As Cem Melhores Historias Da Mitologia

60 Uma Tentativa Desesperada


O interior de uma grande tenda de campanha. É noite. Agamenon está deitado de bruços e chora

convulsamente. Depois volta para cima o rosto coberto pelas mãos e exclama:

Agamenon — Júpiter supremo, o que foi que fiz? Minha Ifigênia adorada ofertada em

holocausto! Oh, crueldade atroz! Ter o peito rasgado pela lâmina do sacrifício! Como pude

permitir tal monstruosidade?

Depois de chorar mais um pouco, no entanto, Agamenon cessa abruptamente as lágrimas. Uma idéia lhe

ocorreu.

Agamenon, pondo-se em pé, de um salto: — Não, não permitirei tal coisa! Desfarei o que

maus conselhos me induziram a fazer!

Imediatamente pega uma tabuleta e põe-se a escrever freneticamente.

Agamenon — Eis o que escreverei a Clitemnestra: "Minha esposa, atente bem para o que

lhe digo: não mande para cá a nossa querida Ifigênia. Guardou a tabuleta num invólucro e voltou-se para

a entrada da tenda. — Soldado! Venha já até aqui!

Um soldado entra rapidamente.

Agamenon — Está vendo esta mensagem?

Soldado — Sim, senhor.

Agamenon — Quero que a leve, sem mais perda de tempo, até a minha esposa. Não dê

descanso a seu cavalo, nem faça pouso ou parada alguma sob pena de sua própria vida, entendeu?

Soldado— Sim, senhor.

Agamenon — Vamos, retirá-se e vá dar cumprimento à sua missão. Agamenon fica só outra

vez.

Agamenon, caindo outra vez no leito: — Que os deuses protejam minha Ifigênia e façam

com que esse mensageiro chegue ainda a tempo!

As luzes apagam-se. Alguns instantes depois acendem-se novamente. Agamenon está adormecido. O dia

amanhece. Menelau irrompe tenda adentro segurando algo.

Menelau, em altos brados: — Vamos, levante!

Agamenon acorda, assustado: — O que foi, meu irmão?

Menelau— "Irmão"! Falta pouco para que o proíba de me chamar por este nome,

asseguro!

Agamenon -Por que as flamas da ira abrasam tanto seu coração? Menelau, lançando às faces

do irmão a carta que este enviara às ocultas: — Aqui está, tratante, o motivo de minha ira!

Agamenon reconhece o objeto e fica revoltado.

Agamenon — Então você ousou me espionar e interceptar uma carta que mandei à

minha esposa? Com que direito o fez?

Menelau -Com mais direito que você, que torna atrás de um compromisso solene que

assumiu diante de mim e de meus generais. Acaso está brincando com a minha honra? Quer

espalhar o escárnio e o deboche na boca de meus soldados?

Agamenon, tornando à humildade: — Um pai não tem, então, o direito de tentar salvar sua

filha da morte cruel?

Menelau — Você não tem o direito de sobrepor à honra do Estado os seus mesquinhos

interesses pessoais! Ifigênia terá a honra de ofertar sua vida em prol de milhares de seus cidadãos

e de restaurar a honra de sua pátria. É pouco? Não basta?

Agamenon— A mim bastaria tê-la ao meu lado, mesmo no infortúnio, pois o que é a

alegria e a honra sob uma ausência terrível?

Menelau— Basta de choradeiras! Ifigênia deve chegar em breve. Devemos avisar o

sacerdote para que prepare logo o local do sacrifício, diante de nossas tropas.

Menelau sai da tenda e Agamenon, prostrado pelo insucesso de sua tentativa, cai derreado ao leito.

Cai o pano.

Notas finais
Amanhã continuarei.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.