As 5 Mortes de Helena
3 Segunda Morte
Irene, mãe de Helena, separava as roupas sujas para lavar quando encontrou um dos casacos da filha. Sentou-se no chão e começou a chorar copiosamente.
— Já deu Irene! — José ralhou.
— Mas era a minha filha! — Irene apertava a peça de roupa contra o peito. — Como dói!
— Era minha filha também! Irmã do Felipe. Esposa do Rafael. — José não suportava mais as lamurias da mulher. — E você não vê a gente de frescura por ai!
Irene engoliu o choro e secou os olhos, mas ainda soluçava.
— Mas eu sou a mãe! Vocês nunca vão entender a dor de uma mãe!
— Tudo para ti é pior. — José massageava a têmpora — tua filha vinha conversar e tu só sabia reclamar...
José pegou o maço de cigarros e algumas notas de dinheiro.
— Aonde você vai?
— Pra onde eu tenha paz.
Irene então ligou para a mãe, para as irmãs, para o filho. Mas ninguém estava disposto a ouvir suas lamurias. Tentou conversar até com a vizinha, mas não teve paciência para ouvir todas as histórias sofridas da senhora. Hipocrisia que se chama.
Por fim não se aguentou e foi até a casa de Rafael. Levou um pedaço de bolo como desculpa, sempre levava comida quando queria algo.
— Quer que eu lave a sua roupa?
— Não, dona Irene. Obrigado. — Rafael jogava online com os amigos.
— Quer que limpe a casa ou faça alguma comida? — a mulher sempre se oferecia para fazer algo.
A intenção nunca era puramente a de ajudar, mas sim a de plantar a sementinha do vitimismo que ela logo colheria, dizendo que sempre fez de tudo para ajudar e nunca cobrou nada.
— Eu já disse que não precisa. — Desta vez o rapaz fora mais firme, ainda assim controlando-se, pois não era de sua natureza ser rude.
— Não precisa ser grosso – a sogra exagerou — só estou querendo ajudar.
Rafael mutou o microfone do computador e virou-se sério para encarar Irene.
— Com todo respeito dona Irene, você vai ajudar se me deixar em paz, se parar de vir aqui reclamar do quanto está sofrendo, como se fosse a única pessoa no mundo que soubesse o que é a dor de um luto. — Respirou um pouco para acalmar os ânimos. — Então faça um favor para si mesma e vá se ocupar com alguma outra coisa.
Para Irene, a morte da filha significou a perda de seu ouvinte passivo.
Para Helena, a tentativa desesperada de expressar-se.
Uma expressão, tragicamente, ignorada.
Fale com o autor