As Cores

30 Capítulo 29


Molly colocou um copo diante de Andrômeda, sentando-se em seguida.

A garota a olhou, não conseguindo sorrir, nem ter vontade de tomar o suco, que ela tinha certeza que estava delicioso e refrescante naquele calor infernal dentro da casa dos Weasley. Andie observou o garotinho de dois anos correr e gritar no jardim enquanto um Ted com nariz de porco o perseguia, fazendo Frank e Alice gargalharem. Arthur consertava a pequena vassoura de Bill Weasley enquanto via o filho explodir de felicidade pela brincadeira.

— Como você consegue? — perguntou Andrômeda, olhando rapidamente o bebê de quatro meses dentro do cesto, perto das duas. — Como?

— Como consigo o que? — a amiga tinha lindos olhos azuis, tão jovem aos vinte anos.

Andie tinha vergonha de ofender. Por aquela não ter sido a vida que escolheu, não entendia todas que estavam no mesmo barco que ela. No começo, durante a gravidez, se torturava apenas em estar perdendo seu sétimo ano letivo. Quando Nymphadora nasceu, se torturava por ser uma menina e por estar sem seus familiares. Agora se tortura por tudo ao mesmo tempo.

— Eu… eu acho que deve ser diferente pra quem não engravidou acidentalmente — Molly riu, apoiando os cotovelos na mesa.

— Querida, você acha mesmo que meu plano era engravidar com dezoito anos? — riu, voltando a olhar a janela. — Só aconteceu. E agora eu estou aqui.

Andromeda assentiu, vazia. Molly parecia ter pena da garota, visivelmente transtornada pela maternidade e pelo isolamento. Andromeda agora tinha olheiras em seu lindo rosto descendente de Salazar Slytherin, não tinha mais as roupas caras nem o luxo que esbanjava apenas ao respirar. Era uma garota comum, mãe de um bebê comum, sem herança, sem nome em algum livro de história ou legado a ser seguido.

Quando Ted finalmente alcançou Bill, o levantou e apertou, gargalhando. Abraçou o menino em seu colo e apontou para janela, onde Molly e Andromeda observavam. A garota sorriu brevemente.

— Eu nunca vi Ted tão feliz assim. — disse Molly. — Você o salvou, Andie.

Uma pena que não pude me salvar no processo, pensou, ainda olhando a dinâmica que se dava no jardim. Sentia um vazio que era capaz de imobilizá-la, poderoso como um imperius. Queria saber se suas irmãs também se sentiam assim, a culpa era capaz de esgotá-la, como se tivesse construído uma casa com as próprias mãos em carne viva. Não havia espaço para amor, nem para aproveitar aquele bebê que chorava e tanto exigia a atenção, o amor de Andrômeda. Às vezes, ficava encarando o rosto desesperado de Nymphadora, esgoelando-se no berço, exigindo atenção, exigindo presença e entrega. Queria poder conversar com ela, mas era um bebê, uma menina, não entendia que sua existência era a morte de Andrômeda, e o pagamento de traumas que ela não pode curar antes de tê-la.

Queria saber se suas irmãs sentiam a mesma coisa.





Cissy olhou a mão branca de Lucius apertar a coxa da garota que ele pressionava contra a parede e quase sentiu seu corpo esquentar, como se ele já tivesse tocado nela com tanto vigor. Estavam perto das férias de verão, e Narcissa mais uma vez foi feita de idiota para toda a escola, pois visivelmente Lucius não era um homem de palavra. Soltou da parede indo em direção dos dois, o que a garota percebeu rapidamente e o empurrou. Lucius olhou para trás na hora certa de levar um tapa forte de Narcissa.

Assistiu a garota correr, sentiu sua varinha tremer, mas era perca de tempo. Estava há dois anos acabando com a vida de uma série de garotas sendo que o problema era outro. O garoto segurou a parte do rosto atingida e Narcissa não se segurou ao dar outro tapa, segurando-se para não chorar. Lucius deu um passo para trás e quando ela foi dar seu terceiro tapa, ele segurou seu pulso firmemente.

Chega. — disse, seco.

— Você não tem mais direito de pedir nada — cortou Narcissa — Eu perguntei se você realmente me queria como inimiga, aqui está sua resposta.

— Me deixe refrescar sua mente, Narcissa. Nós fizemos um trato que não incluía relacionamento amoroso, e sim negócios — A garota vacilou, desestabilizada.

O quê?

— Você achou…— Lucius quase sorriu com veneno — Você achou que eu estava me comprometendo a… Amar você? Realmente ter um relacionamento com você?

Cissy fitou os olhos gélidos do garoto, perdida. Lucius sabia que Narcissa estava vulnerável desde que Andrômeda fugiu de casa, e ainda assim ele visivelmente sequer tinha receio em machucá-la daquela forma.

— Eu pensei que… — Cissy tocou os lábios, chocada com os olhos embargados. Ela sempre se chocava com emoções que não foram forçadas, planejadas, ela se chocava quando seu corpo sentia sem a permissão dela. — Eu pensei que você pudesse gostar de mim.

O véu de arrogancia de Lucius pareceu cair, por um segundo, parecia ter remorso. Porém, sabendo o histórico, não sabia diferenciar o verdadeiro de atuação, e na dúvida, era sempre bom ser cauteloso com Narcissa Black. Apenas deu alguns passos para trás e virou-se, indo embora do corredor.

Não se reconhecia, Narcissa não tinha mais força nem para pensar em algo para aparentar menos idiota. Colocou a mão nos bolsos do casaco, conferindo o relógio, indo para seu encontro. Foi para a passagem secreta mais próxima, que descobriu sozinha andando pelo Castelo à noite, treinando transfiguração. Às vezes Cissy sente vontade de mostrar para o mundo que não é idiota, mas então estar sempre um passo a frente de todos perderia o sentido. Desceu as escadas, abrindo a porta, mas logo alguém colocara a mão em sua boca e em segundos aparataram na Travessa do Tranco.

Perto de um infarto, Narcissa gritou, empurrando seu primo Evan para longe de si, chorando.

— Calma, calma! — riu Bellatrix com os outros, afastando-se de Narcissa, que chorava e socava qualquer um que tentasse chegar perto. — Ei! Calma!

A irmã mais velha abraçou a mais nova e Narcissa respirou fundo, sentindo-se segura pela primeira vez em dez meses, já que estava quase um ano sem ver Bella, e tempo demais longe de sua mãe. Cissy fitou o rosto de Bella, tão parecido com o de Andie, e ela parecia estar bem. Queria saber se ela também sentia um vazio.

— Vamos tomar um chá.



ALGUNS MINUTOS DEPOIS



— Não tem chás aqui, Bellatrix. — Narcissa jogou o cardápio longe, enojada em tocar qualquer coisa. Estavam em um pub sujo e mal frequentado com Scabior, Evan, MacNair, Nott e Bellatrix, todos já servidos com uísque.

— Então tome água — a mulher girou o gelo dentro de seu copo. — Se não começou a beber, deveria começar. — Bella tomou todo o conteúdo de seu copo em um gole.

— Talvez — concordou Cissy, acenando para o elfo. — Um uísque por favor.

— Não qualquer um — atropelou Evan — o melhor da casa.

Sorriu para o primo, sentindo vontade de chorar. Sentia-se tão sozinha que estava feliz em ver os amigos de Bellatrix. O elfo pousou o copo diante de Cissy e ela fitou os garotos e então a irmã. Bella era tão parecida com seu pai que era um alívio olhá-la. Um pedaço de Cygnus, tudo que ela precisava era de uma conversa com o pai, porque andar sozinha era cruel demais para alguém que ele tanto pegou no colo.

Pegou o copo e tomou todo o conteúdo em um gole e foi como se engolisse álcool puro, animando os rapazes, mas Bellatrix estava série da mesma forma que estava antes de Cissy pegar o corpo.

A mais velha vacilou, forçando um sorriso, também aplaudindo assim como os outros. Conversaram amenidades, perguntaram sobre como está Hogwarts, como está Lucius e os outros.

— E Sirius? — Bella acendeu um cigarro.

— Ele não gosta de falar comigo. — respondeu Cissy, causando um silêncio incômodo na mesa. — Ele não fala com a gente.

Bellatrix assentiu lentamente, tragando o cigarro mais uma vez, respirando fundo.

— O mantenha por perto, ele pode…— Bellatrix brincou com o cinzeiro. — Acabar andando com as pessoas erradas.

Narcissa sorriu, dando de ombros.

— Acho que nós somos as pessoas erradas.

Os meninos fizeram silêncio e Bellatrix terminou seu cigarro, colocando os cotovelos na mesa.

— Cissy, eu preciso de você e Lucius. — tentou não olhar as cicatrizes no pescoço de Bellatrix. — Preciso que vocês-

— Não — cortou Cissy.

O rosto de Bellatrix transformou-se completamente.

— Eu não terminei de falar.

— E estou te poupando de pedir, a resposta é não. Não me envolva em nada disso. Você pode particularmente pedir à Lucius, mas eu não vou fazer nada. — O ar estava tão denso que Scabior poderia ter causado uma explosão enquanto acendia seu cachimbo ao legado de Bella. Não tinha medo da irmã, mas nunca tinha visto ela direcionar tamanho ódio na direção de Cissy, desviou o olhar para não dar a entender que estava a desafiando. — Eu não quero me envolver com nada disso, Bella, por favor.

— Ok. —assentiu Bella, encostando-se no banco enquanto os meninos se entreolhavam. — Você tem seu direito.

Acendeu outro cigarro.

— De ser covarde — Cissy trancou o maxilar, com vontade de socar a irmã. — Neutros são coniventes, estamos na véspera de uma guerra, a última coisa que eu faria é não me envolver. Não ser leal a própria família-

Você acha que não entendo lealdade? — questionou Narcissa, seca, quase em um sussurro ameaçador. Achava a irmã uma imbecil, realmente só tinha herdado a aparência de Cygnus. Se Bellatrix realmente soubesse algo sobre lealdade, estaria preocupada com outras coisas que não fosse agradar um homem que a trata como lixo.

Bellatrix a encarou com os olhos vermelhos.

As duas se fitaram, como se tivessem dito o nome da terceira irmã.

Tudo que fiz em toda minha vida se não foi por mim, foi por você, e pela minha família — esclareceu Narcissa. — Até porque eu ainda sou uma Black.

Bella vacilou, visivelmente abalada. Deu-se por vencida, assentindo, apagando o cigarro no cinzeiro.

— Não temos mais o que conversar. — encerrou, a fitando. Narcissa maneou a cabeça negativamente.

— Ótimo, você só queria me ver pra me usar. — sorriu Cissy, sentindo-se idiota pela sgunda vez no dia — Parece que eu perdi duas de uma vez só.

Bellatrix desviou o olhar e Narcissa se levantou, saindo do pub. Antes que pudesse pensar em como voltaria, Evan estava atrás dela. O primo lhe deu um sorriso triste e então a abraçou, aparatando no mesmo local que aparataram no começo do dia. Respirou fundo e agradeceu, lhe dando um abraço forte. Abriu a porta e começou a subir as escadas, sentindo-se mais sozinha do que nunca.

Niklas Paschburg — Tuur mang Welten

Semanas se passaram e Narcissa lentamente descobriu o que Bella tanto queria, Lucius começou a andar com novas pessoas, até mesmo passar mais tempo na biblioteca com alunos dos primeiros anos: ela queria que eles recrutassem estudantes. Cissy não entendia muito de política, então como tudo em sua vida, começou a dedicar todo o seu tempo a aprender o que não sabia. Parou de ir direto para a sessão de moda no Profeta Diário e passou a lê-lo de cabo a rabo, e até compará-lo com outros jornais. Quando não entendia algo, pedia para conversar com algum professor, Slughorn era seu preferido, era quase um livro de história ambulante.

Quando finalmente chegaram as férias de verão, o escritório de seu pai tornou-se sua segunda biblioteca. Não era idiota, ela sabia que havia uma disputa política antiga entre a população bruxa e supremacistas de sangue puro, que incluia sua família e de muitos outros. E também sabia que Eugenia Jenkins estava manipulando politicamente leis e estratégias que privilegiam a classe bruxa alta, em específico bruxos de puro sangue, e aparentemente, sem que soubesse, Narcissa estava frequentando os mesmo lugares que um certo homem sem nome que provava sua capacidade de bruxaria quase mensalmente, sendo alvo de análises políticas de até mesmo Nicolau Flamel — e isso Cissy teve que admitir que é um baita feito.

Uma tensão se construía no plano político e social de Londres e sua família estava vendo tudo de cima: olhou a capa da Profeta Vespertino com a foto de Bellatrix à frente de todas as famílias de puro sangue quando Fleamont Potter cortou laços com o tratado. Os protestos e marchas de nascidos trouxas, abortos e mestiços começaram a dominar Londres de forma inédita enquanto atentados deixavam de ser esporádicos e se tornavam frequentes.

— Mãe? — chamou Cissy, abrindo a porta do quarto. A mulher loura a olhou, fechando seu livro. Sabia que tia Walburga era boa oclumente, mas conhecia alguém melhor em ambas artes. Aproximou-se da mãe, sentando-se na ponta de sua cama, de frente para a poltrona onde Druella repousava. — Pode me ensinar Legilimência e Oclumência?

Druella, acariciou o lábio com o dedo indicador, segurando um sorriso.

Todos os dias, tinha pelo menos seis pesadas horas de aprendizado com a mãe, trancadas em seu quarto. Cissy era um excelente estudante, era dedicada, e não voltaria para Hogwarts sem conseguir fechar sua mente perfeitamente. Não estava mais segura dentro de casa, muito menos fora dela.

— Ei! — Cissy esperou que Sirius voltasse depois de ter visto seu vulto no corredor. Ouviu um suspiro e segurou o sorriso quando o menino deu alguns passos para trás, parando na frente de sua porta. Narcissa olhou o garoto alto, desacreditada que ele mal alcançava o tranco da porta quando vinha perturbá-la. — Está fazendo o que?

— Nada — ameaçou ir embora, mas Cissy o chamou novamente. — O quê?

— Entra!

Ela continuou sentada em sua mesa de costura, assistindo o garoto sentar-se em sua cama. Achava seus cachos um charme, sabia que ele ia quebrar muitos corações em Hogwarts.

— O que está achando de Hogwarts?

— O mesmo que você que também estuda lá, Cissy. — replicou, enjoado.

A garota rolou os olhos, já impaciente.

— Não consegue conversar sem ser grosso pelo menos uma vez?

— Não — respondeu. — Porque eu não tenho nem o que falar com você pra começo de conversa. Só está querendo tanto falar comigo porque todos foram embora e agora você não tem mais com quem conversar.

Narcissa não teve reação, e Sirius se importava muito pouco com a prima, então saiu do quarto, deixando-a fitando o nada, estática. Engoliu seco, pegando seu reflexo no espelho sem querer. Aproximou-se, sentando-se na penteadeira, não reconhecendo aquela garota de dezesseis anos que a fitava. o cabelo agora batia em seu peito, mas não tinha mais o cuidado que costumava ter.

Narcissa parecia ter envelhecido anos em questão de meses.