Arsonist's Lullaby- Interativa

24 XXIII- Season of The Witch


Notas iniciais
Hello! Esse capítulo foi especialmente divertido de escrever, espero que gostem! Boa leitura ♥

Não há nada mais ritualístico e intrincado que os preparativos que antecedem um baile, caro leitor. Posso afirmar com segurança que até mesmo os preparativos para feitiços grandes e complexos carecem de tamanha finesse e intencionalidades emaranhadas.

À essa altura de nossa história, já deve ter percebido que nada de bom costuma sair dessas pomposas reuniões sociais, e que a aglomeração de pessoas parece atrair a desgraça como sangue na água atrai um tubarão. Mas, não se engane, leitor, por mais que para nós isso já esteja exaustivamente óbvio, alguns seletos personagens ainda não haviam aprendido a se privar de ter esperanças.

Henrietta Raycraft vestia suas sedas e joias como um guerreiro vestiria sua armadura, como se estivesse marchando para a maior batalha da sua vida. O perfume aplicado cuidadosamente em seus pulsos, o chapéu combinando com o leque e os sapatos, seus brincos de diamantes prediletos. Tudo parecia milimetricamente calculado e ensaiado, assim como o sorriso que ela sustentou em frente ao espelho até que parecesse convincente o suficiente para mascarar sua tensão.

“Não vai ser tão ruim assim. Missa. Jantar. Dançar um pouco. Tornar tudo tão maçante que os convidados vão embora antes que o sol se ponha”— ela pensou consigo mesma, se olhando no espelho uma última vez e marchando até a carruagem que já a esperava do lado de fora de sua residência.

Ainda assim, mesmo fazendo seu melhor para transmitir segurança, ela não sentia sequer um fragmento ínfimo do que exibia em seus gestos. Um dos incêndios havia sido nos jardins do Palácio. Sem nenhuma vítima, mas isso foi rapidamente compensado pelo próximo, que também envolveu pessoas da nobreza e ceifou duas vidas em veloz sucessão.

Ela não teve muito mais tempo de pensar em seus medos e apreensões. A carruagem parou em frente à capela do Palácio, as portas se abriram, e ela marchou para dentro sem olhar para trás.

Antigone já estava dentro da igreja, assentada em um dos bancos mais posteriores. Os olhares de ambas se cruzaram, e Henrietta aquiesceu silenciosamente. Haviam repassado o plano no dia anterior, e, em meio à congregação, vários agentes já estavam posicionados, e em absoluto alerta. Tudo estava engatilhado para fluir conforme os planos. Não havia nada a temer. Ou havia?

A cabeça de Henrietta doía. Sempre piorava quando ela estava tensa. Ou quando estava em abstinência. Tudo o que ela queria era sentir uma agulha abrindo caminho por suas veias, ou os lábios de Edward em seu pescoço, qualquer coisa que tirasse ao menos um fragmento daquele vazio voraz e furioso dentro de si. Mas ela não podia ceder à tentação, não naquele lugar, não naquele momento. Titubear seria a morte dela, a morte de todos eles, e ela não poderia se dar ao luxo de nublar seu próprio julgamento com qualquer tipo de substância.

A voz do pastor era como um sussurro vago e distante em seus ouvidos, semi-distorcido pelos berros estridentes de todos os seus pensamentos embaralhados. Ela poderia jurar que um dos anjos esculpidos no painel atrás dele a estava encarando com julgamento. Ela poderia jurar que sua pele estava em chamas, mas provavelmente era apenas o nervosismo.

Ainda assim, a desagradável sensação de estar sendo observada persistia, e ela teve de respirar fundo por vários minutos até conseguir se concentrar novamente.

Bem no momento em que conseguiu voltar a focar seu olhar no altar, um barulho abafado atrás de Henrietta a fez virar o pescoço por cima do ombro, e o que ela viu não poderia ter sido mais inesperado e mais mundano ao mesmo tempo.

Leonard Cohen marchava com passos firmes para dentro da igreja, um sorriso agradável e discreto em seu rosto. A mais absoluta naturalidade permeava cada um de seus movimentos, a convicção absoluta de que ele estava exatamente onde pertencia era visível em sua desenvoltura.

“Ele deveria estar morto. Todos achamos que ele estava morto. O que ele está fazendo aqui?”— Henrietta pensou, não conseguindo parar de encarar o homem que se encaminhava até um dos bancos na parte anterior da igreja.

Mas Leonard não pareceu perceber a pequena comoção que seu surgimento causou entre os agentes disfarçados em meio à congregação. Seu olhar estava focado em algum ponto à sua frente, focado em algo. Ou alguém. Seguindo a direção de suas atenções, Henrietta logo achou o suposto alvo de Leonard: uma jovem loira e muito bonita, que parecia completamente alheia ao homem até então.

Cecily Campbell, ela reconheceu.

Era de notório saber que a jovem Condessa atraía a mais diversa gama de admiradores em meio à Corte. Filha única de seu pai, herdeira dos títulos e fortunas, bonita, prendada, e cobiçada; não haveria de ser diferente. A própria Henrietta já havia estado em uma situação semelhante, sendo a única filha e herdeira de seus pais, e considerada uma donzela deslumbrante em sua juventude. Por isso mesmo não invejava a posição de Cecily, sabia o tipo de tragédia que todos esses dons acumulados em uma mocinha ingênua poderiam atrair.

Mas o olhar que Leonard fixava em Cecily era um tipo diferente de cobiça. Um estudo cuidadoso, lento, de cada gesto da jovem Condessa. Não paixão, ou luxúria, ou sequer inveja; aquilo era um tipo de chama que queimava fria e insidiosa, e por isso mesmo Henrietta se surpreendeu que, ao capturar o olhar de Cecily, Leonard tenha sorrido para ela. E que ela tenha sorrido de volta para ele.

Ele era um homem bonito, e Cecily gostava de provocar, não deveria ser estranho esse pequeno flerte. Mas algo ali estava errado, muito errado.

Sem querer, Henrietta pensou em Edward, no modo como ele a olhara naquele primeiro dia na Ópera, na atenção obstinada por detrás daqueles olhos cinzentos. Era o mesmo tipo de obsessão que ela observava em Leonard naqueles instantes em que ele e Cecily voltavam a roubar olhares um do outro.

“O que um homem que deveria estar morto quer com a garota Campbell? E o que ele está fazendo aqui, depois de ter testemunhado aquele incêndio?”— ela se perguntou.

As coisas pareceram ainda piores e mais estranhas para Henrietta conforme, findada a missa, e as pessoas começaram a caminhar até a sala de jantar; Leonard ir até um nobre de meia idade (Lorde Beauclerk? Ela não conseguia se lembrar com total certeza do nome do homem, mas essa era a menor de suas preocupações) e indicar Cecily com a cabeça. O Lorde assentiu, e então se encaminhou com certa pompa até a jovem, e apresentou Leonard a ela.

Um plebeu, por mais rico que fosse, não deveria dirigir a palavra a uma nobre tão levianamente. Mesmo que com a introdução de um outro nobre, esse não era um tipo de cortejo ao qual uma Condessa deveria ser receptiva. Mas Cecily pareceu receber as atenções de bom grado, e aceitou o braço que Leonard lhe ofereceu, permitindo que ele a conduzisse até o jantar.

Algumas pessoas ao redor deles começaram a cochichar, e era de fato um pouco escandaloso que uma jovem dama da alta sociedade fosse tão liberal com suas atenções, ainda que Leonard fosse um homem bonito e rico. E a própria Henrietta não pôde deixar de lançar um olhar alarmado na direção de Antigone, que também observava o par de longe, mas por motivos completamente diferentes dos fofoqueiros de plantão.

Antigone Lascelle, caro leitor, estava, inclusive, igualmente preocupada com o ressurgimento repentino e suspeito do até então “dado como morto” jovem Cohen.

Essa preocupação era um consenso, até mesmo para as pessoas que nada tinham a ver com a Ordem, e que nada sabiam dos eventos sobrenaturais que cercavam o rapaz, conforme os sussurros que ela ouviu durante a missa. O pai dele havia acabado de ser brutalmente assassinado, então era realmente de uma frieza sem precedentes, e de um mal gosto enorme, aparecer em um baile cerca de uma mera semana depois. Mesmo que a relação dos dois não fosse próxima, era falta de decoro desrespeitar publicamente o período de luto adequado.

Mas, conforme observava Leonard e Cecily conversando animadamente do outro lado da mesa de jantar, Antigone estava desconfiada de que o buraco era bem mais embaixo. Se ele havia sobrevivido à fúria do Incendiário, ele mesmo poderia estar envolvido. Ou ao menos tinha conhecimento o suficiente do oculto para conseguir escapar com vida.

O escândalo e sussurros por parte dos presentes, e a preocupação de Antigone, se tornaram maiores ainda conforme, iniciada a música, Leonard convidou Cecily para dançar.

Seria uma bela visão, ele com seu cabelo escuro e porte imponente, ela com suas tranças douradas e inerente delicadeza, flutuando graciosamente em meio ao salão em perfeita sincronia, se Antigone não tivesse o péssimo pressentimento de que algo estava a ponto de acontecer.

O salão estava belamente decorado, os lustres de cristal e candelabros dourados refletindo sua luz morna em ambos. Cada movimento calculado do par no centro do salão parecia colocar em órbita os outros casais dançando, e eles se encaixavam tão naturalmente naquela posição que era engraçado pensar no tanto de escândalo que estavam causando com o simples ato de dançar. O rosa pálido do vestido dela, o cinza escuro do fraque dele, um contraste que os tornava ainda mais admiráveis, como a dança eterna entre luz e sombras que embalava o universo e todo o equilíbrio nele presente.

Mas é claro que o equilíbrio seria perturbado. Antigone já estava preocupada com a possibilidade de uma segunda dança, ainda que as músicas fossem curtas, quando, inesperadamente, Cecily desfaleceu nos braços de Leonard.

A música imediatamente parou, os outros casais estacaram em seus lugares; mas a situação foi administrada com agilidade e graça por parte da criadagem. Uma copeira rapidamente se adiantou até ambos, e levou Cecily para a parte exterior, deixando Leonard para trás, uma expressão afetada de preocupação emplastrada em seu rosto.

—Um pouco de ar fresco irá fazer bem a ela— Antigone ouviu um nobre mais velho comentar.

—Talvez. Mas muito me admira que ela não tenha desmaiado mais cedo, com a vergonha que estava passando— um nobre um pouco mais jovem replicou, em tom maldoso, talvez ressentido.

Mas Antigone não tinha suas atenções focadas nos cochichos, ou na música, que começou a tocar novamente, pois a copeira que ajudou a levar Cecily para fora lhe era estranhamente familiar.

Ela precisou refletir sobre a silhueta de cabeça baixa e cabelos cacheados por mais alguns segundos, até que finalmente a reconheceu.

E, quando descobriu que se tratava de Charlotte Griffin, ela imediatamente fez um sinal para Henrietta.

Uma agente— se é que poderia chamá-la de agente— que também estava desaparecida, e que nunca havia sido a mais idônea, para começo de conversa, possivelmente envolvida com Leonard Cohen, não poderia ser nada bom. Algo estava de fato muito errado.

É nesse ponto, leitor, que se torna conveniente deixar de lado momentaneamente os pensamentos e percepções de Henrietta e Antigone, e focarmos uma porção desse capítulo em seus antagonistas no momento: Leonard e Charlotte.

Leonard estava extremamente satisfeito com o modo que as coisas haviam se desenrolado. Ficara provado que poderia, de fato, confiar no próprio taco, e que sua facilidade com as damas faria a maior parte do trabalho por ele.

É necessário comentar, caro leitor, que, embora sua aparência e sua fortuna certamente desempenhassem um papel no interesse de Cecily por ele, assim como seus modos e carisma; a intriga e mistério que o cercavam desde a morte macabra de pai talvez fossem fatores ainda maiores. Afinal, a jovem Condessa tinha uma certa fascinação pelo mórbido, e sua curiosidade acabou prevalecendo sobre seu bom senso.

Quando ele a chamara para dançar, Leonard pôde ver em seu rosto que ela hesitou por um segundo, se questionando se isso seria apropriado.

—Vamos lá, Condessa— ele incentivou, e abriu um sorriso charmoso— Ninguém nesse salão terá olhos para qualquer coisa além de nós dois.

Ela havia rido, e finalmente aceitado a mão que ele lhe oferecia.

—Você vai descobrir, Senhor Cohen, que as pessoas raramente tem olhos para algo além de mim— ela replicou— Mas nós seremos de fato um par e tanto.

E assim fora. A junção dos dois maiores egos daquele local, se o leitor me permite palpitar. Mas talvez fosse justamente essa confiança exarcebada que tornava a atenção de cada um dos presentes cativa daquela dupla inusitada. Há um certo charme em pessoas convencidas, embora ele seja efêmero e geralmente acabe depois de uma conversa um pouco mais longa com esse tipo de indivíduo.

Leonard tinha que admitir que havia algo de fato sobrenatural a respeito da jovem Campbell. Não era tão somente a beleza; ela estava certa, as pessoas realmente eram obcecadas um pouco além da medida por ela. Aquele tipo de carisma que Leonard tentava emular com suas mentiras e poses ensaiadas, ela possuía naturalmente. Cada movimento que ela fazia, as pessoas estudavam, destrinchavam, algumas tentavam copiar. Chegava a ser engraçado sentir tantas centenas de olhos queimando com ódio e inveja sobre ele, simplesmente porque ele tinha seus braços ao redor da cintura dela.

—Sabe, Cecily, eles realmente parecem não tirar os olhos de você— ele disse— Isso me faz querer ficar mais ao seu lado, talvez eu consiga brilhar tanto quanto você.

Ela o encarou, e arqueou uma sobrancelha, provavelmente supresa pela ousada informalidade que ele demonstrara ao lhe chamar pelo primeiro nome.

—Pode ser um pouco exaustivo, às vezes, mas na maior parte do tempo é divertido. Eles matariam para ter o que eu tenho, e eu posso ter tudo o que eu quiser em um piscar de olhos— ela respondeu, a franqueza dele precipitando a dela— Inclusive você, ao que parece.

Ele riu, e se inclinou um pouco mais para perto dela; não a ponto de ser escandaloso, mas talvez um pouco sugestivo demais para os mexeriqueiros atentos.

—Então você está admitindo que me quer, Condessa?— ele perguntou.

Ela sorriu, evasiva.

—Hmm, eu ainda estou me decidindo— ela replicou prontamente— Mas você tem potencial para brilhar, Leonard. Não é nada mal dançando, e nada mal de se olhar. Aposto que não é nada mal no que está se propondo a fazer comigo, também.

Ela não era totalmente normal, ele concluiu, não poderia ser. Havia algo de sobre-humano sobre aquele charme, pois Leonard sentiu suas orelhas esquentarem com a insinuação. Ele, que havia tido toda mulher que já havia desejado, que nunca havia sido tímido sobre a arte do cortejo e do que ia além disto.

Ele, que estava pela última semana convivendo e dormindo com Charlotte Griffin, de todas as pessoas. Para fazê-lo corar, era preciso possuir algum tipo de poder incomum.

Por isso, o que Leonard sentiu foi próximo de alívio conforme observava a expressão confiante e astuta da Condessa se tornar em desconforto.

—Algo de errado, Cecily?— ele perguntou, em um tom inocente, embora sua vontade fosse rir ao ver o efeito do medalhão finalmente surtir sobre ela.

—Nada demais— ela tentou mentir, mas a palidez em seu rosto era clara, o modo que seus movimentos se tornavam cada vez mais difíceis e pesados, ainda mais— Eu só… não estou me sentindo tão bem assim. Talvez devesse parar para descansar depois dessa música.

Ele assentiu, ainda contendo o sorriso cruel. Estava inegavelmente satisfeito por ter suas suspeitas confirmadas, e pelo prazer de poder desmascarar aquela mentirosa ordinária com tanta facilidade.

—Oh, meu bem, talvez isso não vá ser possível— ele comentou— Muitos feiticeiros desmaiam após um contato prolongado com um amuleto de obsidiana particularmente forte. E esse parece ser o seu caso.

—Feiticeiros…? Do que… do que você está falando?— ela franziu o cenho, mas até mesmo sua expressão parecia lenta, assim como sua fala.

—Não se finja de sonsa, querida. Achou mesmo que poderia enganar toda essa gente e sair impune? Uma hora te descobrem, e a justiça chega.— ele respondeu.

Ela parecia querer replicar algo, mas seus lábios entreabertos deixaram escapar apenas um suspiro sofrido conforme seus olhos finalmente rolavam para dentro do crânio, e o corpo dela caía, inerte, nos braços de Leonard.

Foi nesse momento que Charlotte, até então observando tudo atentamente em seu disfarce de criada, agiu. Caminhando até eles, fingindo preocupação, ela ajudou a carregar o corpo desmaiado de Cecily até o lado de fora, dando justificativas apressadas sobre ar fresco e ir buscar um médico para os convidados que a questionavam.

O jardim estava vazio, e Charlotte era forte o suficiente para arrastar o corpo de uma jovem esguia sem grandes dificuldades. Conseguiu carregá-la para longe da vista de todos com notável velocidade, o que a fez sorrir abertamente.

“Funcionou” — ela pensou— “E eu estava certa. Essa vadiazinha realmente é uma bruxa.”

Leonard havia permanecido no salão, para fortalecer o próprio álibi. Agora cabia a Charlotte o restante do plano: se livrar de Cecily, e incriminar Lorde Forrest Douglas pelo assassinato.

Leonard havia lhe prometido uma parcela dos lucros das ações de Lorde Forrest, mas essa sequer era a maior motivação de Charlotte. Se livrar de Cecily já teria a deixado satisfeita; aquela mocinha era bizarra além de um nível que ela conseguisse colocar em palavras. Mesmo desmaiada em seus braços, completamente vulnerável como estava, ela ainda lhe dava arrepios. Conseguia compreender a influência que ela exercia sobre as outras pessoas, já havia visto usuários de magia com semelhante tendência a encantamentos ligados ao charme, e eles eram, em sua opinião, alguns dos piores bruxos.

Terminou de arrastá-la até um dos barracões perto do píer e do lago do Palácio, onde alguns dos barcos menores ficavam guardados. Cecily ainda estava torporosa, fraca e com os olhos fechados, mas palavras desconexas saíam de seus lábios de tempos em tempos. Charlotte sabia que teria de tirar o anel encantado e imobilizá-la com as algemas cravejadas de obsidiana antes que ela acordasse e fosse capaz de reagir, e por isso tratou de se apressar.

Contudo, antes que pudesse neutralizar Cecily completamente, ela ouviu o som de passos atrás de si. Seu instinto de luta ou fuga falou mais alto que sua prudência de amarrar a feiticeira antes que fosse tarde, e portanto ela correu até os fundos do depósito, se escondendo atrás do casco de um barco que parecia precisar de reparos.

Charlotte não conseguia ver muita coisa, de seu ponto nada vantajoso no esconderijo. Conseguiu ver apenas a porta do depósito se abrindo, deixando passar uma fina fresta de luz, e então duas silhuetas marchando para dentro.

—Adel estava certa, afinal— uma voz masculina, que não lhe era completamente estranha, murmurou— Realmente havia um agente da Ordem envolvido.

—Chamá-la de agente seria precipitado— uma voz feminina, formal e fria, igualmente familiar, replicou— Mas sim. Adel estava certa.

Charlotte arriscou esticar o pescoço e espiar os sapatos dos intrusos, na esperança de reconhecê-los. Oxfords marrons envernizados, e botas de salto negras, com a barra rendada de uma saia escura as ocultando parcialmente.

Ela logo se lembrou dos dois agentes da Ordem que haviam ido falar com ela em seu trabalho pela primeira vez. A voz e a vestimenta característica da nobre convencida que parecia estar sempre vestida de luto foram o suficiente, embora ela não conseguisse lembrar-se dos nomes dos dois nem por decreto. Augustin e Anette? Agosto e Antílope? Enfim, o moreno sorridente e a trevosa bonitona.

E no mesmo momento em que os reconheceu, Charlotte soube que tinha de fugir dali.

—Olhe!— Augustin, Agosto, qualquer que fosse o nome dele, exclamou— Charlotte deixou a Condessa Campbell aqui.

—Então ela não pode ter ido muito longe— Antílope replicou— Ajude a Condessa, Gus, eu vou procurar a fugitiva.

Charlotte olhou por cima do seu ombro, procurando uma rota de fuga. As tábuas do barracão pareciam meio soltas, mas não havia nenhuma capenga o suficiente para lhe permitir escapar rapidamente. Estava confinada, e sua única saída era a porta por onde havia entrado.

Bem, era isso. Fuga ou luta, e no caso fuga não era uma opção.

Gus estava abaixado ao lado de Cecily, tentando acordá-la; já Antigone estava prestes a iniciar a revista do depósito, quando Charlotte decidiu aproveitar o elemento da surpresa e agir.

—Vamos ficar todos bem calminhos— Charlie saltou de detrás do esconderijo, empunhando sua arma, escondida em seu avental até então— Não precisamos brigar, eu estava apenas fazendo meu trabalho. Essa garota é uma bruxa, e eu a capturei. De nada!

Antigone encarou a arma apontada em sua direção com notável frieza, não parecendo particularmente surpresa ou intimidada.

—Senhorita Griffin— ela se limitou a dizer— Se não estivesse fazendo nada de errado, não sentiria a necessidade de apontar essa arma para mim. Que provas você tem de que a Condessa é uma feiticeira?

—Olhe a mão direita dela. Esse anel é amaldiçoado, é com ele que ela anda enfeitiçando os outros e causando incêndios— Charlotte respondeu.

Augustus, que ainda tinha Cecily nos braços, a encarou com estranhamento.

—Cecily não é o Incendiário, não poderia ser. Estava dentro do baile quando o último ataque aconteceu. Você está enganada, Charlotte, mas ainda há tempo de corrigir sua conduta— ele disse.

Charlotte riu com deboche.

—Eu vi o Incendiário, é claro que não é ela, não seja estúpido— ela replicou— Mas vocês são mais idiotas do que eu pensava se acham que é a mesma pessoa cometendo todos os incêndios.

—Talvez menos sábio do que assumir sobre os incêndios seja assumir o que os outros acham ou deixam de achar sobre o assunto, Senhorita Griffin— Antigone replicou— Mas se você abaixar a arma agora, poderemos conversar civilizadamente sobre isso. Ninguém se machucou, e ninguém precisa de machucar.

Charlotte revirou os olhos.

—Eu não vou sair daqui sem ela— Charlotte apontou para Cecily com a arma— Não vou sair daqui sem fazer justiça.

—Charlotte— Augustus disse— Não é assim que as coisas funcionam. Não podemos punir uma pessoa que não fez nada de errado. Mesmo que ela realmente tenha magia, Cecily Campbell nunca machucou ninguém.

—É mesmo? O noivo morto dela gostaria de discordar. A mãe morta também. Esse tipo de gente não presta para nada além de machucar os outros, e a Ordem não presta para proteger ninguém!— ela retrucou, a arma ainda apontada diretamente para Cecily.

Foi nesse momento que Antigone decidiu aproveitar a ausência da arma apontada para ela; e sacou a sua própria em uma velocidade impressionante, a apontando para Charlotte.

—Tudo bem, agora temos um impasse. Você pode até atirar na garota desmaiada, mas não vai sair daqui com vida se decidir seguir por esse caminho— Antigone disse— O que você vai decidir, Charlotte? Vai morrer por tão pouco? Ou vai decidir viver para fazer justiça da maneira correta?

—A maneira de vocês não é a correta, nunca foi. Vocês são fracos, e eu me recuso a ser fraca também— Charlotte respondeu, desprezo permeando cada palavra— E nunca estivemos em um impasse, dona. Eu não estou sob a mira de vocês. Vocês que estão sob a mira da Armeira.

E, dito isso, em um movimento tão rápido que Antigone não pôde reagir, Charlotte se jogou no chão, rolando para o lado e saindo do alcance da sua linha de tiro. Antigone disparou duas vezes, mas nenhuma das balas tocou Charlotte, ela já havia rastejado para longe da sua vista, e se escondido atrás do barco novamente.

De dentro do seu avental, Charlotte tirou o último trunfo, a arma secreta que estava projetando nos últimos dias: uma pequena bomba de fumaça, que lançou na direção de Antigone conforme se levantava para correr e completar sua fuga.

O pequeno barracão logo se encheu de uma bruma densa, que ofuscou completamente a visão de Antigone. Ela podia sentir seus olhos lacrimejando, e não fazia nem ideia de onde Charlotte estava. Apontou sua arma para qualquer indício do que ela achava que poderia ser uma silhueta, mas não arriscou atirar. Poderia atingir Augustus ou Cecily acidentalmente, e esse não era um risco que estava disposta a correr.

Ela soltou um grunhido de frustração, tentando procurar a porta, mesmo completamente privada da sua visão, até que sentiu a mão de Gus em seu ombro.

—Antigone, eu não estou conseguindo encontrar Cecily— a voz dele era puramente desespero, e ela também temeu que, em meio à confusão, Charlotte tivesse conseguido de algum modo se apropriar da Condessa.

Seus medos logo se provaram infundados; ela estava temendo a pessoa errada, focando na menor de duas ameaças.

No meio da fumaça, uma luz fulgurante, violenta, começou a brilhar. Uma inesperada lufada de vento, forte demais para o espaço fechado, desenhava uma espiral apressada, com seu epicentro bem no meio do depósito. A névoa começava a se afastar dos olhos de Antigone e Augustus, e portanto eles conseguiram enxergar o causador daquela inesperada demonstração de poder.

Cecily Campbell levitava no ar, a bruma girando à sua volta, condensada como uma auréola ao redor do seu rosto. Seus olhos brilhavam em um tom sobrenatural de dourado, sua cabeça pendia para trás, os lábios entreabertos, as pontas dos dedos produzindo chamas vivas, que começaram a se alastrar pelo nevoeiro; e, em pouquíssimo tempo, pela madeira da construção que os cercava.

—Droga— Augustus praguejou— Charlotte estava…

—Por favor, não diga que Charlotte estava certa. É a última coisa que precisamos em uma situação dessas— Antigone o cortou, segurando seu braço e começando a arrastá-lo para fora do depósito— Temos que sair daqui e chamar reforços.

—Nós vamos deixar a Condessa para trás?— Augustus questionou, hesitando por um segundo, mesmo que as chamas estivessem se aproximando cada vez mais rápido.

—Nossa outra opção é atirar nela. É o que você quer? É, eu achei que não. Vamos.

Porém, assim que os dois agentes se viraram para realizar sua retirada estratégica, a porta do depósito se fechou com um estrondo, os prendendo ali dentro com a feiticeira e as chamas.

Augustus tentou chutar a porta, mas nem toda sua força foi capaz de abri-la. Trocou um olhar de absoluto desespero com Antigone, cuja expressão endurecida já demonstrava sua decisão.

Não queria ter que fazer aquilo, não até que ficasse provado que Cecily realmente era uma assassina, mas não havia outra opção. Ergueu sua arma, e apontou para a Condessa. Se não poderiam contê-la de outra forma, a violência era a única alternativa que restava. E ela não se arrependeria por nenhum segundo de sujar as mãos para proteger Augustus.

Estava prestes a atirar, quando, repentinamente, o corpo da Condessa desfaleceu, e as chamas e a névoa perderam a força. Sua forma inerte despencou no chão, parando de flutuar conforme a jovem Campbell perdia a consciência mais uma vez.

Antigone e Augustus sequer tiveram tempo para sentirem-se confusos, pois um novo estrondo se fez audível, dessa vez vindo do fundo do depósito. Ambos olharam para lá, apontando suas armas e se preparando para um outro conflito.

Em meio às tábuas de aspecto frágil e envelhecido, a cabeça de uma marreta surgiu; e, mais alguns golpes depois, um braço emergiu por entre a madeira estraçalhada.

Dois, três, quatro chutes nos destroços das tábuas, e Adelaide marchou para dentro do depósito, marreta em uma mão, uma folha de papel rabiscada na outra.

Seus lábios se moviam, e Antigone reparou que o corpo de Cecily tremia e convulsionava suavemente no mesmo ritmo e cadência das palavras dela.

Adelaide continuou a ler a língua estranha escrita na folha por mais um ou dois minutos, e, por fim, o brilho sobrenatural que cercava Cecily minguou e desapareceu completamente.

—Bem, eu tenho uma boa e uma má notícia— Adelaide disse, largando a marreta, mas continuando a segurar a folha. Seu vestido de baile estava sujo de grama e de fuligem, e pequenas farpas de madeira se grudavam ao seu cabelo trançado— A boa é que o ritual de contenção dos Iluminados realmente funciona. A má é que só funciona em quem foi corrompido pelo Hierofante. Então essa menina aí só pode ser parte da seita.

Notas finais
Eu e meu vicio vitalício em escrever cenas de baile. E tretas em cenas de baile kkkk! Espero que tenham gostado, vejo vocês semana que vem ♥