo um cigarro. A garota levantou-se, indo até a janela, sentindo o vento aterrorizá-la com água em forma de faca. Fechou os olhos para o vento gélido. Ele sabe, pensou, sentindo seu pequeno coração apertar-se. Ele sabe que o amo. Ele sabe.

Virou-se para o homem, dura feito pedra enquanto o vento a empurrava, nem mesmo o raio que iluminou a sala fez com que Bellatrix movesse um músculo. Assistiu o homem tragar seu cigarro lentamente e então pousá-lo no cinzeiro, virando-se na cadeira e por fim levantando, indo até Bellatrix.

Eu sei, ouviu um sussurro em sua mente. Ele tocou seu rosto.

Tom esboçou brevemente algo que poderia lembrar um sorriso.

Notas finais
eu sei, faz anos. no capítulo 27, Narcissa está com seus com 15 anos, Andrômeda com 17 e Bellatrix 20, exclui o 28 porque nele eu tinha pulado alguns ANOS e nem contextualizei, entao, deletado. estou de férias, n tinha nada o que fazer, então escrevi uns capítulos depois de rever penny dreadful, a grande inspiração dessa fanfic. se deus quiser, vou escrever até poucos meses antes do Voldemort atacar os Potter. eu estou repostando essa fanfic no wattpad, mas toda modificada, eu era bem mais nova quando escrevi e era preguiçosa não revisava nada kkkk então se quiser ler uma versão mais atualizada, você pode achar no wattpad. nao tem mtos capitulos ate o fim, pq ja ta chegando em 80, eu escrevi já até a cissy se formar, então eu to realment eperto de acabar se DEUS quiser. não escrevo mais, parece que você envelhece e a criatividade vai sendo morta pelo capitalismo, mas sempre que revisito esse perfil e vejo essa fanfic, me sinto mal de não ter terminado, porque eu também queria saber o que meu eu de anos atrás tinha planejado escrever. então, se estiverem aí, espero que gostem.