As 5 Mortes de Helena
5 Quarta Morte
Notas iniciais
Rafael, marido de Helena, tomava café sentado no sofá. A luz do sol entrando pela janela da sala, as 7 horas da manhã. Os óculos da esposa ainda sobre a mesa de centro, assim como seu perfume adocicado nas almofadas.
Não ligou a televisão, assistir as series não era o mesmo sem sua companheira, não haveria comentários irônicos, nem risadas gostosas. O caderno de estudos estava empoeirado sobre a escrivaninha, assim como os livros que liam juntos todas as noites.
Ainda jogava com os amigos, o único momento em que conseguia se distrair um pouco e não pensar no que havia acontecido.
— Precisamos encontrar outro jogador.
— Porra Caíque! Vacilo, hein?! — Dudu ralhou.
— Foi mal...
— Tudo bem. Ela era muito boa. — Rafael começou a falar no voice. — Não vamos achar um suporte como ela, mas precisamos de alguém pra fechar o time.
Suporte. Helena foi o maior suporte que Rafael teve na vida, não importava para o que ou quando, ela sempre estava ao lado dele, apoiando mesmo que não concordasse. Rafael se perguntava se havia dado o mesmo suporte a ela. Nitidamente não.
Recrutaram um novo integrante e jogaram o torneio de sábado, terminando com o segundo lugar. Enquanto abriam os baús de espólios, o celular de Rafael apitou, era uma mensagem da sogra.
“Oi”
Dois minutos depois, mais uma mensagem.
“Está ocupado?”
Três minutos depois uma ligação curta, só para fazer o telefone tocar e chamar a atenção do rapaz. Rafael pegou o aparelho e bloqueou o número. Não tinha mais paciência para lidar com aquela mulher, também não precisava. Seu motivo havia partido a poucos dias.
Já era uma hora da manhã e o sono não vinha. A cama estava fria, vazia e silenciosa demais. O homem começou a chorar, enfiando o rosto no travesseiro da esposa, sentindo o cheiro do creme de cabelo que ela usava. Cada lágrima caía acompanhada de uma fisgada no peito. Era uma dor excruciante, pior do que aquela que sentiu ao perder o pai anos atrás, porque desta vez a dor era acompanhada de culpa e remorso.
Ele não viu que algo estava errado, que ela estava agindo de maneira estranha, não notou o pedido de socorro aceso como um farol costeiro. Ele não a notou.
Para Rafael, a morte da esposa significou a perda da pessoa mais importante de sua vida.
Para Helena, a tentativa desesperada de ser notada.
Uma presença, tragicamente, despercebida.
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