As Cem Melhores Historias Da Mitologia
6 O Nascimento de Vênus
A véspera do nascimento de Vênus fora um dia violento. O firmamento, tingindo-se
subitamente de um vermelho vítreo, enchera de espanto toda a Criação.Saturno, munido de sua foice, enfrentara o próprio pai, o Céu, num embate cruel pelopoder do Universo. Com um golpe certeiro, o jovem deus arrancara fora a genitália do pai,tornando-se o novo soberano do mundo. Um urro colossal varrera os céus, como o estrondotremendo de um infinito trovão, quando o Céu fora atingido.O fecundo órgão do deus deposto, caindo do alto, mergulhara nas águas profundas,próximo à ilha de Chipre. Assim, o Céu, depois de haver fecundado incessantemente a Terra —dando origem à estirpe dos deuses olímpicos -, fecundava agora, ainda que de maneira excêntricae inesperada, o próprio Mar.Durante toda a noite o mar revolveu-se violentamente. A espuma do mar, unida aosangue do deus caído, subia ao alto em grandes ondas, como se lançasse ao vento os seus leves eespumosos véus. Mas quando a Noite recolheu finalmente o seu grande manto estrelado, dandolugar à Aurora, que já tingia o firmamento com seus dedos cor-de-rosa, percebeu-se que as águasdaquele mar pareciam agora outras, completamente diferentes.O borbulhar imenso das ondas anunciava que algo estava prestes a surgir.Das margens da ilha de Chipre, algumas ninfas, reunidas, apontavam, temerosas, para umtrecho agitado do mar:— O mar está prestes a parir algo! — disse uma delas.— Será algum monstro pavoroso? — disse outra, temerosa.Mas nem bem o sol lançara sobre a pátina azulada do mar os seus primeiros raios, viu-se aespuma, que parecia subir das profundezas, cessar de borbulhar. Um grande silêncio pairou sobretudo.— Sintam este perfume delicioso! — disse uma das ninfas.As outras, erguendo-se nas pontas dos pés, aspiraram a brisa fresca e olorosa que vinhado alto-mar. Nunca as flores daquela ilha haviam produzido um aroma tão penetrante e, aomesmo tempo, tão discreto; tão doce e, ao mesmo tempo, tão provocantemente acre; tão naturale, ao mesmo tempo, tão sofisticado.De repente, do espelho sereno das águas — nunca, até então, o mar tivera aquela lisuraperfeita de um grande lago adormecido — começou a elevar-se o corpo de alguém.— Vejam, é a cabeça de uma mulher! — gritou uma das ninfas.Sim, era uma bela cabeça — a mais bela cabeça feminina que a natureza pudera criardesde que o mundo abandonara a noite trevosa do Caos. Um rosto perfeito: os traços eramarredondados onde a beleza exigia que se arredondassem, aquilinos onde a audácia pedia que seafilassem e simétricos onde a harmonia exigia que se emparelhassem.O restante do corpo foi surgindo aos poucos: os ombros lisos e simétricos, os seiosperfeitos e idênticos — tão iguais que nem o mais consumado artista saberia dizer qual era omodelo e qual a sua réplica perfeita. Sua cintura, com duas curvas perfeitas e fechadas, pareciatalhada para realçar o umbigo perfeito, o qual acomodava delicadamente, como um encantadorpingente, uma minúscula e faiscante pérola. E, logo abaixo, um véu triangular — loiro eaveludado véu -, tecido com os mais delicados e dourados fios, agitava-se delicadamente, esbatidopela brisa da manhã. Nenhum humano podia saber ainda o que ele ocultava — seu segredo maiscobiçado, que somente a poucos seria revelado.Algumas aves marinhas surgiram, arrastando uma grande concha, a qual depositaram aolado da deusa — sim, era uma deusa -, para que ela, como em um trono, se assentasse. Ummarulhar de peixes saltitantes a cercava, enquanto golfinhos puxavam seu elegante carro aquáticoaté as areias da praia cipriota.Nem bem a deusa colocara os pés na ilha, e toda ela verdejou e coloriu-se como nuncaantes havia sido. Por onde ela passava, brotavam do próprio solo maços aromáticos de floresmulticores, os pássaros todos entoavam um concerto de vozes perfeitamente harmoniosas e osanimais quedavam-se sobre a relva com as cabeças pendidas, para receber o afago daquela mãoalva e sedosa.— Quem é você, mulher mais que perfeita? — perguntou-lhe, finalmente, a ninfa queprimeiro recuperara o dom da fala.— Sou aquela nascida da espuma do mar e do sêmen divino — respondeu a deusa, comuma voz cristalina e docemente áspera, envolta num hálito que superava em delícia ao de todas asflores que seus pés haviam feito brotar.No mesmo dia, a extraordinária notícia do nascimento de criatura tão bela chegou aoOlimpo, e os deuses ordenaram que as Horas e as Graças a fossem recepcionar. Ainda maisenfeitada pelas mãos destas caprichosas divindades, apresentou-se a nova deusa diante de seuspares no grandioso salão do Olimpo, sendo imediatamente acolhida e festejada pelos deuses.Mas quando todos ainda se perguntavam quem seria, afinal, aquela criatura encantadora,um descuido — seria, mesmo? — pôs fim a todas as indagações. Pois o véu que a envolvia,descendo-lhe até os pés, revelara o que nenhum dos embelezamentos artificiais pudera antes
realçar: a sua infinita beleza original.— E Vênus, sim, a mais bela das deusas! — disse o coro unânime das vozes.
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