As Cem Melhores Historias Da Mitologia

59 O Sacrifício de Ifigênia O Advinho


O cais de um porto grego. Ao fundo estão as efígies gigantescas de diversos navios, compondo uma

esquadra. Há um grande ir e vir de soldados e ruídos de armas que se entrechocam involuntariamente. Calcas, o

adivinho do exército, está inquieto, observando as velas das naus, que estão caídas e perfeitamente imóveis. Ele as

observa, preocupado, por um bom tempo, indo e vindo lentamente, enquanto esbarra nos soldados. Neste instante

entram Agamenon e Ulisses, fardados para a guerra.

Calcas, avançando para ambos: — Nobre comandante! Os deuses dos ventos não parecem

dispostos a nos auxiliar em nossa campanha. Veja como as velas de nossas naus colam-se aos

mastros, como pendões inúteis.

Agamenon, encarando o adivinho com firmeza, lhe diz rudemente — Arúspice do óbvio, o que

mais tem a nos dizer que já não o saibamos à exaustão?

Calcas baixa a cabeça, ocultando o despeito — Senhor, já consultei nosso oráculo, e ele sempre

me repete o mesmo...

Um silêncio sobrevém por alguns instantes, até que o comandante o quebra.

Agamenon — Fica mudo... é isto, adivinho do silêncio?

Espocam alguns risos de pessoas que estão em torno.

Ulisses— Vamos, Calcas, não pode encadear uma frase na outra sem enfadar a alma de

seus ouvintes com suas pausas aborrecidas?

Calcas, erguendo a cabeça — O que os fados têm a lhe dizer, valoroso capitão, talvez não

sejam palavras que tragam muita alegria à sua alma.

Agamenon — Qualquer coisa me alegrará mais que este seu ar de mistério enfadonho.

Vamos, diga logo o que suas artes mágicas disseram!

Calcas, cobrindo o rosto com o manto — Oh, mas são negras palavras...

Agamenon, aproximando seu rosto do adivinho — Negro ficará seu olho direito, postergador

maldito! Vamos, diga o que tem a dizer ou retire já da minha presença a sua figura exasperante!

Calcas, tomando coragem — Comandante... O oráculo é categórico em afirmar que tal

retardo dos ventos não tem outra causa senão a sua própria pessoal

Calcas, ainda, à parte — Pronto! Está dito tudo!

Ulisses, lançando o manto para trás — Agamenon culpado pela ausência de ventos, que há

dois anos nos retém neste porto de Áulis? E por que razão os deuses poriam empecilho à partida

dele e de nossos exércitos, se causa mais nobre e mais justa nunca houve no mundo?

Agamenon, bradando — Um cão traiçoeiro, de nome Páris, vem até a pátria de meu irmão

Menelau, rapta-lhe a mulher, a mais bela de quantas houve em toda a Hélade, levando-lhe ainda

os seus tesouros. Eu, seu irmão, decido, então, empreender junto com ele uma expedição até

Tróia maldita para resgatar a sua esposa e a sua honra. Que há nisto tudo, adivinho insolente, que

me indisponha contra qualquer divindade?

Algumas vozes levantam-se entre os ouvintes, que agora se apinham em volta dos três, ouvindo-se

claramente esta frase — Basta! Voltemos para casa, pois não há mais dúvidas de que os deuses

abominam tal expedição!

Agamenon, voltando-se para a soldadesca — Silêncio, escória! Se temos de levar tais soldados,

que a qualquer pretexto renunciam à sua obrigação, vamos bem arranjados!

Ulisses, dispersando a multidão — Eia, canalha! Esta conversa não é para orelhas de asno!

Agamenon, pegando Calcas pelos ombros — Vamos, adivinho de maus agouros, diga tudo o

que ouviu do oráculo.

Calcas, de espinha ereta, sentindo-se agora importante — Nobre comandante! A Aurora de

róseos dedos ainda não havia surgido de todo no negro empíreo, quando me aproximei naquele

dia, repleto de maus pressentimentos, diante do oráculo...

Agamenon, interrompendo-o — Esqueça a Aurora maldita e ponha o sol bem no alto de seu

relato, falador incansável, se não quiser adiar para sempre o seu palavreado!

Calcas, algo frustrado — Está bem, comandante, está bem. O oráculo me disse exatamente

isto. — Mudando o tom da voz para um tom gutural, mas à sério — "Eis que os ventos cessarão de

soprar, até que o presunçoso guerreiro se prosterne diante de Diana sublime!"

Agamenon — O "presunçoso guerreiro" sou eu, suponho?

Calcas, encabulalado — Temo que sim, audaz comandante...

Agamenon — Adiante, debulhador de enigmas!

Calcas, retomando o fio — A deusa Diana está enfurecida porque o senhor lhe fez há

muitos anos uma promessa e está decidida a não aceitar mais postergações no seu cumprimento.

Ulisses, intervindo — Promessa? Que promessa?

Agamenon empalidece enquanto ambos aguardam a resposta.

Calcas — Outrora você prometeu à Diana valorosa que lhe sacrificaria o mais belo ser

que nascesse em seu reino...

Agamenon larga Calcas e afasta-se dele e de Ulisses, a passos lentos. Após alguns instantes de silêncio,

volta-se para os companheiros e diz, com a voz alquebrada — Sim, é verdade, Ulisses fiel... Há muitos

anos fiz tal promessa insensata.

Calcas — A deusa determinou que esta expedição só deixará este porto quando promessa

for cumprida integralmente!

Ulisses — Mas quem é esse ser infeliz que deverá passar por tão terrível ordálio?

Calcas, erguendo a voz, como quem finalmente pode revelar um terrível segredo — A vítima não há

de ser outra senão Ifigênia, a filha de Agamenon!

Agamenon faz menção de voltar a discutir com Calcas, mas desiste. Depois diz a Ulisses —

Clitemnestra, minha esposa, jamais aceitará tal solução!

Um rebuliço desperta a atenção dos três: é Menelau quem chega, rodeado de seus generais.

Agamenon, adiantando-se para ele — Menelau, meu irmão!

Os dois imãos abraçam-se efusivamente.

Menelau— Agamenon, a situação está se tornando insuportável! A peste já começa a

grassar entre os soldados!

Ulisses— Temos, também, a peste entre nós?

Menelau— Sim, já perdemos dezenas de homens. — Vira-se, então, para o adivinho —

Calcas, já falou com meu irmão sobre o que precisa ser feito?

Calcas— Sim, comandante, mas receio que essa decisão custe mais do que possamos lhe

exigir...

Agamenon, procurando justificar-se perante o irmão — Menelau, Diana está tomada pela ira e

exige que lhe dê minha filha, sangue do meu sangue, para que deixe de nos perseguir!

Menelau — É desnecessário repetir a história, Calcas já me contou tudo. Vim atrás de

você para saber que decisão tomará quanto a isto.

Agamenon — Bem sei dos deveres que me prendem à deusa, embora a dor que me

dilacera o peito. No entanto, há Clitemnestra, minha esposa. Ela jamais aceitará ver-lhe tirada dos

braços a própria filha, que é a luz dos seus olhos!

Menelau — Permitirá, então, que as choradeiras de uma mulher provoquem a ruína de

seu irmão e de sua pátria? É isto, caro irmão?

Agamenon silencia. Depois de alguns instantes, acabrunhado, resmunga:

Agamenon, humilde — Se Clitemnestra concordar, acatarei a ordem da deusa.

Menelau, enfurecendo-se — Você se recusa a obedecer à deusa, isto é que é!

Um dos generais exclama: — Elejamos um novo comandante, ó Menelau!

Outras vozes aduzem:

Primeira voz— Isto! Isto! Um novo comandante!

Segunda voz— Morreremos todos da peste neste porto maldito!

Terceira voz— Cumpramos o que a deusa exige de nós!

Quarta voz— Que Palamedes seja, então, nosso novo comandante!

Ulisses, fazendo menção de se retirar— Se Palamedes assumir o comando, não tomarei parte

nesta expedição.

Menelau, tomando Ulisses pelo braço: — Espera, filho de Ítaca! Depois, voltando-se para

Agamenon: — Veja, Agamenon, a obra de sua fraqueza... Seus pruridos sentimentais começam a

provocar a rebelião entre nossos próprios generais! Chegou a hora de tomar uma decisão.

Ulisses, para Agamenon, tentando acalmá-lo: — Compreendo seu dilema, Agamenon.

Façamos isto, então: sua filha, bem como sua esposa, não saberá do que irá acontecer, senão no

último instante, quando se fará o que a deusa exige de você.

Calcas, à parte: — Ó astuto Ulisses! Agamenon — Um estratagema?

Ulisses— Exatamente. Vamos dizer a ambas que contratamos o casamento de Ifigênia

com o valoroso Aquiles. Escreve à sua esposa e diga a ela que sua filha deve vir imediatamente

até nós.

Agamenon — Está bem...

Ulisses— Mas, atenção: ela deve vir sozinha.

Calcas, à parte — Filho de Laerte, você será grande!

Ulisses— Diga a Clitemnestra que seria indigno da esposa de um rei aparecer diante dos

seus exércitos.

Calcas, à parte: — Bem imaginado!

Menelau — Peça para ela que faça isto o mais rápido possível, pois aguardamos apenas a

celebração deste casamento para partirmos para Tróia.

Agamenon — Mas e o que dirá Aquiles disto? Não ficará aborrecido ao saber que

usamos seu nome em vão?

Ulisses — Pode ser em vão uma artimanha que livrará seu irmão da ignomínia e

restabelecerá a honra de sua família?

Calcas, à parte: — Ó engenho sutil!

Agamenon, depois de algum tempo: — Está bem, tudo será feito como quiserem.

Menelau estende a seu irmão uma tabuleta, onde este deverá escrever a carta. Agamenon a toma,

arrasado, e começa a escrever, debaixo de um silêncio opressivo.

Cai o pano.