Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato

3 CAPÍTULO 3: A PROPOSTA DA INDECÊNCIA


O dia 26 de dezembro amanheceu com aquele silêncio melancólico que sucede as grandes festas, mas para Arthur, o silêncio era povoado por vozes fictícias e uma notificação bem real. Ele havia dormido apenas três horas, e seu rosto no espelho refletia as olheiras de quem travava uma guerra interna. A adrenalina do Natal havia passado, dando lugar a uma ansiedade gélida: o medo de que o que ele estava escrevendo não fosse bom o suficiente para o "prêmio" que Helena sugerira.

Ele se sentou à mesa com uma caneca de café preto, tão forte que poderia despertar um morto, e abriu o notebook. Antes mesmo de ler o que escrevera na noite anterior, seu celular vibrou.

@H_Lena: "Sobreviveu à ressaca de rabanada? Ou a realidade do dia 26 te fez perceber que prometer um final épico em sete dias foi um delírio febril?"

Arthur sentiu o desafio percorrer sua espinha. Ele digitou rápido, os dedos ainda meio rígidos pelo frio do ar-condicionado.

Arthur: "O delírio continua, mas agora ele tem roteiro. Kaelen finalmente tirou as botas. Isso já é um progresso maior do que fiz nos últimos três anos."

@H_Lena: "Só as botas? Você é um romântico à moda antiga ou apenas um procrastinador de preliminares, Arthur? O relógio está correndo. Dia 01/01 eu pego um voo de volta para a selva de pedra. O tempo é o seu único vilão agora."

Arthur parou o gole de café no meio do caminho. Voo de volta. A transitoriedade de Helena tornava tudo mais urgente. Ela era um cometa passando pela sua órbita monótona, e se ele não a alcançasse agora, ela desapareceria no vácuo de São Paulo, tornando-se apenas mais uma lembrança digital.


Arthur: "Por que a pressa, Helena? Você me deu um prazo, mas parece mais ansiosa do que eu para ver esse ponto final."

A resposta veio em um áudio. Arthur hesitou antes de dar o play. A voz dela era profunda, com um leve sotaque paulistano e uma cadência que misturava diversão e algo que ele só conseguia descrever como "promessa".

"Eu não estou com pressa do final, Arthur. Estou com pressa de ver se você é capaz de sustentar o olhar do seu destino. Você escreve sobre heróis que enfrentam deuses, mas treme quando uma leitora te desafia a ser real. Eu quero que você termine porque eu quero ver quem você é quando não tem mais nenhuma página para se esconder. E se o final for tão bom quanto eu espero... bem, a proposta está de pé. Eu estou em um loft de um amigo que viajou, aqui na orla. Tem uma varanda com vista para o mar e um estoque de vinho que não acaba. Se o capítulo for postado até as 23h59 do dia 31... você vem buscar sua crítica pessoalmente."

Arthur sentiu o estômago dar um solavanco. Não era mais uma brincadeira de fórum. Era um contrato. Uma proposta indecente, envolta em literatura e mistério.

Arthur: "Isso é um suborno, Helena. Você está tentando corromper a integridade artística do autor."

@H_Lena: "Não, querido. Estou tentando dar ao autor uma memória que valha mais do que um milhão de visualizações. Agora pare de digitar para mim e comece a digitar para o Kaelen. Ele tem uma princesa esperando por ele, e você tem uma mulher perdendo a paciência."

Arthur fechou os olhos por um segundo, tentando processar a informação. Um loft. Vinho. Ela. A imagem de Helena — que ele ainda não conhecia completamente, mas cujas pernas bronzeadas da foto de ontem não saíam de sua cabeça — tornou-se o combustível que ele precisava.

Ele voltou ao texto. O Capítulo 85, o famigerado capítulo que deveria unir o casal protagonista após uma década de separação, estava parado em uma descrição de paisagem. Ele selecionou todo o parágrafo sobre as montanhas de gelo e apertou Delete.

— Chega de montanhas — murmurou para si mesmo. — Vamos ao que interessa.

Ele começou a escrever o diálogo. Kaelen e a Princesa Elara estavam em uma caverna, protegidos da neve por um feitiço de fogo que estava enfraquecendo. O clima era de despedida, de "agora ou nunca". Arthur usou a voz de Helena em sua mente como guia. Cada vez que ele tentava ser poético demais, imaginava ela dizendo: "Seja real, Arthur!".

“— Você não pode esperar que eu ignore o que aconteceu entre nós — disse Elara, a voz falhando enquanto a luz das chamas dançava em seu rosto. — Não somos mais as mesmas crianças que brincavam no jardim do castelo. O tempo nos quebrou.

Kaelen se aproximou, o peso da armadura parecendo insuportável pela primeira vez. Ele não a olhava como um soldado olha para sua soberana. Ele a olhava como um homem olha para a única coisa que o impede de se tornar cinzas.”

Arthur parou. Ele sentia que estava chegando perto, mas faltava o "tempero". Ele precisava de mais inspiração. Ele pegou o celular e, em um ato de ousadia que não combinava com seu histórico de timidez, enviou:

Arthur: "Helena, preciso de uma consultoria técnica. Elara está prestes a confessar o que sente, mas ela é orgulhosa. O que uma mulher como você diria para um homem que levou dez anos para perceber que o mundo pode acabar, mas que ela é a única coisa que importa?"

@H_Lena: "Uma consultoria, é? Você cobra caro por hora? Brincadeira... Se eu fosse a Elara, eu não diria nada com palavras, Arthur. O silêncio dela seria uma pergunta. Eu diria: 'Você lutou contra exércitos, Kaelen. Por que está com tanto medo de mim?'. Homens acham que o desejo precisa de grandes discursos. Mulheres sabem que o desejo só precisa de espaço para respirar."


Arthur: "E o que ela faria se ele continuasse parado, como um idiota de metal?"

@H_Lena: "Ela faria o que eu faria agora se estivesse na sua frente. Ela tiraria a luva dele, dedo por dedo, olhando fixamente nos olhos dele, para mostrar que, sem as armas, ele é apenas pele e pulsação. O toque é a única verdade que não pode ser editada, Arthur."

O escritor sentiu um arrepio. Ele digitou exatamente isso. A luva. O toque. A pele. As palavras começaram a fluir com uma rapidez assustadora. Ele não estava apenas escrevendo uma fanfic; ele estava tendo uma prévia do seu próprio encontro.

No entanto, em meio ao fluxo criativo, um pensamento sombrio o atingiu: E se ela se decepcionar? Helena parecia tão segura de si, tão experiente e ousada. Arthur era o cara que vivia em mundos imaginários porque a realidade era confusa demais. Ele era virgem. Ele nunca tinha tido aquela conexão física que estava descrevendo com tanta propriedade agora. Se ele ganhasse o desafio, ele teria que performar. Ele teria que ser o Kaelen na vida real.

O pânico começou a subir. Ele parou de digitar. O cursor voltou a pulsar, acusador.

"Como concluir sem inspiração?", ele se perguntou anos atrás. Agora a pergunta era outra: "Como concluir sabendo que o final do livro é apenas o começo de algo que eu não sei como manejar?"

Ele olhou para a tela. Ele estava entre dois fogos: a vontade imensa de desistir para preservar sua zona de conforto e a vontade avassaladora de encontrar Helena e descobrir se ele era capaz de ser o homem que ela via através de seus textos.

Ele decidiu arriscar. Se ele ia cair, que fosse das alturas de sua própria imaginação.

Arthur: "A consultoria foi útil. O capítulo está ganhando vida. Mas aviso: Kaelen é um guerreiro, mas ele nunca foi amado. Ele pode ser um desastre na primeira tentativa."

@H_Lena: "É por isso que as histórias têm revisões, Arthur. E é por isso que eu gosto de desafios. Um desastre honesto é mil vezes melhor do que uma perfeição fingida. Agora volte ao trabalho. O dia 26 está acabando e você ainda tem cinco capítulos de emoção pura para entregar."

Arthur sorriu, bebeu o resto do café frio e voltou a digitar. Ele não sabia se seria um desastre ou um herói na noite de Réveillon, mas sabia de uma coisa: ele nunca esteve tão inspirado para escrever um "Fim"