Notas iniciais
Queria postar esse cap faz tempo, mas como o Nyah deu problema, só consegui postar agora... Boa Leitura

A semana se passara e logo chegou segunda feira. Lovino havia voltado para Roma no domingo a noite e Feliciano foi dormir logo depois da partida do irmão.

Hoje, o despertador tocou pontualmente as 5:30 na casa dos Vargas, mas Feliciano ainda ficou um tempo rolando na cama e enrolando para levantar. No fim, já batiam quase 6h quando o italiano resolveu se desenrolar das cobertas.

Foi ele ainda meio cambaleante de sono até o banheiro escovar os dentes e colocar uma roupa.

Sim, Feliciano dormia pelado.

Eram 7h quando Feliciano transpassou o portão de sua casa e começou á caminhar pelas ruas. Quem sabe o que acharia de novo hoje? Resolveu que iria á feira do Rialto cumprimentar os amigos, fazia tempo que não passeava por lá. O que o fez lembrar que precisava de mais tomates, já que depois de ler o bendito papelzinho, Lovino teve um acesso de fúria e tentou jogar todos da sacolinha no rosto do irmão, por sorte este já tinha salvo algumas frutas colocando-as na geladeira, mas ainda sim não era o suficiente.

Ambos passaram o resto da tarde de sábado tentando limpar a cozinha lambrecada de vermelho.

Feliciano passava pela tão famosa ponte do Rialto, esta que ligava a parte mais velha e a mais nova da cidade. A ponte era magnifica, toda feita em pedra branca com um único arco, perdurava desde 1500, sobrevivendo á revoluções e queimadas. Feliciano gostava particularmente da ponte porque nela conseguia ouvir todas as vozes que já ecoaram em Veneza, cada pedacinho da pedra o fazia lembrar da original em madeira, e do suor dos engenheiros e construtores. Das saias das mulheres, do barulho dos sapatos e das vozes dos turistas.

Depois das 9h a ponte sempre ficava lotada de estrangeiros e suas máquinas fotográficas, mas antes disso, especialmente de manhã, a ponte voltava para as mãos dos italianos, onde se conseguia ouvir predominantemente essa tão amada língua carregada de sotaque.

Pela manhã sempre se encontravam pessoas que como Feliciano se dirigiam Rialto. Muitos diziam que foi no Rialto que surgiu Veneza, o coração do livre comercio da cidade. Por lá se encontrava de tudo, frutas frescas, ovos frescos, peixes frescos... Com um pouco de pechincha e uma lábia aqui e alí podia-se levar tudo pela metade do preço. Ultimamente com a crise as coisas estavam mais difíceis, os preços acabavam mais salgados porque os comerciantes também precisavam de dinheiro, mas do mesmo jeito que eles não colocavam preços absurdos, os clientes tentavam não exigir muito. Era um sentimento estranho de solidariedade mutuo.

Feliciano caminhava pelas ruas como se fosse algum tipo de político, sempre acenando, cumprimentando, mandando beijos para as moças bonitas, que as vezes davam risinhos em retorno. A maior parte da freguesia do mercado eram senhoras de meia idade, boa parte já casada, outra parte já viúva ou separada. Ás vezes dava sorte, por cima dos gritos daquelas mulheres (que no Rialto era considerado o tom de voz normal) conseguia distinguir alguma conversinha mais animada de jovenzinhas. E usando todo seu charme Feliciano acabava conquistando-as, apesar de já conhecer a maioria.

Foi nesse clima que viu ao longe uma figura que com certeza não fazia parte do cenário. Bom, é verdade que o mercado é livre, mas você se acostuma com o rosto dos clientes e dos vendedores depois de um tempo. Aquele rosto ele nunca tinha visto antes.

Cabelos loiros cuidadosamente penteados para trás, pele branca meio rosada, alto. Ele estava na barraca de peixes alguns metros na sua frente, examinando alguma das mercadorias que Feli não pode distinguir. Mas quando se virou, Feliciano pôde perceber orbes azuis extremamente claras que brilhavam no sol. Por algum motivo, aqueles olhos pareciam conhecidos, era como se já tivessem se visto em algum tempo longínquo, mas que por obra do destino tivesse se esquecido.

O mundo pareceu parar para Feliciano. Dentro daqueles olhos estava o brilho que tanto procurava, a coisa especial que não encontrara em mais ninguém. Sim, aquele homem tinha nos olhos as águas de Veneza.

XXX

Ludwig estava visitando o mercado do Rialto pela primeira vez desde que chegara a Veneza. Estava ali por uma recomendação de uma colega de trabalho e nada mais. Ela dissera “É o melhor lugar para quem gosta de cozinha e de preços baixos”, Ludwig não gostava de cozinhar, até porque cozinhar sujava muito a cozinha, mas gostava de preços baixos. Aprendeu com um primo suíço que economia fazia tudo valer a pena, e visto que esse primo morava em uma bela casa, com uma bela mobília e uma bela dama ao seu lado (ele jurava que era só sua prima, mas Ludwig duvidava muito disso), ele resolveu seguir sue conselho.

Se programou para ir ao mercado pela manhã antes do trabalho visto que “as melhores coisas acabam rápido”. Estava tentando escolher algum peixe mais ou menos aceitável para fazer no jantar, quando notou que alguém á sua direita o olhava fixamente.

Desviou os olhos dos marinhos e do mercador para se focar no italiano que o encarava perplexo, sua boca estava aberta e ao que lhe pareceu ele poderia cair para trás á qualquer momento. Franziu o cenho e encarou-o fixamente esperando alguma reação, este pareceu reagir e desviou o olhar um pouco corado se ocupando em mexer com um grupinho de senhoras que passava.

Estranho. Muito estranho.

Ludwig voltou para seus peixes, mas não conseguiu deixar de pensar sobre o que deixara aquele rapaz tão perplexo. Agora que analisava bem a situação, a aparência daquele italiano não lhe era estranha, mas não se lembrava exatamente de onde o conhecia. Talvez fosse algum cliente de sua empresa. Talvez...

Virou-se novamente e passou a procurar o rapaz com os olhos, esse ainda conversava com o grupo de senhoras embora desse umas rápidas olhadelas para o seu lado. Quando percebia que o alemão outro fazia o mesmo, tratava de voltar a se focar na conversa da qual Ludwig não entendeu uma única palavra.

Todos naquele mercado falavam em um italiano muito rápido.

Ludwig tinha certeza. Ele não era nenhum cliente do escritório de contabilidade Geld, mas mesmo assim tinha essa impressão de que o conhecia. Tentou calcular o momento certo e virou os olhos de relance para o italiano e pôde ver que ele se parecia muito com o homem do mercado. Até o fio de cabelo era parecido, mas por algum motivo, apesar de extremamente parecidos (seriam parentes?) não eram a mesma pessoa.

Ludwig comprou um peixe já previamente cortado e pagou o vendedor, como já eram quase oito horas resolveu ir andando, ainda precisava passar em casa, deixar as comprar e chegar ao escritório 8:30h. Quando se virava reparou que o italiano fazia o mesmo, dava um aceno sorridente para as mulheres, e virava-se pela ultima vez para ele também, dando um aceno e mandando um beijo antes de sair correndo. Ludwig franziu o cenho antes de abrir a boca e quase deixar as compras caírem, o que aquele italiano tinha na cabeça? Eles nem se conheciam e já saía mandando beijo daquele jeito?

Ludwig tinha a impressão de que nunca entenderia a forma com que os italianos se comunicavam.

XXX

Era uma tarde simplesmente quente demais para se ficar naquela salinha de parede cor pastel, as paredes pareciam fornos e Ludwig não duvidava que fosse possível fritar um ovo nelas. O ar condicionado tão amado naquelas horas havia quebrado e agora as coisas estavam realmente complicadas para o alemão.

Se fosse um pouco mais rebelde trancaria a porta e trabalharia sem a camisa, mas sua consciência doía só de pensar na ideia. Resolveu que era melhor ir para fora e terminar o trabalho em outro lugar( de preferencia um com ar condicionado), era isso ou morrer assado naquela salinha. Trabalhar sem camisa estava fora de cogitação.

Já fora do escritório maçante das paredes cor de pastel, Ludwig se sentia um pássaro livre para voar, mas seu notebook com trabalho para terminar ainda pesava em seus braços. Precisava encontrar um lugar com Wi-fi e ar condicionado rápido, a rua também estava um inferno.

Como é possível fazer tanto calor na primavera?

O único lugar que Ludwig conseguiu pensar que atendesse todos os seus requisitos era o Café do Centro, que não ficava tão longe assim do escritório. Só de pensar em um lugar mais fresco, o alemão desapertou um pouco a gravata e rumou rua acima.

Assim que chegou à frente do café e empurrou a porta, Ludwig sentiu uma baforada de vento gelado acariciar seu rosto. A sensação mais maravilhosa de todas. O café não estava lotado AINDA. Então tratou logo de encontrar uma mesa mais reservada para terminar o trabalho.

Sentou-se, arrumou o notebook, plugou-o na tomada e resolveu pedir um café. Levantou a mão e um garçom loiro e muito jovem veio atende-lo, pediu um expresso e uns bolinhos.

O café logo veio, mas não foi o mesmo garçom que o serviu, e sim, o rapaz que o encarava na feira. Dessa vez quando se viram sua boca não caiu, nem congelou no mesmo lugar, muito pelo contrário, ele se aproximou do alemão com um sorriso tão doce que Ludwig se perguntava como era possível alguém sorrir assim.

–Seu café e bolinhos senhor.

–Ah, obrigado.

E o garçom já ia se afastando quando Ludwig o chamou de novo, sim, ele prometera para si mesmo que não faria essa pergunta, mas a curiosidade de um homem não pode ser contida.

–Escuta, era você hoje na feira do Rialto?

O outro desviou o olhar

–Era...

–Por que me encarava tanto?

–É que... Eu...

Feliciano não podia dizer simplesmente que Ludwig tinha uma aura que o atraía e que o diferenciava das outras pessoas, se dissesse isso, na melhor das hipóteses seria mandado para um hospício. Então... que desculpa dar?

Feliciano disse a primeira coisa que lhe veio á cabeça.

–É que eu... Achei que se parecia com outra pessoa...

O alemão olhou boquiaerto

–Sabe que eu também tive essa impressão, só não consegui me lembrar exatamente de onde.

Agora Feliciano foi quem ficou surpreso, resolveu que continuaria o rumo da conversa.

–Sim, sim. Foi exatamente isso o que eu pensei.

Não era do feitio do alemão começar conversas com pessoas que nem conhecia, nunca foi uma pessoa muito sociável, mas por algum raio de um motivo, ou então pelo próprio calor aquecendo seus neurônios, resolveu que deveria saber mais sobre aquele rapaz esquisito. Os dois engataram uma conversa a partir daí, mas quando Feliciano foi chamado na cozinha para atender outra mesa ambos combinaram que conversariam mais no fim de expediente.

Ludwig aproveitou o tempo para terminar o trabalho e apreciar a visão do café e é claro, de Feliciano.

Ele aos olhos do alemão parecia gracioso, até mesmo para um homem. Corpo magro e atlético, pele um pouco bronzeada de sol, cabelos castanho médio, olhos cor de mel e um sorriso doce que sempre prevalecia em seus lábios finos.

O alemão gostava particularmente de como Feliciano desfilava graciosamente entre as mesas com bandejas até os ombros. As viradas de quadril, os movimentos sutis dos fios de cabelo, a agilidade nos pés, aquilo tudo prendia o olhar do outro.

Foi mais por esse motivo do que pelo relatório extremamente chato que ficou até o fechamento do café. Os funcionários já iam embora quando Feliciano se aproximou da mesa de Ludwig enquanto este com a conta já paga guardava o notebook na case.

–Veeee~ Vamos?

–Vamos aonde?

– Ao piazza, é melhor para se conversar, e também, está uma linda noite de primavera. Fico feliz de ainda estar um pouco claro.

Ludwig concordou e se perguntou mentalmente qual era a definição de claro para os italianos, eram 7:30h da noite e tudo o que ele via era o céu que mudava de cor a cada movimento do sol poente.

É, estava realmente uma noite bonita.

Os dois caminharam lado a lado pelas ruas, Veneza realmente era linda quando escurecia. Na piazza, enquanto se sentavam, ambos escutaram uma canção vinda de algum lugar entre as arvores, a conversa deles foi embalada pela musica do cantor solitário.

Vamos andar pela noite
Como se fosse o dia, se o dia fosse.
E ninguém, ninguém nos verá.
Somos diferentes
Mas estaremos iguais a qualquer um.

E os dias serão como as noites
Como nunca foram antes
E também será como o vento: livre, livre...

E ainda igual será o pranto.
Andaremos juntos
E então poderemos ver as crianças esquecidas
Esquecê-las talvez nos traga uma dor menor
Do que vê-las, do que vê-las secarem no tempo.
Secarem no tempo
.

Escutando aquela música e vendo aquele italiano sorrir a mente de Ludwig deu um clic e ele começou a se lembrar de coisas que sinceramente, queira esquecer.

Lembrou-se de um quarto branco, de uma maquina barulhenta que ficava apitando, se lembrou de uma dor imensa na cabeça... E do seu irmão Gilbert gritando alguma coisa sobre o quanto ele era incrível.

Lembrou-se de médicos, de termômetros, de gessos, de roupas que deixavam sua bunda de fora, de cadeiras vazias e de passarinhos amarelos. Ah! E do seu irmão falando o quão eles eram incríveis.

Lembrou-se de cadeiras de rodas, de jardins bem cuidados, de pássaros amarelos, de lágrimas derramadas e do seu irmão o abraçando e dizendo o quão incrível ele era.

Por ultimo se lembrou de sessões de retrocesso, de apartamentos cheios de caixas, de ter ouvido seu irmão chorar a noite, de mais sessões, de treinos puxados, do seu avô, de flores, de uma camponesa...

–...Ludwig? Ludwig!

Ludwig despertou dos seus devaneios, ele não sabia porque sua mente havia lhe guiado para as lembranças da infância, se é que podia chama-las de lembranças... Alguma coisa naquela musica e naquele homem o lembravam de... Ele não sabia o que era, mas era forte e isso lhe dava medo.

–Ahn... Me desculpe, me distraí um pouco, sobre o que falava?

Feliciano sorriu, ele não era o único a ter se distraído. Enquanto tentava contar á Ludwig sobre o seu trabalho ele se lembrou de um passado bem distante. Se lembrou do orfanato austríaco no qual passou uma parte de sua infância antes de vir morar em Veneza.

O orfanato do senhor Edelstein era um dos mais famosos da Áustria, talvez pela sua beleza, talvez pela sua rigidez, talvez pelo talento das crianças que lá cresciam. Feliciano se lembrava de ter entrado lá principalmente pelos seus dons com a pintura, seu irmão fora mandado para a Espanha, mas nunca soubera exatamente para onde.

No orfanato ele conheceu um menino esquisito e extremamente tímido, não tinha amigos e sempre ficava isolado, por algum motivo o homem na sua frente lhe lembrava em muito aquele menino, mas não era possível que fossem a mesma pessoa, até porque aquele garoto havia morrido em um acidente de carro á muitos anos atrás.

Feliciano balançou a cabeça afastando as memórias.

–Nada importante, na verdade, eu estava perguntando se seria muito pedir que nos encontremos amanhã, por que... Já é de noite e eu ainda não fiz a janta... E... Você deve ter seus compromissos...

Feliciano olhou para o notebook e Ludwig entendeu o recado, podiam conversar amanhã.

–Certo. Mas amanhã eu decido para onde vamos.

–Pode ser.

Os dois se despediram com sorrisos e acenos de mão. E enquanto caminhavam, as sombras do passado ressurgiam dentro dos seus corações.

Notas finais
A musica se chama: Meia noite na "Veneza" do grupo Severinos. Eu gostei mais da letra do que do ritmo dela, e quando eu vi pela primeira vez, achei que combinava super com esse momento. Até a próxima o/