As Bruxas do Bosque
1 Capítulo I
Notas iniciais
Uma dark playlist ecoa nas paredes do quarto dela, enquanto, pela janela, admira o balé da flora movido pelo sopro dos deuses, anunciando o ritual de passagem dos tempos — uma verdadeira harmonia dentro e fora do pequenino quarto, mas um ótimo dark room.
Além da cama com gavetas para guardar as poucas roupas, no quarto, os pais arrumaram um jeito de colocar um sofá e um computador pra estudo. A demais arrumação — poster de bandas e filmes de terror — foi algo inspirado no bate papo com os amigos.
De Harry Potter a Crepúsculo, estes são alguns dos posters colados na parede do pequenino quarto. Motivo de orgulho e muito bate papo, quando as amigas e visitantes perguntavam sobre os filmes e séries. Muitas delas estão clicadas nas fotos do face wall.
Uma lufada de vento chama a atenção dela, pois trouxe consigo um cântico misterioso. Ao fixar a vista na direção do parque, um pouco distante de casa, pode avistar algo parecendo uma fogueira e, desta vez, um ballet ao redor daquelas chamas.
Sempre ouviu algumas histórias sobre o parque da vila e, também, sobre o misterioso bosque. O que tem alimentado o desejo de descortinar esse mistério. Este canto sombrio tem desperto a atenção dela, a chamando pra bailar neste início de noite.
O telefone toca interrompendo o poema que os ritos pagãos estão escrevendo no espírito dela. Ao olhar no visor do aparelho, vê o número da amiga — uma ótima companhia pra compartilhar as impressões dessa witch night, quando foi desperta pelo cântico do bosque.
— Oi? — disse ao atender e, após se deitar no leito, pergunta: — O que você quer, me ligando uma hora dessas?
— Preciso falar com você! — responde e pede: — Vai pro computador, quero que veja algo que vai te interessar!
Ouvindo isso, ela sai da cama num salto, caminha na direção do computador, onde ela estuda e, às vezes, escreve algumas histórias inspiradas pelos elementais, visitantes do quintal que, a cada dia, editam uma nova pintura, uma nova arte vista pela janela.
Nessa noite, o brilho da lua começa a entrar pela janela, iluminando boa parte do pequenino quarto. A imagem, projetada na parede, lembrava uma porta lunar — seria essa a entrada pro reino? Não saia ao certo, mas costuma viajar nesta passagem mística.
De tempo em tempo, o vento balança as cortinas pretas, projetando sombras na porta lunar ou fantasmas saindo para fazer-lhe companhia nestas noites. São verdadeiros vultos, se não os conhecesse e admirasse, talvez morreria de medo de dormir entre eles.
Assim que o computador inicializou, ela clica no link do Diário do Vilarejo. Na página principal, em destaque, está a notícia em destaque: “Adolescente Desaparecida Após O Baile de Primavera”. A amiga tinha razão, pois o caso muito lhe interessa! Assim, inicia:
— Ela quase não saía de casa! O que ela fez ou foi fazer pra ter acontecido isso?
— Eu acho que ela tava deprimida. — disse a amiga, enviando uma postagem na página do Facebook.
— Isso é motivo pra sumir!? — vendo a gravidade do acontecimento, moderou nas palavras.
— Verdade! — assentiu a amiga e comenta: — se trancar, às vezes, é uma boa até passar a depre.
— Mil vezes melhor do que se arriscar entre pessoas ou, até mesmo, em lugares desconhecidos.
Um forte vento ecoa o canto vindo do bosque. Dessa vez, as duas ouviram e avistam as fagulhas das chamas da fogueira do ritual, iluminando aquela parte do parque da vila — algo que tem chamado a atenção e alimentado o imaginário dos moradores da vila.
— Nossa — observou uma delas e diz: — Acho que hoje a noite, tem festa naquele maldito bosque.
— Sim! Tô tentando decifrar esta mensagem desde cedo. Você também conseguiu ouvir o canto?
— Parece um chamado, não!? — concordou a amiga e acrescenta: Desde 18h, ouço este canto meio folk.
Após estas palavras, meia hora depois de atender o chamado, as duas amigas se encontram na Praça da Vila — a alguns metros da casa delas. Uma delas sugere que convidasse algum dos meninos, mas a ideia não foi bem aceita pela mais nova, esperando evitar comentários.
O bosque, há muito tempo, não é visto como um bom lugar para passear a noite. O local tem sido maldito pelos moradores, porque acreditam nas crendices do padre local, superstições ensinadas durantes as aulas na Igreja ou comentadas durantes os sermões.
Entretanto, a cada aviso, o desejo da busca somente aumenta no espírito delas. A antiga trilha, coberta de folhas e galhos secos, está iluminada pela lua. Sem perder tempo, as duas amigas iniciam a caminhada rumo ao despertamento, rumo a revelação.
As solas das botas, quebrando os pequenos galhos e amassando as folhas secas ao longo da antiga trilha, denunciam a presença das duas desbravadoras. Por isso, decidiram caminhar mais devagar, mesmo demorando mais tempo pra fazer o percurso.
Aos poucos, o cântico ritualístico, entoado ao redor da fogueira, fica mais alto e mais nítido, ocultando os barulhos dos passos delas e revelando, diante dos olhos brilhantes das duas amigas, os encantos daquela noite iluminada pela luz da deusa noturna.
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