As Cem Melhores Historias Da Mitologia
5 O Castigo de Quelone
O Olimpo estava em festa: Júpiter e Juno iriam finalmente se casar.
As duas imensas portas do Empíreo, algodoadas de nuvens, haviam sido abertas de parem par pelas três Horas — Eunomia, Dice e Irene -, que faziam o papel de anfitriãs. Atrás delaspodia-se divisar perfeitamente o brilho feérico e resplandecente do palácio dourado onde iria serealizar a tremenda festa.Os convidados iam chegando em grande número, atravessando a ponte multicolorida doimenso arco-íris.— Vejam, irmãs — disse Eunomia, radiante -, quantos convidados! Estejamos atentaspara que não nos escape presença alguma.— E nenhuma ausência, também! — disse Dice, cuja tarefa era ir riscando os nomes dosconvidados que chegavam.Os principais deuses do panteão olímpico iam chegando, sozinhos ou aos pares,conversando alegremente. Ceres, vestida com uma túnica drapejada e esvoaçante, surgiu, entretantas outras divindades, toda sorridente.— Nossa! — disse Irene, a porteira esbelta. — Ela caprichou mesmo! Junto dela estavaMinerva, a deusa da sabedoria.— Sempre recatada, mas também sempre encantadora! — comentou Eunomia,afastando-se um pouco para permitir a sua passagem.Apólo e sua irmã Diana vinham abraçados, dando uma gostosa gargalhada. Do que riamtanto?Os grupos foram passando um a um até que chegou o casal mais curioso: a maravilhosaVênus e seu truculento esposo Vulcano.— Vejam só, será que finalmente ele resolveu tomar um banho? — cochichou Irene à suairmã Dice, que ocultou no véu um sorriso discreto.De fato, o deus das forjas, normalmente coberto de fuligem, naquele dia surgira diante detodos um pouco mais apresentável, apesar de toda a sua feiúra. Seus cabelos emaranhadospareciam ter sidos apresentados finalmente a uma escova, e algo parecido com uma esponjaparecia ter sido esfregado sobre o pêlo espesso do peito e dos membros.Quase todos os convidados já haviam chegado, inclusive Netuno, com sua corte aquática,úmida e festiva, e o sombrio cortejo de Plutão, que trazia pelo braço sua esposa Prosérpina,pálida como sempre, porém um pouco mais animada.De repente, porém, Eunomia, que passava em revista com suas irmãs a enorme lista comos nomes riscados, escutou uma voz soar bem ao seu lado.— Porteiras do Olimpo, como estão? Era Mercúrio, o deus dos pés ligeiros.— Ótimas! — respondeu Irene, pelas três. — Acho que não falta mais ninguém, e vocêdeve ser o último.Na verdade Mercúrio fora o encarregado de levar os convites do casamento a todos osrecantos do Universo. Finalmente, retornava de sua trabalhosa missão.— Não, esperem! — gritou Eunomia, colando o alvo dedo sobre um nome da lista.Os rostos das duas irmãs, mais o de Mercúrio, voltaram-se atônitos para ela.— Como? Ainda falta alguém? — perguntou o deus mensageiro.— Sim, a ninfa Quelone! — exclamou Eunomia. — Alguém a viu passar? -Não, ninguéma vira passar.— O que terá acontecido? — disseram as Horas numa só voz. Mercúrio apertou umpouco mais as suas sandálias aladas e desapareceu como um pé de vento pela estrada colorida,deixando somente a sua voz:— Vou refazer o trajeto até sua casa e ver o que houve!O filho de Júpiter percorreu grande parte da estrada, e quanto mais avançava, mais temiapelo atraso — ou mesmo pela ausência definitiva da ninfa Quelone."Por Júpiter, se Juno descobre que ela ignorou sua festa, a matará!", pensava o deusmensageiro, enquanto apertava o pétaso para que não voasse de sua cabeça.Quelone, entretanto, ainda estava descansada em sua casa, à beira do rio.— Que calor! — disse ela, espreguiçando-se. — Essa tal de Juno, também, pensa que eusou o quê, para me largar desta distância toda até a sua casa? Só para ir lhe bajular?A vontade de ir para a festa de casamento de Juno era nenhuma. Na verdade não tinhavontade de fazer nada. Sim, porque apesar de ser uma ninfa adorável, era também a maispreguiçosa das criaturas. "Miseravelmente preguiçosa", como lhe dissera um dia um fauno dasredondezas.Por diversas vezes Quelone ensaiara a sua ida ao casamento. Na verdade, passara a manhãtoda indecisa: que roupa usaria, afinal? Mais vaporosa ou mais discreta? Isto implicava umaescolha — e escolher era tão cansativo! E o maldito penteado, solto ou preso? Pintaria ou não assuas compridas unhas? Ai! Dez unhas nas mãos e mais dez lá nos pés! E a que horas deveria sair?Um pouco mais cedo ou bem mais tarde?Afinal de contas, deveria mesmo ir?Cogitando e refrescando os pés na água, a ninfa deixava o tempo passar.— Acho que agora não dá mais tempo... — pensou, ao observar o sol lá no alto. Derepente, Mercúrio tapou o sol. Quelone, já de olhos fechados, murmurou."— Ih, agora é que não vai dar para ir mesmo... Lá vem chuva!— Sua preguiçosa, eu já imaginava! — disse o deus, pousando ao seu lado. Quelonelevantou-se, de susto.— Ah, é você? — disse ela, com a mão em pala sobre os olhos. — Sempre correndo pra
cima e pra baixo, não é?— Voando, querida, voando! — respondeu Mercúrio, passando uma água no rosto.— Humpf! — fez Quelone, esgotada, fechando os olhos outra vez.— Vamos, levante-se, preguiçosa! Está quase na hora das bodas de Juno.— Não posso — disse Quelone. — Acordei com o pé machucado.— O lençol o esmagou? — perguntou Mercúrio, com um tom de mofa.— Ai, é verdade — disse a ninfa, colocando-se em pé com fingida dificuldade. Mas odeus não estava para lorotas e, em dois tempos, colocou-a no rumo da estrada. Mas a ninfateimava em atrasar o seu passo: ora parava para descansar, ora simulava uma insolação. As horaspassavam, e Mercúrio, aflito, sentia que daquele jeito jamais chegariam.— Bem, adeus, vou indo na frente, senão Juno também me matará! — disse o deus,perdendo de vez a paciência.— Isto, vá logo, apressadinho! — disse Quelone, sentando numa pedra azulada, bem nocomeço da longa estrada do arco-íris que levava até o palácio de Júpiter. — "Por que não melevou nos braços, então, se estava com tanta pressa?", perguntou-se, mal-humorada. "Depois apreguiçosa sou eu!"Quelone adormeceu bem na entrada do arco-íris. Quando acordou novamente, amagnífica festa já havia acabado. Grupos alegres já voltavam, cruzando por ela.— Que festa, hein? — dizia um fauno, todo descabelado.— Esta, sim, valeu a pena! — dizia uma nereida, que parecia ter abusado um pouco dovinho.Deuses, ninfas, faunos, todos esbarravam em Quelone, que era a única a seguir emsentido contrário.— Esqueceu algo, querida? — perguntou-lhe Dóris, esposa de Nereu.— Não me amole — replicou Quelone.Apesar da festa já haver acabado, ela ainda tentava avançar, nem que fosse para seexplicar com a nova rainha do céu.— "Rainha do Céu!" — tripudiou a ninfa. — "Ai, Rainha do Céu, desculpe o atraso!""Tudo bem, Rainha do Céu?" "Quem diria, hein: Rainha do Céu!" Quer saber de uma coisa? Vou évoltar já para casa!E voltou mesmo. Um pouquinho mais rápida, desta vez.Quando chegou lá, jogou-se em seu leito, exausta. Mas Mercúrio a aguardava.— Você não foi até lá, então? — disse o deus, com o cenho franzido.— Não incomoda, pé-de-vento! — resmungou a ninfa, cobrindo o rosto. -Diz lá praRainha do Céu que um dia desses apareço para dar os parabéns.Mercúrio, perdendo definitivamente a paciência, pegou-a pelos pés e arrojou-a dentro dolago. Em seguida lançou também a própria casa da ninfa em cima dela.— Aí está! — disse o deus, dando as costas e indo embora.A pobre Quelone ressurgiu instantes depois das profundezas do lago. Seu rosto estavamudado, e era como o de um enrugado lagarto. Tinha agora quatro pernas — quatro pernasimensas — e em cima de suas costas pesava a sua antiga casa, virada numa imensa e pesadacarapaça. E Quelone nunca fora tão lenta como agora!Assim a ninfa que faltou à cerimônia de casamento do grande Júpiter e da poderosa Junofoi transformada no animal hoje conhecido como tartaruga.
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