Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato

2 CAPÍTULO 2: NOTIFICAÇÕES DE NATAL


O sol de 25 de dezembro nasceu com uma insolência que Arthur não estava preparado para enfrentar. Após passar a madrugada em claro, as primeiras luzes que atravessavam a fresta da persiana pareciam agulhas perfurando seu cérebro carregado de cafeína e adrenalina literária. Ele não dormira. Pela primeira vez em anos, as palavras não haviam sido arrancadas; elas haviam transbordado, impulsionadas pela fúria e pelo desafio de @H_Lena.

Seu celular vibrou em cima da mesa de cabeceira. Ele esticou o braço, sentindo cada músculo das costas protestar pelo tempo na mesma posição.

@H_Lena: "Bom dia, Escritor. Sobreviveu à primeira noite de combate com o teclado ou o dragão da procrastinação te devorou no café da manhã?"

Arthur sorriu involuntariamente. Havia algo naquelas notificações que disparava um gatilho de dopamina que ele nunca sentira com os comentários elogiosos de seus leitores habituais. Helena não o tratava como um ídolo; ela o tratava como um adversário à altura.

Arthur: "O dragão perdeu uma asa. Escrevi três mil palavras. Mas não se empolgue, metade delas foi dedicada a encontrar formas criativas de provar que você está errada."

@H_Lena: "Três mil palavras? Cuidado para não ter uma câimbra mental. E sobre eu estar errada... bem, o texto dirá. Agora vá cumprir suas obrigações sociais de Natal. Escritores solitários tendem a ficar ranzinzas se não comerem um pouco de rabanada."

Arthur soltou um suspiro pesado. Natal. Ele havia esquecido completamente da ceia de almoço na casa da tia Margot. O convite estava pregado na geladeira há semanas, um lembrete de que, para o resto do mundo, ele era apenas o "sobrinho que mexe com computador e escreve historinhas".

Duas horas depois, Arthur estava sentado em uma mesa barulhenta, cercado por primos que discutiam sobre investimentos e tias que perguntavam, pela décima vez, quando ele arranjaria um "emprego de verdade". O cheiro de peru assado e arroz com passas preenchia o ar, mas sua mente estava a quilômetros dali. Ele estava em uma torre de pedra, no meio de uma tempestade mágica, tentando descrever o perfume da personagem feminina sem usar a palavra "floral".

— Arthur? Está me ouvindo? — Sua mãe o cutucou no braço. — Eu perguntei se você quer mais salpicão. Você está com a cabeça na lua.

— Ah, desculpe, mãe. Só estou... pensando em um desdobramento. De um projeto.

— Aquele livro que você escreve há mil anos? — um dos primos riu, com a boca cheia de farofa. — Cara, desiste. O mundo mudou. Ninguém mais lê épicos, agora o negócio é vídeo de cinco segundos.

Arthur apertou o garfo com força. Antigamente, aquele comentário o faria murchar. Mas hoje, ele sentiu o celular vibrar no bolso. Era como um segredo compartilhado, uma arma carregada.

Ele pediu licença e foi para o jardim da casa, sentando-se sob a sombra de uma mangueira. O calor do paraibano em dezembro era implacável, mas a brisa que vinha da praia próxima trazia um alento.

Arthur: "Estou preso em um almoço de família sendo chamado de relíquia histórica. Minha musa crítica tem razão: talvez eu seja apenas um fantasma literário assombrando a própria vida."

@H_Lena: "Não ouse usar sua família como desculpa para o melodrama, Arthur. Fantasmas não escrevem três mil palavras em uma noite. Você está sendo atacado pelo 'Vírus do Coitadismo'. Quer que eu te mande uma receita de coragem ou uma foto da praia para você lembrar do que está perdendo?"

Arthur: "Uma foto da praia. Quero ver se o mar aí é tão tempestuoso quanto suas críticas."

Alguns segundos depois, o arquivo foi carregado. Não era uma foto panorâmica da orla. Era uma imagem em close-up de um par de pernas bronzeadas estendidas sobre uma canga colorida, com o mar azul ao fundo, levemente fora de foco. No colo dela, um livro de capa dura e um marcador de páginas que Arthur reconheceu imediatamente como sendo de uma edição limitada de colecionador.

O coração dele deu um salto. Ela tinha pernas lindas, mas era a forma como o livro descansava sobre sua pele que o perturbou. Parecia uma cena de um dos seus próprios parágrafos proibidos.

@H_Lena: "O mar está calmo, Arthur. Quem está agitada sou eu. Este autor que estou lendo é bom, mas falta a ele a sua... intensidade bruta. Ele é educado demais. Você, por outro lado, escreve como se quisesse socar o leitor no estômago. Eu gosto disso."

Arthur sentiu a boca seca. O diálogo estava cruzando uma linha invisível. Não era mais apenas sobre a fanfic. Era sobre a eletricidade que corria entre dois estranhos que se conheciam apenas pelas frestas das palavras.

Arthur: "Você gosta de ser socada no estômago, Helena? Ou prefere que o autor te deixe sem fôlego de outras formas?"

Ele postou e imediatamente quis jogar o celular na piscina. O que eu estou fazendo?, pensou. Eu sou o cara que gagueja para dar bom dia ao porteiro!

A resposta de Helena demorou cinco minutos. Para Arthur, pareceram cinco horas.

@H_Lena: "Um bom escritor sabe que o impacto é necessário, mas a carícia é o que faz a história durar. Você tem o impacto, Arthur. Falta descobrir se tem a delicadeza. Kaelen, seu protagonista, nunca tirou a armadura para ninguém. Nem mesmo para a mulher que ele diz amar. Por que você tem tanto medo da vulnerabilidade dele? Ou melhor... da sua?"

Arthur respirou fundo, o ar quente queimando seus pulmões. Aquela mulher não era apenas uma leitora; ela era uma força da natureza que estava desmontando suas defesas, tijolo por tijolo.


Arthur: "Vulnerabilidade é um terreno perigoso. Se você tira a armadura e o inimigo ataca, o dano é fatal."

@H_Lena: "Mas se você nunca tira a armadura, nunca sente o toque de ninguém. E uma vida sem toque é apenas uma sobrevivência bem escrita. Se você terminar esse capítulo até amanhã, eu te conto um segredo sobre o que acontece com mulheres que desafiam cavaleiros armados."

Arthur voltou para o almoço de família com um brilho diferente nos olhos. Ele não ouviu as piadas dos primos nem as reclamações das tias. Ele apenas comia mecanicamente, enquanto sua mente trabalhava em uma cena de diálogo entre Kaelen e a princesa exilada.

Ele percebeu que Helena estava fazendo com ele exatamente o que ela exigia que ele fizesse com sua história: ela estava injetando realidade. Ela era doce no tom, sensual na forma como provocava e ousada na maneira como o colocava contra a parede.

Ao chegar em casa, no final da tarde, Arthur não foi para a cama descansar do cansaço do Natal. Ele foi direto para o computador. O quarto estava quente, mas ele não ligou o ventilador. Ele queria sentir o calor. Ele queria que o desconforto o mantivesse alerta.

Ele abriu o arquivo e releu as últimas linhas. O tom estava mudando. A fantasia épica estava ganhando camadas de humanidade que ele sempre evitara. Ele começou a descrever a cena em que o protagonista, após anos de batalhas, finalmente se vê sozinho em uma cabana com a mulher que assombra seus sonhos.

“Kaelen não sabia como desabotoar o corpete dela sem que suas mãos, acostumadas ao peso da espada, parecessem brutas demais. Ele temia que seu toque fosse uma profanação...”

Arthur parou. Apagou "profanação".

Substituiu por: “Ele temia que, ao tocá-la, ela percebesse que por baixo da couraça de herói, existia apenas um homem faminto por ser visto.”

O celular apitou novamente.

@H_Lena: "Parei de ler por hoje. Vou sair para ver o pôr do sol. Espero que o barulho das teclas esteja abafando o som das suas dúvidas. Feliz Natal, meu escritor teimoso."

Arthur: "Feliz Natal, Helena. E obrigado por não me deixar comer o salpicão em paz."

Ele desligou o monitor por um momento, fechando os olhos. A imagem das pernas de Helena na praia e a textura do livro sobre sua pele se fundiram com a imagem da princesa na cabana. A linha entre o que ele estava escrevendo e o que ele estava sentindo estava se tornando perigosamente tênue.

Ele sabia que, se continuasse naquele ritmo, o capítulo não seria apenas uma conclusão para uma história de dez anos. Seria uma confissão. E o pensamento de que Helena leria cada uma daquelas palavras "vulneráveis" o apavorava e o excitava na mesma medida.

Arthur voltou a digitar. O Natal estava acabando, mas a história de sua vida estava apenas começando a ganhar seus parágrafos mais importantes. Ele tinha seis dias. Seis dias para deixar de ser um fantasma e se tornar o homem que Helena acreditava que ele poderia ser. E, pela primeira vez, ele não tinha intenção de atrasar o prazo.