Notas iniciais
A história conta com 5 pontos de vista. Uma para cada capítulo.

José, pai de Helena, estava sentado na varanda. O copo com licor de ameixa amarela numa mão, o cigarro queimado até a metade na outra. O olhar acompanhando os poucos carros e pedestres que passavam na rua, a mente vagando por um mar infinito de insignificância. Havia se passado duas semanas desde a morte da filha, José trabalhava o suficiente para suprir as necessidades básicas da esposa, pois ele mesmo já não se alimentava direito.

— Você precisa tomar banho... E comer alguma coisa – Irene, esposa de José e mãe de Helena, disse tentando tirar a bebida alcoólica do homem.

— Me deixe em paz — José puxou a mão com o copo, enchendo-o novamente.

Irene suspirou e, contendo o choro, foi para o quarto.

“Talvez se eu tivesse construído uma casa para ela; dado um carro melhor; se eu tivesse uma herança para deixar. Mas fiz tudo o que pude, dei tudo o que consegui. O que mais ela queria?”

Era o começo dos pensamentos de José. Manifestos de culpa pelo que ele poderia ter feito. Sempre acreditou que a felicidade vinha através de coisas materiais.

“Eu sou um inútil! Não consegui exercer minha função como provedor da família. Eu deveria ter trabalhado mais. Porra! Mas a Irene também não ajudou.”

Autopiedade disfarçada de punição. Mas ele era o detentor da razão, da sabedoria, ninguém podia contrariá-lo. Então logo começava a transferir sua culpa. Pois ele nunca errava.

“Sempre teimosa e geniosa. Achei que fosse inteligente, minha filha. Não pensei que fosse estúpida o suficiente para atentar contra a própria vida.”

E como sempre a culpa recaía sobre Helena, que mesmo depois de morta, ainda seria a ovelha negra da família. A desgarrada do rebanho machista. Aquela que cometeu o pecado de varar o cercado feito pelo patriarcado.

Para José, a morte da filha significou a perda de sua laranja mecânica.

Para Helena, a tentativa desesperada de alcançar a liberdade.

Uma liberdade, tragicamente, utópica.