Felipe, irmão mais novo de Helena, fumava narguilé na varanda com um amigo. O mesmo que sempre o convidava para corridas de carros ilegais, eventos com som alto e muita bebida.

— Já tenho nossos ingressos para o final de semana – disse Carlos.

— Ele não vai – Bruna, esposa de Felipe, já estava brava com aquele descaso.

— É um evento de dia Bru, vai ser tranquilo – Felipe disse puxando o ar da mangueira.

— Tranquilo pra quem? Não foi você que teve que limpar vomito por toda a casa na última vez – Bruna apagou o carvão do narguilé.

— Orra! Mulher chata... — Carlos soltou um muxoxo.

— Vai embora Carlos. — A mulher apontou para o portão. — Agora!

O homem pegou a garrafa de whiskey que havia trazido e sumiu.

— O que foi isso Bruna?! — Felipe questionou a atitude da esposa.

— Eu que pergunto! Você não ia parar com essa palhaçada?

— E o que vai adiantar? Minha irmã não fumava, não bebia, não fazia nada de errado e terminou como?

Silêncio. Um frio e doloroso silêncio.

— Mesmo depois de tudo que ela fez por você, continua um ingrato.

Bruna pegou o celular e fez uma ligação, foi para o quarto e fez duas malas. Vinte minutos depois sua mãe apareceu de carro para buscá-la. Saiu sem dizer nada, sem dizer quando voltava, sem dizer se voltava.

Felipe ficou parado no portão, a chuva começou a cair, encharcando-o por inteiro. Sem amigos para contar nos momentos difíceis, sem esposa para cuidar e compartilhar as coisas boas; com pais que apenas o tinham como uma fonte de mão de obra e ajuda financeira. Pela primeira vez, o rapaz experimentou a solidão.

Para Felipe, a morte da irmã significou a perda de seu alicerce.

Para Helena, a tentativa desesperada de ajudar.

Uma ajuda, tragicamente, rejeitada.