Helena, filha de José e Irene; irmã de Felipe; esposa de Rafael. Jovem; universitária; funcionária exemplar.

Mas não apenas isso. Era uma mulher sonhadora, talentosa, determinada. No entanto, em algum momento de sua vida, isso se dissipou. Como uma viga de concreto que racha a cada terremoto, e conforme as erosões foram crescendo, a estrutura enfraqueceu, desmoronando aos poucos, esfarelando-se no solo. Tornou-se pó.

Helena estava sentada na varanda de um prédio, muito, muito alto. E mesmo que em vida sofresse de acrofobia, agora sentia-se confortável. Lá de cima, consegui ver tudo e todos, abaixo de seus pés que balançavam, dependurados no céu. Via o pai e a mãe discutindo como sempre faziam nas reuniões de família, um com a razão a seu dispor, outro com o vitimismo a sua defesa.

Viu o irmão várias vezes rodeado de amigos, bebendo e rindo, mas que logo sumiam, deixando-o sozinho mais uma vez. E de novo.

Sorriu ao ver Rafael aos cuidados de sua mãe e irmã. Sabia que o marido nunca ficaria sozinho, pois tinha uma família carinhosa para ajudá-lo. E apesar do semblante abatido, da perda de peso evidente e do desinteresse em coisas novas, sabia que aquilo seria apenas uma fase.

Porém, quando sua atenção foi tomada por uma jovem que passeava de trem, quase caiu do prédio. A moça sorria ao admirar a paisagem, os cabelos balançavam com o vento, e cacofonia dos outros passageiros não parecia incomodá-la.

Era Helena no vagão.

Estava assistindo a si mesma, em uma vida alegre e plena, fazendo os passeios que planejou, escrevendo histórias que imaginou, vivendo a vida com a qual sempre sonhou. Encolheu-se em desespero, os joelhos comprimidos contra o tronco, esmagando a boca do estômago enjoado. A cabeça latejava com um turbilhão de pensamentos.

Por que não fez como das outras vezes?

Como quando desacelerou o carro e voltou para casa.

Quando foi ao mar, mas decidiu ficar na areia.

Quando chegou ao topo do arraia-céu e então desceu pelas escadas.

Por que desta vez não desistiu? Ela sempre desistia de suas próprias vontades.

Por que ninguém a impediu? Por que feriu a si mesma? Por que deixou sua mente ser tomada por pensamentos alheios, ao ponto de não ter mais controle sobre suas próprias ações?

Ou talvez sua morte tenha sido o único momento que realmente pode controlar. Mentira.

Fechou-os olhos e mergulhou num limbo escuro, frio e fétido.

Para Helena, sua morte foi a tentativa frustrada de desconectar-se da imagem que criaram para ela, que junto acabou levando a chance de ser quem realmente era.

Uma oportunidade, tragicamente, ceifada pelo fio gélido de uma lâmina.

Forjada pelo narcisismo e empunhada pela depressão.

Notas finais
Não se preocupe, a história não termina assim. Ainda há um epílogo.