As Cem Melhores Historias Da Mitologia
3 Júpiter e a Guerra dos Titãs
Não há crônica, antiga ou moderna, que refira de maneira exata todos os feitos e lances
heróicos desta que foi a verdadeira primeira guerra mundial. Ela é demasiado antiga e perde-se nanoite dos tempos. Só podemos nos basear no que dela referiram alguns comentadores tardios,como Hesíodo.Ainda assim, ela houve: os sinais, por tudo, são demais evidentes.A própria geologia comprova que as extintas divindades de outrora -personificações,talvez, dos elementos em estado caótico — se engalfinharam um dia numa luta impiedosa,revolvendo no embate o Céu, a Terra e os mares.Esta gigantesca querela teve início com a pretensão de um filho rebelde, chamado Júpiter,sobre o poder supremo que estava em mãos de uma divindade cruel e despótica, chamadaSaturno.Mas quem foram as partes deste espantoso embate?De um lado, liderados por Saturno, estavam ele e seus irmãos, os poderosos Titãs ("filhosda Terra"). Do outro, Júpiter, o filho insubmisso, e seus irmãos, além de algumas defecçõestitânicas que se alistaram à causa rebelde, tais como o Oceano e o filho de Japeto, Prometeu.Os deuses da segunda geração, liderados por Júpiter, foram organizar seu ataque nomonte Olimpo (daí serem chamados de "deuses olímpicos"), enquanto os Titãs, abrigados nomonte Ótris, tramavam a sua defesa.Num dia incerto, que nenhum cálculo humano pode aproximar, deu-se o primeiro lancedesta refrega colossal, que os anais bélicos da humanidade batizaram de Titanomaquia (ou"Guerra dos Titãs"). Uma imensa massa negra de nuvens destacou-se dos limites extremos doOlimpo e começou a marchar, num estrondo feroz de carros de guerra que rondam pelos céus. Oempíreo escureceu de tal forma que o Caos parecia haver gerado de seu ventre uma segundaNoite, ainda mais negra e tétrica do que a primeira.De dentro desta montanha alada, da cor do ferro, partiam raios tão ofuscantes (novidadehorripilante inventada pelos Ciclopes, aliados de Júpiter, que este libertara do Tártaro), que poralguns instantes brevíssimos não havia em todo o Universo a menor parcela de escuridão. Maslogo o negror da noite tombava outra vez sobre a Terra, e a alma de tudo quanto vivia agachavase,oprimida por indizível pavor.Ocultos acima dessa nuvem prodigiosa, Júpiter e seus aliados caíram finalmente sobreseus inimigos. Os Titãs, contudo, bem protegidos em suas trincheiras, começaram a enterrar suasunhas duras e compridas como gigantescas pás de bronze até as profundezas do solo, para daliarrancarem pela raiz, com pavoroso estrondo, montanhas inteiras, que arremessavam em seguidacontra os deuses olímpicos.Uma voz espantosa ecoou, vinda do alto, sobrepondo-se à massa inteira de ruídos:— Irmãos da nobre causa, desçamos até onde rastejam estes vermes! -disse Júpiter e,junto com seus aliados, saltou das nuvens com as vestes guerreiras, dando grandes brados defúria. Seus escudos refulgiam na queda como tremendos sóis prateados, enquanto suas lanças,brandidas com fúria, pareciam raios retilíneos que cada qual portasse com destemor infinito.— Amantes da nobre verdade, recebamos estas aves de rapina que descem dos céus, talcomo elas merecem! — bradou outra voz, desta vez de Saturno, encorajando os seus Titãs.Quando os dois exércitos se misturaram, um ruído mais feroz do que qualquer outrojamais escutado fez-se ouvir, então, por todo o Universo. A terra inteira sacudia-se em tremores,levantando-se de dentro dela imensas labaredas de fogo e de pez. Netuno, com seu tridenteaceso, fazia ferver os mares, e por toda parte não havia um único bosque que não tivesse sidovarrido pelo assobio endemoniado de uma tórrida ventania.Os combatentes, misturados num pavoroso atraque corporal — atirando às cegas, unscontra os outros, cutiladas, raios, rochas imensas, vapores sufocantes e dentadas -, assimestiveram por uma eternidade, até que Júpiter, temendo que a vitória estivesse pendendo para oinimigo, anunciou um novo propósito:— Companheiros, libertemos do Tártaro profundo os poderosos Hecatônquiros!Hecatônquiros. Esses terríveis seres haviam sido aprisionados por Saturno nasprofundezas da terra e, uma vez libertos, espalhariam o terror entre as hostes inimigas.Júpiter, auxiliado pelos seus, desceu até as tênebras profundas e, após romper os grilhõesque mantinham estas colossais criaturas presas ao abismo, subiu com elas à superfície. Uma fendaenorme rasgou-se sob o chão; imediatamente um vapor negro subiu da cratera num jatohediondo, até envolver o próprio Sol.Tudo estava envolto numa treva sufocante, quando todos sentiram um baque formidávelsacudir o solo. Um tufão poderoso surgiu em seguida, varrendo toda a fuligem espessa edeixando à mostra, sobre a superfície, os três Hecatônquiros, postados lado a lado. A arte dosantigos não nos deixou nenhuma imagem do que seriam tais divindades, porém as descrições nos
afirmam que se ratavam de seres "enormes como a mais alta das montanhas" e que possuíam nolhos e cinqüenta cabeças".Um urro colossal, partido das cento e cinqüenta bocas, atroou todo o Universo. Ascriaturas, empunhando rochedos imensos, lançaram sobre os apavorados Titãs trezentasmontanhas, sepultando-os vivos sob os escombros. Em seguida os Ciclopes os acorrentaramcom suas pesadas correntes, encerrando-os para sempre nas profundezas do Tártaro, de ondejamais tornariam a sair, vigiados pelos invencíveis Hecatônquiros.Esta, em resumo, foi a primeira batalha que o Universo conheceu, e da qual saiu vitoriosoJúpiter, o novo soberano do Universo, para reinar como pai dos deuses sobre todos os homens eas demais divindades.
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