As Aventuras da Maga Alice
26 Um dia Doce e Musical
Notas iniciais
POV ALICE
No outro dia eu estava morrendo de fome, percebi que não havia comido nada no dia anterior.
–Ao, estou com fome. – comentei.
–O que é “fome”? – perguntou ele.
–Você não sente vontade de comer? – indaguei incrédula.
–Não. Aqui não tem comida. – disse com pena – Ninguém come nesse lugar.
–Ah... – minha barriga roncava alto.
–Talvez eu possa fazer alguma coisa. – ele parecia pensativo –Existem duas crianças loucas por doces, elas moram num lugar onde tem comida.
–Hum! Doces! – fiquei imaginando o lugar – Vamos pra lá!
–Doces... – Diego estava com os olhos brilhando – Espero que eu não passe mal de tanto comer doces...
–Você gosta de doces? – perguntei.
–Adoro! – respondeu ele corando – E esse é um problema.
Eu não sabia que Diego gostava de doces, talvez ele escondesse isso de mim porque é um pouco ridículo, normalmente crianças gostam de doces e ele já tem 15 anos... Deve ser constrangedor!
Como eu estava morrendo de fome fomos rápido pra lá, Ao tinha algo que se parecia com uma nave espacial (sobrevoamos tudo,foi muito legal!). O lugar era exatamente como eu imaginei: havia doces em todos os lugares, uma casa de doces, um lago de Milkshake, uma montanha de sorvete...
–Ya! – parti para o ataque nos doces – “S-U-G-A-R Jump into your Racing car say Sugar Rush Sugar Rush [...]”
Comecei a cantar a música “Sugar Rush” e pegar uns doces do chão.
–Alice... – começou a dizer Ao.
Mas antes que ele pudesse completar a frase duas crianças apareceram e subiram em cima de mim, puxaram meus cabelos e disseram:
–Ei! Quem é você?
–Ai,ai, ai! Eu só quero comer um pouquinho! – pedi – Piedade!
–Então você quer comer? – perguntou a garota.
–Sim! Por favor! Onegai! Please! – implorei.
–Esses doces são nossos! – disse o garoto.
–Ah, que egoísta! –xinguei e ele puxou mais forte o meu cabelo – Desculpa! Desculpa! Desculpa!
–Ei pirralhos! – chamou Diego – Soltem ela!
–E se eu não quiser? – desafiou o garoto.
Diego pegou a espada, mas a garotinha deu um pulo e chutou sua espada para o chão.
–Então você quer duelar? – perguntou a garota.
–Ele também quer comer – falou Ao – Eu luto com você.
–Ótimo! – exclamou ela – Mano!
–O que é? É para prender os outros? – deduziu se irmão.
–Sim, faça isso. – concordou ela.
O garoto nos prendeu numa cela com barras de caramelos, vi que ele tinha cabelos brancos. Os dois irmãos tinham balas nos cabelos brancos e vestiam uma roupa toda colorida e cheia de doces grudados, eles pareciam personagens de “Sugar Rush” (Detona Ralph). Reparei que garoto estava comendo um bolo. Parecia delicioso!
–Bolo... – gemi.
O garoto mostrou pra gente o lindo pedaço, demos um sorriso radiante de esperança, então ele tirou o pedaço de perto da gente. Ficamos tristes novamente, ele mostrou o pedaço e sorrimos. Depois ele tirou e nos entristecemos.
–Que estranho e engraçado! – exclamou ele.
Olhei para as barras da cela, caramelos.
–Caramelos! –fui até a barra e lambi, tinha gosto de caramelo.
Comecei a roer a barra, pois estava com muita fome.
–Acho que eu tenho que ter uma cela de ferro... – disse o garoto – Isso é esquisito!
Diego estava se segurando para não comer a cela, mas não aguentou e começou a roer as barras também.
–Eu não posso aguentar, estou com muita fome! – falou ele.
–Não se preocupe, não contarei a ninguém – assegurei.
Bem, eu estou contando a vocês.
Enquanto isso, na batalha:
–Se você me ganhar
terá que lutar com meu irmão. – propôs a garotinha.
–Tudo bem, Shiro Sugar Day. – concordou Ao (Shiro é branco, dia doce branco).
–Mas se eu te vencer, transformo aqueles dois esfomeados em bonecos de chocolate. – ameaçou.
E eles começaram a lutar, a garota tinha uma arma que atirava “balas” (não bala de arma, bala de comer). Ao rebatia ou desviava das balas. Depois eles começaram a lutar com espadas, a garotinha era pequena mas rápida. Ao começou perdendo, mas logo machucou o rosto dela e a fez cair. Mesmo assim ela não se dava por vencida. Ao tinha fincado a espada em sua barriga, ela gritou de dor, então chutou o rosto dele e tirou sua espada. Vi que açúcar saía de dentro dela e a garota não parecia muito feliz, pegou uma grande arma e acertou um morango gigante no rosto de Ao ele nem sequer teve tempo de virar para frente. Ela chutou sua barriga e o jogou no chão.
–Você vai perder! – exclamou ela.
–Eu discordo! – negou Ao.
Pegou uma torta e jogou no rosto dela, como a garota não podia enxergar não viu que Ao iria dar um tiro nela. Mas seu irmão viu e correu se pondo na frente levando o tiro. Foi empurrado pra trás e caiu longe em cima de sua irmã. E ficaram lá inconscientes, Ao correu e nos libertou.
–Agora já podem comer. – falou.
Vibramos e pegamos tudo o que podíamos (também comemos tudo o que podíamos). Largamos os doces na nave de Ao e fomos à procura de almas fugitivas. Passamos pelo coliseu e eu vi uma cena familiar: uma mulher e um homem de cabelos vermelhos; eles machucavam um garotinho de cabelos pretos que não fazia nada.
–São aqueles dois do meu sonho. – comentei.
Ao deu uma olhada.
–O que viu no sonho?
–Vi o homem atirando na Dragon Ray Purple e a mulher a esfaqueando. – respondi.
–Sinto dizer que são seus pais. – contou Ao.
–Meus pais? Mas por que ele me machucariam? – indaguei incrédula.
–Você sabe que algumas coisas que eles dizem te fazem chorar, é eles machucando você nesse mundo. –contou Ao.
–Isso é verdade... – me lamentei – Meus pais me machucam e muito às vezes eu penso o porquê dói tanto.
–Doeria muito mais se você não tivesse a Dragon Ray Purple. – falou Ao.
“Meus pais... me machucam?” pensei em algumas coisas que eles falavam que me machucavam. Baixei a cabeça e lembrei do que a Dragon Ray Purple falou no sonho: “Então pare de ser tão covarde!” ; Covarde... Eu sempre fugi de tudo, das pessoas da vida, da Terra... Eu queria um mundo só meu e acabei criando isso com os meus sonhos. Lá eu era feliz, mas na vida real não. Aquilo era mentira? Algo falso?
–Você está bem Alice? – perguntou Diego vendo minha expressão.
–Eu...estava pensando. – falei tentando parecer bem.
–Pensando em seus pais? – indagou ele.
–Mais ou menos. – respondi.
–Não deve ficar triste por causa disso, a Alice que eu conheço nunca, nunca se entrega a tristeza. – ele sorriu.
Isso verdade? Eu dizia que não me entregaria à tristeza, não deveria ficar me lamentando sobre o passado. Não deveria ficar pensando que tudo o que eu sonhei foi falso, porque foi o que eu precisava naqueles momentos e eu fui feliz. Isso é tudo o que importa, desde que Diego chegou eu tenho sido ainda mais feliz, ele tem razão não devo me entregar. Me lembrei de coisas boas que passei, mesmo que eu fugisse da realidade. Levantei a cabeça e sorri para Diego.
–Assim está muito melhor. – disse ele sorrindo.
Ao nos entreolhou e uniu as sobrancelhas, parecia não gostar disso. Ciúmes? Talvez, mas eu não liguei. Porque eu não reparo nessas coisas, quanto ao amor eu não sei nada nem vejo nada. Eu deveria ter reparado.
Chegamos a uma casa abandonada, a pintura do lugar parecia estar úmida ainda (em vermelho sangue), parecia que alguém pegou o balde de tinta e só jogou nas paredes de qualquer jeito.
–É aqui. – anunciou Ao.
–Quem mora aí? – perguntou Diego.
–Em primeiro lugar as almas não “moram” em lugar algum, elas se abrigam em locais de seu agrado; e segundo: quem se abriga aí é Melancholy Paints – disse Ao com frieza, ele o disse com sotaque japonês: “Merancory Paintosu”.
–Onde a Dragon Ray Purple se abriga? – eu quis saber.
–Ela não tem um lugar próprio. – respondeu ele.
Ora, eu sou nômade. Acho que a Dragon Ray Purple é um pouco diferente de mim, ela não gosta das pessoas, eu anseio por elas; ela gosta da solidão, eu a odeio...
–Vamos entrar. – decidiu Ao.
Entramos na casa, havia tintas,telas, pincéis entre outros objetos de pintura e desenho espalhados pelo chão. Nas telas e nas folhas de papel tinham pinturas de uma mulher toda rabiscada em vermelho, eram só essas imagens que tinham. Nas paredes haviam desenhos como um coração sangrando e um mulher de costas pegando fogo, um olho cheio de lágrimas vermelhas entre outros. Também haviam esculturas quebradas no chão, muitas delas manchadas com tinta.
–Por que tudo isso? – indaguei.
–O homem enlouqueceu depois que sua mulher morreu. – explicou Ao.
“Meio parecido com o que aconteceu com você” pensei “E ainda destruiu metade desse mundo de raiva”.
Andamos mais alguns passos e enxerguei um homem de cabelos grisalhos pintando rapidamente uma tela.
–Ei você! – chamou Ao.
O homem nos olhou assustado e perguntou:
–O que vocês fazem aqui?
–Você tentou controlar seu corpo humano, viemos levá-lo para o Abismo. – respondeu Ao.
–Abismo? Não! Eu não quero ir para lá! – o homem começou a jogar tintas no chão – Eu quero ir para o lado “dela”! Eu quero!
–Seu homem louco e desprezível! – xingou Ao.
–Eu não quero ficar preso aqui pra sempre! Não! – dizia o homem.
Depois foi até mim e implorou:
–Garotinha, você parece ser uma boa menina...Não deixe–me preso! Me ajude!
Ao chutou ele.
–Deixe-a em paz! – mandou.
Senti pena do pobre homem, ele não merecia sofrer assim.
–Ao espere! – pedi antes que ele atirasse no homem.
–Alice, ele é só um louco sem razão pra viver. – disse Ao.
–É! – concordou o homem — Eu quero morrer! Mate-me!
–Não! – neguei – Todos temos uma segunda chance. Você pode achar outro alguém, pode ser feliz, todos podemos.
–Alice... –Ao ia falar, mas eu não o deixei.
–Não pode desistir tão facilmente, na vida há testes, temos que aprender a passar por eles. – continuei (isso era tanto para o homem quanto para Ao) – E todos podemos conseguir.
Os olhos do homem foram se iluminando cada vez mais.
–Eu sou diferente e não tinha amigos por isso, mas continuei sorrindo e isso cativou várias pessoas como meu melhor amigo, Diego. – contei e sorri – Se você pensar em morrer, então é isso que vai acontecer. Deixe-me... Deixe-me falar de esperança.
Comecei a cantar:
“Sono te nobashite mo (Mesmo que você estique a mão
ima wa ima wa todokanai yo Você ainda não será capaz de alcançá-lo
Bokutachi no yume wa Nossos sonhos ainda estão
Motto motto tookuni arunda Muito, muito mais distantes
Yozora no hoshi datte Mesmo as estrelas do céu
nannokounen no kanata estão a bilhões de anos luz
Kurayami no saki ni kagayaku mono Brilhando além das sombras
Kibou ni tsuite boku wa katarou Deixe-me falar de esperança
Namo naki shijin no you ni atsuku Como um poeta anônimo: com paixão
Kimi ga namida ni kurete iru Nara Se você se encontrar destruído em lágrimas
Nagusame yori mo yagate shiramu Então melhor do que te consolar
Sora wo katarou ka...” Deixe-me falar do amanhecer que se aproxima)
E à medida que eu ia cantando o homem foi ficando emocionado, até que ele transbordou em lágrimas.
–Esperança... – disse ele – Você é um anjo! Um anjo que veio me dar esperança! Você tem razão! Eu devo continuar vivendo, como fui tolo...
Agora ele não parecia um louco, parecia mais um homem aprendendo a ter fé.
–Alice... – Digo começou a dizer – Isso foi incrível!
Ao também parecia perplexo, não acreditava que isso pudesse acontecer.
–Ao por favor! Ele merece continuar, não coloque sua alma no abismo! –pedi.
Ao deu de ombros e foi embora.
–Ao! – chamei e ele não me ouviu.
Também fomos embora, o homem não parava de agradecer quando fui embora.
Ao não estava em seu veículo.
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