As Águas de Veneza
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Uma coisa curiosa no comportamento de Gilbert era a estranha mania do albino de nunca avisar antes de aparecer. Ludwig já tinha se acostumado com essas coisas do irmão, mas isso não as tornava menos incomodas. Por via das dúvidas ele arranjara um colchão extra (Não entendeu a necessidade de dois) e deu uma limpada na casa com a folga da semana. Depois se sentou em frente da TV e ficou assistindo algum jogo da Eurocopa.
Enquanto assistia se lembrou de Feliciano, eles ainda precisavam sair mais uma vez, obviamente não era um encontro, até porque não tinha cabimento nenhum visto que não eram um casal e não passavam de conhecidos.
Sim! Conhecidos se conhecendo!
Todas essas coisas faziam Ludwig ficar cada vez mais confuso. Não tinha fundamento para si começar a amar uma pessoa assim, do nada. Isso só acontecia naqueles filmes clichês para mulheres solitárias, ou então em romances de adolescentes americanas.
Mas então... O que explicava toda aquela... Admiração repentina? Feliciano era de fato um rapaz bonito, alegre, divertido, e bastante agradável, era natural as pessoas se sentirem bem ao seu redor, porém isso tudo não justificava a constante presença do italiano nos pensamentos do alemão.
Ludwig franziu o cenho mais uma vez e olhou para o teto.
Ele não estava apaixonado, com certeza.
XXX
Enquanto isso, sob o sol quente italiano, milhões de turistas se aglomeravam na piazza de San Marco, a praça tinha um estacionamento de barcos usado principalmente por barcos turísticos, e de dentro de um deles saía um albino sorridente e cheio de protetor solar seguido por um austríaco MUITO enjoado.
–Kesesesesesesese, não te disse jovem mestre? Chegamos! Sãos e salvos!
–Mas mesmo assim... Eu ainda preferia um aeroporto...
De dentro do barco turístico saiam um albino completamente alegre e um austríaco completamente enjoado.
–Não acredito que ficamos uma hora dentro daquela banheira
–Bem vindo á Veneza jovem mestre, onde tudo o que vai encontrar aqui são banheiras como aquela.
Disse apontando umas gôndolas mais á frente do outro lado do piazza, lá os gondoleiro se equilibravam com maestria nas estreitas embarcações enquanto gritavam para atrair clientes. O outro sentiu a náusea subir pela sua cabeça.
O austríaco até massagearia as têmporas com as pontas dos dedos se suas mãos e braços não estivessem ocupados carregando duas malas pesadas. Deu um pesado suspiro, Roderich Edelstein não estava acostumado á carregar peso...
Ele nasceu em uma família abastada de Viena e sempre tivera uma infância muito confortável, estudou no orfanato de seu pai, um dos melhores da Áustria, junto com outras crianças, mas nem por isso deixou sua personalidade aristocrática.
Roderich tinha os olhos castanhos no mesmo tom dos cabelos, e do meio dos fios brotava um ligeiramente mais comprido e bastante rebelde desde a infancia, com o tempo, seu pai o batizou de Mariazel, uma homenagem á cidade natal do patriarca. Roderich usava óculos desde a adolescência graças ao estudo diário de partituras, o austríaco adorava música e era um exímio pianista, outra qualidade herdada de seu pai.
–Gilbert, não podíamos ir mais devagar? Essas malas estão pesadas – Reclamava o moreno enquanto atravessavam o Piazza de San Marco.
–Eu te disse para não trazer tanta coisa, vamos passar uma semana, não um mês na Itália. – Foi a resposta do albino sem olhar diretamente para o outro, afinal, ele estava concentrado em tirar fotos de tudo á sua volta. – Essa com certeza vai para o blog – Dizia enquanto mirava a Basílica de San Marco, um dos pontos turísticos mais famosos de Veneza.
Gilbert Belshimidt era o tipo de pessoa excêntrica da qual todos gostavam, era um albino puro, de cabelos brancos e olhos vermelhos, conhecera Roderich durante as aulas de piano do orfanato Eldestein a muito tempo atrás. Durante o pouco tempo que estiveram juntos no orfanato, algo por volta de seis meses, se tornaram grandes amigos. Gilbert gostava muito de lutas e de piano (apesar de não admitir), depois começou a gostar de aves também, especialmente de passarinhos amarelos, hoje, uma verdadeira obsessão, prova disso era que levava “Gilbird”para qualquer lugar que fosse.
Gilbert e Roderich apesar das diferenças estavam saindo á pouco mais de um ano e meio, eles haviam passado boa parte da juventude em um rola e enrola angustiante e só agora se assumiram de verdade.
O choque foi grande para a família de ambos, mas os pais depois de um tempo se acostumaram com a opção sexual dos filhos, afinal, eles eram adultos e podiam fazer o que quisessem certo?
O objetivo deles atualmente era passar um tempo com o irmão mais novo de Gilbert, Ludwig, que se mudara para Veneza. Roderich viera junto porque queria ver o pequeno, já que não se lembrava direito do rosto deste.
De volta ao piazza de San Marco, a torrente de queixas do austríaco ainda não se findara.
–Gilbert, será que você podia, POR FAVOR, me ajudar a carregar essas malas?
Agora o albino olhou diretamente par o austríaco parando de fotografar um minuto para analisar a situação. Ofegante, o seu companheiro insistia em deixar as duas malas longe do chão por mais que sus braços doessem, o suor escorria pela sua pele.
–O que você faria sem a minha incrível pessoa, não?- Ele sorriu gentilmente e se aproximou para apegar uma das malas, colocando a sua (se é que podemos chamar aquela sacola esportiva de mala) no chão.
–Leva aminha mala e a camera que eu levo essas suas duas jovem mestre. – Gilbert disse um pouco ofegante enquanto tentava apoiar uma das malas do austríaco no ombro.
Roderich sorriu amável e pegou a câmera no pescoço do albino e a malinha dele no chão, assim que segurou-a começou a procurar alguma coisa no interior desta.
–O que está fazendo? – Questionou Gilbert pegando a outra mala com o braço esquerdo enquanto o direito equilibrava aquela apoiada em seu ombro
–Estou procurando o mapa da cidade, quero saber aonde seu irmão mora, assim chegamos lá de uma vez.
–Kesesesese, quanta pressa... Veneza é bonita demais para se sair correndo desse jeito.
–Veneza pode ser bonita para você, mas se eu tiver que andar de barco mais uma vez prefiro que seja rápido.
O albino riu do tom irritadiço do outro e prostrou atrás deste para que ambos pudessem ver o guia.
XXX
Depois de caminhar um pouco e tomar uma gôndola, Gilbert Belshimidth e Roderich Eldestein haviam conseguido localizar a casa do irmão mais novo de Gilbert, Ludwig.
A casa era pequena a primeira vista, espremida no meio de outras duas com os lados completamente colados, tinha uma pintura verde pastel nas paredes e simpáticas janelinhas, todas de madeira assim como a porta.
Depois de confirmar o endereço, Gilbert se aproximou da porta seguido por Roderich, e depois de observar um pouco, ambos constataram uma coisa.
Não tinha campainha.
O albino bufou e largou ambas as malas no chão resmungando algo sobre “vai ser do jeito tradicional então”, e antes de fazer qualquer coisa, olhou para o austríaco com uma expressão muito séria, nos olhos um brilho intenso.
–Não diga nada, ouviu?
Roderich olhou o rapaz nos olhos e concordou com a cabeça, franzindo o cenho.
Só então a expressão de Gilbert se suavizou, os olhos ganharam o brilho habitual e do no seu rosto voltou a brotar o mesmo sorriso de sempre. E depois de chacoalhar os ombros começou a bater palmas e a gritar freneticamente.
–OI WESTOO, TEM ALGUÉM EM CASA? ~ BRÜDER? ABRA A PORTA! MINHA INCÍVEL PESSOA CHEGOU!
Roderich não sabia onde se esconder, começou á olhar para os dois lados esperando que algum vizinho aparecesse para reclamar do barulho, mas para a sua surpresa isso não aconteceu, parecia completamente normal para os outros moradores que um maluco começasse a gritar escandalosamente em plena luz do dia.
O austríaco se distanciou um pouco e colocou a mão na testa pela milésima vez desde que começaram a viagem.
– You fool.
XXX
Ludwig tinha ligado a sua televisão com a intensão de assistir ao jogo da Eurocopa, mas não se sabe se pela canseira ou pelo tédio, acabou adormecendo no assento do sofá com a TV ligada.
Eis que seus sonhos são abruptamente interrompidos por uma gritaria louca vinda do lado de fora de sua casa.
– OI WESTOO, TEM ALGUÉM EM CASA? ~ BRÜDER? ABRA A PORTA! MINHA INCÍVEL PESSOA CHEGOU!
Ludwig acordou em estado de alerta, com dois pulos já estava de pé pegando a primeira coisa no seu caminho (o espanador) e apontando para todos os lados, seus cabelos estavam bagunçados e seus olhos estavam arregalados á espera de um ataque de algum ninja assassino.
O ataque não veio, mas a barulheira não cessou, pelo contrário, ficava cada vez mais alta, as batidas mais insistentes e as esperanças do alemão de ter uma tarde tranquila cada vez mais inexistentes.
Só havia uma pessoa no mundo capaz de fazer um barulho daqueles.
–Brüder...
Escondendo o espanador no porta guarda-chuvas (depois o guardaria no lugar), Ludwig desligou a TV e caminhou até a porta. Antes de girar a maçaneta, o alemão passou a mão nos cabelos da franja os penteando para trás, respirou fundo duas vezes e só depois criou coragem para abrir a porta.
Assim que abriu-a encontrou dois orbes vermelhos lhe observando atentamente, Ludwig sorriu caloroso e abriu os braços esperando o grande abraço que receberia de seu irmão na sequencia.
Os dois ficaram assim por algum tempo, matando a saudade de ambos para depois de separaram e olharem para o alto, onde um passarinho amarelo voava em círculos enquanto piava loucamente.
–Senti falta dos seus passarinhos também, brüder.
–Quem não sente, não?- O albino riu e esticou o dedo para que a pequena ave pousasse, assim que ela o fez, Gilbert aconchegou-a no meio dos fios brancos de sua cabeça.
–Á propósito – Retomou Gilbert- Quero te apresentar uma pessoa – West, esse é o Rod!
Ludwig entendeu a necessidade de dois colchões, o outro homem se aproximou um pouco constrangido do alemão e assim que trocaram olhares, o austríaco soltou uma exclamação silenciosa, porém logo se recompôs, arrumando os óculos e apertando a sua mão.
– Me chamo Roderich Eldstein, é um prazer conhece-lo senhor Ludwig.
Gilbert deu uma risadinha atraindo a atenção de ambos para si.
–SENHOR Ludwig?
–Mas é claro seu idiota, como você quer que eu o trate?
–Não seja tão formal jovem mestre, chame de Ludwig, ou só Lud para os íntimos.
O austríaco relanceou os olhos para ao loiro em busca de aprovação, o alemão rolou os olhos num sinal de “que seja” e logo sorriu. Roderich entendeu o recado.
–Muito bem então LUDWIG – Olhou irritadiço para o albino – Muito prazer conhece-lo.
–Igualmente... anh... vamos entrar! Eu te ajudo com as malas.
Assim, Ludwig pegou uma das malas grandes enquanto Gilbert carregava outra, ambos levando-as para dentro e seguindo a indicação do alemão, deixaram-nas no quarto.
Quando entraram, o austríaco e o albino olharam e volta, só havia a cama e um colchão estendido. Ludwig logo se pôs á explicar.
–Eu não imaginava que o...Roderich viesse junto, então eu só aprontei um colchão...- Os dois se encararam e depois olharam fixamente para Ludwig — Mas tem o sofá ainda...
–Não precisa!- Respondeu Gilbert – Dividimos esse, né Rod? Você não se importa né?
–É claro que me importo! – As bochechas do austríaco ficaram escarlates
–Mas já fizemos isso não? Porque seria diferente agora? – Gilbert fez um biquinho fofo – O Lud não se importa né?
Ludwig corou e olhou para o teto tentando não se meter na conversa, entretanto ele ainda podia sentia os olhares de expectativa tanto do austríaco quanto de seu irmão caindo sobre si.
–F-faça como quiserem – Respondeu dando as costas
Roderich olhou-o indignação enquanto Gilbert sorria vitorioso
–Está decidido então! – Concluiu este
–Não está decidido nada, you fool!
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