As Águas de Veneza
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Já se passara uma semana desde o episódio do café e Ludwig parecia ter se esquecido completamente do garçom.
Ele simplesmente continuara a fazer as coisas com sempre tinha feito.
Acordava cedo, fazia seu café, se arrumava e saía para o trabalho. No trabalho passava horas trancado em uma sala com paredes na cor pastel e uma janelinha ridícula, essa janelinha dava para outra janelinha de outra sala com parede cor pastel do outro lado da rua.
Às vezes, bem raramente, quando era um trabalho simples, fugia da empresa e o fazia ao ar livre, em cafés por exemplo. Gostava de escutar as conversas vagarosas e os cochichos por de trás da tela.
Nesse emprego, se tinha uma coisa que Ludwig havia aprendido era que devia aproveitar as pequenas coisas.
E era isso mesmo o que ele fazia no momento. Enquanto andava pelo supermercado bancando o espião de caderneta, (ele adorava comparar preços de produtos) eis que encontra o preço das batatas duas vezes mais baixo que o de costume. Só havia uma coisa que Ludwig gostava mais do que batatas bonitas. Batatas bonitas e baratas.
Comprou logo um saco e colocou na cestinha.
Terminadas as anotações daquele dia, só lhe faltava pagar as batatas para ir embora. Mas antes de passar no caixa, precisava ainda pesa-las, como estava de bom humor hoje, resolveu que não teria problema se comprasse umas salsichas para acompanhar, e também um engradado de cerveja.
Chegando à fila da pesagem, percebeu que só haviam duas pessoas na sua frente, o que também era muito bom. Uma velhinha com um saquinho de chuchu, e um jovem com um saco de tomates. Este por sua vez parecia bastante furioso com a balança.
(Na Europa, não existe quem pese os alimentos para você, então basicamente você precisa se virar. Em muitos supermercados, a pesagem é feita no próprio caixa).
– Escuta aqui sua geringonça velha! Eu não preciso que goste de mim! Apenas cuspa essa merda de etiqueta, para eu pregar nessa merda de saquinho, pra que eu leve esses tomates para o bastardo do meu irmão fazer mais molho para a pasta. Cappiche?
O Italiano furioso tinha a estatura mediana, um pouco mais baixo que o alemão, olhos castanhos, cabelos castanho escuro divididos á esquerda e com um ahoge peculiar na lateral. Ele mantinha as sobrancelhas franzidas e batia o pé freneticamente enquanto apoiava as mãos na cintura, um gesto tipicamente espanhol.
A velhinha que separava Ludwig do rapaz se cansou de tudo aquilo e resolveu procurar outra maquina de pesagem. "Deve ser por isso que quase não tem fila aqui", constatou o loiro.
Agora a distancia entre os dois homens eram pouco mais de um braço, e visto que o italiano ainda não tinha esgotado o seu arsenal de ofensas, Ludwig começou a pensar se não seria uma boa ideia fazer como a velhinha do chuchu e sair de fininho. Ele realmente não queria estar ali quando aquela máquina quebrasse, pois agora, o outro dava tapas na lateral da balança enquanto gritava algo relacionado á pasta e “Chigi!”.
Arrumando as batatas na cestinha, Ludwig olhou para o chão em um gesto de pura irritação e percebeu um cabo negro saindo por de trás da balança e se esgueirando por entre as caixas. Aquele de certo era o cabo da maquina e o motivo dela não funcionar era porque estava desligada. Alguém acidentalmente deve ter enroscado o pé e puxado o fio, desligando-o.
Ludwig rolou os olhos e olhou novamente para o italiano á sua frente, ele de certo nem devia ter notado.
Em um gesto de consideração, Ludwig pousou a mão levemente por cima do ombro do outro tentando alerta-lo. Ele com certeza não teria sido tão sutil se hoje não fosse seu dia especial. Era tudo pelas batatas.
–Senhor- Sua voz acabou saindo forte, como se desse uma ordem
–Que é? — Se virou o italiano no mesmo tom de irritação.
–Caso não tenha percebido, a balança está desligada.
O rosto do menor assumiu uma expressão confusa por alguns segundos, mas depois voltou á antiga fisionomia carrancuda.
–É claro que eu sei que está desligada, só estava... testando! Para ver se estava mesmo, até fui eu mesmo quem desliguei!
E deu uma risadinha nervosa desviando os olhos para o chão
Ludwig apertou a boca e rolou os olhos. Só podia ser palhaçada.
–Então ligue horas! Tem mais gente que quer passar as coisas e ir embora!
–Não fique me apressando, batatão! Eu faço o que eu quero quando eu quero!
Agora o moreno tinha se virado completamente e estava pronto para discutir, ambos já tinham se esquecido das compras, das batatas, dos tomates e se encaravam de forma frenética.
–Não me chame de batatão! Você nem me conhece!
Os olhos azuis claros de Ludwig tinham adquirido um aspecto frio como aço e todo o seu rosto endurecera. Dava para perceber que o italiano estava intimidado, mas não abaixou o tom.
– Conheço o suficiente para saber que é um batatão bastardo! Não fique me apressando, eu vou ligar a balança quando EU quiser!
Toda a paciência de Ludwig tinha acabado. Aquele sujeito bem que merecia um bom soco na cara, ele só estava tentando ajudar e ainda era chamado de batatão! Aquela era a gota d’agua.
O alemão agarrou o pequeno italiano pela gola da camiseta e levantou, deixando o outro sem folego. Já tinha largado a cestinha no balcão de frutas próximo para preparar um soco quando um barulhinho na sua frente o despertou.
A tão bendita balança acabara de ser religada e estava imprimindo a etiqueta da velhinha do chuchu!.
Ela percebendo a atenção dos dois homens em si (até mesmo o italiano pendurado tinha tentado virar um pouco o pescoço), tratou logo de se desculpar.
– Eu até tentei procurar outras balanças, mas todas tinham filas enormes. Quando voltei aqui, vi os dois moços conversando tão animadamente que resolvi não interromper. Á propósito, este saquinho de tomates estava em cima da balança então tomei a liberdade de pesa-lo. É de algum de vocês?
Ludwig soltou o italiano que mais do que depressa pegou seu saco de tomates e saiu correndo pelos corredores. A velhinha sorriu amável e também se afastou, deixando o loiro pesar suas batatas.
XXX
Lovino em menos de dois minutos já havia pago o caixa e saído do supermercado ás pressas.
Ele realmente nunca mais queria ver aquele batatão bastardo de novo.
As ruelas de Veneza cobertas de lajotinhas pegavam o sol do meio dia e Lovino resolveu usar o barco-táxi para chegar a casa mais rápido. Estava com fome e odiava isso.
Era uma peculiaridade e um capricho veneziano poder andar no barco-taxi de um lado para o outro. Lovino passou boa parte de sua infância na Espanha e em Roma, á Veneza só vinha para visitar o irmão. Mas nem por isso deixava de ter certa inveja de Feliciano por poder desfrutar de uma cidade tão bonita todos os dias. Não que Roma não fosse bonita, claro que era! Mas tinha algo em Veneza que o provocava e ao mesmo tempo o irritava...
–... Uma magia, sabe?
– Oi?
Lovino nem tinha percebido que dissera a ultima parte em voz alta, ela por sua vez havia atraído a atenção do taxista-barqueiro que agora olhava para ele fixamente com suas orbes verdes intensas.
Lovino não pode deixar de corar ao encarar aqueles olhos. O taxista até que era bonito.
Ele tinha a pele bem bronzeada e o cabelo castanho bagunçado estava escondido por um chapéu de palha, parecia um pouco maior que ele, mas não muito, os olhos em um verde intenso, roupas simples e um sorriso simpático.
Lovino corou ainda mais e virou o rosto
–Não é da sua conta! Tsc!
O barqueiro não pareceu se ofender com a resposta mal criada, pelo contrário, seus olhos brilharam mais forte e se focaram no saquinho de tomate pousado no colo do italiano.
– Então... Você gosta de tomates?
Lovino se surpreendeu um pouco com o inesperado começo de diálogo.
–Gosto...
O barqueiro sorriu e se animou.
–Ah, que bom! Sabe, quando eu morava na Espanha meus pais tinham uma fazenda de tomates, eu sempre os ajudava com a colheita.
Agora o italiano estava interessado, Espanha e tomates?
–E-eu morei um tempo na Espanha também. Tinha uma fazenda de tomates perto da minha casa.
–Tinha? Whoa! — O barqueiro ficou extremamente alegre- Em que lugar da Espanha ficava a sua casa?
Lovino estranhou um pouco, não era possível que estivessem falando da mesma fazenda.
–Eu morava mais para o sul, a fazenda se chamava “Rico Tomate” ou alguma coisa assim, não que eu me importe...
O barqueiro sentiu as pernas bambearem, os olhos brilhavam tanto quanto esmeraldas.
–S-sério? Essa era o nome da fazenda dos meus pais! Que incrível! Quais são as chances?
O espanhol estava prestes a começar a dançar no barco, Lovino gelou e ficou tenso, não podia ser verdade. Desviou os olhos para a água e ficou calado. Percebendo o silencio do outro, o barqueiro tratou de se desculpar.
–Olha me desculpe. Devo ter te assustado, mas não era a minha intensão. É que eu cruzei a Europa para te encontrar, queria conversar com você... Sou eu, Anto...
–É, sei bem quem você é – O italiano rolou os olhos, pegou o saquinho de tomates e pulou do barco para a calçada, o que fez a embarcação balançar e derrubar o outro sentado, o chapéu lhe cobrindo os olhos.
Desequilibrando um pouco, Lovino chegou até a outra margem e saiu correndo para casa do ponto que estava, para falar a verdade ele nem sabia onde estava, mas se alguma coisa acontecesse ligaria para o seu irmão.
Enquanto corria, virou a cabeça uma ou duas vezes para ver o espanhol no barco, esse só teve tempo de levantar o chapéu e ver o outro desaparecer.
O espanhol sorriu de leve e sentiu uma brisa afagar o seu rosto enquanto se levantava. Era exatamente esse o menino com quem convivia na fazenda.
Lovino quando criança sempre corria para a fazenda “Rico Tomate” para assaltar a plantação. Uma vez, o barqueiro conseguiu pegar o pequeno no flagra e este ficou tão vermelho e tão fofo que o espanhol não conseguiu fazer nada. Seu coração falhou uma batida.
O menor aproveitou a situação e fugiu levando consigo uma sesta cheia de tomates. Depois desse dia, o barqueiro sempre ficava espiando entre os pés para ver se conseguia encontrar o pequeno outra vez. Mas mesmo que o encontrasse não conseguia se aproximar, Lovino sempre fugia com medo de ser pego.
Depois de um tempo parou de ver o menino, achou que conseguiria esquece-lo, mas os dias foram se tornando pequenas torturas, e a plantação não tinha mais a mesma graça de antes, por isso, depois de semanas pesquisando descobriu que morava na Itália e foi para lá, na esperança de reencontrá-lo.
Passaram-se oito anos e o italianinho estava lá, sentado no seu barco-taxi com uma cara emburrada e um saco de tomates. Exatamente como costumava ser. O espanhol deu um sorriso e escondeu o rubor com o chapéu de palha. Esse pequeno ladrão de tomates tinha roubado muito mais do que apenas frutinhas vermelhas, ele também tinha roubado seu coração.
XXX
Lovino chegou em casa um pouco mais tarde do que o combinado, tinha se perdido nas vielas veneziana, e depois de um pouco de esforço (sorte, diga-se de passagem) conseguiu chegar ao centro e de lá ir para casa.
Feliciano estava começando á ficar preocupado, porém quando perguntou onde o irmão esteve, recebeu uma daquelas respostas mal-criadas de sempre.
Resolveu ignorar, deu os ombros e pegou os tomates para terminar o molho na cozinha, torcendo para a comida não estar muito fria.
Lovino deitou no sofá de sapatos mesmo e resolveu tirar um cochilo até o almoço ficar pronto. A sala dos Vargas podia ser pequena mas era bastante confortável, especialmente em uma tarde quente como aquela. Lovino estava prestes a cair no sono quando acordou com o seu irmão o chamando aos berros na cozinha.
O italiano apareceu bufando na porta:
–Feliciano se for outra vez uma barata eu juro que...
O tom dele foi murchando assim que seus olhos encontraram o papel amarrotado na mão do seu irmão e o sorrisinho travesso no rosto dele.
– Parece que alguém tem um pretendente, fratello. Huhuhuhuhu.
Lovino mais do que depressa pegou o papelzinho das mãos de Feliciano e corou feito tomate. De caneta preta e letra garranchada estava escrito.
Antonio Fernandez Carriedo
Xxxx – xxxx
Me ligue!
–Aquele bastardo...
XXX
O almoço dos irmãos Vargas saiu tarde naquele dia por dois motivos. O primeiro era porque Lovino demorara a chegar em casa, o segundo foi porque ambos tiveram que limpar a cozinha toda, visto que Lovino havia tido uma de seus ataques de fúria e jogara tomate para todos os lados.
No fim, a pasta com tomates passou de almoço para jantar.
Eram 6 da tarde quando os irmãos começaram a comer, Feliciano achou que seria um bom momento para perguntar sobre o papel, aproveitando que seu irmão estava mais calmo.
– Fratello... – Os olhos de Lovino imploravam para que ele NÃO FIZESSE ESSA PERGUNTA, mas Feli fez assim mesmo. – De quem era aquele numero?
–Não é da sua conta, bastardo!
–E... Você pretende ligar?
Lovino olhou com fúria para o irmão e Feliciano temeu que ele atirasse o prato de macarrão na sua cabeça, invés disso ele simplesmente abaixou o olhar e respondeu em um tom de voz tão baixo que só Feliciano pôde ouvir.
–Só porque ele é um barqueiro com olhos verdes bonitos não significa que eu vá ligar.
Feliciano prestou atenção na fofura do irmão e acabando de enrolar a pasta no garfo levou á boca para prolongar o clima de tensão. Depois de mastigado ele respondeu divertido, apoiando ambas as mãos embaixo do queixo.
–Huhu, então ele tem olhos verdes é?
Só então Lovino percebeu o que dissera e enrubesceu. Feliciano não deixou que ele retrucasse.
–Se eu fosse você ligava. Não se pode perder as oportunidades, sabe? Se um homem bonito te dá o telefone o mínimo que você faz é ligar, certo?
Lovino se remexeu na cadeira e tentou comer mais um pouco, apesar de ter perdido a fome.
–Mas é justamente esse o problema. É um HOMEM... Eu... nunca...
E sua voz foi murchando.
Feliciano sorriu complacente. Lovino era um rapaz tímido e com sérios problemas de comunicação, por causa disso nunca tivera muitas amantes, quando mais muitos amantes. Na realidade, ele sempre vira seu irmão andando apenas com mulheres, e nenhuma delas foi considerada importante o suficiente para aparecer em Veneza e comer pasta por duas semanas seguidas. Mesmo depois de tudo isso ele aparecia com um telefone de um homem de Veneza, o que era muito estranho, pois seu irmão nunca tivera relações com ninguém dessa cidade.
–Fratello, não precisa ter medo, sim? Ligue para ele, saiam para conversar e comer, depois, se gostar, pode fazer isso de novo, é como uma garota entende?
–É...Mas... E se eu não gostar?
–Então você para de sair com ele. Ele é de Veneza certo? Nunca vai te descobrir em Roma.
A mente de Lovino deu um clic e ele achou que não poderia ser uma má ideia. Experimentar certo? Por que não?
–Tá, eu ligo. Mas se algo der errado, a culpa é inteiramente sua, ouviu?
Lovino dissera aquilo apontando o garfo cheio de pasta para seu irmão, fazendo algumas gotas de molho serem atiradas para longe. Feliciano sorriu e maneou a cabeça. Quem sabe aquele homem não poderia ser tudo o que seu irmão precisava?
Fale com o autor