Arsonist's Lullaby- Interativa
23 XXII- Allies or Enemies
Notas iniciais
Em algum ponto de nossas vidas breves e mortais, caro leitor, a esmagadora maioria de nós se encontrará em uma encruzilhada, preso entre o peso de decisões terríveis demais para serem tomadas.
Nestas situações, cabe a cada um tomar a escolha nas próprias mãos, ou deixar-se ser levado pela deriva do destino.
Antigone Lascelle não era o tipo de pessoa que acreditava em destino. Muito pelo contrário.
Enquanto Gus e Adel continuavam ajudando a guardar o esconderijo, e investigando as evidências que haviam sido previamente coletadas, tal qual o livro de Mihai, Antigone se encontrava em um dilema.
Aquelas novas informações reveladas no sonho de Adelaide, em adição a todas as especulações que os investigadores haviam conseguido levantar, colocavam todo o caso sob uma nova luz, uma nova perspectiva.
Antigone sabia que o correto seria reportar tudo a Henrietta. Ainda assim, uma parte de si temia genuinamente o que a Líder poderia decidir em face daquelas informações.
E ainda havia o fato de que, a cada dia que se passava, mais motivos ela tinha para desconfiar de Henrietta.
Ela tentava se convencer que esse era um sentimento irracional, baseado na animosidade que havia florescido entre elas tantos anos antes, quando ainda eram jovens e imaturas. Que Henrietta nunca havia explicitamente lhe dado motivos para desconfiar de sua integridade.
Mas sabia que isso não era totalmente honesto.
Ela havia visto o diário de Lorde Ephraim Blackburn, e seus escritos haviam se confirmado palavra por palavra: Henrietta havia provado ser uma pessoa instável demais para lidar com a pressão de sua posição, e todo o seu controle sobre a organização e seus subordinados estava desabando cada vez mais depressa.
Além disso, havia a carta. Antigone não deveria ter visto aquela correspondência, mas ainda assim seu conteúdo pesava no fundo da sua mente, acusando, condenando.
“E.W.”, a assinatura no final dizia. Marcando um encontro, evocando um segredo, um acordo oculto.
E tudo aquilo a assombrava, ainda mais quando seria obrigada a cooperar com a Duquesa, e de muito mais maneiras do que gostaria.
Uma das desvantagens de ser uma Marquesa era ter de participar na vida social da nobreza londrina, por bem ou por mal.
Ultimamente, estava sendo por mal.
Antigone se levantou cedo, mesmo tendo passado as horas tardias da madrugada investigando. A exaustão quase não registrava mais, apenas um ruído de fundo para o restante de seus pensamentos conturbados.
Talvez ela também estivesse ficando um pouquinho instável. Estranhamente, conseguiu sentir a mais suave pontada de empatia por Henrietta, mas isso não mudaria muito a sua desconfiança.
Decidiu se ater àquela empatia, por menor que fosse. Durante o trajeto de carruagem até o Palácio, tentou se convencer de que ainda conseguiria trabalhar com a Duquesa, de que elas tinham muito mais as unindo do que as separando.
Esse tênue e efêmero sentimento se esvaiu como névoa assim que ela entrou no salão de baile principal, onde uma pequena multidão de aristocratas enxameava ao redor de Henrietta.
Antigone havia passado décadas tentando se convencer de que a solidão não a atingia mais. De que a boa vontade e o amor dos outros não era algo de que ela necessitava.
Mas então ela havia conhecido Augustus, e Adelaide, e até mesmo as crianças, e havia percebido o quão desesperadamente aquele tipo de companheirismo fazia falta. E isso fez todos aqueles anos de isolamento doerem mais em retrospecto, anos em que Henrietta nunca havia tido que experimentar semelhante opróbio.
Naquele momento, Antigone sequer se ressentiu do fato de Henrietta estar sorrindo, cercada de pessoas e risadas. Sabia que não era culpa dela ser tão aberta, carismática, bonita. Mas o que ela sentiu, e que doeu, foi a realização de que ela e Henrietta não eram iguais, nunca haviam sido.
Ela estava sendo tola de fingir que Henrietta poderia algum dia olhar para ela e enxergar uma semelhante.
Talvez ela devesse parar de tentar se enganar de que tampouco ela conseguiria olhar para Henrietta e pensar o mesmo.
Eram tão distintas quanto dia e noite, Antigone carregava a marca de Caim na testa, a desconfiança, o peso da acusação de um fratricídio e o desprezo de todos ao seu redor. Henrietta carregava a pena e a admiração de todos por ter sobrevivido a tudo que lhe havia sucedido e ainda ter saído por cima.
Definitivamente fazia sentido que Henrietta a desprezasse um pouco. Se fosse outra pessoa, talvez Antigone também se desprezasse.
Ainda assim, ela manteve a expressão impassível conforme andava a passos firmes em direção ao pequeno grupo de orbitava ao redor de Henrietta.
As pessoas se afastaram instintivamente dela, deixando um caminho vazio e reto na direção da Duquesa, que foi a única que não se moveu.
—Lady Lascelle— Henrietta cumprimentou, com um sorriso simpático.
—Lady Raycraft— Antigone retribuiu, sem qualquer insinuação de sorriso.
—Estávamos falando sobre a ordem das danças do baile— Henrietta comentou casualmente, em uma óbvia tentativa de tentar envolvê-la na conversa— As outras damas pareceram concordar que uma valsa seria apropriada para abrir a noite. Quais seus pensamentos a esse respeito?
“Como se qualquer uma delas se importasse”— Antigone se pegou tendo um pensamento mordaz antes que pudesse se conter
—É muito apropriado, Vossa Graça— ela disse, ao invés— Qual em específico estavam pensando?
Uma das outras ladies ousou lhe dirigir a palavra, o que normalmente era uma raridade.
Lady Avery, ela reconheceu. Uma Viscondessa de vinte e tantos anos, cabelo castanho, olhos verdes, língua afiada. Sempre com aquela disposição ousada e vivaz, como seu favor por vestidos de cores vivas sugeriria. Naquele dia, trajava um tom quase avermelhado de laranja, e parecia não sentir qualquer medo de Antigone, diferente das outras integrantes do pequeno grupo.
—Lady Raycraft havia sugerido a valsa op. 64 número 1 de Chopin— Lady Avery respondeu— E depois a número 2 de Shostakovich.
“Valsas curtas, todas com menos de dois minutos”— Antigone percebeu, compreendendo a intencionalidade de Henrietta— “Ela está tentando encurtar o baile o máximo o possível”
—Sugestões de muito bom gosto— Antigone opinou, percebendo a hesitação de algumas das outras damas— Chopin sempre trás uma certa sofisticação a mais à ocasião.
As outras damas pareceram menos desconfiadas com a escolha pouco convencional, e Lady Avery assentiu enfaticamente.
—Meus exatos pensamentos, Lady Lascelle— ela concordou.
Não apenas nas músicas Henrietta havia tentado sutilmente sabotar e limitar a duração do baile, Antigone percebeu. Durante a conversa, ela apoiou todas as sugestões, percebendo que as habilidades sociais de Henrietta tinham sua utilidade, afinal.
As duas tinham talentos diferentes, mas seria um erro negar que os da outra mulher também tinham sua utilidade.
Os pratos principais foram reduzidos a petiscos rapidamente consumidos, a música, àquelas com duração o mais breve o possível, até mesmo as orações e declamações de poemas escolhidos eram curtos e objetivos.
Se tudo seguisse como o planejado, aquele baile não duraria muito mais que três horas, e logo todos poderiam ser despachados para a segurança de seus lares novamente. Menos tempo e oportunidade para que o Incendiário atacasse. Mais oportunidade para que a Ordem pudesse evitar um novo crime.
Assim que a reunião terminou, Antigone viu, pelo canto do olho, que Henrietta a seguiu até os jardins, então ela se embrenhou em meio a um canteiro de arbustos decorativos para que tivessem mais oportunidade de conversar.
Ela se virou e encarou Henrietta assim que ficaram totalmente sozinhas. De perto, conseguia ver que a aparência cansada dos últimos dias havia melhorado um pouco, ou talvez ela só estivesse disfarçando melhor. O vestido em um tom pálido de verde destacava seus olhos, e a fazia parecer bem mais desperta e menos sobrecarregada.
Mais como ela costumava ser, em controle de tudo e com aquela imagem impecável, e menos como havia se tornado desde a morte de Lorde Ephraim.
—Obrigada pelo apoio lá dentro, Antigone— Henrietta disse, oferecendo um sorriso amigável— Você sempre é rápida para captar minhas intenções, e é bom poder contar com seu apoio.
Isso fez Antigone sentir uma pontada de culpa.
Se tinha uma coisa que Henrietta não poderia contar, era com seu apoio. Ela não havia sendo uma subordinada ou uma aliada confiável.
Percebeu que estava julgando a mulher à sua frente com uma severidade desproporcional. Era conveniente esquecer-se de tudo pelo que ela havia passado, tanto quando era mais jovem quanto o que estava passando agora. E de todo o trabalho que ela sem dúvidas fazia longe dos olhos de todos.
Antigone percebeu que a havia subestimado terrivelmente. Henrietta tampouco estava presente para ver todo o trabalho que ela fazia sozinha, na calada da noite, quando ninguém estava vendo, então quem era ela para assumir que a Líder não estava dando seu máximo o tempo todo? Mesmo que longe de seus olhos? Mesmo que por métodos pouco convencionais?
Uma estranha confiança naquela mulher surgiu em Antigone. Pequena, humilde, frágil, mas era uma semente, o início de alguma coisa.
Quando foi àquela reunião sobre o baile, Antigone estava determinada a esconder suas descobertas de Henrietta. Determinada a sair dali o mais rápido o possível, e, assim que tivesse tempo, investigar o que a Líder andava fazendo.
Quem era E.W, o que eram todos os seus sumiços, o que ela e Lorde Ephraim haviam ocultado dela.
Mas, de repente, ela se pegou tentada a contar. Culpada de ter sequer considerado esconder tudo o que haviam descoberto de Henrietta.
Seria pagar o mal com o mal, na mesma moeda. Seria colocar Henrietta em perigo, porque a ignorância não era uma benção naquela situação, era um risco. Seria impedir que a Ordem se organizasse e se adaptasse à verdade daquela situação.
Então ela contou. Tudo. Ou quase tudo. Escondeu apenas que parte da informação havia vindo de um sonho de Adelaide, e que Mihai tinha uma das relíquias, mas, de resto, foi o mais verdadeira e sincera que era capaz.
Henrietta ouviu tudo com atenção. A seita do Hierofante. A suspeita de que haveria mais de uma pessoa usando seus poderes. O filho de Lorde Ephraim ressurgindo, e as mortes todas estando conectadas à antiga seita.
Henrietta respirou fundo. Havia preocupação em seu rosto, pesando em todos os seus traços, mas ela também parecia estranhamente calma.
—Eu já suspeitava que poderia ser uma nova seita, e que suas motivações estariam conectadas à da antiga. Mas o fato de o Incendiário estar tentando controlar o Hierofante muda muita coisa, e explica a variação nos crimes— a Duquesa comentou— E eu sabia que um dia o filho de Lorde Ephraim iria aparecer, mas me preocupa que tenha sido logo agora. Nós temos que manter esse garoto seguro.
Antigone assentiu. Se tinha algo em que poderiam concordar, era sobre a afeição que tinham sobre seu finado mentor, e que seu legado e desejos deveriam ser respeitados.
—Quando tudo estiver acabado, vamos garantir que ele receba o que é seu por direito. Mas, por enquanto, ele corre um perigo terrível. Assim como todos que tiveram algum papel na derrota da última seita— Antigone concordou.
A expressão de Henrietta se tornou ainda mais tensa e sombria, e Antigone percebeu que as mãos da Duquesa tremiam.
—Eu deveria ter te contado antes, e eu sinto muito que eu não tenha contado, Antigone… mas você nunca se provou algo além de confiável e íntegra, e eu acho que você merece saber— Henrietta começou, e Antigone já imaginava o que ela estava prestes a dizer, embora não devesse saber— Eu estive lá durante a última seita, assim como Blackburn…
Antigone sabia. Ela havia lido o diário de Blackburn, ela sabia que Henrietta havia sido sequestrada pela seita, e que fora Ephraim quem a resgatara.
Sentiu-se mal por ter de fingir desentendimento, mas, ainda assim, deixou que Henrietta continuasse falando.
—Eu era apenas uma criança, catorze anos, mas eles me levaram como um sacrifício para um ritual— a Duquesa continuou— Precisavam de uma virgem de sangue nobre, e a casa de campo da minha família ficava perto de onde tudo aconteceu, então eles me sequestraram. Foi Blackburn quem me salvou, mas, ainda assim, eu estava lá, e acho que isso pode me tornar um alvo. Eu vi tudo. Eu sei o que fizeram para derrotar e impedir que o Hierofante fosse liberto. E eu acho que ele virá atrás de mim, assim como foi dos outros.
Antigone deixou a gravidade desse novo fato pesar no ar silencioso e denso entre elas.
E então Antigone disse algo que nunca se imaginária dizendo, algo que pareceria impossível apenas algumas horas antes:
—Nós vamos te proteger, Henrietta. Eu vou te proteger, se chegar a tanto. Você é a Líder da Ordem, e não podemos permitir que o Incendiário ceife a vida de mais um de nós.
Henrietta sorriu para ela. Apesar da tensão, apesar do perigo. E pareceu sincero, tão sincero que Antigone não se arrependeu do que disse.
—Eu sempre soube que eu tinha tomado a decisão certa— Henrietta disse.
Antigone sentiu uma momentânea confusão.
—Que decisão?— ela replicou.
Henrietta ainda sorria, e parecia um pouco menos amedrontada.
—De deixar a liderança para você. Se qualquer coisa acontecer comigo, eu quero que seja você a assumir o meu cargo— a Duquesa disse, por fim— Há um documento na terceira gaveta do meu escritório. Caso o pior aconteça, ele te torna minha sucessora. Eu queria que você soubesse disso. E eu confio que você vai fazer a coisa certa se eu não puder fazer.
Antigone franziu o cenho, mas conseguiu responder:
—Eu sempre imaginei que você deixaria o cargo para Augustus em seu testamento. Mas obrigada, Henrietta. É uma honra.
Henrietta deu de ombros.
—Eu não vou mentir, se eu tivesse mais alguns anos para treiná-lo e passar sabedoria para Gus, ele seria o escolhido. Mas eu não tenho, e ele ainda não está pronto. E você está. Sempre esteve, até mesmo antes que eu estivesse— ela disse.
Antigone encarou Henrietta no fundo de seus olhos. Cinza frio e verde gentil, uma tempestade se assomando sobre um jardim, a força impassível de um contra a resiliência resignada do outro.
Pela primeira vez, não parecia um choque hostil. Parecia um acordo silencioso, uma trégua.
Antigone estendeu a mão. Henrietta apertou.
—Eu espero que não chegue a tanto. Que eu não seja obrigada a passar por isso sem você. Mas, se for preciso, eu prometo que vou fazer meu melhor para proteger o que você construiu. O que Blackburn construiu— a Marquesa disse.
Henrietta sorriu para ela.
—Eu sei que você vai. E eu sei que talvez você nunca vá gostar de mim, Antigone, mas espero que você entenda o tanto que eu te respeito, e sempre respeitei.
—Eu não entendia. Talvez eu ainda não entenda. Mas eu também espero que eu seja capaz entender, algum dia.
Uma trégua temporária é melhor do que trégua nenhuma, e eu tenho a sensação de que o sábio leitor irá concordar comigo.
Ainda assim, seria fútil fingir que, a partir daquele momento, Henrietta e Antigone eram amigas. Aliadas relutantes, talvez, mas sempre haveria aquela pontada de desconfiança, e nenhuma das duas era tola o suficiente para ignorar isso.
Mas eu admiro a maturidade de ambas de terem cooperado naquele momento, leitor. Olhando para trás, caso elas tivessem mantido todos os seus segredos para si e se recusado conversar, por mais breve que tenha sido o diálogo, muitas tragédias teriam se desenrolando de maneira ainda mais desastrosa.
E talvez sempre tivesse sido impossível salvar todos. Mas elas ao menos tentaram, e há algo de grandioso mesmo no fracasso.
Enquanto essa breve trégua se construía nos jardins de Buckingham, Adelaide e Augustus edificavam seus próprios esforços contra o Incendiário nos subúrbios de Londres.
—Gus?— Adel entrou na cozinha e viu que seu irmão gêmeo estava fazendo chá, algo que ele fazia com frequência, ainda que um pouco mal.
—Sim, Adel?— ele se virou, pausando momentaneamente a tarefa, uma vez que era incapaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo, como já havia provado em uma sucessão de desastres culinários em seu passado.
Adel conteve o sorriso ao observar esse pequeno detalhe, e puxou um banco para assentar-se perto de onde ele estava de pé.
O sol começava a se por, e eles haviam passado o dia em uma absoluta correria, entre seus respectivos trabalhos, as investigações, a vigilância do esconderijo onde estavam Mihai e Zoe; e, para ela, o estudo da relíquia e do que havia restado sobre os Iluminados e seus rituais. Por mais que tivesse entrado na cozinha objetivando conversar sobre um assunto sério, Adelaide permitiu-se simplesmente ficar ali por alguns segundos, observando o irmão, e sem vexar a paz momentânea dele mais uma vez.
—Nada— ela respondeu, notando como o rosto dele parecia cansado, como parecia haver um peso em seus ombros— Eu só senti o cheiro de chá, e vim ver o que você estava fazendo.
Gus sorriu para ela.
—Seu favorito— ele respondeu— Lady Gray. Chá preto e laranjas.
Adelaide sorriu de volta, se levantou, e ajudou Augustus a terminar de cortar as cascas das laranjas.
—Parece que está ficando bom— ela admitiu— Até mesmo você tem que acertar às vezes.
Augustus riu, mas não retrucou.
—É sempre bom contar com seu apoio, Adel.
Eles puseram a mesa com a porcelana e a toalha mais bonitas que tinham, como se fossem receber convidados, por mais que estivessem apenas os dois na residência Waldford naquele momento. Tomaram seus assentos usuais com uma espécie de sentimento austero, quase solene, como se devessem um a outro aquele pequeno descanso, aquela pequena oferta de sossego.
Os biscoitos haviam sido comprados na feira três dias antes, e já estavam começando a ficar murchos. Adelaide os saboreou como se fossem uma iguaria, e sorveu o chá que Augustus havia preparado como se fosse tão perfeito quanto o que a mãe costumava fazer.
O sabor do açúcar e da manteiga dos biscoitos contrastando com o cítrico do chá a levaram para o passado. Se fechasse os olhos, quase poderia fingir que estavam ali. Seu pai. Sua mãe. Edward.
Ela supunha que nunca estariam completos novamente. Que mamãe e papai jamais voltariam, que Edward nunca voltaria a ser a mesma pessoa, a sorrir com tanta inocência, e que muito menos ela poderia se dar ao luxo de ser uma menina ingênua novamente.
Mas Gus estava ali, e ele havia feito chá para ela, e isso poderia não ser o milagre que ela desejava, mas um gesto tão sincero de carinho, a despeito de todas as circunstâncias, era um milagre por si só— o milagre que ela tinha— e isso sempre seria o suficiente.
Eles terminaram de comer, e, enquanto limpavam a mesa em silêncio, ela disse:
—Eu na verdade estava querendo falar uma coisa com você.
Augustus parou sua tarefa momentaneamente, e sorriu, vitorioso.
—Ahá!— ele exclamou— Eu sabia que você estava tramando algo! Já sabia desde que você entrou na cozinha. Você não consegue esconder nada de mim, Adel.
Adelaide revirou os olhos, mas não o desmentiu.
—Eu estive pensando. Pensando sobre a seita…
A expressão dele automaticamente se tornou grave, solene. Adel respirou fundo, ela mesma tendo que procurar forças para prosseguir com aquele assunto.
—Mais especificamente sobre a pessoa que matou Joel Aubert e Fred Wilson— ela continuou— E eu creio que seja a mesma pessoa, ao menos nesses dois crimes. O método do crime, o uso de armas de fogo. O fato de que ela sabia onde encontrar essas pessoas, e o que fazer para neutralizar a magia delas. Foram usados os amuletos da Ordem para anular o poder mágico, e não os rituais dos Iluminados. Tudo isso me faz me perguntar se isso não é tudo familiar demais para ser coincidência.
Gus franziu o cenho.
—O que você está querendo dizer com isso, Adel?
Adel se pegou enrolando uma mecha dos próprios cabelos entre os dedos da mão. Um gesto nervoso, reminiscente de quando ela era uma garota, mas que ela não foi capaz de conter ao ver a preocupação nos olhos de seu irmão.
—Estou querendo dizer que você sabe quem são as pessoas mais experientes em conter magia sem possuir nenhuma— ela explicou— A Ordem. E eu acho que um agente possa estar envolvido, de uma maneira ou de outra. Passando informação ou ativamente fazendo o trabalho sujo, mas desde que tive aquele sonho eu estou tendo mais clareza sobre esse assunto. O Hierofante sempre conseguiu seguidores e adoradores que lhe pudessem ser úteis, e um agente sem dúvidas o ajudaria a neutralizar o Incendiário quando chegasse a hora.
Gus hesitou por alguns segundos, em um silêncio tenso, ansioso. Era raro vê-lo sem palavras, e mais ainda com um olhar tão pesado na escuridão de seus olhos castanhos.
—Eu sei que é estranho falar isso. Mas eu confio em Antigone e Henrietta. Plenamente, com a minha vida— ele disse— Acho que, mesmo se descobrissem que sou um feiticeiro, elas ao menos não me matariam. E é horrível sentir empatia por pessoas que são agentes da mesma organização que matou os nossos pais, mas eu acredito que nem todos ali são ruins. Eu posso fazer uma lista de nomes, se você quiser, com alguns agentes que acho que seriam capazes de uma coisa dessas. Mas eu ainda acho que precisamos cooperar com as duas.
Adel assentiu.
—Eu também confio em Antigone— ela admitiu— O que é bem estranho e desagradável. Mas acho que é uma boa ideia traçar uma lista de suspeitos. Talvez seja um agente novo, mas talvez seja alguém que estava envolvido com a seita desde a época de Blackburn, não temos como saber.
Gus respirou fundo.
—Eu vou tentar usar meu acesso para investigar como eu puder. Mas obrigada por me dizer das suas suspeitas, Adel. Nós realmente faríamos bem em ficar mais atentos do que nunca, e investigar toda pequena conexão até chegarmos a alguma pista— ele respondeu.
Se Adelaide teve alguma pressentimento instintivo, ligado à sua magia ou não, ou uma conclusão racional baseada nos fatos à sua frente, nós nunca teremos como saber totalmente. Esse tipo de premonição tem o hábito de ser sútil e críptica, leitor, mas a verdadeira questão é que a caçula dos Waldford estava certa, ou ao menos parcialmente certa.
Havia de fato uma pessoa dentro da Ordem utilizando seu conhecimento e estratégias para ceifar a vida de feiticeiros com eficácia. Como nós já sabemos, essa pessoa se tratava de Charlotte Griffin, que estava longe de concluir seus tenebrosos intentos, pelo contrário, tendo inclusive indicado um novo plano de extermínio.
Mas, como muitas outras nessa trágica história, essa é uma estrada sinuosas, e com destinos inesperados e perigosos. Inadvertidamente, ao seguir a trilha de Charlotte Griffin, Adelaide e Augustus Waldford talvez estivessem mais perto do que gostariam de receber respostas para perguntas que não deveriam ter feito.
E talvez a verdade realmente seja o caminho para a liberdade, leitor. Mas não quer dizer que ela não possa facilmente te destruir. Afinal, o lema da Ordem já alertava seus agentes há milênios: “o que você sabe vai te matar”. Será que a verdade é algo pelo qual valha a pena morrer sorrindo? Ou uma vida de ignorância é melhor que o gosto amargo da realidade?
Outro sábio também alerta: não faça perguntas se não quer uma resposta. Mas nem sempre estamos cientes da gravidade das perguntas que estamos fazendo. Até que seja tarde demais.
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