As Cinzas de Kanto
2 A Pedra Não Sangra
Dia 8 — Pewter City
Pewter City não parece uma cidade. Parece um memorial.
As casas estão intactas, mas vazias. O vento levantava a poeira entre as pedras, como se o tempo tivesse parado a meio de uma evacuação.
O Ginásio continua aberto. Não há plateia. Não há aplausos. Só o eco.
Ele estava lá dentro. Brock. Imóvel. Braços cruzados. Como se já soubesse que eu viria.
— “Tu também perdeste alguém?”
Foi a única coisa que perguntou. Não respondi. Não era preciso.
O Onix surgiu como uma muralha viva. Não era apenas grande. Era inevitável.
O meu parceiro hesitou. Eu senti-o. Pedra contra carne. Peso contra esperança. Cada ataque parecia embater num penhasco.
Percebi algo ali: Brock não lutava por insígnias. Lutava para ver se eu quebrava.
Quando o primeiro Pokémon dele caiu, não demonstrou reacção. Quando o segundo ficou por um fio…
Eu quase perdi. Quase. O HP a piscar em vermelho é o som mais alto do mundo.
Mas resistimos. E o Onix caiu.
Brock não pareceu derrotado. Apenas assentiu.
— “Então és do tipo que continua.”
Entregou-me a insígnia como quem passa uma responsabilidade.
Ao sair do ginásio, percebi algo: eu não estava a tremer. E isso assustou-me mais do que a batalha.
Dia 9 — Reflexão
Se hoje alguém tivesse morrido… teria eu continuado? Ou teria ficado naquela cidade de pedra, à espera de me tornar parte dela?
A estrada para Cerulean é longa. Dizem que lá ainda existe água limpa.
Mas, depois de hoje, compreendi uma coisa: o mundo não vai facilitar. E eu também não posso.
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