As Cinzas de Kanto
4 O Homem que Amava a Guerra
Dia 21 — Vermilion
Vermilion City não está destruída. Está fortificada. Cercas improvisadas. Geradores ruidosos. Soldados que não usam uniforme… mas agem como se ainda existisse um exército.
O navio no porto nunca partiu. Dizem que ninguém quis fazer-se ao mar depois do que aconteceu. No centro da cidade, um ginásio que parece um bunker.
E lá dentro: Lt. Surge. Ele não perguntou o meu nome. Perguntou:
— “Já viste alguém morrer?”
Não respondi. Ele sorriu.
— “Então vais ver.”
O ginásio não é um campo de batalha. É um teste psicológico. Caixotes do lixo. Interruptores. Armadilhas mentais.
Surge acredita que a guerra é caos controlado. Quando o seu Voltorb explodiu em campo, eu percebi. Não era apenas dano. Era intimidação. Cada ThunderShock era um aviso.
Quando primeiro Pokémon que capturei entrou… o ar cheirava a metal queimado.Foi rápido. Rápido demais. Um golpe crítico. Um erro de cálculo. Um segundo de silêncio.
E depois… a queda. Corri até ele. HP a zero. Sem piscar. Sem som.
Esperei. Esperei como se o mundo pudesse reconsiderar. Mas o mundo não reconsidera. Segurei-o durante alguns segundos. Depois levantei-me. A batalha ainda não tinha terminado. E eu ainda estava vivo.
Raichu caiu depois. Mas não houve vitória. Só consequência. Surge olhou para mim de forma diferente. Sem sorriso. Sem provocação.
— “Agora percebes.”
Peguei na insígnia com mãos que já não tremiam. É isso que mais me assusta.
Dia 22 — Enterro
Não existe cemitério oficial. Por isso escolhi um lugar na Rota 11. Erva alta. Vento constante. Escrevi o nome dele aqui. E não o vou apagar.
Dia 23 — Reflexão
Pewter ensinou-me resistência. Cerulean ensinou-me responsabilidade. Vermilion ensinou-me perda.
Agora sei: o apocalipse não é explosão. É adaptação. E eu estou a começar a adaptar-me. Isso devia assustar-me mais do que assusta.
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