As Cem Melhores Historias Da Mitologia
4 Juno, a Raina do Céu
— Sim, agora minha pequena Juno está a salvo... Mas até quando? Assim dizia Cibele,
após ver resgatada, do ventre de seu cruel esposoSaturno, a sua filha querida. O velho deus havia engolido um a um os seus filhos, tão logoestes haviam nascido; Júpiter, porém, lhe ministrara uma bebida encantada, obrigando-o aregurgitá-los de volta para os braços da mãe. Cibele, a precavida, imaginava agora um meio demanter a salvo a sua filha dileta."Tenho um pressentimento de que a ela está destinado um lugar de honra na cortecelestial!", pensava a deusa, acariciando os cabelos de Juno.Imaginava Cibele, como todas as mães, divinas ou não, que sua filha excederia em belezae poder todas as outras filhas da face da Terra ou da imensidão do céu.De repente seus olhos avistaram, para o ocidente, um fulgor intenso.— É isto! — exclamou Cibele, feliz. — Levarei-a para o país das Hespérides! Hespérideseram três encantadoras deusas que governavam um país paradisíaco, onde a primavera era eternae a necessidade não existia.— Queridas amigas, preciso entregar a minha bela Juno aos seus cuidados, pois somenteaqui ela estará em segurança.Abriram um largo sorriso, enquanto uma delas envolvia a deusa em suas vestesesvoaçantes.— Vá em paz, Cibele — disse esta. — Nós faremos da sua filha a mais poderosa dasdeusas.Juno respondeu apontando o dedo para o céu.O tempo passou e Juno tornou-se uma deusa de maravilhosa beleza. As Hespérides eramunânimes em reconhecer este seu atributo, que fazia par com o da perfeita sapiência.— Vejam: os animais e mesmo as flores parecem ficar felizes tão logo sua presença seanuncia — diziam alegremente as irmãs, todos os dias, umas às outras.Juno, contudo, apesar de estar satisfeita naquele lugar paradisíaco, ambicionava mais alto.Com olhos postos no céu, suspirava todos os dias:— Tudo é belo... mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.Por uma natural inclinação, a moça procurava sempre os lugares mais altos da ilha paradar largas à sua imaginação. Havia um rochedo, à beira-mar, que era o seu refúgio especial.— Mais um passinho e posso quase tocar o céu... — dizia ela, brincando e esticando seualvo dedo.Um dia, estando ali sentada, sentiu muito calor. Então avistou no horizonte uma nuvemque vagava meio sem jeito, como que perdida das outras.— Adoro chuva! — pensou, esticando o pescoço na ânsia de ver as companheirasdaquela comparsa extraviada. — O único defeito deste país encantador, se há algum, é o dechover tão pouco!Então pôs-se em pé, cerziu os olhos e começou a pensar com toda a força:— Quero muito que chova! Que chova muito! E o que quero!Juno reabriu os olhos e viu que agora aquela nuvem mal-esboçada e solitária, lá adiante,havia ganho uma inesperada e rechonchuda companheira. A jovem fechou os olhos outra vez erepetiu com toda a força:— Quero muito que chova! Que chova muito! É o que quero!Quando reabriu outra vez os seus olhos, viu que um exército de outras nuvens havia sejuntado à primeira, engolfando-a num turbilhão escuro e barulhento. Juno colocou-se na pontados pés e aspirou profundamente.— Hmmm.... Perfume de chuva, não há outro igual.Num instante as nuvens chegaram, e a jovem deusa comandou do alto ma tremendatempestade, como nunca as Hespérides haviam visto. Os raios miam ao redor da jovem os seusespadins recurvos, porém sem nunca atingi-la, enquanto a água da chuva a envolvia num frescordelicioso.Depois que a chuva passou e um vento fresco secou suas roupas, afastando-o para longeas nuvens tempestuosas, Juno olhou para o céu, novamente azul.— Tudo é belo... Mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.Neste instante uma águia de asas imensas surgiu das alturas. A ave, após rodopiar aoredor da deusa, agarrou-a delicadamente e suspendeu-a no ar. Juno, embora surpresa, não seassustou; algo lhe dizia, secretamente, que o seu sonho começava a se concretizar.— Para onde me leva, águia sutil?Foram ambas subindo, a águia e a deusa, até que, adentrando o próprio céu. Juno viu-sediante do jovem Júpiter.— Estou no céu! — gritou Juno, de olhos brilhantes.O pai dos deuses explicou então a Juno tudo o que havia ocorrido e como ele a haviasalvo do ventre do tirânico pai de ambos, Saturno.Juno, agradecida, abraçou os joelhos de Júpiter. Depois disse a ele, radiante de esperança:— Tudo o que você diz é belo... Mas eu queria mesmo...O pudor, entretanto,impediu-a de repetir pela milésima vez o seu desejo.— Sim, adorada Juno, você será, sem dúvida, rainha do céu — completou Júpiter,sorridente, que escutara diversas vezes, ali do alto, a jovem clamar por seu desejo. — Desde que avi manejando a tempestade e orquestrando os raios, decidi que seria a esposa ideal para mim.E foi assim que Juno casou-se, tornando-se Rainha do Céu e dando início à história docasal mais famoso da mitologia antiga.
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